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“Eu ia falar de amor…”

O luto por mulheres grávidas, pais, mães e irmãos. As violências diárias, cotidianas, brutais e irreparáveis contra os negros no Brasil

por Roger Cipó Atualizado em 14 jun 2021, 22h53 - Publicado em 14 jun 2021 22h46

“... ia falar do seu corpode suas mãosamadaquando soube que a polícia espancou um companheiroe o poema não saiu...”

Esse é um trecho de Esperemos, poema atemporal do nosso ancestral Solano Trindade. Poeta, folclorista, ator, dramaturgo, cineasta, realizador de sonhos e histórico militante do movimento negro brasileiro. Solano nasceu em Recife, em 24 de julho de 1908, fez sua passagem em 1974 e, como costumo dizer aqui, vive na força de nossa valorização pela cultura, folclore e arte brasileira, além de impulsionar luta contra as opressões sistêmicas produzidas e mantidas pelo racismo.

Já faz algum tempo que eu tento escrever aqui e, no último mês, sempre começo a partir desse verso de Solano, porque é exatamente como me sinto.

Desde que recebi o generoso convite para essa coluna, sugeri e assumi um compromisso de falar das potências afetivas que nos constituem e que nos sustentam em tempos difíceis. Optei por falar de amor, suas formas e caminhos. Não só para trazer alguma leveza, bem como para não nos deixar esquecer daquilo que somos formados: amor.

Eu queria falar de amor, mas o racismo me obriga falar da crueldade que assola vidas pretas e que já nem permite que elas venham ao mundo. Como falar de amor, no lugar que assassina crianças, no ventre de suas mães?

No entanto, devo confessar que, ultimamente, me sinto falhando em minha missão. E, assim também encontro Solano.

Sim, eu ia falar de amor, mas no último dia 09 de junho de 2021, a polícia assassinou Kathlen Romeo com um tiro letal. Ela, lembrada por seus familiares como uma jovem tão inteligente e dedicada quanto linda, modelo, designer de interiores, foi assassinada no Complexo do Lins, Zona Norte carioca. Aquele mesmo Lins que gerou Mussum. Falei dele na minha última coluna.

Kathlen foi brutalmente assassinada com um tiro de fuzil e, como se não bastasse o Estado roubar todos os sonhos de uma jovem mulher de 24 anos, roubou também o seu sonho de trazer ao mundo a criança que gestava com tanto amor. Kathlen estava grávida.

Eu queria falar de amor, mas o racismo me obriga falar da crueldade que assola vidas pretas e que já nem permite que elas venham ao mundo. Como pode prosperar um lugar que assassina mulheres grávidas? Como falar de amor, no lugar que assassina crianças, no ventre de suas mães?

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Roger Cipó/Fotografia

Eu ia falar de amor, no último dia 13 de maio, quando completei 30 anos de idade, mas fui à Avenida Paulista com outras milhares de pessoas, de maioria preta, para denunciar a maior chacina dos últimos anos que matou 27 pessoas e banhou de sangue as ruas e casas do Jacaré, também no Rio de Janeiro. Como eu falo de amor no lugar onde o Estado executa um homem no quarto de uma menina de 9 anos? Como acreditar no amor, se assisto, aos prantos, um homem negro se perguntar o que fará da vida e de sua casa, lavada de sangue?

E juro para vocês, eu queria falar de amor. Eu ia falar de amor, mas duas mulheres, com idades próximas a de minha mãe, foram assassinadas, na porta de casa, no bairro do Curuzu, em Salvador, no último dia 04 de junho. No Curuzu, histórico bairro baiano, que é berço do Ile Aiyê, um dos primeiros e maiores blocos afros, do Brasil. O Ile Aiyê que, ressignificou a potência da beleza negra, criando um concurso para coroar mulheres negras retintas, nos fazendo reconhecer e celebrar nossas Deusas do Ébano. As mesmas Deusas que lidam, todos os dias, enfrentam as perversidades do racismo e das violências de gênero (mais cruéis para mulheres negras escuras). E eu queria falar de amor e subir o Curuzu na Noite da Beleza Negra, só para cantar a vida das Deusas da cor da noite, mas eu não posso. Nós não podemos. Esperemos…

Assim como ainda esperamos, desde dezembro de 2020, notícias de Fernando Henrique, Alexandre e Lucas Matheus, três garotos negros que desapareceram, em Belford Roxo. Garotos como Ryan Andrew e Micael, mortos em Salvador, também numa ação da polícia.

E ainda há os abusos cotidianos, o desemprego que assola pessoas que se parecem comigo, a fome que visita as casas dos brasileiros que se parecem comigo, a covid-19 matando, quase meio milhão de pessoas e desses números absurdos, deixando claro que quem mais morre é preto e pobre.

Cantou Luiz Melodia que “cruel é isso tudo…” e nós, pessoas da pele escura como a noite sabemos. Ainda que, atravessamos dias e noites desviando das balas, camburões, rabecão, tragédias, fomes e vírus, nós sabemos e sentimos na pele o peso de toda crueldade instaurada, por aqui. E aí, eu torno a perguntar: “como falo de amor?”

A sensação que tenho, às vezes, é que não adiantará… E é nessa hora que nem chorar mais, eu consigo. De tanta lágrima que corre, quase seco, mas me oponho a paralisar nesse terreno árido e hostil que é a naturalização da barbárie contra corpos pretos. Eu insisto em viver, mas preciso dizer que é extremamente cansativo. Se hoje escrevo é para dizer que tem sido cansativo, doloroso e que já não aguento mais morrer. Já não aguento mais viver a angústia dos dias que me fazem correr contra um relógio em busca de vacina. Sim, eu conto, dia após dia e fico me alertando: “se mantenha! Você precisa chegar até a vacina. Você não pode morrer antes da vacina”. E a verdade é que me repito isso, todos os dias, mesmo sabendo que mesmo vacinado (se der tempo), não estarei totalmente imunizado porque o racismo segue como norma vigente e, ao que me parece, estamos longe de combatê-lo.

Eu queria falar de amor, mas o racismo me obriga falar da crueldade que assola vidas pretas e que já nem permite que elas venham ao mundo. Como falar de amor, no lugar que assassina crianças, no ventre de suas mães?

Por aqui, as noites têm sido longas e o medo dos dias se estendem, me tirando o sono. A única certeza é que a tragédia grita na minha cara e eu busco formas de driblá-la. Até quando consigo? Não sei, mas aprendi a viver tentando. Não sou o único…

Não sou o único que carrega a vontade de falar de amor, mas é atravessado por um camburão de violências naturalizadas e institucionalizada. E eu repito, gente, tem sido cruelmente exaustivo.

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Mas, como disse Solano Trindade: “esperemos…”. Com pressa, “esperemos” e busquemos formas de, entre nós, exercer alguma forma de amor, para amenizar, recarregar e fortalecer. Porque, uma coisa é certa: a crueldade produzida pelo racismo não deixará de existir tão cedo, da mesma forma que nós insistiremos, todos os dias, em viver e caçar forma de amar. Viver é nosso maior ato político. Amar é nossa tecnologia de subversão da ordem, é o “contragolpe” que Erica Malunguinho anuncia em seu discurso, quando também nos pede para “organizar o nosso ódio”. Entendeu? Organizemos o nosso ódio, produzido da indignação e da revolta dos bons, contra as violências estruturais. Isso também impulsiona. Acredita? Esperemos…

Já já, volto aqui só para falar disso (a segunda parte de nossa conversa), por hora, te conto que…

“... a falar em canções no belo da natureza nos jardins nas flores quando falaram-me em guerra e o poema não saiu perdão amada por não ter construído o seu poema amanhã esse poema sairá esperemos. ”

Solano Trindade, Esperemos

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