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Briga séria

Destaques do MMA, essas mulheres encararam anos de treino, venceram comentários machistas e ostentam vitórias para além do ringue

por Isabella D'Ercole, de Claudia 9 jun 2021 22h29
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Clube Lambada/Ilustração

Hoje, eu tenho tudo que já sonhei um dia”, reflete Amanda Nunes (@amanda_leoa), 32 anos. Saída de Pojuca, interior da Bahia, a lutadora de MMA se tornou a primeira mulher a conquistar, simultaneamente, dois cinturões de categorias diferentes do Ultimate Fighting Championship (UFC), o peso-galo e o peso pena.

Vitória também da jovem que, após perder a primeira luta de vale-tudo, voltou para academia, em Salvador, obstinada a treinar e se tornar a melhor do mundo. “Eu já praticava jiu-jitsu desde os 15, 16 anos e saí de Pojuca para a capital para me dedicar ao esporte. Ganhei o título baiano, o mundial. Resolvi que precisava de um objetivo maior. Na época, era a única menina na academia. Achava ótimo, porque eu adorava bater nos meninos. Dormia pensando no troco que ia dar em quem tinha me finalizado”, lembra rindo.

O esporte sempre foi prioridade em sua vida. Criança, jogava bola na rua depois da escola. Quando começou no ringue, descobriu que seu tio tinha sido lutador de vale-tudo. “Era na rua mesmo, puxavam uma cordinha, apostavam dinheiro e quem ganhasse, levava”, diz Amanda. “Minha mãe nunca tinha me falado até eu também começar a lutar, então creio que essa paixão deve ser coisa de sangue mesmo.” Tem outra característica de família que ela acredita ter herdado: a força da mãe. “A gente cresce junto e se inspira. Minha mãe sempre me criou com muita independência. Se eu arrumasse briga na rua ou se me machucasse lutando, eu mesma me cuidava chegando em casa. Isso não quer dizer que eu não tenha recebido carinho, só que ela incentivava a gente a tomar nossas decisões”, conta.

Amanda afirma ter duas personalidades, a do dia a dia e a do combate: “Na luta, me torno uma leoa, estou lá para caçar. Mas não explodo antes, guardo para o cage.” Andre Schiliró/Divulgação
Amanda afirma ter duas personalidades, a do dia a dia e a do combate: “Na luta, me torno uma leoa, estou lá para caçar. Mas não explodo antes, guardo para o cage.” Andre Schiliró/Divulgação Amanda Nunes/Arquivo

A liberdade fez com que Amanda entendesse a importância de fazer boas escolhas. Assim, selecionou os amigos da infância e se manteve longe de confusão, decidiu quando era hora de ir embora de casa e até mudou de país sem falar a língua. Se tem uma coisa que Amanda sempre teve, é foco. Na juventude, não tinha vida social, não bebia. Sua motivação abriu portas. De luta em luta, chegou a Miami. Na época, só arranhava o inglês aprendido com os turistas estrangeiros em Salvador. Foi se virando, aprendendo a pedir comida, fez amizades. Tudo mudou quando a também lutadora norte-americana Nina Ansaroff surgiu. Elas treinavam na mesma academia e a relação que começou como amizade virou um casamento de oito anos. “A língua era um entrave. Era mímica, um tal de Google Translator pra cá e pra lá, mas aí eu aprendi de vez o inglês”, conta Amanda. No ano passado, nasceu Raegan, filha do casal. Com cinco meses, a bebê já estava no ringue acompanhando a mãe, que leva o apelido de “leoa”, por ser feroz na disputa, e também é conhecida pelo título de G.O.A.T. (sigla de greatest of all times, a melhor de todos os tempos). Se depender dessa dupla, tudo indica que mais uma geração de mulheres fortes vem por aí.

“Minha mãe nunca tinha me falado até eu também começar a lutar, então creio que essa paixão deve ser coisa de sangue mesmo”

Amanda Nunes
Amanda com Raegen no ringue Jeff Bottari/Getty Images
Amanda com Raegen no ringue Jeff Bottari/Getty Images Jeff Bottari/Fotografia
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Estreia em Nova York

A mãe de Jéssica Andrade (@jessicammapro), 29 anos, também influenciou sua trajetória. Muito antes da luta, quando Jéssica ainda era adolescente, queria ser jogadora de futebol. “Recebi propostas de alguns times, mas, por causa da minha idade, minha mãe não me deixou ir. Na época, passava uma novela que falava de tráfico de mulheres e ela ficou com muito medo”, lembra a lutadora, rindo. O jeito foi entrar no projeto social da escola de judô em Umuarama, no Paraná, em 2010. No ano seguinte, ganhou uma bolsa e, por 40 reais por mês, Jéssica transformava os movimentos das lutinhas com o irmão em casa em técnica. Em setembro de 2011, já estava no ringue para sua primeira luta. “A menina me bateu e eu não senti nada. Aí bati nela e ganhei uma medalha e dinheiro! Já estava conquistada pelo esporte”, conta ela, que costumava ir conferir as medalhas antes da luta, apaixonada.

Como não conseguia se sustentar com o esporte, Jéssica pegava todo tipo de bico. Foi mototáxi e tratorista numa usina, mas teve que largar o segundo trabalho porque não tinha habilitação. Pouco tempo depois, surgiu a oportunidade de morar no Rio. Seu mestre pagaria as despesas de casa, alimentação e do treino, num investimento para o futuro. O sonho era, a partir dali, formar a maior equipe feminina do mundo. Hoje, eles estão mesmo entre os grandes. E tudo começou com Jéssica, que tinha vergonha de falar quando acabava o dinheiro para comida. “No dia que ele descobriu, me deu uma baita bronca. Foi quando entendi que eu precisava cuidar da saúde, não só saber a técnica, se quisesse lutar com as campeãs.”

Jéssica, chamada de “Bate-Estaca” (apelido conquistado no início da carreira, após ela finalizar uma adversária), garante que é possível condicionar o corpo a não sofrer com a dor. “Você sente cada vez menos. Às vezes, é nocauteada e nem percebe. Acorda reativa, querendo bater no juiz.” Para ela, o segredo é a vontade de ganhar. “Se entrar com medo, toma”, explica a primeira brasileira a lutar no UFC. Em 2013, ela se juntou à liga e passou a se sustentar oficialmente com a luta. Lembra de seu primeiro combate. Foi grandioso. Liz Carmouche, a adversária, tinha acabado de ganhar de Ronda Rousey, uma lenda do esporte. “Eu tinha esperado tanto tempo por aquilo. Durante a semana, colocaram um outdoor gigante com a minha cara no Empire State Building. Eu estava acostumada a ginásios de 5, 10 mil pessoas e, de repente, estava lutando diante de um público de 80, 100 mil. Olhava lá no fim da arquibancada e parecia um monte de formiguinhas. Não sabia se ria, se chorava, se batia na mão de todo mundo. Perdi a luta, claro. Deu um branco, não sabia o que tava fazendo, não ouvia o mestre. Mas não conseguia evitar o filme que passava na minha cabeça: ‘Olha onde você chegou’. Esse sentimento é inesquecível. Tudo valeu a pena”, descreve. Em abril, após o hiato sem público ou com venda de ingressos parciais, decisão tomada por causa da pandemia da Covid-19, finalmente o estádio estava cheio de novo. “Foi maravilhoso voltar a sentir a energia das pessoas.”

“Durante a semana, colocaram um outdoor gigante com a minha cara no Empire State Building. Eu estava acostumada a ginásios de 5, 10 mil pessoas e, de repente, estava lutando diante de um público de 80, 100 mil. Olhava lá no fim da arquibancada e parecia um monte de formiguinhas. Não sabia se ria, se chorava, se batia na mão de todo mundo”

Jéssica Andrade
“Moro nos Estados Unidos, porque eles oferecem um centro de treinamento com estrutura que não encontramos no Brasil. Não sei por que nosso país não investe nas atletas”, diz Jéssica. Mike Roach/Getty Images
“Moro nos Estados Unidos, porque eles oferecem um centro de treinamento com estrutura que não encontramos no Brasil. Não sei por que nosso país não investe nas atletas”, diz Jéssica. Mike Roach/Getty Images Mike Roach/Zuffa/Fotografia
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A menininha do papai

“Eu tinha me esquecido como era tomar um soco 100%”, conta Mackenzie Dern (@mackenziedern), 28 anos, sobre a primeira luta após a licença-maternidade. Sua filha tinha apenas quatro meses e a rotina de treinos ainda não estava tão intensa como antes da gravidez. “Além disso, no treino, a gente usa uma luva mais leve, para evitar lesões, então fazia tempo que eu não sentia esse peso no rosto. Na hora, me toquei que era uma luta de verdade”, recorda.

Nascida nos Estados Unidos, Mackenzie domina o português perfeitamente. Ela é filha do lutador brasileiro de jiu-jitsu Wellington “Megaton” Dias e casada com o surfista brasileiro Wesley Santos. Para Wellington, que tinha uma academia de luta, a notícia de que seria pai de uma menina foi um pouco decepcionante no início. “Ele achou que a menina não se envolveria com o jiu-jitsu. Mas eu cresci na academia e vendo ele ganhar, perder, encarar os sacrifícios. Criança é pura, não entende essa coisa de esporte para menino ou menina. Sempre treinei e, aos 14, sabia que queria seguir carreira profissional”, conta a lutadora.

“A energia da rivalidade é importante para você conseguir bater, mas todo mundo entende que não é com o objetivo de acabar com a carreira do adversário”, explica Mackenzie. Foto/Divulgação
“A energia da rivalidade é importante para você conseguir bater, mas todo mundo entende que não é com o objetivo de acabar com a carreira do adversário”, explica Mackenzie. Foto/Divulgação Mike Roach/Fotografia

Em 2015, ela conquistou todos os títulos sonhados, num ano admirável até para atletas mais experientes. Foi quando Ronda Rousey estourou no MMA e Mackenzie, que nunca tinha pensado em migrar de esporte, começou a considerar a opção. “A única coisa que me preocupava era a possibilidade de machucar o rosto, porque no jiu-jitsu isso é raro, não tem soco na cara”, fala. Enfrentou resistência na trajetória. A família – parcial quando o assunto era a categoria – torcia o nariz. E, para piorar, Mackenzie ouviu uns bons desaforos de outros atletas. “Falavam que eu nunca faria sucesso como eles porque eu não treinava tanto, sendo que eu ficava mais horas na academia. Também diziam que a categoria feminina era inferior, porque não conseguíamos alcançar o grau técnico deles”, lembra ela, que ignorou todas as críticas, mas compreendeu a importância de uma mudança no cenário machista da luta. “Independe se a minha categoria tem só cinco competidoras e a dele tem 100, o que faz o atleta é a dedicação pessoal e isso eu garanto. É um posicionamento antigo que precisa ser revisto”, opina.

“Fiquei observando os outros e percebi que nosso corpo aguenta muito. Aí me condicionei a rebater o medo pensando que eu estava treinada para aquilo, que a técnica me ajudaria a evitar machucados”

Mackenzie Dern

Mackenzie se descreve como carinhosa e dengosa, afirma que é preciso virar uma chavinha na hora da luta. O trabalho exige sangue-frio para bater sem pensar. “Se você entra no ringue pensando que vai machucar uma amiga, não vai conseguir levar a luta adiante, então tem que colocar na cabeça que é profissional. Fora dali, sem mágoas, voltamos a ser parceiras”, diz ela, que admite já ter tido medo de se machucar. “Percebia que isso me deixava travada, a luta não fluía.” O jeito foi investir bastante em treinamento psicológico e no desenvolvimento da autoconfiança. “Fiquei observando os outros e percebi que nosso corpo aguenta muito. Aí me condicionei a rebater o medo pensando que eu estava treinada para aquilo, que a técnica me ajudaria a evitar machucados”, diz ela, que, em sua penúltima luta, quebrou o nariz e nem sentiu. “É muita adrenalina. A cirurgia doeu mais”, jura. Assim que pôde voltar a treinar, foi para a academia. Adivinha? Quebrou o nariz de novo. “Uma vez, cheguei em uns caras treinando e falei que parecia que eles tinham mais medo de perder patrocínio e ter o ego ferido do que da dor. Eles responderam: ‘Claro que não, todo mundo tem medo da dor’ ”.

Após a licença-maternidade, ela voltou revigorada e obstinada Foto/Divulgação
Após a licença-maternidade, ela voltou revigorada e obstinada Foto/Divulgação Mackenzie Dern/Arquivo
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A forasteira

Cristiane Justino ou Cris “Cyborg” (@criscyborg), 35 anos, começa o dia correndo. Ela sai de sua casa, em Los Angeles, antes do sol nascer e com cara de poucos amigos. Só consegue cumprimentar os vizinhos na volta, quando o exercício já liberou o hormônio e também o bom humor. A simpatia se estende pelo resto do dia, nos vários treinos, e até mesmo no ringue. “Eu beijo minhas adversárias. Não as vejo como inimigas. Acho que odiar a pessoa é ruim até pra luta, você carrega energia ruim e essa emoção tira sua concentração”, explica ela, que já foi campeã do UFC, do Strikeforce, do Invicta FC e é atual campeã peso pena do Bellator.

A curitibana foi achada por um olheiro na faculdade de educação física. Jogadora de handebol e treinando atletismo, ela jamais achou que se encontraria na luta. “Da primeira vez que entrei no ringue, me perguntei: ‘Quem é essa que bate assim? De onde vem essa força?’ Quando eu era criança, sofria bullying e meu irmão tinha que me buscar na escola para evitar que eu apanhasse”, lembra. Bastou uma luta, depois de seis meses de treino, para Cris entender o que a faria feliz pelo resto da vida. Ouviu da mãe que a decisão era absurda, que aquele era um esporte para maloqueiros. “Ela falava: ‘Você estudou nas melhores escolas!’ Tive que esconder dela por um tempo quais eram meus planos”, fala a atleta, que conheceu na academia seu primeiro marido, o lutador Evangelista “Cyborg” Santos, de quem herdou o apelido.

“Eu beijo minhas adversárias. Não as vejo como inimigas. Acho que odiar a pessoa é ruim até pra luta, você carrega energia ruim e essa emoção tira sua concentração”

Cris Cyborg

Os primeiros anos não foram fáceis. Treinando só com homens, ela foi bastante assediada. “Eles não me levavam a sério, achavam que eu estava ali para xavecar”, fiz. “Precisei impor respeito. Em toda a minha trajetória, o intuito foi mostrar que mulher tem tanta capacidade de lutar quanto os homens.” Sofreu ataques frequentes, mas aprendeu rapidamente a filtrar as críticas e absorver somente o que fazia sentido. “Com as redes sociais, isso piorou. Mas não revido nem se for um comentário. Às vezes, a pessoa deixa uma mensagem maldosa e eu respondo sendo agradável, aí ela se arrepende e pede desculpas”, conta.

Segundo a atleta, ainda falta realizar o sonho de ser mãe. Ela pretende congelar óvulos esse ano para conseguir programar a chegada do bebê. Foto/Divulgação
Segundo a atleta, ainda falta realizar o sonho de ser mãe. Ela pretende congelar óvulos esse ano para conseguir programar a chegada do bebê. Foto/Divulgação Jamie Thomson/Fotografia

Na época em que Cris começou, a popularidade do esporte era completamente diferente de hoje. “Vejo as famílias se reunindo para assistir, mas não era assim. Falavam que era coisa de gangue, que era um ambiente para homens. Eu não sabia se teria futuro. Queria ter ouvido o conselho que eu dou para quem está começando hoje: a carreira é curta, não largue a faculdade e pense a longo prazo”, conta ela, que almeja outra profissão quando se aposentar dos ringues. “Não acho que conseguiria dar aulas. Penso em fazer outra faculdade. Sempre quis ser veterinária, é uma opção. Tenho uma amiga no Brasil que é veterinária e falo que vou ser aprendiz”, diz, cercada pelos seus pets. Por enquanto, fora os treinos físicos, o único aperfeiçoamento que dá tempo dela fazer é com um coach para melhorar o foco. “Ele me ajudou a isolar os pensamentos, então no ringue eu não fico matutando sobre coisas da família. Os assuntos se misturam. Isso me ajudou muito na concentração da luta.

Além disso, ela se dedica ao projeto Pink Belt Fitness. O acampamento itinerante reúne mulheres que não têm experiência profissional de luta para fazer treinos com diversas técnicas, inclusive de defesa pessoal. Há também papos sobre autoestima, maquiagem e saúde mental. “Depois, montamos um grupo no WhatsApp e seguimos conversando. É uma experiência super legal, porque tem muita troca. Ainda quero levar a experiência para o Brasil”, conta.

Apaixonada por esportes, Cris treina três vezes por dia quando tem uma luta próxima. Foto/Divulgação
Apaixonada por esportes, Cris treina três vezes por dia quando tem uma luta próxima. Foto/Divulgação Cris Cyborg/Arquivo
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