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Autonomia versus Transódio

A busca por autonomia de pessoas trans e travestis é semelhante, em muitos casos, ao processo de colar um vaso que quebraram ainda na sua infância

por Uma Reis Sorrequia Atualizado em 28 jun 2021, 14h49 - Publicado em 27 jun 2021 22h34
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Clube Lambada/Ilustração

ara encerrar mais um mês do orgulho, vamos conversar sobre um assunto de fundamental importância: a autonomia de pessoas trans e travestis. Para introduzir o tema, gostaria de começar por um diálogo entre Damon e Blanca Evangelista, personagem transexual interpretada pela atriz também transexual MJ Rodriguez, presente no primeiro episódio da primeira temporada da série estadunidense Pose do canal FX e disponível na Netflix.

Damon pergunta: “Você tem um emprego de verdade ou… “Ao que ela prontamente responde: “Não julgo as pessoas pelo modo como vivem. Eu tenho sorte, posso me ‘passar’ por mulher, tomei hormônios e sei como agir. Eu escondi dos meus pais quem eu era por muito tempo. Eu esperava eles dormirem, me maquiava, me montava e fugia para os bailes, voltando antes deles acordarem. Eu me achava muito esperta!”

E Blanca continua: “Aí, no Dia de Ação de Graças… eu jamais me esquecerei! Minha mãe só me olhava e sorria, desviando o olhar. Então, finalmente eu a perguntei: “Mãe, por que você está sorrindo?”. Sabe o que ela disse? ‘Você se acha tão esperto. Eu vejo aquela mocinha que entra e sai do seu quarto escondida tarde da noite’. Eu me engasguei! O susto foi tão grande que não consegui falar nada. Então, ela disse que não estava brava, mas aliviada por eu não ser um daqueles “gays pecadores”.

Nesse momento, Damon expressa incredulidade: “Meu deus! O que você fez?” E Blanca conta a ele o que disse a sua mãe: “Mãe, aquela não era uma moça estranha entrando aqui escondida, era eu. Eu não sou gay e não sou pecador. Eu sou uma mulher, mãe. Não sou seu filho, mas sua filha”. Blanca respira fundo e prossegue: “Ela não tolerou isso. Ela me expulsou de casa e de seu coração. Eu chorei feito um bebê e fui embora sem olhar para trás.”

“Quando você é rejeitada pela sua mãe, pelo seu pai, você vive procurando alguém para substituir o que falta”

Já terminando essa cena, Blanca exprime o que significa a longa busca por autonomia de pessoas trans e travestis: “Quando você é rejeitada pela sua mãe, pelo seu pai, você vive procurando alguém para substituir o que falta”. A procura da qual se refere Blanca, não é o amor materno/paterno, mas o respeito a quem somos da sociedade na qual vivemos. O que nos falta é o sentimento de pertencimento social, estamos quase sempre tentando nos “encaixar” ao modo de vida preestabelecido que nos foi arrancado: família, educação, trabalho, convívio social etc. Em uma sociedade marcadamente cis-sexista, que nega a existência de pessoas trans e travestis, e que, por consequência, impõe um regime de apartheid dessa parcela da população.

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Creio que a história ficcional contada por Blanca é a história vivida pela maioria de nós travestis e mulheres transexuais brasileiras, ainda que separadas por milhares de quilômetros de distância e em contextos sociopolíticos e culturais tão distintos um do outro, me lembrando um trecho da música “Travesti” de 1978, que em um de seus versos diz: “Eu sou a violência personificada”, pois se há algo que compartilhamos em nossos relatos de vida são as marcas da violência transodiante.

Falar em transódio, e não em transfobia, implica uma politização da palavra fobia (patologia, transtornos fóbico-ansiosos, caracterizada por medo ou aversão persistente a um objeto ou uma situação, classificada pelo Código Internacional de Doenças (CID): CID 10 – F40.), que invisibiliza a violência de um cis-tema que opera, racionalmente, criando esse tipo de ódio, de base social e cultural (preconceito), dirigido às pessoas trans e travestis. Quando falamos em transfobia convertermos o transfóbico em vítima de sua própria condição patológica, o que carece de responsabilidade por suas ações, pois violentar alguém por sua identidade de gênero não é uma enfermidade, portanto não é uma fobia. O que explica, em partes, uma leitura social e midiática de que somos violentas, porém nunca violentadas, é dizer, a responsabilidade dos atos transodiantes recaem sobre as pessoas trans e travestis, culpabilizando as vítimas de violência transodiante, exclusivamente, por serem quem são.

“Quando falamos em transfobia, convertermos o transfóbico em vítima de sua própria condição patológica, o que carece de responsabilidade por suas ações, pois violentar alguém por sua identidade de gênero não é uma enfermidade, portanto não é uma fobia”

Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), a expectativa de vida da população trans e travesti no Brasil é de 35 anos – enquanto a expectativa de vida da população cisgênero é de 75 anos, em média. Ainda segundo a ANTRA, o Brasil é o “campeão mundial” no assassinato de travestis e mulheres transexuais: entre os anos de 2017 e 2020, foram registrados 623 travesticídios e transfeminicídios no Brasil, dos quais, aproximadamente, 80% das vítimas eram negras (pretas e pardas) e 60% tinham entre 15 e 29 anos. Corroborando as afirmações de que o transódio é um vício branco e parte do genocídio da juventude negra brasileira, conforme aponta Maria Clara Araújo, pedagoga, ativista e articuladora política.

O assassinato de pessoas trans e travestis brasileiras corresponde, anualmente, a quase metade dos assassinatos dessa população globalmente, segundo a ONG Transgender Europe. Já nos primeiros 4 meses de 2021, a ANTRA registrou 54 assassinatos de travestis e mulheres transexuais e 2 homens trans. É também significativo e grave o número de tentativas de assassinatos, suicídios e violações de direitos humanos apresentados pela ANTRA.

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Arte/Redação

Por outro lado, o site RedTube entre outros sites internacionais de pornografia, colocam o Brasil como o país que mais consome pornografia com pessoas trans e travestis no mundo desde 2016. De acordo com estimativas da ANTRA, 90% da população de travestis e mulheres transexuais brasileiras está na prostituição como única fonte de subsistência, majoritariamente, travestis e mulheres transexuais negras; 6% se encontram em atividades informais e subempregos e apenas 4% em empregos formais.

Um estudo inédito realizado na cidade de São Paulo, entre novembro de 2019 e novembro de 2020, pelo Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (CEDEC), a partir de contrato firmado com a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) e recursos provenientes de emenda parlamentar do Vereador Eduardo Suplicy, mapeou parte da população trans e travesti da capital paulista. Das 1.788 pessoas trans e travestis entrevistadas, 18% haviam concluído o Ensino Fundamental I, 20% o Ensino Fundamental II e 51% o Ensino Médio – desses últimos, apenas 12% haviam concluído o ensino superior. Em relação a identidade de gênero, observou-se que as categorias de homens trans e pessoas não binária possuem maiores índices de conclusão do ensino médio (64% e 68% respectivamente) que mulheres trans (48%) e travestis (39%), bem como de conclusão do ensino superior. Considerando a centralidade do marcador de raça/etnia, a hipótese é que exista uma diferença percentual entre mulheres transexuais e travestis brancas e negras, as primeiras possuindo maiores índices de escolaridade.

O assassinato de pessoas trans e travestis brasileiras corresponde, anualmente, a quase metade dos assassinatos dessa população globalmente, segundo a ONG Transgender Europe

A nível nacional, uma pesquisa divulgada este ano pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) mostra que população trans e travesti presente nas universidades federais é de 0,3% do total de estudantes – em números absolutos, são apenas 2.924 estudantes trans e travestis.

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Dan Agostini/Fotografia

Falta afeto e trabalho

O diálogo entre Damon e Blanca Evangelista captura com lentes de aumento e excelência o momento em que se tem início o ciclo de expulsão de casa e do convívio familiar – exclusão da escola e do ambiente educativo, que termina por nos empurrar, compulsoriamente, à prostituição e ao trabalho sexual desde tenra idade.

Segundo o mapeamento realizado pelo CEDEC em São Paulo, 37% das travestis e 31% das mulheres trans “deixaram” de morar com os pais por razão de sua identidade de gênero com 15 anos ou menos. Outros 42% de travestis e 49% de mulheres trans “deixaram” suas casas entre 16 e 20 anos, totalizando 79% e 81% de travestis e mulheres transexuais, respectivamente, que “saíram” do ambiente e do convívio familiar ainda na infância e adolescência.

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Arte/Redação

Em entrevista a Verónica Dema, do jornal argentino La Nación, em agosto de 2011, Lohana Berkins – travesti argentina, ativista, “intelectual popular” e uma das vozes mais potentes do Movimento Trans e Travesti Latino-Americano –, quando questionada sobre os problemas “trabalhistas” que afetam as travestis, responde: “A sociedade gera um pânico geral sobre nossa sexualidade e nossas identidades: no imaginário coletivo, somos agressivas, ladras, “aidéticas”, escandalosas, exibicionistas. Todo um arsenal de questões negativas que estão sobre nós. Então, o que acontece? A sociedade, perversamente, nos gerou um papel de que as ‘travas’ só podem se prostituir. Não pensam em nós em termos de políticas públicas, senão que em termos de zonas de prostituição, sem que as tenhamos pedido. Nunca vi uma manifestação de travestis pedindo por uma zona de prostituição, mas seguimos reivindicando por políticas públicas. Criou-se essa história de que nós só servimos para a prostituição e não nos veem como forças produtoras de trabalho, não nos veem com capacidades para fazer qualquer outra coisa.”

“A sociedade perversamente nos gerou um papel de que as ‘travas’ só podem se prostituir. Não pensam em nós em termos de políticas públicas, senão que em termos de zonas de prostituição, sem que as tenhamos pedido. Nunca vi uma manifestação de travestis pedindo isso, mas seguimos reivindicando por políticas públicas”

Lohana Berkins

Em diálogo com Lohana, venho denunciando em minhas falas, reiteradamente, a lógica perversa que nos atravessa nesse sentido laboral e de modo mais amplo, pois não conseguimos coletivizar os avanços e as conquistas duramente alcançadas por meio de luta organizada nas duas últimas décadas. Como eu digo, a inexistência de uma classe média trans e travesti, ou seja, de pessoas trans e travestis com emprego formal e carteira assinada em postos de trabalho banais, comuns, corriqueiros e ordinários, e, principalmente, à luz do dia, como: atendente de padaria/lanchonete, caixa de supermercado,  recepcionista em consultório, vendedora de loja, entre outros, dão conta do abismo entre uma pequena parcela de pessoas trans e travestis (artistas, intelectuais e trabalhadoras formais) da grande maioria de nós, que se encontra na prostituição, sem-teto e/ou em privação de liberdade.

A naturalização de nossa presença nesses espaços e instituições se dá pela nossa ausência em outros, como, por exemplo: a família, a escola, a universidade, o escritório, a fábrica, a feira, o hospital, a igreja, o museu, as praças e parques, o shopping, o supermercado, o transporte público, entre outros. Em um país como o Brasil, não servimos nem para empregada doméstica.

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Dan Agostini/Fotografia

Falta casa

Ainda segundo o levantamento do CEDEC, 16% da população trans e travesti do município de São Paulo é uma população sem-teto, somatória de pessoas em situação de rua, residentes em albergues e centros de acolhida e moradores de ocupações. Esse número salta para 32% em relação às travestis. Elas também aparecem em outro dado alarmante: 46% se declararam profissionais do sexo, acompanhantes e garotas de programa; mulheres trans são 34%. Não foi observado homens trans nessas ocupações e, entre as pessoas não binárias, o índice foi de apenas 3%. Na soma da ocupação principal mais a secundária, aquela para complementar a renda, 71% das travestis e 66% das mulheres trans desenvolvem atividades relacionadas ao mercado do sexo.

Dados do CEDEC sobre trabalho e renda apontam também que o tipo de vínculo de trabalho mais comum entre as travestis é o emprego informal ou autônomo, temporário e sem contrato – o popular “bico” – que alcança 72% de nós. Esse tipo de relação de trabalho é a mais comum também entre as mulheres trans (62%) e pessoas não binárias (59%). A exceção, nesse caso, ocorre entre os homens trans, em que o emprego formal com carteira assinada é a relação de trabalho mais significativa, representando 49% dos ocupados.

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Arte/Redação

Um estudo liderado pela Mandata Quilombo da deputada estadual em São Paulo Erica Malunguinho com a participação de ativistas e organizações atuantes nas prisões com foco nas questões de gênero e sexualidades menciona que, em janeiro de 2020, a Secretaria da Administração Penitenciária do Estado de São Paulo (SAP/SP), responsável pela gestão da maior população carcerária do país, consolidou um levantamento sobre a população LGBTI+ privada de liberdade nas cadeias paulistas. No documento, denominado DiversiDADOS, é possível estimar o percentual de pessoas LGBTI+ em situação de aprisionamento e a sua distribuição entre as 175 unidades prisionais espalhadas pelo Estado. Em um universo prisional de 238.659 pessoas presas, a população LGBTI+ representa 2,44% desse total, ou seja, 5.680 pessoas. Com base na pesquisa da SAP/SP, considerando os números obtidos em outubro de 2019, o Estado de São Paulo custodia: 2.471 bissexuais; 1.375 lésbicas; 953 gays; 565 travestis; 239 mulheres transexuais; 65 homens trans; 7 assexuais; e 5 intersexos. A partir do estudo indicado, a Elástica apurou que o percentual de pessoas trans e travestis (869) em privação de liberdade no Estado é de 0,37% com relação ao percentual de pessoas LGBTI+.

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Dan Agostini/Fotografia

Falta saúde

Em março de 2020, eu publicava em meu perfil pessoal no Instagram, um breve texto, entitulado “A gente só falava de aids quando os brancos morriam”, juntamente de um print que denunciava a omissão civil e do Estado perante o genocídio da população negra brasileira comparado ao alvoroço midiático dado, naquele momento, a morte de 5 mil pessoas, em sua maioria, brancas e europeias em decorrência do COVID-19 ao redor do mundo.

Creio que o Movimento Nacional LGBTI+, representado por um expressivo número de grupos, coletivos, organizações e associações espalhados por todo o país, logrou na última década visibilizar e qualificar o debate em torno da violência LGBTfóbica no Brasil, em grande medida, por meio dos dados de assassinatos, suicídios, “evasão” escolar, bullying em espaços educativos etc., tanto da população LGBTI+ como da população trans e travesti brasileira.

Ao mesmo tempo, e de forma desonesta, se esqueceu das pessoas vivendo com HIV/aids no país, reservando o Dezembro Vermelho, mês de conscientização e combate à aids, para abordar uma pauta que nos atravessa, estrutural e institucionalmente, enquanto comunidade. Em um processo higienista, buscando “limpar” e desvincular o imaginário social “estigmatizador” que associa o HIV/aids, de modo ancestral, à população LGBTI+. E,  num segundo momento, em razão da mudança dos marcadores sociais da diferença das pessoas soropositivas, que na atualidade é majoritariamente negra e pobre. Convertendo uma epidemia viral em uma epidemia social com um outro tipo de vírus, o colonial, presente em terras tupiniquins desde à chegada das caravelas e longe de ser erradicado, segundo Ronaldo Serruya, ator, dramaturgo, pesquisador e idealizador do projeto “Como eliminar monstros”, um estudo dos discursos artísticos produzidos em torno do HIV/aids. Ronaldo comenta que esse processo, na verdade, esconde um olhar para a história ainda com vergonha e culpa, olhar esse neoliberal cis hétero e branco sobre a epidemia.

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Dan Agostini/Fotografia

Segundo dados publicados no Boletim Epidemiológico de HIV/aids de 2020, do Ministério da Saúde, no período de 2007 a junho de 2020, 52,7% dos casos de infecção pelo HIV ocorreram na faixa etária de 20 e 34 anos. Com relação à raça/etnia autodeclarada, entre os casos registrados no mesmo período, 50,7% eram negros. O percentual é maior entre mulheres negras, 54,3%, contra 49,2% entre homens negros.

Segundo a categoria de exposição, também no período de 2007 a junho de 2020, em indivíduos maiores de 13 anos, 51,6% dos casos foram decorrentes de exposição “homossexual ou bissexual entre homens”, aqui incluídos homens gays e bissexuais, travestis e mulheres transexuais. O Ministério da Saúde, por meio da Secretaria de Vigilância em Saúde, reitera, ano após ano, uma violência institucional transodiante ao desrespeitar a identidade de gênero feminina de mulheres transexuais e travestis, agrupando-as na categoria de homens que se relacionam com homens, e considerando gays os homens que se relacionam conosco. O que produz uma subnotificação dos casos entre os dois grupos: homens gays e bissexuais, e mulheres transexuais e travestis.


“O Ministério da Saúde, por meio da Secretaria de Vigilância em Saúde, reitera, ano após ano, uma violência institucional transodiante ao desrespeitar a identidade de gênero feminina de mulheres transexuais e travestis, agrupando-as na categoria de homens que se relacionam com homens, e considerando gays os homens que se relacionam conosco. O que produz uma subnotificação dos casos entre os dois grupos: homens gays e bissexuais, e mulheres transexuais e travestis”

Do total de casos diagnosticados de aids no Brasil no ano 2020 (11.876), 71% (8.434) foram observados entre homens e 29% (3.442) entre mulheres. Quanto à categoria de exposição entre os indivíduos maiores de 13 anos, observou-se o predomínio da categoria de exposição “homo/bissexual entre homens” (39,8%). Quando analisados os casos de aids nos últimos onze anos (2009-2019) e a distribuição dos indivíduos pela categoria de raça/etnia, observou-se queda de 51,0% na proporção de casos entre pessoas brancas. No mesmo período, as reduções foram de 36,4% entre pessoas pretas, 26,8% entre a população indígena, 17,6% entre pessoas pardas, e 14,7% entre pessoas amarelas. No ano de 2019, as proporções observadas foram de 56,4% e 59,3% entre homens e mulheres negras, respectivamente.

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Arte/Redação

Quando distribuídos proporcionalmente os óbitos notificados no ano de 2019 por raça/etnia, observaram-se 61,7% de óbitos entre negros (47,2% pardos e 14,5% pretos), 37,7% entre brancos, 0,3% entre amarelos e 0,3% entre indígenas. A proporção de óbitos entre mulheres negras foi superior à observada em homens negros: 62,1% e 61,4%, respectivamente. Realizando-se uma comparação entre os anos de 2009 e 2019, verificou-se queda de 21% na proporção de óbitos de pessoas brancas e crescimento de 19,3% na proporção de óbitos de pessoas negras.

Considerando o total de óbitos por causa básica de aids no ano de 2019, 10.565 pessoas, segundo levantamento da Elástica, estamos falando de 6.518 pessoas negras que vieram a óbito por causa básica de aids, sendo uma parte delas homens gays e bissexuais, travestis e mulheres transexuais, porém nem o movimento negro nem o movimento LGBTI+ estão em luto, em luta, mas comemorando o mês do orgulho. “Vivemos em um país no qual o acesso ao tratamento para o HIV é universal, público, gratuito e de qualidade, reconhecido internacionalmente. Ou seja, por que essas pessoas seguem morrendo de uma infecção para a qual existe tratamento? O recorte, nesse sentido, deve ser para garantir o acesso e a adesão há uma política pública já existente, apesar das tentativas de desmonte do atual governo”, afirma Ronaldo Serruya.

A partir dos casos diagnosticados de aids por categoria de exposição “homo/bissexual entre homens” com 13 anos ou mais, no período de 2009-2019, compreendendo 72.243 pessoas (36,57%), e considerando o total de óbitos no período entre homens, 87.479 pessoas, de acordo com o levantamento feito pela Elástica, a estimativa é de 31.991 homens gays e bissexuais, travestis e mulheres transexuais que vieram a óbito por causa básica de aids em 11 anos. Embora trate-se de uma estimativa e sabendo da subnotificação apresentada nos boletins, em número absolutos, é uma cifra muito superior aos números de assassinatos da população LGBTI+, mais amplamente divulgados, midiatizados, discutidos e enfrentados pela comunidade.

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Dan Agostini/Fotografia

“Vivemos em um país no qual o acesso ao tratamento para o HIV é universal, público, gratuito e de qualidade, reconhecido internacionalmente. Ou seja, por que essas pessoas seguem morrendo de uma infecção para a qual existe tratamento? O recorte, nesse sentido, deve ser para garantir o acesso e a adesão há uma política pública já existente, apesar das tentativas de desmonte do atual governo”

Ronaldo Serruya

Vale observar também que os boletins não apresentam dados por categoria de exposição lesbossexual/bissexual entre mulheres, nem entre homens transexuais e transmasculinos, ou pessoas intersexos/intersexuais, impossibilitando estudos sobre essas parcelas da população LGBTI+ no que tange aos números e percentuais de casos de infecção pelo HIV, casos diagnosticados de aids, e óbitos por causa básica de aids.

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Da esquerda para direita, a parte de cima: Camilla Moretty, Barbara Garcia, Savanna Conceição, Celina Ferraz, Barbara Garcia e Aline Oliveira –
Da esquerda para direita, a parte de cima: Camilla Moretty, Barbara Garcia, Savanna Conceição, Celina Ferraz, Barbara Garcia e Aline Oliveira – Dan Agostini/Fotografia

Histórias

É a partir desse motim que vamos – eu, Uma Reis Sorrequia, e Dan Agostini narrar e retratar a história de vida de 5 mulheres transexuais e travestis brasileiras e sua busca por autonomia, em 5 matérias exclusivas aqui na Elástica durante os meses de julho e agosto.

A primeira travesti que vocês irão conhecer é Aline Oliveira, 38 anos, branca, paulistana nascida e criada no Capão Redondo, egressa/sobrevivente do sistema prisional, profissional do sexo, ex-jogadora de voleibol, participou do Transgressoras, e agora, integrante da CiA dXs TeRrOrIsTaS e beneficiária do Transcidadania. Uma travesti honesta e sensível com sua própria história, apesar da dureza do transcurso de sua vida, além disso, ela é uma anfitriã nata, acolhedora e generosa, durante nossa primeira entrevista presencial em sua casa, nos serviu um queijo fresco delicioso, uma coca geladinha, tudo isso regado à bombons (a chocólatra aqui nem amou).

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Carta de Camilla para Aline Dan Agostini/Fotografia

Em seguida, vocês poderão se aproximar da Bárbara Garcia, 21 anos, mulher transexual, lésbica, negra, também paulistana criada no Jd. Maria Estela, região do Ipiranga. Bárbara é artista/tatuadora, atualmente, trabalha como auxiliar administrativa no Estádio Municipal de Beisebol Mie Nishi, localizado no Bom Retiro, por meio do Programa Operação Trabalho (POTE) da Prefeitura de São Paulo, residente da Casa Florescer II e estudante do 2ª do Ensino Médio. Ba é a própria namoradeira do Brasil, uma eterna amante, em seu sentido mais positivo, você se apaixona em um piscar de olhos tamanho o afeto que ela te entrega, em um escuta atenta e delicada. Em sua personalidade também mora uma Ba festeira, divertida e sensual.

Carta de Celina para Bárbara
Carta de Celina para Bárbara Dan Agostini/Fotografia

Logo, traremos a vocês a belíssima, cabelos longos e grisalhos, Camilla Moretty, 62 anos, mulher transexual, branca, nascida na zona rural entre Franca e Cristais Paulista, interior de São Paulo, donde saiu três anos atrás em busca de um sonho, o que a trouxe a São Paulo. Camilla é uma atriz da velha-guarda, uma camponesa vivendo no asfalto e uma inspiração, acima de tudo. Não é todo dia que uma mulher transexual de sua idade cruza nosso caminho,  ela é um baú, daqueles como o da Elektra de Pose, cheio de vivências e experiências coletivas que padecem com a violência transodiante que nos rouba a possibilidade de conhecer nossa própria história. Cami residiu em ambas as Casas Florescer assim que chegou à capital, participou do Transgressoras, e é também beneficiária do Transcidadania, agora em 2021, ela conclui o Ensino Médio. Um exemplo de vida saudável, super ativa, e como esperado, nossa “vovó” de mãos cheias.

Carta de Bárbara para Camilla
Carta de Bárbara para Camilla Dan Agostini/Fotografia

Depois de nossa matriarca, temos nossa baby, quando nos acercaremos da história da Celina Ferraz, 20 anos, mulher transexual, negra de pele clara, nordestina e cearense nascida na capital, Fortaleza. Celina veio a São Paulo com 16 anos, esteve em um abrigo para crianças e adolescentes por 2, trabalhando como como jovem aprendiz/auxiliar administrativa na sede do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE-SP), a partir do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) por 8 meses. Ao completar 18 anos, foi morar no centro de acolhida LGBT da Casa 1, quando trabalhou em um restaurante vegano na companhia de outra mulher transexual por 3 meses. Capricorniana, com suas economias conquistou, temporariamente, sua autonomia e morou em uma república por quase 2 anos, decorrente um episódio de violência e sem emprego, já no período de pandemia, foi acolhida pela Casa Florescer II, onde conheceu a Savanna com quem mora hoje. Ce trabalha como acompanhante,  é estudante do 1ª do Ensino Médio, high fashion, sonha em ser modelo, cursar designer de moda ou fotografia para registrar o mundo da moda.

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Carta de Savanna para Celina
Carta de Savanna para Celina Dan Agostini/Fotografia

Por última, fechando a ala das princesas, diria Brenda Lee, entregaremos a vocês a história de Savanna Conceição, 34 anos, mulher transexual, sapio/demisexual, negra, carioca da gema, outra egressa/sobrevivente do sistema prisional, tendo morado na rua ainda em sua infância, passado por diversos abrigos e casas de acolhida, ex-moradora da Casa Nem, coordenada pela icônica Indianare Siqueira. Dessas experiências, e com muita irreverência, trabalhou como auxiliar de serviços gerais com carteira assinada em abrigos mantidos pela Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos da Prefeitura do Rio. Já em São Paulo, foi residente da Casa Florescer II, também participou do Transgressoras e é beneficiária do Transcidadania. Nesse momento, mora na Saúde com outras mulheres transexuais e travestis com quem divide residência.

Carta de Aline para Savanna
Carta de Aline para Savanna Dan Agostini/Fotografia

As transhistórias de todas elas – Aline, Bárbara, Camilla, Celina e Savanna – se entrecruzam em suas vivências nas Casas Florescer I e II e participação em programas e projetos como o Transcidadania e Transgressoras, espaços onde partilham, compartilham, escutam, falam das referências e exemplos de vida que cada uma carrega, a bagagem que possuem, criando laços de amizade, afetividade e identificação, pois sabemos que nós, em muitos casos, só temos as nós mesmas.

E é nesse contexto que entrevistei pessoas à frente de projetos e programas destinados à população trans e travesti na capital paulista e maior cidade da América Latina: CCasa Chama, Casa Florescer II, Centro de Cidadania LGBTI Claudia Wonder (Zona Oeste) / Programa Transcidadania e Cia Dxs Terroristas / Projeto TRANSgressoras, (re)conhecendo suas carências e limitações, mas também suas potencialidades, e me perguntando sobre o cenário nacional brasileiro, já que estamos falando do município mais rico do país.

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Dan Agostini/Fotografia

O conteúdo dessas entrevistas, desde seus lugares de atuação, dão cabo das condições de vida da população trans (travestis, homens e mulheres transexuais, e pessoas não binárias) em São Paulo, em especial a população trans feminina, que, em sua maioria, se encontra em situação de precariedade, vulnerabilidade e marginalidade social, em desrespeito ao princípio da dignidade da pessoa humana garantido em nossa Constituição: humanidade, civilidade e cidadania.

Como bem disse Leona Jhovs, uma das entrevistadas: “Estamos construindo memórias inapagáveis, nós somos os sonhos de nossa transcestralidade”. Nós somos os sonhos das travestis que nos antecederam, e nossos sonhos hoje são as crianças e as infâncias trans e travestis que estão por (de)vir.

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Dan Agostini/Fotografia

Serviço

O acesso a uma das casas Florescer é realizado por meio de encaminhamento pelos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), Centros de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) e Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP).

As travestis e mulheres transexuais em situação de vulnerabilidade e risco social, e pessoas cis aliadas que saibam e conheçam meninas que necessitem desses serviços, devem se encaminhar a esses e outros serviços socioassistenciais, demais políticas públicas e órgãos da Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) da Prefeitura da Cidade de São Paulo, tais como os Centros de Cidadania LGBTI e o Programa Transcidadania (entenda como funciona).

Ambas as casas são acessíveis para pessoas com deficiência e não há critérios para ingresso e permanência baseados em expressão de gênero, (meninas em início de processo de transição social e terapia hormonal, por exemplo), valendo sua autodeclaração de identidade de gênero.

Casa Florescer I
Rua Prates, 1101 – Bom Retiro (Centro), São Paulo – SP
Telefone: (11) 3228-0502
E-mail: cadiversidade@gmail.com
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Casa Florescer II
Rua Capricho, 872 – Vila Nivi (Zona Norte), São Paulo – SP
Telefone: (11) 2337-8459
E-mail: florescercroph@gmail.com
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Casa 1
Centro de acolhida e centro cultural para pessoas LGBTI+.

Galpão: Rua Adoniran Barbosa, 151 – Bela Vista (Centro), São Paulo – SP
Clínica social: Rua Lettieri, 65 – Bela Vista (Centro), São Paulo – SP
E-mail: contato@casaum.org
E-mail: asssistenciasocial@casaum.org (o agendamento do processo de triagem para o Centro de Acolhida é realizado por aqui)
Site
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Casa Chama
Rua do Carmo, 56 – Sé (Centro), São Paulo – SP
Telefone: (11) 99448-2641
E-mail: casachama440@gmail.com
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Projeto TRANSgressoras
Site
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Projeto

Centro de Referência e Defesa da Diversidade (CRD)
Espaço de desenvolvimento social que visa oferecer acolhida, escuta especializada e atendimento, prioritário, a travestis e transexuais, profissionais do sexo, pessoas vivendo com HIV, gays e lésbicas que estejam em situação de vulnerabilidade e risco social. Seu objetivo geral é desenvolver ações que possibilitem a inclusão social e a geração de renda, buscando assim o empoderamento, a autonomia e a cidadania da população assistida.

Rua Major Sertório, 292/294 – República (Centro), São Paulo/SP
Tel: (11) 3151-5786 e 3151-5783
E-mail: crd@crd.org.br
Facebook
Instagram

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As fotos que você vê nessa matéria são da autoria de Dan Agostini, que registrou, em parceria com o projeto Transgressoras, a primeira vez que algumas travestis e mulheres trans, residentes das Casas Florescer 1 e 2 na época (2020), conheceram o mar. Conheça mais do trabalho de Dan aqui.

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O fim da primavera

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Movimentos da Primavera Árabe esbarraram em intransigência de regimes e em influências externas; moradores da região relatam uma década de desesperança
Parafraseando a canção de Liniker, cantora, travesti e preta, Bárbara não goza do privilégio de ser e/ou ter morada em alguém, ainda que possua nome

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