expressão

O coração, os sentimentos e a floresta

Jornalista, documentarista e ativista ambiental, a carioca Maria Clara Parente lança seu primeiro livro de poesia, “nas frestas das fendas”

por Artur Tavares Atualizado em 22 jun 2021, 17h54 - Publicado em 22 jun 2021 00h52
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Clube Lambada/Ilustração

izem por aí que existe poesia em meio à destruição, mas, sinceramente, eu não penso assim. Não existe nada de belo em monumentos em ruínas, incêndios, furacões, tsunamis. O que é decrépito, o que queima, o que inunda, forças da natureza que vêm para terminar ciclos, encerrar vidas. A não ser, é claro, que isso fique no campo figurativo, da imaginação.

Durante os últimos três anos, a jornalista, documentarista e ativista ambiental Maria Clara Parente recheou seus cadernos de anotações com poemas. Bastante breves, são textos que reúnem em poucas palavras sentimentos sobre a condição feminina, os relacionamentos humanos, as alegrias e angústias da vida. Convidada a publicar as poesias, percebeu que sua escrita não falava apenas de sua própria existência, como também refletia sobre a natureza, os desastres naturais e provocados que ela sofre cotidianamente.

Maria Clara batizou parte dos poemas de “nas frestas das fendas” – assim mesmo, em minúsculas – com títulos que fazem referências ao meio ambiente: represas, placas tectônicas, abalos sísmicos, alagamento. Mas, são textos que falam sobre si mesma ou sobre algo além? Essa é a beleza da obra, lançada nesse semestre pela editora 7 Letras. Nós conversamos com ela sobre poesia, um mundo à beira da extinção e a teimosia humana de querer permanecer vivendo nele. Confira:

Como foi a escrita de “nas frestas das fendas”?
Tem uns três anos que fui escrevendo algumas coisas e anotando em blocos de notas e cadernos. Tudo muito despretensiosamente. Sempre sonhei em publicar um livro, mas não achava que rolaria. Sempre ficava para depois. Mas, quando começou a pandemia, muitos trabalhos que eu fazia no jornalismo e no teatro ficaram impossibilitados. Era a hora de juntar tudo aquilo.

Ao mesmo tempo comecei a escrever um diário, registrar meus sonhos que estavam vindo muito loucos por causa da pandemia. Foi naquele momento de selvageria, dos animais nas ruas, questionamentos de como isso influenciava a maneira que sonhávamos. Isso também fez andar meu processo criativo. Quando deu agosto, comecei a juntar os textos todos, mandei para algumas amigas com quem sempre troquei ideias e escritos, e então comecei a fazer alguns vídeo poemas, misturando imagens com escrita. Isso tudo foi me deixando animada, e resultou no livro.

Como funciona seu processo criativo? A comunicação leva ao ativismo, que leva à poesia? É a poesia que leva a querer se comunicar, que leva ao ativismo?
[Risos] Eu não sei. Passei um tempo na Schumacher College, em 2018, uma instituição inglesa de ensino que tem esse viés do ativismo também para o ser interior. Não em relação ao autocuidado desimplicado, mas sim implicado em questões sociais. Fiz um curso sobre comunicação dentro do mestrado de economia para transição. Esse momento foi um importante divisor de águas, porque comecei a entender que as coisas que eu fazia no teatro ou escrevendo poderiam ter esse viés. Muito do curso era sobre essa dificuldade de comunicar ecologia e a crise ecológica. Porque ou você fica desesperado e acha que não tem solução, ou você entra numas de que vai salvar tudo individualmente. Existem esses dois extremos mas acho que não é por ai, porque é uma questão complexa e não simplista como muitas vezes o capitalismo ‘verde’ faz parecer.

Esse tipo de percepção, de olhar as coisas muito conectadas, tem a ver com a poesia. A poesia tem esse olhar para o que não é dito, para o que está ali e não aparece, para as coisas que ficam soltas no cotidiano e você tem que investigar, para tirar sentido das coisas que não tinham, para juntar as coisas. A poesia interconecta coisas que parecem desconectadas.

Então, acho que uma coisa puxa a outra. E, nesse momento, a poesia é mesmo um lugar de escape dessa realidade nefasta que estamos vivendo no Brasil, e também um lugar de falar dessas questões. E não apenas esse livro, como o próximo que já estou escrevendo.

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Ilustração/Redação

Ser mulher, amar, a natureza das relações e o planeta. Os temas que você aborda no seu livro são inesgotáveis sob a ótica da sociedade em que vivemos hoje. Ver “nas frestas das fendas” publicado tirou certas angústias de dentro de você ou foi só um primeiro capítulo de uma obra muito maior?
De jeito nenhum. Publicar esse primeiro livro abre muita coisa. E também porque comecei a fazer um mestrado em Letras, uma pesquisa que tem a ver com Donna Haraway e as fabulações especulativas, entendendo que a poesia é esse fabular de alguma possibilidade, sempre. Algum respiro, e ao mesmo tempo o algo que não acontece. Então, essa fabulação está muito presente naquilo que faço agora, e esse caminho aberto me inspirou a escrever meu próximo livro, que deve sair até o final do ano.


“A poesia tem esse olhar para o que não é dito, para o que está ali e não aparece, para as coisas que ficam soltas no cotidiano e você tem que investigar, para tirar sentido das coisas que não tinham, para juntar as coisas. A poesia interconecta coisas que parecem desconectadas”

Como o texto, os sentimentos e as angústias de um mundo em crise confluem dentro de você, se misturam e se tornam uma coisa só?
Acho que tem a ver com um escoamento. Quando escrevi os poemas, a maioria deles não tinha títulos. Mas, na hora de organizar o livro, percebi que era preciso. Então, coloquei esses títulos relacionados ao meio ambiente, como “Represa”, “Placas Tectônicas”, fiz relações entre terremotos e suas escalas. Tem uma sensação de muita coisa que fica presa dentro, e a poesia é esse lugar de fluir, como um rio, uma possibilidade. Não que esse rio não vá estar poluído ou não ter problemas, que vai solucionar alguma coisa. Acho que essa visão da solução é o grande problema, porque sempre estamos buscando mágicas que vão acabar com as questões.

Acho que o poema é quase uma companhia para a vida, é aquele seu amigo que estará do seu lado. As coisas ruins vão acontecer, mas esse amigo vai te abraçar, conversar, brigar. É muito necessário em um momento como esse, e também um jeito de estar mais perto das pessoas. Porque você fala sobre o que está sentindo, e está falando sobre algo que o outro também sente. É um lugar de refúgio, mas não de escape disneylândico.

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Ilustração/Redação

Nós vivemos numa era cheia de combates de ideias, de textões, de posicionamentos firmes. Você, por outro lado, faz sua luta através de poucas palavras sempre tão bem escolhidas. Acha que chegamos em um ponto de surdez coletiva, de uma necessidade de repensar como transmitimos mensagens?
Sim. Acho que são muitas informações. Pensar numa curadoria, como faz meu amigo André Carvalhal, é muito maneiro, porque tem uma forma, não é jogar um monte de coisas e um monte de propaganda. Ninguém aguenta mais!

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A linguagem da poesia é uma das mil formas para ir além desse esgotamento da internet, dessa ilusão de que teríamos mais liberdade, quando na realidade ficamos em duas ou três plataformas, e tudo é pensado para existir apenas ali. Então, essa experimentação com outras formas tenta subverter, trazer outras linguagens, para ver se existem caminhos das coisas mudarem.

É mais fácil ou mais difícil fazer poesia em tempos de ódio?
Não sei, porque nunca fiz em outros tempos [risos]. Não sei responder. Mas acho que é sempre difícil escrever.

Você está produzindo um documentário chamado Regenerar. Pode me contar um pouco do projeto?
É uma série em três episódios com essa ideia de aproximar a crise climática da colonialidade. Usando um exemplo recente, uma reportagem mostrou que 55% de todo plástico do mundo vem do norte global, enquanto esses países se dizem super sustentáveis e colocam as outras nações como lixão planetário. Falamos sobre a agenda 2030, que ainda pauta mudanças com uma lógica ultrapassada de “desenvolvimento sustentável”, sobre bem-viver e outros modos de habitar que não são ligados a esse mundo do consumo.

Um episódio é sobre morte, outro é sobre sonho, e o terceiro é sobre vida e como os corpos habitam esse espaço, sobre urbanismo decolonial, pensar como o homem projeta a cidade fálica e ela própria cria essa realidade opressora.

Já quando falamos sobre sonhos, é muito sobre como a experiência de sonhar tem a ver com a responsabilização. Porque quando você não sonha, sua cabeça tem certas dificuldades neurobiológicas de lidar com as crises do mundo acordado. Ao mesmo tempo, pessoas que trabalham com arte ou experimentos psicomágicos fazem uma reconexão com esse mundo onírico, e isso pode ser um dos caminhos para viver nesse século.

E, falando sobre morte, é o primeiro episódio. Nós começamos a fazer antes da pandemia, era sobre extinção em massa, e agora nem sei como vamos abordar isso. É tão grande o que estamos vivendo que não temos como processar, como colocar isso em um documentário. Mas a ideia é falar sobre necropolítica, sobre como a morte incide sobre diferentes corpos.

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Ilustração/Redação

Tudo está acabando ao nosso redor, e mesmo assim vivemos no tempo no qual nada termina. Os livros, os documentários, as histórias…
Até essa ideia de continuar as coisas é muito louca. Nós queremos continuar a fazer as coisas apesar de saber que o mundo está acabando. É quase um escape.

O Brasil se beneficiaria se enxergássemos a ecologia e o meio ambiente como algo que está na nossa realidade – você aí no Rio com a Lagoa Rodrigo de Freitas poluída, eu aqui em São Paulo com a selva de pedra e também a poluição – do que algo que está exclusivamente na Amazônia, nas florestas, afetando os povos originários?
Com certeza. Atrapalha muito essa ideia de pensar que a natureza é algo que não somos nós. Outro dia estava vendo o Kaká Werá [liderança indígena] falando sobre como também ficamos psicologicamente doentes com essa destruição toda. Quando as queimadas do Pantanal aconteceram ano passado, não conseguimos nem sentir. É uma desconexão total, é não achar que se está no mundo, e sim descolado dele. Então, as coisas que estão perto poderiam ser de outra forma. E, se pensarmos que somos nós que estamos queimando, mudaria os lugares mais longe também.

Tem um desnorteamento de tantas as coisas que a gente não quer pensar em fazer compostagem, sabe? Esse senso de individualidade atrapalha muito. Quando começamos a fazer esse tipo de coisa? Quando nossos amigos estão fazendo, quando nos contam, quando conhecemos pessoas que provam que é tranquilo. Tem a ver com a comunidade. Ainda que você faça algo isolado, as coisas mudam quando você está em relação.

Estamos tão conectados com esse sistema doente e violento que não tem como nos desimplicarmos dele. Mas é claro que alguns corpos sofrem muito mais do que outros nesse sistema.


“Essa ideia de continuar as coisas é muito louca. Nós queremos continuar a fazer as coisas apesar de saber que o mundo está acabando”

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Yulli Namamura/Fotografia

Você acredita que teremos uma mudança radical sobre as maneiras que tratamos uns aos outros e ao meio ambiente, que adiaremos o fim do mundo, como diz o Krenak, ou estamos de fato fadados ao colapso total?
Não tenho a menor ideia. O que sinto é como se estivéssemos, ao mesmo tempo, pensando em vários futuros. Acho que tem vários movimentos acontecendo, mas é muito difícil prever o que será daqui 50 anos. Mas há resiliência em cada um desses grupos pensantes. Tem essa galera que já está organizando grupos, morando no mato ou em lugares já prevendo como será com a escassez de água. Ao mesmo tempo, tem gente que está em outro local, totalmente desconectado.

Quando começou a pandemia, fiquei muito esperançosa. Havia muitas pessoas falando que era o golpe final contra o capitalismo. Agora, Brasil com 11 novos bilionários, o país com recorde de pobreza, passando fome.

Vejo que as pessoas que já estavam em uma jornada de desconstrução radicalizaram com essa pandemia, por exemplo quem foi morar no mato. Agora, quem não estava se descolou mais. O Elon Musk está pensando em um plano de colonizar Marte até 2030, gastando uma grana impressionante.

É melhor fazer poesia para terráqueos ou marcianos desconectados?
[Risos] Para terráqueos, com certeza!

capa do primeiro livro de Maria Clara Parente

nas frestas das fendas

Editora 7 Letras
92 páginas
R$ 38

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