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As letras de Letrux

Batemos um papo com a cantora – e escritora – sobre seu novo livro, "Tudo que já nadei", a montanha-russa da pandemia, o governo e o mar

por Amauri Terto Atualizado em 8 mar 2021, 11h51 - Publicado em 3 mar 2021 02h02
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Clube Lambada/Ilustração

o ano de 2017, Letrux foi picada por algum “bichinho literário”. Dois anos antes, ela havia publicado seu primeiro livro, Zaralha – Abri Minha Pasta, uma coletânea de poesias feitas desde a infância, e naquele momento se sentia pronta para reunir textos mais recentes. Mas 2017 foi também o ano em que a multiartista carioca lançou Letrux em Noite de Climão, disco premiado que provocou uma “avalanche” em sua vida – é assim que ela define a projeção inédita que obteve na cena musical independente.

O resultado da picada fictícia chega só agora ao público. Tudo que Já Nadei: Ressaca, Quebra-Mar e Marolinhas, da editora Planeta, traz no subtítulo a divisão de suas 160 páginas: “ressaca” são as crônicas, que ela também chama de textões; “quebra-mar” reúne poemas; e “marolinhas” são os aforismos. Ela revela que a divisão original era inversa. “De repente eu falei ‘não é nada disso’. Esse livro sou eu saindo do fundo para o raso. ‘Tchau, obrigado mar. Agora é hora de eu ir saindo”, conta à Elástica em entrevista por videochamada no Zoom.

Os textos de Tudo Que Já Nadei conversam com o leitor de forma direta e bem humorada sobre a arte, o amor, a sexualidade, a pandemia, mas principalmente sobre a atração da artista pela água. “Sou do Rio de Janeiro, uma cidade litorânea, e minha mãe é pisciana. Meu pai não é pisciano, mas é de Iemanjá. Então, o fascínio aquático é familiar”, ela justifica. A família de Letrux, ela conta, também tem uma “coisa muito religiosa com as férias”. “Em janeiro, estávamos sempre na casa de férias que é perto da água. De 0 aos 18 anos, não houve janeiro sem que eu estivesse todo dia dentro da água.”

“Sem dúvidas, eu já fiz algumas músicas com coisas que escrevi. Mas preciso confessar que a maioria das músicas já me vem com melodia. Não sei o que acontece, mas quando é música, a frase já vem com o raio da melodia”

É também da astrologia que ela traz uma segunda justificativa para o magnetismo da água. “Sou Capricórnio com ascendente em Virgem e lua em Touro, que absurdo! Terra com ascendente em terra e lua em terra. Todo esse excesso me faz buscar água. Eu tenho muita sede, metaforicamente e literalmente”, ela explica, antes de dar alguns exemplos. “Tem gente que fala ‘estou nervosa, vou correr’. Se eu estou nervosa, vou tomar um banho [risos]. Eu tô nervosa: vou nadar. Eu tô nervosa: vou entrar na banheira ou na piscina. Se tiver uma poça, eu pulo. Se não tiver, eu vou beber água”, enumera.

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Ana Alexandrino/Divulgação

É difícil segurar o riso lendo um “textão” em que Letrux revela que gosta de elogiar o mar em voz alta (“mar, seu maravilhoso!”) ou quando, durante a entrevista, ela se define como “múltipla, apesar de capricorniana”. O mesmo ocorre quando, para explicar sua personalidade “observadora e esponja”, ela conta sobre a viagem que fez à Grécia com o namorado, ocasião em que tentou se comunicar com os locais falando seu “inglês de cursinho” carregado de um sotaque grego que ela incorporou no momento do passeio.

“Sou Capricórnio com ascendente em Virgem e lua em Touro, que absurdo! Terra com ascendente em terra e lua em terra. Todo esse excesso me faz buscar água. Eu tenho muita sede, metaforicamente e literalmente”

“Acho que no atual desgoverno está mais difícil levar a vida com tanto bom humor. Mas sou uma pessoa dada ao delírio. Eu gosto de gargalhar. Gosto de situações onde você chora de rir”, conta. “Eu e meus amigos, a gente consegue se colocar com muita besteira, muita bobeira, nada com tom depreciativo ou debochado. Minha ‘tchurma’ não é muito dessa vibração”, completa.

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Letrux no ano da pandemia

O último ano, para a cantora e escritora, foi como um “puxão” para uma direção não planejada. O início da pandemia culminou com o aguardado lançamento de seu segundo disco com a banda, Letrux Aos Prantos, interrompendo todas as “coisas férteis” já planejadas. “Passei os primeiros meses da pandemia bem bêbada e triste. Ficava bebendo e chorando, pensando que o mundo ia acabar. Ao mesmo tempo, pensava que em agosto eu já poderia fazer um show. A gente não entendia direito o que estava acontecendo”, desabafa.

Nos meses seguintes, Letrux foi reagindo ao cenário de pandemia de outras formas. “Acho que todo mundo passou por uma fase mais introspectiva, uma fase mais bêbada, uma fase mais otimista, uma fase mais pessimista.” Para não deixar o álbum sucumbir à pandemia, ela levou a banda para São Pedro da Aldeia, onde mora atualmente, na região dos Lagos. Lá, com todos devidamente testados, gravou “cinco vídeos de conteúdos”. “Eu nem chego a chamar de clipe porque a gente filmou a gente mesmo com iPhone e foi super divertido”, conta.

“Passei os primeiros meses da pandemia bem bêbada e triste. Ficava bebendo e chorando, pensando que o mundo ia acabar. Ao mesmo tempo, pensava que em agosto eu já poderia fazer um show. A gente não entendia direito o que estava acontecendo”

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Ana Alexandrino/Divulgação

A artista também distribuiu cinco faixas entre os integrantes para que produzissem novas versões. O EP Prantos Pandêmicos foi lançado no último dia 3 de fevereiro. “Foi uma forma de tentar manter vivo o disco. ‘Ah, vamos brincar, já que a gente não está fazendo show’. Porque o show é a hora que a gente brinca.” Longe dos palcos, ela abraçou a companhia de outras poetas. Foi impactada por Ana Martins Marques e Angélica Freitas. Tem lido uma coletânea em inglês de todos os poemas da americana Audre Lorde (1934-1992). E faz questão de citar outras três autoras da qual é “devota”: Hilda Hilst, Adélia Prado e Cecília Meireles.

Atualmente, Letrux não tem planos concretos com a banda. Depois de realizar algumas lives, a artista perdeu o interesse no formato. Gostaria de fazer algo novo e diferente com seus músicos. “Mas como encontrar a banda? Tem a questão do covid. A questão da aglomeração. Ter plateia é impossível. Eu não posso botar ninguém em risco agora. Mas, aí, ao mesmo tempo, mil coisas vão abrindo e a cultura vai ficando pra trás. Como é que a gente lida?”, questiona.

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“Ter plateia é impossível. Eu não posso botar ninguém em risco agora. Mas, aí, ao mesmo tempo, mil coisas vão abrindo e a cultura vai ficando pra trás. Como é que a gente lida?”

Ela afirma que não tem fé no atual governo e que também não acredita em um impeachment para melhorar a situação sanitária do país. “Nós estamos com um desgoverno que não deixa a gente sonhar. Eu não consigo fazer planos. Minha avó foi vacinada. Minha mãe ia ser, mas aí as vacinas acabaram. Está tudo muito cagado, pra dizer o mínimo”, lamenta.

No entanto, a artista vê com otimismo propostas de figuras como a empresária Luiza Trajano, do Magazine Luiza, que anunciou no início de fevereiro um movimento para vacinar todos os brasileiros até setembro. “Eu fico ‘venham, bilionários, deem um jeito porque o governo não vai dar um jeito’. Então, estou torcendo para bilionários, sabe? Por mais que o amor deles seja o capital e não a vida humana, talvez, eu fico torcendo para que alguma coisa aconteça.”

Nesse cenário de desesperança, Letrux vê o lançamento de Tudo que Já Nadei como “um axé, um astral, uma sensação de conquista que é importante ter” nesse momento. E seu desejo é que o livro seja recebido como um mergulho. “Se você tomou um caldo, tudo bem. Se você achar que esse mergulho está morno, tudo bem também. Espera ficar mais fresco pra você entrar. Se você achar que a água está fria e quiser sair, não tem problema. Abraça ele com a sua verdade, com a sua temperatura do dia e vê o que você sente. E se quiser desistir dele, tudo bem. Tem dias que você olha o mar e fala “cara, hoje eu não vou entrar no mar.”

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Editora Planeta/Divulgação
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