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MC Carol levanta as minas

Prestes a lançar "Borogodó", um novo álbum, a cantora e compositora fala sobre feminismo, racismo, gordofobia, política e música

por Beatriz Lourenço Atualizado em 13 Maio 2021, 16h03 - Publicado em 12 Maio 2021 00h00
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Clube Lambada/Ilustração

arolina de Oliveira Lourenço, mais conhecida como MC Carol de Niterói, é um dos nomes mais respeitados do movimento funk. Com 27 anos, a cantora e compositora se destaca por não ter medo de se posicionar sobre temáticas sociais e sexualidade. Além disso, ela desafia padrões e questiona os moldes que o mundo impõe às mulheres.

Foi o sentimento de inadequação que a fez se lançar na arte, uma alternativa aos trabalhos “normais” que a MC não queria fazer. E tudo isso começou aos 14 anos de idade, quando ela saiu da casa dos avós e precisou se sustentar sozinha no Morro do Preventório, no Rio de Janeiro. “Eu era uma criança muito criativa. Na escola, desenhava em camisetas e escrevia frases curtas. Com o tempo, essas frases foram crescendo e se tornaram músicas que eu cantei pela primeira vez quando estava bêbada e subi no palco de um baile funk”. 

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Mc Carol/Arquivo

Em suas letras, que costumam falar sobre sexo, também há espaço para criticar o machismo, o racismo e um país que não se importa com as minorias. Em “Não foi Cabral”, por exemplo, Carol contesta a história do Brasil contada na maior parte dos livros escolares. Já o hit “Delação premiada” fala sobre a morte de pessoas das comunidades por policiais militares. Em “Marielle Franco”, por sua vez, a cantora faz uma homenagem à vereadora, assassinada em março de 2018.


“Eu era uma criança muito criativa. Na escola, desenhava em camisetas e escrevia frases curtas. Com o tempo, essas frases foram crescendo e se tornaram músicas que eu cantei pela primeira vez quando estava bêbada e subi no palco de um baile funk”

Durante a pandemia, a artista lançou o single “Levanta mina”, produzido pelo DJ Thai, primeiro do álbum Borogodó – que tem lançamento previsto para o mês de maio. Segundo ela, a canção foi escrita em um momento em que estava “pra baixo” por não poder subir aos palcos. “Fiz essa música para mim, a história dela é a minha história. Mas ela também visa ajudar mulheres que passam por dias difíceis e sentem que não se encaixam”. O clipe, dirigido por Mariana Jaspe, mostra a importância da pluralidade ao exaltar mulheres cis, trans e pessoas bigênero. Em uma entrevista divertida, mas cheia de reflexões, MC Carol fala sobre temas importantes para si e revela como foi começar um processo de psicoterapia. 

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Como a pandemia está sendo para você? O que você tem feito neste momento longe dos palcos?
No começo, sentia muita desesperança e fiquei muito triste pois achei que o mundo ia acabar. O que eu mais gosto de fazer na vida é estar em cima do palco recebendo a energia do público e isso não tem acontecido há mais de um ano. Senti alívio quando minha psicóloga disse que ficar assim durante a pandemia é normal. Além disso, com a chegada da vacina, foi possível ver uma luz no fim do túnel. Ainda assim, me preocupo, porque financeiramente eu estou bem, mas penso nas pessoas que não estão, nos artistas, aqueles que perderam o emprego e quem mora nas comunidades. 

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Vicent Rosenblatt/Fotografia

Recentemente, você lançou a música “Levanta mina”, que fala sobre inclusão, diversidade e empoderamento. O que te inspirou a criar o single?
Eu fiz essa música para mim, a história dela é a minha história. Mas ela também visa ajudar mulheres que passam por dias difíceis e sentem que não se encaixam. Na minha vida, acontecem coisas ruins que eu sei que têm a ver com a minha cor e com o meu corpo. Há pouco tempo, por exemplo, eu terminei um relacionamento porque eu vi papos com várias mulheres no telefone do cara. Todas elas tinham o mesmo padrão: magras e brancas. Eu lidei com isso fazendo música e dinheiro, mas eu sei que nem todo mundo consegue transformar o caos em coisas boas.


“Na minha vida, acontecem coisas ruins que eu sei que têm a ver com a minha cor e com o meu corpo. Há pouco tempo, por exemplo, eu terminei um relacionamento porque eu vi papos com várias mulheres no telefone do cara. Todas elas tinham o mesmo padrão: magras e brancas”

A letra diz: “É difícil estar feliz com tanta cicatriz / É difícil se amar sendo excluída, olhar pra TV e ainda ver paquitas”. Essa é uma sensação que passa por todas as mulheres pretas, principalmente as que também são gordas. Uma mulher branca e uma mulher negra não são vistas como iguais, assim como uma mulher magra e uma mulher gorda também não. Somos muito desvalorizadas e as últimas a serem assumidas. Na comunidade, a maioria das mulheres pretas criam filhos sozinhas já que os homens as abandonam. Além disso, quando ligamos a televisão, quem são as apresentadoras? Quem são as mulheres nas capas das revistas? As pessoas acham que eu me aceito 100%, mas me amar assim é impossível em um país onde vejo cirurgias plásticas o tempo todo. O processo de aceitação é muito longo, diário e muito difícil. Para mim, empoderamento tem a ver com a independência da mulher, não com beleza. Eu me sinto muito poderosa morando na minha casa, me sustentando com meu dinheiro e sem depender de ninguém. 

O que você pode nos contar sobre seu novo álbum?
Que ele sai ainda em maio! O nome é Borogodó, ou seja, algo que é ruim, mas que atrai pessoas e ninguém entende o por quê. Vai ser ruim – mas comprem. Eu digo ruim porque a qualidade das músicas do funk não é a mesma daquelas produções com muito investimento. O álbum também é engraçado e vai servir para rir e para dançar – em casa. Ele fala sobre os últimos episódios da minha vida e de tudo isso que tem acontecido nos relacionamentos. Eu misturei o caos com o cômico na hora de fazer os versos. Fiz música sobre esse último namoro e, até o álbum ser lançado, eu já vou ter entrado em outro, arrumado problema e, com certeza, isso também vai estar lá.

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Mc Carol/Arquivo

Como o funk entrou na sua vida e o que ele significa para você?
O funk é mais do que o meu trabalho, é a minha independência. Mas não era meu sonho ser funkeira. Meus avós, que me criaram, queriam outra coisa para a minha carreira. Tanto que não cresci ouvindo funk e nem putaria – em casa, inclusive, eu ouço mais Cartola, jazz, música espanhola, Roberto Carlos e instrumental turco. 

Aos 14 anos, fui morar sozinha e a música me encontrou em um momento no qual estava me sentindo sozinha, perdida e completamente invisível. Eu era uma criança muito criativa e, na escola, desenhava em camisetas e escrevia frases curtas. Com o tempo, essas frases foram crescendo e se tornaram músicas que eu cantei pela primeira vez quando estava bêbada e subi no palco de um baile funk. Em três meses, já estava no DVD da Furacão 2000 e ele estourou, não foi nada planejado. De lá para cá, teve muita evolução na minha carreira, ontem mesmo apareceu uma lembrança do Facebook de oito anos atrás na qual eu estava pedindo balde de água para os meus vizinhos. Hoje, eu não preciso mais disso. 

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Você tem letras marcantes como “Não foi Cabral”, que questiona a narrativa da história do Brasil, e “Marielle Franco”, que fala sobre feminismo, racismo e política. É necessário se posicionar sobre esses temas?
Eu acredito que nasci feminista. A minha primeira música foi “Vou largar de barriga”, que fala sobre um cara que diz que iria me engravidar e me abandonar – o que é muito normal de onde eu venho. Essa música foi uma resposta para essa situação, em que eu o critico e digo que vou procurar meus direitos. Isso não aconteceu diretamente comigo, mas com várias garotas que conheci. As pessoas falam que eu sou vulgar, mas eu acho que cantar o que eu canto é ser feminista. O homem fala sobre putaria o tempo todo, onde quer e no tom que quer. Por que quando a mulher fala sobre sexo é tão assustador? Fui conhecer o termo “feminismo” só em 2016 e, pensando nisso, fiz a música “100% feminista”. Assim, as pessoas que não sabiam o significado da palavra poderiam se interessar, pesquisar e entender. 

Em relação aos outros temas, eu sempre quis me posicionar, mas nunca consegui. No mundo do funk, quando comecei, existia o funk pop, o putaria e o proibidão. Se você falasse sobre racismo, dia a dia na favela e tiroteio, por exemplo, você era visto como MC de proibidão e esses são perseguidos pela polícia e por outras facções. Isso é perigoso e eu não tinha como cantar esse tipo de coisa, já que não era possível viver com seguranças. Quando eu saí do Preventório, em Niterói, eu achei que era o momento de falar. Foi aí que escrevi a “Delação premiada”, mas coloquei em batida de rap e trap por serem ritmos mais aceitos na sociedade. Essa é uma música que eu não poderia cantar dentro de uma comunidade onde a polícia invadia o tempo todo.


“As pessoas falam que eu sou vulgar, mas eu acho que cantar o que eu canto é ser feminista. O homem fala sobre putaria o tempo todo, onde quer e no tom que quer. Por que quando a mulher fala sobre sexo é tão assustador?”

Quando a Marielle foi morta fiquei muito irritada com quem se calou. Hoje, com mais maturidade, entendo a complexidade que é um artista preto se posicionar porque, para chegar até a fama, ele é sabotado o tempo inteiro e, quando ele chega, tem um roteiro a ser seguido do que pode ou não fazer. Isso impacta os patrocínios, a gravadora, os investidores… Eu trabalho de forma independente justamente para não ter medo de um contrato. Há um preço muito alto que se paga por estar nesse meio, precisa ter muito amor pela música e pelo funk. Se eu tenho dez anos de carreira, seis foi sofrendo sem receber por shows, fazendo música de graça e ganhando menos do que deveria. Mas, hoje, quando eu fico muito deprimida, olho o saldo da minha conta e fica tudo certo.

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Vicent Rosenblatt/Fotografia

Em 2018, você foi candidata a deputada estadual do Rio de Janeiro pelo PCdoB, o que te incentivou?
Na época eu queria mudar muita coisa, hoje eu só quero fazer minha parte no mundo com a minha música. Eu achava que era fácil fazer as pessoas enxergarem o outro lado. Com o passar do tempo, eu entendi que, se eu entrasse para a política, minha vida iria mudar drasticamente e eu teria que largar a vida de artista, já que estaria vulnerável em cima do palco. Além disso, eu não conseguiria tocar os projetos sozinha, precisaria de apoio de mais pessoas que são, em sua maioria, brancos, homens e aqueles que não se interessam por projetos para as comunidades, para a cultura e para a educação. 

Eu tinha um projeto de colégio integral para ajudar as mães que trabalham o dia todo e deixam os filhos na rua. Essas crianças acabam se envolvendo com drogas e, geralmente, entram para o crime. Outra vontade era abrir os olhos para as superlotações dos presídios, e para a importância da reinserção dessas pessoas na sociedade. Eu acredito que a solução da violência é tratar a raiz do problema, ou seja, investir na educação, na arte e no esporte. 

Você é uma pessoa que fala muito sobre sexualidade na internet e em suas canções. Sempre foi assim ou o sexo já foi um tabu para você?
Eu comecei a cantar sobre sexo antes mesmo de perder a virgindade. Dizia que fazia e acontecia sem nunca ter feito nada. Eu nunca conversei com a minha família sobre isso, mas na rua eu falava abertamente porque queria ser vista e respeitada como um homem. Colocaram na minha cabeça que, como mulher, eu era fraca. Assim, passei a falar, agir e me vestir como os meninos. Ainda hoje sou assim com os meus amigos, eles até me apelidaram de “Rodrigo”.  

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