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Marissol Mwaba e vice-versa

Letras ao contrário, música que se inspira nas raízes, beats contemporâneos e um combate à ansiedade pautam as novidades de "Ndeke", novo EP da cantora

por Douglas Vieira 4 jun 2021 00h56
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Clube Lambada/Ilustração

 cantora Marissol Mwaba tem uma voz doce e um olhar puro enquanto canta, com alguma ingenuidade que só reside no tom, nunca nas palavras – essas são bem sábias para uma pessoa de apenas 29 anos. Suas melodias nascem no violão, suas letras nascem de um processo de autoconhecimento e autoacolhimento. “Quando componho, é um processo de catarse, estou ali me descobrindo, me entendendo, me ouvindo, percebendo as palavras que a gente só escuta depois que bota pra fora. É a mesma coisa com a melodia e com a harmonia”, conta a cantora brasileira de ascendência congolesa, que reúne entre seus admiradores artistas como Luedji Luna, Fióti, Rincon Sapiência, Emicida, Chico César e Gilberto Gil.

Mas Marissol não é apenas uma pessoa, são pelo menos duas.

Lossiram tem uma voz espiritual e um olhar mais distante e profundo enquanto canta. Suas melodias nascem no espelho, assim como suas letras, criadas a partir da ideia de tocar as músicas de Marissol ao contrário, em uma nova perspectiva, criando um idioma próprio, poético, que pode ser entendido para além da semântica. Mas com certeza é entendido.

“São músicas que eu entoo de trás para frente, em melodia e letra, ‘As Reversas de Lossiram’, que é meu nome ao contrário. Eu vejo a Lossiram como uma persona também, até o jeito de cantar e de olhar para o público muda, é outra coisa”, explica. “Essa pira, bem sinceramente, começa com o tempo livre de uma pré-adolescente. [risos] Assim que comecei a usar esses programas de gravação, gravava algo e ouvia ao contrário, como uma brincadeira. Mas comecei a gostar da sonoridade e pensava: ‘Parece que a música me diz uma coisa que eu nunca tinha visto nela, uma composição da qual eu achei que sabia tudo, mas não sabia, até revirar e ver tudo que ela tinha pra mim, brinca Marissol enquanto explica como nasceu a ideia d’As Reversas de Lossiram, presentes em seus dois álbuns já lançados – Luz Azul (2016) e Palavra Mágica – Rec’n’Play (2018) – e em todos os seus shows.

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“Quando componho, é um processo de catarse, estou ali me descobrindo, me entendendo, me ouvindo, percebendo as palavras que a gente só escuta depois que bota pra fora”

Agora, prepara o lançamento de seu novo trabalho, Ndeke. O nome vem do swahili, umas das três línguas, junto do francês e do português, que se acostumou a falar em casa – seus pais e seus dois irmãos mais velhos migraram da República Democrática do Congo para o Brasil antes dela, caçula da família, e do irmão François Muleka, também brasileiro, nascerem. “Ndeke é pássaro em swahili. Esse nome é tanto uma menção à Fênix, que renasce sempre – e eu me vejo assim na pandemia, tendo que renascer em soluções criativas todos os dias – e também com essa ânsia e necessidade do voo. É como se todo mundo tivesse sido atirado por uma janela e tivesse que bater asa. Então, voa, passarinho, faz alguma coisa. E estou fazendo, esses próximos lançamentos são 100% independentes, assim como foi o clipe de ‘Toda quinta’, que inicia as reflexões que trago no EP, retratando essa coisa de renascer em soluções criativas. A pessoa está ali, com um emaranhado de cordas, e, enquanto vai desemaranhando, solucionando essas cordas, essa pessoa pula corda, brinca e interage com o objeto. E vejo que essa criança interior é que me traz para esse lugar, todos os dias”, conta.

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Mylena Sousa/Fotografia

“Esse próximo trabalho tem muito disso, dessa liberdade de existência no renascimento de cada dia. Um dia por vez, que é a vida do ansioso também, né?”, brinca, entre risos, lembrando que há anos lida com a ansiedade na terapia. E que, antes da psicanálise, a música já ocupava o lugar de cura e também de investigar ela mesma. Talvez por isso sua música soe como uma casa dos espelhos, que em todo lugar é ela, mas a imagem refletida é sempre diferente. Talvez por isso soe tão natural para ela olhar as próprias músicas do avesso. E talvez porque a certeza não parece mover Marissol. “Minha música está mudando, está vindo para esse mundo dos beats”, diz. “Dá aquele frio na barriga, porque são coisas que o meu público ainda não me viu fazer”, completa, sobre como Ndeke nasce influenciado pela aproximação dela com o universo do hip hop. O resultado será apresentado em três singles, lançados um por mês, entre junho e agosto.

Na conversa com Elástica, tem Marissol, Lossiram, pensamentos – muitos pensamentos –, histórias do encontro entre as raízes africanas de sua família e suas raízes brasileiras, de como ela começa na música a como ela estudou física na Universidade Sorbonne e astronomia no Observatório de Paris antes de fazer da música sua profissão e da astrofísica seu hobby. 

E, brincando com o olhar de Marissol, um aviso: a entrevista abaixo está no exato contrário de como a conversa aconteceu, o reverso de Lorissam. Começando pelo fim, Marissol Mwaba em vice-versa, melhor, em vice-verso.

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Eu deixei de aprofundar em algo sobre o que você gostaria de falar mais a respeito do seu trabalho?
Talvez as Reversas, né? Que são as músicas que eu entoo de trás para frente, em melodia e letra. São As Reversas de Lossiram, que é meu nome ao contrário. Eu vejo a Lossiram como uma persona também, até o jeito de cantar e de olhar para o público muda, é outra coisa. “Bendita Seja”, que está no “Palavra Mágica”, no show, ela é de trás para frente quando eu recito, e reviro no loop. Aí só quando eu aperto no loop é que as pessoas escutam a poesia na ordem dela natural. Essa pira, bem sinceramente, começa vindo do tempo livre de uma pré-adolescente. [Risos.] Assim que comecei a usar esses programas de gravação, ainda bem menina, gravava alguma coisa e ouvia ao contrário, como uma brincadeira. Mas comecei a gostar da sonoridade e pensava: “Parece que a música me diz uma coisa que eu nunca tinha visto nela”. Aí percebi que de vez em quando eu começava a cantarolar a melodia, até que comecei a aprender as letras. Era uma composição da qual eu achei que sabia tudo, mas não sabia, até revirar e ver tudo que ela tinha pra mim. Com o passar dos anos, comecei a montar formas de escrever os fonemas, e estudar esses fonemas no meu sotaque, e entender como eles funcionam ao contrário para escrever isso de uma forma legível, para eu bater o olho e entender de que jeito que eu vou falar aquilo ali. É outra sonoridade, outra melodia e me desperta outros sentimentos. É muito emocionante para mim. Olha eu, bem doida [risos]

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Marisol Mwaba/Arquivo

Nos dois primeiros discos, você parece ter composto tudo seguindo a tradição voz e violão. Mas esse EP que vai lançar, Ndeke, você destaca que será bem diferente. Mudou seu processo de criação?
Agora, estou mudando mesmo, está vindo para esse mundo dos beats. Tanto de uma via para a outra, como uma música que nasceu no violão e foi para o beat, como uma música que nasce já no beat e ali fica. E ali eu encontro também uma outra Marissol, nas músicas que estão nessa leva, numa linguagem nova. Dá aquele frio na barriga, porque são coisas que o meu público ainda não me viu fazer.

“Toda quinta”, que teve o clipe lançado em abril, está no EP?
Não, ela já tinha sido lançada. O clipe é um abre-alas para o EP, é um anúncio, porque ele traz uma estética que tem tudo a ver com o que está por vir nas três músicas inéditas.

Você fala de um histórico de ansiedade, como tem atravessado este momento?
Acho que ter começado a terapia alguns anos antes da pandemia foi fundamental, porque eu já estou em um lugar de mais equilíbrio, de mais autoconhecimento. Consigo entender quando chega a crise, saber que ela vai passar e ter meus modos de escape, ferramentas para lidar. Acolher, receber e esperar passar. E são menos graves do que já foram, porque era insustentável. Agora, é muito mais tranquilo quando bate a ansiedade, ou então quando ocorre de ter alguma crise de pânico, os caminhos que se formam na minha cabeça são mais compreendidos. E continuo a terapia, sempre, e florais, compondo bastante, tanto as minhas coisas quanto com outras pessoas. Essa semana eu terminei uma música com a Luedji Luna para um trabalho dela. 


“Ter começado a terapia alguns anos antes da pandemia foi fundamental, porque eu já estou em um lugar de mais equilíbrio, de mais autoconhecimento. Consigo entender quando chega a crise de ansiedade, saber que ela vai passar e ter meus modos de escape. Acolher, receber e esperar passar. E são menos graves do que já foram, porque era insustentável”

Você é jovem, estava começando a carreira, no sentido de ganhar espaço e visibilidade, teve várias experiências importantes, estava em um momento de subida… Aí veio a pandemia e a música parou de fazer justamente o trajeto natural dela, de ir até as pessoas. Ndeke foi feito todo nesse processo?
Não, tem uma das músicas que já estava gravada. Ainda não tinha lançado porque não cabia no que eu estava fazendo, com voz, violão. Era uma música com beat e, com todos os processos da pandemia, ela passou a caber na forma que eu vejo o meu trabalho atual. Além dessa, uma das músicas foi feita durante a pandemia e a outra, alguns meses antes. Mas tudo tem o ar da pandemia, inclusive algumas intervenções que estão rolando dentro do som também.

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Guilherme Meneghelli/Fotografia

No que você está trabalhando agora?
Estou bem focada nos meus próximos lançamentos, animada com as muitas mudanças na estética dessas músicas. Vão vir aí músicas com beats, misturando coisas novas para mim, diferentes dos outros trabalhos que já lancei. É um EP com três faixas, chamado Ndeke, que é pássaro em swahili. E esse nome é tanto uma menção à Fênix, que renasce sempre – e eu me vejo assim na pandemia, tendo que renascer em soluções criativas todos os dias, e não sou só eu, todo mundo –, como é uma menção a essa ânsia e necessidade do voo. É como se todo mundo tivesse sido atirado por uma janela e tivesse que bater asa; voa aí, passarinho, faz alguma coisa. Então, estou fazendo meus próximos lançamentos de forma 100% independente, assim como foi o clipe de “Toda quinta”. O vídeo é um abre alas do single porque já retrata isso, essa coisa de renascer em soluções criativas. A pessoa está ali, com um emaranhado de cordas, e, enquanto vai desemaranhando, interage com a corda, brinca, pula corda. E eu vejo que essa criança interior é muito importante na minha forma de enxergar as coisas e de lidar com elas. Esse próximo trabalho tem muito dessa liberdade de existência no renascimento de cada dia. Um dia por vez, que é a vida do ansioso também, né? [Risos]


“‘Ndeke’ é pássaro em swahili e esse nome é também uma menção a essa ânsia e necessidade do voo. É como se, na pandemia, todo mundo tivesse sido atirado por uma janela e tivesse que bater asa; voa aí, passarinho, faz alguma coisa. Então, estou fazendo meus próximos lançamentos de forma 100% independente” 

A gente normalmente pensa em artistas a partir do estereótipo das áreas de Humanas, estou curioso para saber que caminho a levou para o curso de Física da Universidade Sorbonne, em Paris?
Fiz o Ciência Sem Fronteiras, coloquei a França na inscrição e a Sorbonne me convocou. Fiz física lá e Astronomia no Observatório de Paris. Fiquei fazendo os dois ao mesmo tempo até estagiar com uma das minhas professoras, de extragaláctica, que era a área que eu queria seguir na astrofísica. A gente publicou juntas um trabalho sobre aglomerados de galáxias e eu cataloguei mais de 2.500 galáxias desse aglomerado para esse estudo que ela estava fazendo. A gente publicou na Astronomy & Astrophysics, que é uma revista muito massa da área. Mas, depois que voltei para o Brasil, comecei a ter as minhas primeiras crises de ansiedade e tive que vir para Florianópolis ficar com a minha família e começar meu tratamento. Por outro lado, foi isso que me levou para outra direção; entendi que a astrofísica seria meu hobby e que eu iria seguir profissionalmente na música. Mas eu amo astrofísica, está sempre comigo e, assim que a pandemia permitir, pretendo voltar, mas dessa vez em São Paulo. Meu sonho é continuar tendo isso pertinho, até fazer outro estágio, quero fazer coisas. É muito gostoso. 

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Marisol Mwaba/Arquivo

O swahili e o francês são caminhos naturais para você, como a música também é, são heranças que vieram do seu pai e da sua mãe. A astrofísica veio de onde?
Direto do espaço, eu estava distraída. Vou tentar resumir. [Risos] Estava escrevendo muitas coisas sobre o tempo e o espaço e mostrei para o meu pai, que tem uma relação forte com as exatas, com a ciência, e ele falou: “Filha, vá ler Einstein”. Eu tinha terminado o ensino médio e não tinha passado no curso que eu queria, que era Línguas Estrangeiras Aplicadas às Negociações Internacionais, e teria que fazer o vestibular de novo. Estava pensando se continuava nessa área ou se partia para outra, e comecei a pensar sobre Física, mas, como sempre fui péssima em matemática, não tive imediatamente essa vontade. “Será que eu vou entender alguma coisa?” Eu pensava assim sobre a sugestão de ler Einstein, mas continuei nessa pira de tempo e espaço. Aí, na hora do Enem, coloquei para Física, só que fiz também vestibular para outras áreas. Passei em Biomedicina, com bolsa, em uma universidade particular; em Letras, em uma universidade estadual; e em primeiro lugar em Física, na Federal. Nessa hora, fiquei muito em dúvida, mas decidi por Letras. Avisei para a minha mãe e fomos fazer a matrícula, mas, no meio do caminho, decidi descer do ônibus e me matricular em Física. A gente desceu correndo, minha mãe chateada de ter que correr – ela queria ir com antecedência para outra cidade e já estava no fim do horário. A gente correu e conseguiu, mas minha mãe quis voltar e fazer em Letras também. Só que, quando chegamos, disseram que teria de escolher, que não poderia fazer a matrícula nas duas. Não consegui desistir da Física. Minha mãe me fez falar na frente de testemunhas e eu falei alto: “Eu quero fazer Física” [gargalha, empostando a voz]. Fiz isso pra minha mãe poder botar fé. E foi assim que fiz Física na Universidade Federal do Recôncavo, na Bahia. No primeiro semestre, entrei em um projeto de astronomia e adorei. A gente fazia divulgação científica, várias viagens pelo Recôncavo com telescópio, era muito legal. Entendi que era isso que eu queria fazer e prestei para astronomia na Federal de Sergipe, para estudar astrofísica.

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Como você começa a aprender música?
Meu pai já tocava violão, teclado e gostava – e ainda gosta – muito de estudar teoria musical. Minha mãe também, eles tiveram uma banda juntos. Mas a carreira deles é acadêmica, são professores universitários, a música era hobby e em casa tinham muitos instrumentos. Minha irmã, que é bem mais velha que eu, também já tocava quando eu estava crescendo. Quando eu fiz 8 anos, meu pai me deu meu primeiro violão. Eu estava feliz da vida e umas meninas do prédio me ensinaram a tocar alguns acordes. Aí, ensinei esses acordes pro François – foram os primeiros acordes do meu irmão também – e ele começou a estudar sozinho para me ensinar, porque eu era muito pequena. Então, fomos um aprendendo com o outro, autodidatas.

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Marisol Mwaba/Arquivo

Seu trabalho vai do rock para a música brasileira, aí vem uma poesia, depois um dedilhado totalmente africano, e tudo isso de uma faixa para outra, naturalmente. Tudo que ouviu na vida vira referência?
Tudo se misturou na nossa formação musical. Eu ouvi muito rock, muita Janis Joplin, muito Jimi Hendrix, muito Jaco Pastorius… Era uma salada cultural dentro da minha cabeça, e isso tudo acabou se expressando em tudo que eu faço, acaba sendo quem eu sou, todos esses mundos interseccionados e cruzados. Estou descobrindo coisas do meu trabalho com as suas perguntas. Essa mistura cultural transborda para o meu som, desse jeito que você falou, que muda de um estilo para o outro naturalmente, que é como acontece na minha rotina.

Quando gravou com o Chico César, contou para ele que ouvia muito os discos dele quando criança e não sabia que ele era brasileiro?
Ah, foi um sonho trabalhar com ele. Eu contei tudo. Contei inclusive que ele era revezado na minha infância com Sandy & Júnior. Nossa, a gente vive brincando, eu e o meu irmão, que somos a Sandy & Júnior da Bahia [gargalhada]. 

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Marisol Mwaba/Arquivo

Como era ouvir música com a sua família?
A gente ouvia muitas coisas. Minha mãe fazia uma festa que ela chamava de Africae, em que fazia pratos típicos de vários países e a gente ouvia as músicas desses lugares também. Sempre tinham muitas atividades para não afastar a gente das nossas origens, e era também um movimento dos meus pais de se sentirem mais perto de casa. Também tinha a TV e o rádio na rotina, então, a gente cresceu ouvindo músicas que eram temas de novela e o repertório do rádio mesmo, como o rock internacional, o rock nacional. Ouvi muito Legião Urbana, Sandy & Junior, Chico César, tudo misturado. O Chico César a gente nem sabia que era brasileiro quando começou a ouvir, porque estava junto com os CDs dos meus pais, então, a gente achava que ele era, sei lá, angolano, de algum outro lugar, mas não do Brasil. 

Você diz que aprendeu swahili para falar com a sua avó. Ela contava histórias da sua família, algo assim, como era esse aprendizado?
Aprendi comunicando as coisas do dia a dia mesmo. Vai lavar a louça, vai fazer não sei o quê… [risos]. Minha vó é durona. Ela gosta de assistir a novela dela, ficar vendo a tevezinha, fumando um cigarrinho… Agora ela parou de fumar e beber, mas toma uma cervejinha sem álcool. Mas ela é muito durona.

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Marisol Mwaba/Arquivo

Achei muito interessante quando você disse que era como se o Congo fosse dentro da sua casa, conta um pouco mais sobre essa vivência.
Meus pais eram jovens quando chegaram aqui, meu pai devia ter em torno de 40 e minha mãe, em torno de 30 anos. Fico me imaginando saindo do Brasil para morar fora, eu faria de tudo que eu pudesse para me aproximar daqui. Em casa, falaria português, continuaria ouvindo música brasileira, falando com meus amigos e minha família, e, na nossa casa, misturava tudo. A gente falava francês, swahili, misturado com português. Às vezes, pegava palavras em swahili e conjugava em português, ficava essa mistura total de coisas. Claro que não é denso como alguém que nasce e cresce no Congo, é totalmente diferente, porque a gente está no Brasil. Na escola, eu estava com crianças brasileiras. Mas os costumes, a relação de hierarquia dentro de casa – o mais velho cuida do mais novo, que cuida do mais novo… Eu fui cuidada por todos os meus irmãos também, temos uma relação de irmandade que é muito do cuidado. E o swahili é uma língua muito respeitosa na forma de falar. A gente vivia tudo isso e ouvia muita música de vários países africanos, porque é o que os meus pais ouviam. Eu e François nascemos no Brasil, mas nossos outros três irmãos nasceram no Congo e vieram para cá já adolescentes. Depois de alguns anos, chegou também a minha vó e ela não falava nada de português. Foi assim que aprendi de verdade o swahili, porque eu entendia um pouco, mas não saia falando. Quando chegou a minha avó, eu aprendi por osmose.

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Marisol Mwaba/Arquivo

Tem preferência por compor sozinha ou com alguém?
Não, mas eu adoro fazer junto. E às vezes eu até estou em um processo meio “ai, não quero me ouvir muito agora”, aí me faz bem compor com outras pessoas [risos].

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Como tem sido compor à distância com as pessoas?
A composição é um lugar de conversa. O que é muito foda. Mesmo falando pouco, a pessoa te manda uma letra, você manda uma melodia e uma harmonia, é tipo pergunta e resposta… Perceber como a pessoa está se sentindo, o que ela está imprimindo ali naquele texto, e trazer isso para como eu imprimo o que a outra pessoa fez, como isso me atravessou e como eu repasso isso em forma de melodia e harmonia. Os processos com a Luedji [Luna] são muito assim, geralmente ela manda a letra e eu faço a melodia e a harmonia. E é muito único, uma coisa nossa, as músicas que a gente faz juntas têm uma cara, que é diferente de quando, por exemplo, componho com a Drika Barbosa, que é um processo meu e dela, um diálogo e a criação como resultado dessa conversa. Neste momento, está sendo muito bom ter isso, trocar, se sentir em atividade por outros vieses. A gente está tendo que aprender outras formas de sonhar até. Então, quando a gente se junta, se une nesses processos criativos, fica mais forte, vai criando uma base mais sólida, uma potencializando a outra. Acho muito legal.


“A composição é um lugar de conversa. O que é muito foda. Mesmo falando pouco, a pessoa te manda uma letra, você manda uma melodia e uma harmonia, é tipo pergunta e resposta… Perceber como a pessoa está se sentindo, o que ela está imprimindo ali naquele texto”

A Luedji é uma parceria constante, né?
Ela gravou uma parceria minha com o meu irmão, “Notícias de Salvador”, no primeiro álbum dela. No segundo, ela gravou uma parceria comigo, que é “Erro”. E a gente tem outras músicas juntas, nessa semana a gente fez mais uma [risos].

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Marisol Mwaba/Arquivo

Quando você descreve a música e o jeito que fala de saúde mental, dá a impressão que você aplica por conta própria processos terapêuticos em tudo. Você pensa bastante sobre você mesma, não?
Faço terapia desde 2017 com o mesmo terapeuta, maravilhoso, e, enquanto eu escrevo, é um exercício de deixar sair o que está aqui dentro. Quando escrevo para outras pessoas, aí já são outras coisas em jogo, mas, quando é para mim, penso em me permitir ser atravessada por aquilo que está me influindo da forma mais crua e transparente possível. E, curtindo isso, eu começo a lapidar, no processo de curtição desse momento. Essa acaba sendo uma terapia para mim também, porque estou ali curtindo a minha existência.

Como você percebe o rap a partir da sua vivência com a africanidade?
Eu vejo o rap como poesia, como material didático, como transformação, que é o meu sonho com a música. É fazer isso também, transbordar o som, trocar com as pessoas, compartilhar aquilo que está dentro… Mas transbordar tudo isso para virar ações de transformação, que é o que me fez cantar em primeiro lugar. Ouvir música me fez cantar, gostar do sentimento que me causa ouvir música é o que me faz querer aumentar o alcance do meu trabalho, atingir o máximo de pessoas possíveis, para ter mais corações disponíveis e estar lá disponível para mais pessoas. Muitas vezes, ouvir uma música foi o que me segurou na vida, o que me deu chão. Por isso, quero muito que as minhas músicas estejam lá para pessoas que estejam distantes ou próximas de mim no tempo e espaço.

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Guilherme Meneghelli/Fotografia

Já era uma vontade sua fazer algo com o rap?
O rap é recente na minha vida, muito do que conheço de rap veio no contato com artistas com quem tenho feito trabalhos, especialmente na Laboratório Fantasma [empresa fundada por Emicida e sua família, que conta com gravadora independente, editora musical, entre outras atividades]. Foi assim que entrei nesse mundo e comecei a ouvir de forma assídua e a entender que é uma poesia que transborda a palavra e o som e vai para a ação, para a atitude. É uma cultura muito vasta. Foi um lugar em que a gente se encontrou meio que sem querer, tipo se esbarrar na calçada e se identificar, se ver. Até porque o rap, no Brasil, vem de uma afrobrasilidade que é diferente da afrobrasilidade que eu construo pela minha origem, que é direta de ascendência congolesa. Tem um lado meu que, aqui no Brasil, se sente recém-chegado, com alguns códigos que não aprendi, porque a educação era diferente, era como se fosse o Congo dentro da minha casa. E, fora, estou no Brasil. Então, tem códigos que eu não aprendi e histórias que eu não tenho no meu corpo. Mas, no momento em que eu encontro a galera do rap, vejo como eles processam coisas de uma forma parecida com a que eu processo, por mais que eu não tivesse consciência de que a forma que eu estou falando lembra, por exemplo, o slam, como você percebeu. Nunca tinha pensado nisso, nessa poesia.

“Enquanto eu escrevo, é um exercício de deixar sair o que está aqui dentro. Quando faço músicas para mim, penso em me permitir ser atravessada por aquilo que está me influindo da forma mais crua e transparente possível”

Você lembra quando foi a primeira vez que ouviu rap?
Eu tinha tido alguns contatos ouvindo fundamentalmente Racionais. Ouvi outras pessoas falando e, quando ouvi, pensei “caralho, que legal”, ficava brisando nas letras. Mas nunca tinha parado para mergulhar no mundo do rap. Tinha ouvido algumas coisas do Emicida, mais coisas que chegam do mainstream, que vão chegando, isso até eu conhecer o Evandro Fióti [o irmão de Emicida é músico, compositor, empresário, produtor e sócio fundador da Laboratório Fantasma]. Ele foi no meu show e veio falar comigo. Eu sabia da Laboratório Fantasma, mas não conhecia ele ainda e, quando a gente se aproximou, foi que eu comecei a conhecer o mundo do rap, e não apenas musicalmente. Existe uma transformação em todas as coisas que eles fazem, desde a Dona Jacira [mãe do Emicida, ela também atua na Laboratório Fantasma, além de também ser autora do livro autobiográfico Café Preto], a forma como ela transforma o lugar em que ela mora, com plantas, muitas coisas, e a sabedoria que ela tem, tudo junto. E aí você entende de onde vieram os filhos dela, em pensamento, principalmente. Fiquei apaixonada, encantada em como o rap é atitude, ação e transformação a cada música.

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Marisol Mwaba/Arquivo

Como rolou a colaboração em AmarElo, do Emicida?
Em 2019, a minha editora virou a LabFantasma, que me ajudou a organizar toda a minha vida autoral, que estava uma bagunça, com um monte de coisas que eu não sabia. Nesse processo, a gente também ficou amigo e recebi muita orientação e amparo deles, e também começaram as colaborações. Teve AmarElo, aí compus uma música com o Grou para o disco da Drik Barbosa, aí fiz “Pega Leve”, junto com o Rael e o Fióti, e “Sobre Nós”, com a Drik e o Rashid. Aí o Rincon Sapiência me achou no Instagram e, quando estava gravando o álbum dele, me chamou para colocar voz e baixo, ele já ouvia meu trabalho, fiquei super feliz. Foi que foi e agora sou uma pessoa que escuta assiduamente rap e isso me ensina a compor de outras formas, está agregando muito em mim como compositora.

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Marisol Mwaba/Arquivo

Você lançou Palavra Mágica, em 2018, e Luz Azul, em 2015, os dois um repertório bem solto, no sentido de as músicas trazerem identidades muito fortes e diferentes entre si. E, além da musicalidade, o seu trabalho sempre tem intervenções poéticas, como “Eclipse” no primeiro disco, que chama bem para esse lado, e o segundo abre com “Bendita Seja”, que é você declamando, e “Liberdade” e “Sobrevoar”, que lembram de alguma forma a poesia das batalhas de poesia nas competições Slam. Fala um pouco dessa sua relação com a poesia?
A minha relação com a poesia se consolidou com consciência em Palavra Mágica, antes, eu era muito mais ligada às melodias e harmonias, especialmente melodia, que é uma coisa que me toca muito. Em Luz Azul, tem essa coisa mais falada em “Eclipse”, que é voz e baixo. É uma música que eu interpreto, mas é de autoria do François, meu irmão. Então, eu não trouxe uma poesia minha. O que eu trouxe meu, falando no Luz Azul, são aquelas músicas que canto ao contrário, que trazem muito forte a relação com a melodia. Foi no disco Palavra Mágica que comecei a me relacionar com as palavras mesmo, com elas enquanto moldes de significado, forminhas de significados e isso passou a ser muito importante para mim, para o meu entendimento, não só da minha música, mas a forma como eu processo o mundo. Parece que, depois de poetizadas, algumas coisas que não tinham definição passam a ter uma forma dentro da mente e eu consigo entender, seja um acontecimento, seja um sentimento. A poesia me traz para esse lugar de entendimento e aceitação, uma forma de enxergar a realidade.

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Marisol Mwaba/Arquivo

Conta uma história da sua vida que você acha que define algo importante em você.
Fui fazer um show e estava há um tempinho sem me apresentar, passando por questões de ansiedade e pânico, e estava um pouco mais dentro do que fora, mais processos internos do que externos, e estava ensaiando uma música chamada “Sobrevoar”. É uma música muito intensa para mim, porque fala de vários buracos em que estive e de como eu me convido a sair deles, é como um gesto de me dar a mão mesmo. Estava muito envolvida com essa música e nela uso o capotraste, aquela presilha que a gente coloca no braço do violão para conseguir tocar em outro tom sem precisar transpor a música. Ensaiei, ensaiei, ensaiei, estava super animada para tocar ela nesse show, seria a primeira vez. Aí fui para a cidade em que seria o show, que era uma celebração da gravadora REC’n’Play, que produz vários vídeos. O show ia abrir comigo e meu irmão, o François, cantando duas músicas juntos e, depois, eu cantaria “Sobrevoar”. Só que eu estava muito louca, pensando em muita coisa, e não levei o meu violão, então, ia tocar com um violão emprestado pelo Alegre Corrêa, um músico muito incrível. Aí percebi que esqueci também o meu capotraste em Florianópolis e tive que correr atrás de alguém que tivesse um para me emprestar, até que encontramos um amigo de um amigo que tinha um e me levou. Na passagem de som, testando as coisas, passei a música com uma guitarra aleatória que peguei no palco. Por quê? Eu não sei, peguei e fiz a passagem de som. Quando foi na hora do show, me dei conta que eu não tinha feito a passagem de som com o violão e também que tinha deixado o capotraste que tinham me emprestado no camarim, achando que iria ter tempo para buscar, mas esqueci que eu ficava no palco desde a primeira música. Distraidérrima. A gente cantou a primeira e a segunda músicas e, na terceira, meu irmão me passou o violão do Alegre e eu pensei feliz: “É o momento de sobrevoar!”. Cadê o capotraste? Aí fiquei com uma cara e tentei sussurar para o meu irmão “o capotraste, o capotraste…”, com ele já na coxia. Aí ele foi até o palco e fiquei falando no ouvido dele. Ele me interrompeu e falou: “O microfone está aqui, está todo mundo ouvindo, é melhor você falar para as pessoas” [risos]. Isso com uma câmera na minha cara, porque a REC’n’Play estava gravando esse encontro. Aí expliquei: “Gente, eu esqueci de trazer para o palco o capotraste, que está na minha mochila, no camarim, no bolso tal. Esqueci de trazer para o palco”. Aí o François saiu correndo e trouxe. Quando fui colocar no violão, não encaixava, era diferente, era de fechar e não encaixava. Como passei o som com uma guitarra aleatória, não percebi antes. Fiquei lá com aquela cara de capotraste, tem um gif disso, eu com a cara de capotraste [risos]. “Gente, não vai dar para tocar a música que eu falei, eu vou tocar aqui outra coisa. Aí eu toquei uma música chamada “Palavra mágica”, que era de gaveta, eu não costumava cantar em público, foi a primeira vez que toquei em um teatro. Mas ela estava na mão e eu estava muito nervosa, precisava ser uma que estivesse na mão. Toquei essa e saí do palco mal, mal, mal, me sentindo uma bosta, porque estava aquela câmera na minha cara e eu me sentindo irresponsável e não sei o quê. Eu chorei. O François, meu irmão, me abraçou e falou: “Você toca para as pessoas se sentirem assim? Você ia gostar que alguém que está te assistindo se sentisse assim?”. Eu falei: “Não”. E ele respondeu: “Então, por que está fazendo isso com você? Não precisa se sentir desse jeito”. Aí eu pensei: “Boto fé, gostei disso de fazer as pessoas que estão me assistindo se sentirem da forma que eu gostaria que elas se sentissem, e também me levar para esse sentimento. E aí nasceu o show Palavra Mágica, que é esse registro de um processo terapêutico em show e em disco. É o lugar em que eu coloquei as músicas que fizeram parte desse meu processo de cura, de saúde mental, e foi como dividi isso com o público, para levar todos nós para um lugar em que eu gostaria que a gente se sentisse. Foi um aprendizado que tirei desse dia do capotraste. E foi a partir daí que o show ganhou nome também, Palavra Mágica, que é dessa música, que agora está sempre no meu repertório. Essa história fala muito sobre mim, porque tive de ressignificar um momento que me fez sentir irresponsável, mal comigo mesma, e transformar isso em alguma coisa. É algo que costumo fazer na minha trajetória, uma ferramenta de sobrevivência que fui aprendendo a usar de formas diversas, em graus diversos. É uma história que fala muita coisa sobre mim.

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Augusto Cesar/Fotografia

Como você está? Tudo bem? Hoje não é tão natural responder “tudo bem”.
É verdade. É mais “em paz com o que tem”.

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Uma lovestory na Big Apple com o idioma do Sertão
Ainda que o funk seja um dos maiores movimentos da cultura brasileira, ele ainda é estigmatizado e alvo de preconceito por parte da sociedade
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O olhar do entregador

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Sem emprego, Allan Weber começou a fazer bicos de entregador durante a pandemia. Suas fotos do corre se tornaram livro e capa de revista
Especialistas no assunto dão dicas para quem ainda não lê quadrinhos e não sabe por onde começar