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Lucas Silveira está pronto para a volta do emo

Conversamos com o vocalista da Fresno sobre a estreia no Lollapalooza, o retorno do emocore no Brasil e o último álbum da banda

por Alexandre Makhlouf e Beatriz Lourenço Atualizado em 24 mar 2022, 11h39 - Publicado em 24 mar 2022 00h08
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Clube Lambada/Ilustração

ma banda emo nacional no palco de um dos maiores festivais de música do país. Não, o ano não é 2007, é 2022. Neste domingo, 27, a Fresno sobe aos palcos do Lollapalooza pela primeira vez. E não é a única: para os amantes de uma sonoridade pop punk, o evento também trará Alexisonfire e A Day To Remember, bandas conhecidas de quem viveu o auge do emo, em outros dias do festival. “Queremos aproveitar a cobertura imensa de TV, nosso nome circulando… Isso vale muito porque a maioria das pessoas só acompanha o mainstream. Então, se você não aparece na grande mídia, para algumas pessoas você não existe. Um festival tipo o Lollapalooza é um grande investimento, inclusive literalmente! Vamos fazer um show com toda a pompa que tem que ter, para o fã ver a gente numa situação de gala”, explica Lucas Silveira, vocalista da Fresno.

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A ocasião é ainda mais especial porque o show, além de ser uma volta aos festivais, é também o primeiro da turnê do álbum Vou ter que me virar, lançado no ano passado e que surpreendeu alguns fãs (estes jornalistas que vos escrevem incluídos nessa afirmação). Com mais sintetizador e menos guitarra no geral, Lucas conta que o próprio processo criativo do disco foi diferente, já que, pela primeira vez, ele e os colegas de banda fizeram muitas composições separadamente por conta do isolamento social. “Começamos com quatro músicas que iriam ser faixas bônus para uma versão deluxe de Sua alegria foi cancelada. Na época, o pensamento nem era um disco novo. Mas, como aconteceu a pandemia e tivemos a turnê interrompida, fomos ficando introspectivos e tivemos tempo livre para fazer outras coisas. Aí, acabei fazendo mais músicas, pouco tempo depois entendemos que lançaríamos um disco novo. Quando eu fiz a música ‘Vou ter que me virar’, já foi o corte para o outro disco”, explica.

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Camila Cornelsen/Fotografia
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Com mais de 20 anos de carreira, Lucas tornou-se nas últimas décadas muito mais do que um embaixador do emo brasileiro, mas um rosto importante na indústria da música nacional. Além da Fresno, lançou álbuns (no plural) de dois projetos pessoais, Beeshop e Visconde, além de ser o produtor musical de nomes do pop como Manu Gavassi – ele assina a produção de “Áudio de Desculpas” e “Deve ser horrível dormir sem mim”, dueto da cantora com Glória Groove. Quando não está compondo, tocando e/ou produzindo, Lucas dá as caras no Twitter interagindo com o público (são 1,3 milhão de seguidores só na plataforma) e falando boas verdades – não só em resposta aos tweets relacionados à música, mas se posicionando politicamente e reagindo a comentários sem noção. Afinal, quem viveu uma adolescência emo sabe que os roqueiros podem ser muito menos cabeça-aberta atualmente do que eram há alguns anos…

“A descrição do que o pai que gosta de Rush fala dos funkeiros é a mesma que o bisavô dele diria dos Beatles. O Brasil é um país carola e careta. Muitos roqueiros mais velhos são tiozões conservadores, homofóbicos. O que é contraditório, porque o rock foi inventado por uma mulher preta e as maiores estrelas do rock eram, na visão desses caras, bichas loucas”

“A descrição do que o pai que gosta de Rush fala dos funkeiros é a mesma coisa que o bisavô dele diria dos Beatles. Tem um tanto de conflito geracional. Apesar de a gente ter o carnaval, o Brasil é um país carola e careta. O que percebemos é que os roqueiros mais velhos são tiozões conservadores, homofóbicos até. E tudo que era usado para menosprezar as bandas passava por um discurso do tipo ‘isso não é som de homem’. Mas é contraditório, porque o rock foi inventado por uma mulher preta e as maiores estrelas do rock eram, na visão desses caras tiozões, bichas loucas”, dispara.

Nós conversamos com Lucas durante quase uma hora, por videochamada, sobre as expectativas para o Lolla, o efervescente retorno da cena emo, sua rotina como música e os próximos passos da Fresno. Tudo aqui embaixo:

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Camila Cornelsen/Fotografia
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Com mais de 20 anos na estrada, a Fresno soube se reinventar de tempos em tempos. Qual é a necessidade da banda repensar seu estilo e qual é a chave para ela permanecer sempre atual?
A gente nunca se reinventou por necessidade mercadológica. Quando a gente faz sucesso com uma música ou som, a tendência de mercado é, inclusive, explorar isso até morrer. A necessidade de se reciclar e eventualmente trazer novas sonoridades e mudar é totalmente nossa. Se fôssemos seguir a vontade da indústria ou do próprio fã, que se sente abraçado por uma fase, a gente faria sempre a mesma coisa – mas seria ruim porque a gente ia ficar frustrado. A banda é uma válvula para soltar todas as ideias, mesmo que num primeiro momento não tenha a ver. Se foi criado pela gente, é Fresno. E isso também vai acostumando os fãs e fazendo eles entenderem que podem vir coisas novas. Às vezes, alguém que passou dez anos sem ouvir e volta depois pode estranhar. A gente não foca nesse público maior, mas na gente e em quem acompanha sempre. Os fãs conseguem perceber que não tem mudanças muito absurdas, são sempre coisas novas que chegam para somar e fazer uma história bonita. 

Você produziu artistas pop como Manu Gavassi e emplacou os hits “Áudio de desculpas” e “Deve ser horrível dormir sem mim”. São músicas pop bem diferentes da Fresno. Quais as diferenças no processo criativo das sonoridades na hora de produzir?
No caso da Manu, tem um fator importante que é a própria Manu (risos). Ela tem o negócio mais importante em um artista – que são certezas –, uma natureza pesquisadora de referências e sempre tem muito claro o que quer. O que chega geralmente para nós que produzimos é um artista que nem sempre sabe o quer, e aí você mostra coisas legais e a pessoa diz sim ou não. No caso da Manu, eu só dou um caminho para nós chegarmos naquela sonoridade que queremos. É um pensamento diferente. 

O que é mais importante nesse trabalho de produção musical?
É você ouvir um som e, nos primeiros segundos, saber de quem é. Mesmo que seja algo que o grande público não goste, ouvir e reconhecer já mostra que o cantor tem uma assinatura. O meu caso como produtor é ser uma pessoa antenada, ser uma pessoa que entende as referências e que busca junto, respeitando o quanto o artista quer que eu me enfie no processo. Trato os discos da Manu como meus porque tenho liberdade de criar, é muito eu também. Com isso, você vai tendo identidade de produtor, que também é importante. Não é primordial para quem está produzindo porque a estrela é o artista. Mas tem produtores que eu reconheço.  Aprendi muito com a Fresno, que foi meu primeiro laboratório de produção. Eu nem me considerava produtor porque estava produzindo coisas para mim mesmo, mas já existia essa mentalidade.

“Quando eu fiz a música ‘Vou ter que me virar’, já foi o corte para o outro disco. Ela quebra a expectativa da audiência, mas quando pensamos num álbum, propomos uma viagem colocando o fã na situação de “o que é isso?” e depois, com o tempo, tudo vai fazendo sentido”

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Camila Cornelsen/Fotografia

A Fresno já gravou com a banda Tuyo e com Lulu Santos. Como é esse encontro de gerações e essa troca de experiências influencia o seu trabalho?
Quando a gente pensa num feat, sempre pensamos na soma que vai ter. Nosso feat nunca é comercialmente guiado, colando em quem tá bombando. No caso do Tuyo, eles ainda eram bastante desconhecidos – tinham uma música famosa com o Baco Exu do Blues, mas estavam começando a aparecer. Nosso público não conhecia eles ainda. O motivo é sempre muito simples: a gente convida quem a gente gosta. Com o Lulu também foi isso. Era uma música que tinha aquela cara de rock brasileiro anos 80. Se bobear, chamei ele pra segurar essa música junto com a gente porque tê-lo trouxe propriedade pra essa música. O Vou ter que me virar é um disco mais simples e objetivo do que os outros e nada mais justo do que ter o rei do pop junto de nós. 

Falando nisso, a primeira vez que ouvimos o Vou ter que me virar não éramos o que estávamos esperando. Como foi o processo de criar o álbum?
Começamos com quatro músicas que iriam ser faixas bônus para um deluxe de Sua alegria foi cancelada. Na época, o pensamento nem era um disco novo. Mas, como aconteceu a pandemia e tivemos a turnê interrompida, fomos ficando introspectivos e tivemos tempo livre para fazer outras coisas. Aí, acabei fazendo mais músicas, pouco tempo depois entendemos que lançaríamos um disco novo. Quando eu fiz a música “Vou ter que me virar”, já foi o corte para o outro disco. Ela quebra a expectativa da audiência, mas quando pensamos num álbum, propomos uma viagem colocando o fã na situação de “o que é isso?” e depois, com o tempo, tudo vai fazendo sentido. O fato da gente ter feito tudo separado, deixou tudo mais minimalista e experimental.

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Camila Cornelsen/Fotografia

Há seis anos, além de comandar uma banda e atuar como produtor musical, você também é pai. Queria que você contasse um pouco o que a paternidade transformou no Lucas – em casa, nos palcos, na relação com a Karen…
No palco, nada mudou. O que mudou foi a nossa relação com o fato de fazer shows. O Vavo também é pai de dois, por isso começamos a reavaliar se faz sentido fazer o número de shows que a gente fazia, quais valiam a pena, quais ainda fazia pelo costume de estar na estrada… Esse pensamento nos levou a diminuir o número de shows, mas aumentar a qualidade deles. Apesar de não podermos ir a todo canto do país, conseguimos fazer algo maior de um jeito que pessoas consigam se planejar para ir nos ver. Idealmente, tocaríamos muito mais, mas tem um fator operacional que deixa isso muito difícil. Tratamos cada show como único.

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Falando especificamente do Lolla, quais são suas expectativas para essa volta ao palco de festivais? Quais os principais desafios de montar um show para um público que é tão diferente do que acompanha vocês nas turnês só da Fresno?
O desafio é tentar fazer um show em que o fã se reconheça e pense “que legal, a banda que eu gosto num festival enorme”, mas também pegar quem está passando, aproveitar a cobertura imensa de TV, seu nome circulando… E isso vale muito porque a maioria das pessoas só acompanha o mainstream. Então, se você não aparece na grande mídia, para algumas pessoas você não existe. Partindo disso, há quem vá te procurar depois que vê você tocando. 

Um festival tipo o Lollapalooza é um grande investimento, inclusive literalmente! Vamos fazer um show com toda a pompa que tem que ter, para mostrar o máximo do que a gente é hoje. E obviamente para o fã ver a gente numa situação de gala.

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O que podemos esperar da Fresno para os próximos anos?
Querendo ou não, a Fresno viveu uma consolidação nos últimos anos. Sinto que depois de vários anos que a gente martelava cada centímetro dos nossos passos, agora está rolando uma combinação de vários fatores: um quê de nostalgia, fãs que querem voltar a ir aos shows; a pandemia, que deu saudade de fazer coisas presenciais; e um fator mais global que é a volta de uma sonoridade mais emo, pop punk, rock — que é maior nos Estados Unidos, mas já tem movimentado a cena, bandas já estão crescendo. 

Essa combinação faz com que hoje a gente esteja vendendo mais ingressos para shows do que há dez anos atrás, quando estávamos no “auge”. Agora o momento é outro, mas há uma maré que faz com que as coisas estejam andando. Nesse sentido, penso que agora que vamos conseguir realizar as coisas artísticas que a gente queria e não conseguia antes. Vamos viabilizar nossa criatividade e aproveitar esse momento. 

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Camila Cornelsen/Fotografia

Falando nessa volta do emo, como você analisa esse cenário? Por que você acha que o estilo está voltando?
Eu me pergunto isso todos os dias. Mas uma coisa que acontece na indústria musical é que há ciclos de ir e vir. Acho que cada vez mais vai ser difuso essa volta das coisas, tipo a calça boca de sino ou a sonoridade anos 80, porque as pessoas estão ouvindo tudo muito rápido e enjoando muito rápido também. Às vezes, tem revival de estilos que bombaram cinco anos atrás. O emo é um estilo de 15 anos atrás e hoje já está tendo isso porque quem nasceu em 2000, não acompanhou da mesma forma que a gente. Eles acham tão exótico quanto foi pra gente. 

Acontece que hoje as coisas são pouco claras porque há muitas cenas juntas que se cruzam. Obviamente, se existem fatos para enumerar, nas dez músicas mais bombadas não tinha nada com guitarra, bateria, nada que lembrasse rock, e hoje está tendo, mesmo que seja pouco e pontual. Mas só acredito na volta de algo quando existe uma cena: um crescimento do número de bandas e galera mais nova fazendo. Se não tiver isso, é só nostalgia – e tudo bem. O próprio público raiz que nunca deixou de acompanhar percebe esse burburinho e se emociona. O próprio Lollapalooza tem Alexisonfire e Fresno. O tempo também se provou possibilitador da galera discutir essas bandas a sério. 

“Só acredito na volta do emo quando de fato existe uma cena: um crescimento do número de bandas e galera mais nova fazendo. Se não tiver isso, é só nostalgia – e tudo bem”

O que percebemos é que os roqueiros mais velhos são tiozões conservadores, homofóbicos até. E tudo que era usado para menosprezar as bandas passava por um discurso do tipo “isso não é som de homem”. Mas é contraditório, porque o rock foi inventado por uma mulher preta e as maiores estrelas do rock eram, na visão desses caras tiozões, bichas loucas. Os caras têm uma memória seletiva. Na época, o próprio fã não tinha como confrontar isso, até porque eram muitos jovens e não tinham obrigação de saber sobre esses assuntos. De alguma maneira, todos sofreram em um nível muito profundo, inclusive as bandas. Hoje, atravessamos essa discussão e se há opiniões antigas desse tipo, são sempre confrontadas.

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