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Jadsa evoca Itamar em seu “Olho de Vidro”

Esperado disco de estreia da jovem artista baiana chega inspirado no mestre da Vanguarda Paulista

por Debora Pill 26 mar 2021 02h03
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Clube Lambada/Ilustração

vontade de sua mãe era que se chamasse Jordana. O pai e a irmã preferiam Jade. A escolha foi feita por sorteio – e a sorte quis que fosse Jadsa. A sorte também lhe presenteou com veias musicais desde cedo. Aos 13 anos, já tocava guitarra nas casas de show em Salvador. Nessa época, tinha três bandas de rock ao mesmo tempo. Tocava direto, toda sexta e sábado.

Jadsa nasceu e cresceu no bairro soteropolitano do Cabula – dos mais populosos, tanto de gente como de arte. Tem uma série de bairros Cabula, bem no miolo do centro da cidade, região por onde Jadsa se apresentou inúmeras vezes com a banda Monstra. Foi com essa banda que ela gravou seu primeiro EP, o ótimo Godê (2015), produzido por ela em parceria com o coletivo Tropical Selvagem, formado por João Meirelles (Baiana System) e Ronei Jorge.

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João Milet Meirelles/Divulgação

Seu segundo EP, chamado TAXIDERMIA vol.1, saiu em 2020 e contou mais uma vez com a fértil parceria de João, assim como participações brilhantes de Jessica Caitano, do Alto Sertão de Pajeú, em Pernambuco, e Bruno Abdala, de Catalão, em Goiás.

Hoje, dia 26 de março, aos recém completos 26 anos, a jovem compositora, cantora, guitarrista e diretora musical lança seu primeiro álbum cheio. Olho de Vidro chega rasgando nesse mês de 2021, certeiro como flecha que abre lindamente o novo ano astrológico, revirando cantos empoeirados e enchendo de eletricidade e balanço tudo que alcança.

“O disco tem uma linha do tempo. Conta uma história. O que é estar sã? E estar bêbada? Será que o que eu enxergo é diferente? Ou só o que eu verbalizo é diferente?”

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João Milet Meirelles/Divulgação

“O disco tem uma linha do tempo. Conta uma história. O que é estar sã? E estar bêbada? Será que o que eu enxergo é diferente? Ou só o que eu verbalizo é diferente?”, ela provoca.

Em Olho de Vidro, as 14 composições são de Jadsa. O disco tem produção musical de seu parceiro de longa data João Meirelles e participações de Ana Frango Elétrico e Kiko Dinucci (ambos na faixa “Raio de Sol”) e de Luiza Lian na música “Lian”.

O álbum conta ainda com a presença das cantoras e compositoras Josyara e Raíssa Lopes (Obinrin Trio); da tecladista Aline Falcão, do violoncelista Filipe Massumi e do baterista Sérgio Machado. Da banda base, gravaram com Jadsa o baixista Caio Terra, a baterista Bianca Predieri, as cantoras Marcelle e Marina Melo e o percussionista Filipe Castro.

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Luiza Lian/Divulgação

O repertório do disco vinha sendo construído desde 2015, mas foi entre 2018 e 2019, período em que Jadsa morou em São Paulo, que Olho de Vidro tomou corpo com novas inspirações e composições – e também com a formação da banda Power 7, que colaborou na criação de arranjos e a acompanha ao vivo.

“Itamar [Assumpção] está sempre na beira. Ele beira o samba, o reggae, o rap, o rock. Entra e sai dos estilos musicais como num mergulho”

“Itamar [Assumpção] está sempre na beira”, reflete Jadsa. (Detalhe: “Nabeira” é também a primeira música de seu EP de estréia “Godê”). Jadsa segue: “Ele beira o samba, o reggae, o rap, o rock. Entra e sai dos estilos musicais como num mergulho. Pra mim, não existe isso de ‘ter que fazer um pop, um rock’. Minhas músicas são minha cabeça, minhas criações, são o que eu vou cantar pra vida e não vou me forçar a nada. E Itamar pra mim é isso”.

Pausa para dica: se você também quer descobrir – ou redescobrir – o que Itamar é pra você, um ótimo caminho é o MU.ITA, museu criado ano passado pela família Assumpção com mais de 2 mil obras. Tem pinturas, músicas, objetos, teses, fotos, textos, vídeos, figurinos e acessórios originais, de diversas fases da vida e carreira de Itamar. É também o primeiro museu virtual de um artista negro brasileiro.

Agora, convido você a abrir poros e ouvidos pra mergulhar em Olho de Vidro, num breve passeio pelo disco, com comentários meus e de Jadsa sobre cada faixa. Aperta o play e vem:

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Jadsa/Reprodução

Faixa a faixa de “Olho de Vidro”, de Jadsa

1 – Mergulho
“Das mais intimistas, abre o disco e convida ao salto na obra. Psicodelia e praia.”

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2 – Sem Edição
“Gal e Tulipa rebolam. Calor e vontade de ver as coisas como são. Itamar na área.”

3 – Já Ri
“Susto com o jornal. Miragem, tapa-olho. Composta em 2017 em Salvador, atual no Brasil da quarentena sem fim.”

4 – Raio de Sol (feat. Ana Frago Eletrico e Kiko Dinucci)
“Pra minha tia Jailda, filha de Oxum e mãe pequena do terreiro da minha avó. Os raios são Ana e Kiko. A voz de Ana ilumina, vibra e corta. E a guitarra de Kiko, rajada violenta. Ultravioleta”.

5 – Olho de Vidro
“Foi minha mãe Juçara que me apresentou Itamar. ‘Parece que Bebe’ foi a primeira que ouvi. Ele manda a real, nem aumenta nem minimiza. Me identifiquei na hora. Daí também quis brincar com as palavras”.

6 – Mangostão
“Trava-língua. Ava Rocha, Arrigo, Attooxxa. Xantona. Relaxa, molha e revigora.”

7 – Selva
“Ela me choca, porque nasceu de um baixo que eu e Caio criamos pra Olho de Vidro. São as mesmas notas num tempo diferente. É um poema-aviso: tudo isso é selva”.

8 – Power
“Reggae divisor. Nasceu como mantra mas é aviso pro que ainda vem nesse mergulho”.

9 – A Ginga do Nêgo
“Exu. Encruzilhada, energia, tempo irreal. Tem uma raiva na letra, uma vontade de explodir tudo e seguir. Essa força sinto em Exu. Essa é pra ouvir em loop.”

10 – Fora Marte
“Potência gigantesca pra mim. Como se dissesse pros caras que eu não vim da costela deles. A mais bruta do disco. Bem anos 60. Com toques de gastação.”

11 – Runbaby (feat. Josyara)
Afrontamento com mais gastação. “Só ficou no disco por conta de minha mãe, que se arrepiou toda quando toquei. Obrigada, Juçara. E eu só via Josyara nessa faixa, com seu violão sinistro”.

12 – Nada
“Lado B e flutuante do disco. Contraponto entre Salvador e São Paulo, que passei a entender melhor através da amizade e parceria com Raissa Lopes, que fez arranjos de voz e canta comigo”.

13 – Lian (feat. Luiza Lian)
“Quando cheguei em São Paulo, a potência da arte de Luiza me botou pé firme no chão e me deu um norte”.

14 – Vidrada
“Comecei no violão e com atabaque na cabeça. Compus pra finalizar o disco e pra dizer que não vou parar. Não acabou”.

Poética, Jadsa conclui: “Cheguei aqui as próprias custas. Graças a meus pais, amigos e Itamar. Obrigada Bahia pela formação. Obrigada SP pelo murro”

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João Milet Meirelles/Divulgação
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