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A celebração da mulher na arte

Com a abertura do Albertina Modern na Áustria, mais uma vez o feminino é exaltado como se deve na produção artística mundial

por Malu Neves 25 nov 2020 01h13
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Clube Lambada/Ilustração

presença masculina sempre dominante nas artes plásticas e na arquitetura deixou uma marca muito profunda na sociedade. Sem dúvida alguma, o mundo foi privado de apreciar tantas artistas, nunca reveladas. Um paralelo sutil com a história da arte nos leva visualizar a figura da mulher, marginalizada, e por tanto tempo, restrita à casa.

Houve, no entanto, um período em que elas não eram vistas somente com o intuito de gerar e cuidar. Na Idade Antiga, as sumérias desempenhavam papéis em atividades econômicas e políticas tal qual os homens. Já os egípcios não faziam distinção entre os sexos, exaltando deusas e rainhas.

Mas levaram séculos para que a inteligência e o talento femininos ganhassem voz para novamente ecoar na sociedade. Na arte, essa premissa vem aos poucos se revelando com mais nitidez. “Foi somente a partir do século 19 que artistas femininas tiveram oportunidade de expor em espaços públicos, já que museus não as permitiam entrar, assim como proibidas de frequentar Academias”, comenta Monica Fokkelman, formada pela Universidad Complutense de Madrid e hoje uma das mais respeitadas Historiadores de Arte na Áustria.

O Albertina Modern, aberto há três meses em Viena, não apenas joga luz a uma época marcada por tabu e repressão, como quebra a hegemonia masculina. “Fizemos questão de exibir produções artísticas cheias de crítica e auto-reflexão idealizadas por mulheres pivotais para o mundo da arte”, afirma Angela Stief, curadora da mostra inaugurativa “The Beginning”, que faz um sensível apanhado de obras entre 1945 e 1980. Ao menos 30% dessa coleção é de autoria feminina.

Concebido como um dos maiores museus de arte contemporânea do mundo – são mais de 60 mil trabalhos de cinco mil artistas -, o Albertina Modern exibe publicamente, pela primeira vez, o mais amplo acervo de quadros, esculturas, documentos e performances do período pós-guerra. Dedica, inclusive, espaços individuais para algumas artistas de grande destaque no século 20, como as austríacas VALIE EXPORT e Maria Lassnig.

Valie Export Aktionshose Genitalpanik (1969-2001)
Valie Export Aktionshose Genitalpanik (1969-2001) Albertina Modern Museum / Rupert Steiner/Divulgação

A primeira, que aos 27 anos renunciou o nome de família atribuindo-se uma nova identidade (EXPORT, inspirada numa marca de cigarros), foi uma das mais radicais nas décadas de 1960 e 1970. Suas performances e vídeos usavam de seu próprio corpo como material central, de forma provocativa, questionando como mulheres eram tratadas. Em uma delas, VALIE caminhava pelas ruas com parte do corpo coberto por isopor e um véu, incitando passantes a tocarem em seus seios nus. Hoje, com 80 anos, está nos bastidores da instituição que carrega seu nome e detém um inestimável acervo.

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Albertina Modern Museum / Rupert Steiner/Divulgação

Quanto vale

Em muitos casos, certas obras passam a ser extremamente enaltecidas apenas no pós-morte do artista. É o caso de Maria Lassnig (1919-2014) cujo quadro “Woman Power” é estimado em 1 milhão de euros. Este e outros de seus trabalhos ganharam protagonismo no Albertina Modern, cuja temática envolve auto-representação, na qual ela manifesta seu comprometimento com a emancipação feminina do universo artístico machista.

Woman power (1979)
Woman power (1979) Maria Lassnig/Reprodução

“Obras de artistas mulheres, como Maria Martins e Tarsila do Amaral, por exemplo, passaram a ser mais valorizadas, mostradas com destaque e adquiridas mais recentemente por museus como o MoMA, em Nova York, em paralelo ao crescimento dos movimentos de valorização e reposicionamento da mulher na sociedade”, comenta Felipe Melo, sócio da consultoria de arte Art Ahead.

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Albertina Modern Museum / Rupert Steiner/Divulgação

Na segunda metade do século 20 desabrocharam outras figuras relevantes para a comunidade artística, como a francesa Louise Bourgeois (1911-2010). Segundo Melo, suas obras podem alcançar somas milionárias e hoje o espólio da artista é representado pela importante Hauser & Wirth, galeria com sede na Suíça. Politicamente ativa, socialista e feminista, ela usou de eventos traumáticos de sua infância, principalmente a infidelidade do pai, para se expressar. Já a brasileira Maria Martins (1894-1973) ficou conhecida como uma das principais escultoras do surrealismo. Assim como Bourgeois, Martins defendia o uso de imagens sexualmente explícitas, relacionadas ao corpo feminino.

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Albertina Modern Museum / Rupert Steiner/Divulgação

Uma das impactantes criações de Martins, em bronze, chamada “À Procura da Luz”, pode ser apreciada gratuitamente no jardim das esculturas, no Parque da Luz, em São Paulo. Ao lado, está a Pinacoteca, que desde meados dos anos 2000 tem organizado exposições retrospectivas de artistas brasileiras, como Lygia Pape, Yolanda Mohalyi, Beatriz Milhazes e Leda Catunda. A curadora chefe da instituição, Valéria Piccoli, explica sobre a nova política do Acervo: “Em 2018, o Programa de Patronos adquiriu exclusivamente obras de mulheres. Na nova apresentação da coleção, ampliamos a representação de artistas femininas para 23% do total da exposição”.

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Exposição ” Mulheres Radicais: arte latino-americana, 1960-1985″ que aconteceu em 2018 na Pinacoteca de São Paulo. A mostra teve curadoria da historiadora de arte e curadora venezuelana britânica Cecilia Fajardo-Hill e da pesquisadora ítalo-argentina Andrea Giunta e foi a primeira na história a levar ao público um significativo mapeamento das práticas artísticas experimentais realizadas por artistas latinas e a sua influência na produção internacional. Quinze países estavam representados por cerca de 120 artistas, reunindo mais de 280 trabalhos em fotografia, vídeo, pintura e outros suportes.
Exposição ” Mulheres Radicais: arte latino-americana, 1960-1985″ que aconteceu em 2018 na Pinacoteca de São Paulo. A mostra teve curadoria da historiadora de arte e curadora venezuelana britânica Cecilia Fajardo-Hill e da pesquisadora ítalo-argentina Andrea Giunta e foi a primeira na história a levar ao público um significativo mapeamento das práticas artísticas experimentais realizadas por artistas latinas e a sua influência na produção internacional. Quinze países estavam representados por cerca de 120 artistas, reunindo mais de 280 trabalhos em fotografia, vídeo, pintura e outros suportes. Levi Fanan/Fotografia

União

Felizmente a falta de representatividade de artistas femininas vem dando sinais de mudança no Brasil. A recente SP-Arte, que aconteceu virtualmente em setembro, abriu espaço para que alguns coletivos jovens ganhassem repercussão. Um deles, batizado “Levante Nacional Trovoa” tem a missão de posicionar artistas mulheres brasileiras no mercado de arte, reunindo mais de 180 delas. “Foi impressionante o destaque que o Trovoa teve durante a última edição da SP-Arte. Obras de artistas como Mônica Ventura, Bianca Leite e Hariel Revignet foram adquiridas e celebradas por importantes colecionadores e colecionadoras, acrescenta Melo.

Embora museus estejam cada vez mais dispostos a equalizar essa desproporção, ainda há um longo caminho pela frente contra o sexismo. Alguns grupos vêm cobrando essa conta e escancaram a desigualdade. Criado em 1985, em Nova York, o “Guerrilla Girls” é formado por feministas que, munidas de máscaras e usando pseudônimos, questionam o volume pouco expressivo de artistas femininas em museus, com outdoors e aparições públicas. Com o mote “As mulheres precisam estar nuas para entrarem no Metropolitan?”, o coletivo apontou o fato de 5% dos artistas das seções de arte moderna do MET serem mulheres e 85% dos nus, femininos.

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Levi Fanan/Fotografia

No final de 2017, integrantes do Guerrilla Girls expuseram pela primeira vez no Brasil, durante 10 dias no MASP, como parte da mostra “História da Sexualidade”. No ano seguinte, o MASP inaugura “História das Mulheres”, que deixou o público ainda mais esperançoso com relação a um futuro menos machista no mercado artístico brasileiro.

Hoje, há mais motivos para celebrar e projetar a presença feminina no mundo da arte. O diálogo está mais aberto, assim como a consciência. O papel restritivo e por vezes diminuto imposto às mulheres na sociedade vem sendo alterado com força e luta. A arte, cumprindo seu papel como uma das mais latentes formas de expressão histórica e social, assume uma posição determinante para esse reposicionamento feminino, assim como para a diminuição nos imensos gaps de gênero, perpetuados pelo patriarcado.

Doubleface (Nickel Titanium Yellow_Permanent Green)
Doubleface (Nickel Titanium Yellow_Permanent Green) Valeska Soares/Reprodução
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Outros espaços para contemplar artistas femininas:

*Galeria Pivô, em São Paulo: ancorada por Fernanda Brenner (considerada uma das curadoras mais influentes da América Latina) a galeria vem apoiando consideravelmente mulheres artistas, em especial nomes jovens;

*Studio Museum, em Harlem, Nova York: a curadora chefe, Thelma Golden, adquiriu recentemente obras de mulheres afro-americanas;

*Tate, em Londres: Frances Morris, diretora artística da famosa instituição Londrina, tem contribuído ao mercado da arte com expressivas aquisições de obras de artistas femininas para o acervo do museu.

FKA (antigamente conhecido como Witte de With), em Rotterdam, Holanda: o importante centro de arte desta cidade portuária vem promovendo inúmeras exposições de artistas mulheres, como a recente exposição da artista brasileira aclamada internacionalmente, Adriana Varejão.

Hotel Altstadt em Vienna, acima: corredor com peça da artista Niki d´Saint Phalle; abaixo: salão com quadro da artista Iris Kohlweiss.
Hotel Altstadt em Vienna, acima: corredor com peça da artista Niki d´Saint Phalle; abaixo: salão com quadro da artista Iris Kohlweiss. Hotel Altstadt/Divulgação

*Hotel Altstad, em Viena, Áustria: embora não seja uma instituição cultural, tem um dos acervos privados mais diversos da cidade, cujo proprietário Otto Ernst Wiesenthal, também à frente do hotel, tem olhar apurado para artistas femininas, do mundo todo.

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