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Tá on pra amar?

Esperamos que o amor bata em nossa porta, mas estamos dispostos a abrir os olhos e procurar nos lugares mais prováveis?

por Roger Cipó
29 mar 2021
03h07
R

etomo a troca, por aqui, após meses mergulhados em mudanças. Mudou o ano, mudei de casa, trabalho, relação, cidade e muita coisa dentro ainda se movimenta para mudar. Ainda bem. Uma hora, quero escrever sobre esses processos e como, dia após dia, eu morro e nasço a cada manhã, na onda do que disse Guimarães Rosa com “viver é um rasgar-se e remendar-se”. E, se assim é, fico pensando que amor é linha, pano, tesouro e agulha, tudo ao mesmo tempo. Para viver isso, há de se ter disponibilidade.

Tenho repetido que “Amor é uma ação”. bell hooks que nos ensina isso, provocando para a prática. Mas em meio a lugares tão ríspidos e inflexíveis, como agir para amar? Com históricos de tantas relações falhadas, dores que se acumulam no peito, mente e corpo, quem tem disposição para amar? Com uma forma de amor pautada em violações de direitos, cerceamento da liberdade do outro ou até anulação de si mesmo para caber em algum universo, como amar?

Com esse cenário, quem tem disponibilidade para ciclos dolorosos, com roteiro estabelecido e de final dramático, cheio de tristezas? É um quase morte e esse amor que rasga e joga fora agulha e linha, sequer deve ser chamado de amor. Aqui, eu falo de ter disponibilidade para amar, inclusive, entendendo que viver amor é também enfrentar as violências que o próprio formato de amor, que aprendemos, produz. E para isso, há de se ter coragem! Coragem também é sobre olhar que também é possível viver um amor para além desse que já falei, acima. Por exemplo, esse é aquele amor que fica esperando alguém chegar para completar, sabe?

A maioria das pessoas sozinhas que conheço me falam que assim estão porque alguma pessoa não quer se relacionar. Depois de tanto ouvir e observar, passei a perguntar: mas e as pessoas que querem se relacionar com você, qual espaço elas têm na sua vida? Você permite que cheguem?

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Quanto de energia você gasta para encantar alguém que não te olha? Muito tempo para convencer o olhar, e a gente não olha ao redor.

Sempre tem alguém que dá um bom dia, te esperando. Sempre tem quem te dá uma atenção diferente no direct, enquanto quem você olha, lê e não responde… Talvez, quem te olha pode não cumprir todos os requisitos, mas eu afirmo – se for preto ou preta, já vale a pena (não ia falar isso, mas sabem né?!) Eu afirmo que se há alguma disponibilidade, é possível construir. É preciso movimento para sincronizar. Amor pode ser espaço de cultivo, de conhecimento do outro e de si.

O “não precisa ser perfeito” é a coisa mais real do mundo. A perfeição é solitária. Corra da perfeição. Conheço pessoas que se sentem tão perfeitas e estão sozinhas porque nada pode completá-las. Aceitar o outro como se é, na disposição de construção, pode ser um caminho de descobertas. Pode ser caminho para despir das verdades duras que não nos permitem sentir.

E eu digo que todas as minhas tentativas de perfeição falharam. Tentei ser perfeito para manter relações e vi poucas possibilidades, porque, por mais que eu tentasse, sem disponibilidade, nada poderia acontecer. Disponibilidade é a casa fértil de qualquer construção.

Já se disponibilizou hoje? Que seja breve, mas real. Um rolê, uns dias. Não abra mão da energia que amar provoca. E se pergunte: estou disponível para o amor?

Espero que sim.

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