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Por dentro do Miss Trans

Entre realizar sonhos e perpetuar estereótipos que só machucam, estivemos nos bastidores de um concurso de beleza para travestis e mulheres trans

por Alexandre Makhlouf 22 dez 2021 01h19
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uando você ouve a expressão “concurso de beleza”, um imaginário cheio de holofotes, vestidos coloridos, mulheres extremamente bonitas, além de diversos desejos pela paz mundial, vêm imediatamente à cabeça. Boa parte de nós cresceu tendo contato com as transmissões do Miss Brasil e do Miss Universo em rede nacional, em que mulheres de todos os Estados do Brasil e de diversos países do mundo, respectivamente, competiam pelo título de mais bonita, símbolo do que seria um ideal de beleza feminino. Nem precisamos dizer, no entanto, que estamos abrindo a cabeça como sociedade nos últimos anos para ressignificar os conceitos de belo e entender que muitos dos padrões que delimitam essa noção, na verdade, aprisionam e reforçam preconceitos que mexem demais com a nossa autoestima.

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Dan Agostini/Fotografia

Isso não significa, no entanto, que os concursos de beleza tenham perdido seu apelo para muitas mulheres. Em especial para muitas mulheres trans e travestis, que assistiam a esse desfile de mulheres consideradas lindas e admiradas por todos enquanto elas mesmas, ainda antes da transição, não entendiam o que o futuro reservava. Realizar o sonho de ser essa mulher e desfilar em um palco, sob o som dos aplausos e dos olhares admirados da plateia, é uma das principais motivações do Miss Trans, concurso de beleza dedicado a mulheres trans e travestis que acontece há 27 anos – começou em 1994, com o nome de Miss Brasil Transex. “Foi a realização de um sonho de criança, desde antes de me tornar uma mulher trans, de antes da minha transição. Quando eu era um garotinho de 10 anos, sonhava em ser miss, era uma coisa que já imaginava participar mesmo sem nem saber que eu ia ser o que era hoje. Meu sonho era estar naquele palco”, conta Esmeralda Barroso, participante que representou o Amazonas na competição deste ano. 

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Dan Agostini/Fotografia
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Quem organiza tudo praticamente sozinha é Rosana Star, carioca, contorcionista, produtora e também transexual. Rosana trabalhou no circo, morou na Suíça, se apresentou em cabarés burlescos pela Europa e, de volta ao Brasil na década de 1990, foi empresária de Roberta Close e apareceu em diversos programas de TV da época – como A Praça É Nossa e o Show de Calouros de Silvio Santos. 

“Foi a realização de um sonho de criança, desde antes de me tornar uma mulher trans, de antes da minha transição. Quando eu era um garotinho de 10 anos, sonhava em ser miss, era uma coisa que já imaginava participar mesmo sem nem saber que eu ia ser o que era hoje. Meu sonho era estar naquele palco”

Esmeralda Barroso
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Dan Agostini/Fotografia

“A primeira edição do evento aconteceu no teatro Elis Regina, a gente levava famílias para assistir, sempre dando oportunidade e empoderamento para as meninas. Minha vontade sempre quis de que a gente ocupasse um espaço na sociedade. Em 2021, foi tudo muito difícil, faltou mais apoio financeiro do que normalmente”, explica Rosana, reforçando que sempre fornece o maiô e a faixa para as participantes a fim de tentar equiparar a oportunidade entre as meninas. “O vestido de gala eu oriento que, quem não tiver grana, bata na porta de ONGs para conseguir. Sou brasileira e acredito nas oportunidades para todos. Poderia ser melhor, eu sei, já que não tivemos dia para ensaiar porque não cedem o teatro por dois dias para um evento como o nosso. Espero que a mídia passe a cobrir mais esse eventos para todos entenderem a importância do Miss Trans. Precisamos dar o cenário para que as meninas entendam que elas podem tudo e sejam suas melhores versões”, complementa.

“A primeira edição do evento aconteceu no teatro Elis Regina, a gente levava famílias para assistir, sempre dando oportunidade e empoderamento para as meninas. Minha vontade sempre quis de que a gente ocupasse um espaço na sociedade”

Rosana Star

A representatividade envolvida em um evento desse tipo e desse porte é, sem dúvidas, inegável. E confirmada pelas meninas que participam. “Ser vista, saber que minha beleza manauara é reconhecida, poder levar minha cultura e minha beleza para o Brasil todo não tem preço. Também conheci muitas meninas trans legais, humildes, com histórias diferentes e sofrimentos diferentes, mas que compartilhavam do meu sonho. Isso foi o mais legal de ter participado. Além disso, a sensação de desfilar como uma miss, de poder realizar um sonho, é incrível”, continua Esmeralda.

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Dan Agostini/Fotografia

Nem tudo são flores…

Mas o sonho de ser miss e participar de um concurso de beleza sofreu alguns golpes nas coxias do Teatro Alfredo Mesquita, onde rolou o evento no último dia 14. Se, em cima do palco, o clima era de realização, beleza e missão cumprida, por trás das cortinas teve frustração, decepção e até bate boca. Como Rosana, a própria organizadora do evento, relatou, tudo poderia ter sido melhor. A falta de investimento obrigou que muita coisa, como maquiagem e cabelo para as participantes, fosse acordada na base da boa vontade e de pessoas voluntárias. O que não teria problema algum, não fosse o fato de os profissionais que se ofereceram para estar não terem aparecido de última hora, deixando na mão muitas mulheres que contavam com isso.

A falta de investimento obrigou que muita coisa, como maquiagem e cabelo para as participantes, fosse acordada na base da boa vontade e de pessoas voluntárias. O que não teria problema algum, não fosse o fato de os profissionais que se ofereceram para estar não terem aparecido de última hora

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Dan Agostini/Fotografia

Outro ponto negativo que pegou as participantes – e a organização do Miss Trans – de surpresa foi a ausência de uma premiação final. Não que isso não estivesse nos planos: Rosana tinha conseguido uma parceria com uma clínica que ofereceria, de forma gratuita, um procedimento de harmonização facial para a ganhadora. Também de última hora, a instituição desistiu do acordo e a ganhadora, Nicolle Araújo, representante do Rio de Janeiro, voltou para casa apenas com a coroa e o título de Miss Trans 2021. “A importância do prêmio para as mulheres trans, transsexuais e travestis é porque muitas de nós depende da prostituição. E como muitas de nós faz programa em São Paulo, a concorrência é alta e a grana é pouca. Um prêmio em dinheiro é uma ajuda financeira que vocês nem imaginam”, explica Esmeralda.

Por falar em harmonização facial, é preciso pontuar também outra crítica relatada por pessoas que estiveram no evento – participantes, funcionários da organização e voluntários. Por que um concurso que se diz mais democrático, que quer dar oportunidades iguais às trans e travestis que participam, só premiou mulheres que apresentavam muitas intervenções cirúrgicas no corpo e no rosto? Veja, essa não é uma crítica apenas ao padrão de beleza estabelecido socialmente para todas as mulheres, algo que não é a primeira vez que falamos na Elástica. Isso é também para lembrar que, especialmente no caso de mulheres T e travestis, procedimentos estéticos e cirúrgicos, como harmonizações faciais, cirurgias de implante de silicone e outros, são sinônimo de uma grande quantia de dinheiro gasta por essa garotas, o que acaba fazendo um recorte de classe na premiação e frustrando as participantes mais humildes que, ao verem os resultados, ficam chateadas e até perdem o interesse de participar novamente no futuro.

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Dan Agostini/Fotografia

Mas vale a pena

Mesmo com todos os problemas, muitos deles que reforçam o descaso estrutural da sociedade, das empresas e das pessoas no geral com a população T, a existência do Miss Trans em 2021, em meio a pandemia e a um desgoverno em curso, é por si só motivo de comemoração. “É muito importante existirem concursos de beleza para mulheres trans. Nós nos sentimos mulheres e também queremos ocupar um lugar de destaque na sociedade. Somos seres humanos como todo mundo, querendo apenas respeito e viver. Estamos lutando para sobreviver em uma sociedade hipócrita, machista, que se diz conservadora, mas não é”, pontua Priscilla Portilho, participante que representou o Mato Grosso do Sul e detentora da faixa de Miss Trans 2019. Ela reforça que também sempre assistiu ao Miss Brasil e ao Miss Universo desde criança e tinha a aspiração de, um dia, poder participar e ser eleita miss. “Um concurso como esse pode mudar a vida de uma garota trans, pode nos levar para lugares onde sempre sonhamos e que antes achávamos impossível de chegar.

“É muito importante existirem concursos de beleza para mulheres trans. Nós nos sentimos mulheres e também queremos ocupar um lugar de destaque na sociedade. Somos seres humanos como todo mundo, querendo apenas respeito e viver”

Priscilla Portilho
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Dan Agostini/Fotografia

Algumas arestas precisam ser aparadas, é verdade, para que a experiência seja mais positiva do que negativa para boa parte das meninas que participam. Ainda que em um cenário caótico de bastidores, quando muitas descobriram que não teriam maquiadores e cabeleireiros para ajudar na produção, Dan Agostini, fotógrafe que fez a cobertura do Miss Trans 2021 e autora dos cliques que você vê nessa matéria, relata que foi bonito de ver as participantes se ajudando para que todas pudessem subir ao palco se sentindo bonitas. “Também achei muito legal que a Rosana fez questão de convidar mulheres que estão em situação de vulnerabilidade. Este ano, o concurso fez parceria com a Casa Florescer, o que possibilitou que uma mulher que mora lá desfilasse e outras ex-moradoras também”, completa Dan.

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Dan Agostini/Fotografia

“É importante que mulheres trans possam participar de concursos em que as mulheres cis já participam, todas nós podemos competir sem prejudicar a outra. Todas nós devemos competir com nós mesmas e estar ali pra se divertir”, Priscilla deseja. “Acredito que podemos ajudar umas às outras, sermos companheiras e amigas. Não é porque vamos participar de um concurso de beleza que precisamos estar uma contra a outra. Muitas meninas ainda precisam aprender isso.”

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