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Por dentro da não-monogamia

Como seria o mundo se a ideia de fidelidade não fosse protagonista nas relações? Batemos um papo com pessoas não-mono para tentar entender

por Carol Ito Atualizado em 8 out 2021, 15h03 - Publicado em 7 out 2021 22h07
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Juliana Frug/Fotografia

Do alto de meus quase 30, me considero uma não-monogâmica cansada. Já vivi alguns relacionamentos abertos, embora seja difícil rotular experiências tão diferentes entre si. Em quase todos os casos, fui eu quem botou as cartas na mesa para questionar a monogamia, enquanto os homens cis com quem me relacionei mal sonhavam com a possibilidade. Depois de inúmeras conversas na cama e na mesa de bar, com direito a citações da filósofa italiana Silvia Federici (autora do livro O calibã e a bruxa, que escancara o quanto a monogamia serviu para aprisionar e domesticar mulheres ao longos dos séculos) e várias crises de ciúme por conta da minha sexualidade biblicamente entendida como lasciva e exagerada, me sinto exausta. 

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De repente, minha vida parecia ter virado um grande pagode do Só Pra Contrariar (“o que é que eu vou fazer com essa tal liberdade…”). E não só porque os caras não entendiam meu desejo por outras pessoas, mas também porque reconheci ideais do amor romântico tatuados na minha psique, como se o outro pudesse representar o fim da minha solidão. Muito filme da Disney nos anos 90 deu nisso. Mas sigo questionando e acreditando na não-monogamia, um conceito que funciona como um guarda-chuva e que abriga uma série de formatos possíveis para além do tradicional “feitos um para o outro”.

A ideia de exclusividade sexual é antiga e surgiu há cerca de cinco mil anos, como explica a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins em seu livro Novas formas de amar (Editora Planeta, 2017): “O homem ficou obcecado pela certeza de paternidade porque não admitia correr o risco de deixar a herança para o filho de outro. A mulher só ter relações sexuais com ele era fundamental. A partir de então, a esposa passou a ser sempre suspeita, uma adversária que requer vigilância absoluta”, escreve ela.

“O homem ficou obcecado pela certeza de paternidade porque não admitia correr o risco de deixar a herança para o filho de outro. A mulher só ter relações sexuais com ele era fundamental. A partir de então, a esposa passou a ser sempre suspeita, uma adversária que requer vigilância absoluta”

Regina Navarro Lins
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Regina Navarro Lins/Divulgação

A monogamia ainda é vista como regra e não como escolha dentro das relações e o que sustenta esse modelo é o ideal do amor romântico. “Não tenho nada contra pessoas monogâmicas nem contra monogamia, alguém pode ficar casado 50 anos e só fazer sexo com aquela pessoa. A questão é que, para isso, a monogamia tem que ser espontânea, o que é raríssimo. Geralmente, as pessoas se sentem obrigadas a ser monogâmicas e, quando não são, têm muita culpa”, diz Regina, em entrevista, acrescentando que essa mentalidade vem mudando: “Há trabalhos feitos na Europa que mostram que as mulheres não sentem mais culpa alguma por ter relações não-monogâmicas, por ter relações extraconjugais”.

Os mecanismos políticos, sociais e religiosos que incentivam a prática da monogamia (como, por exemplo, o matrimônio) podem estar associados aos nossos desejos mais primitivos, considerando uma visão psicanalítica: “A criança pequena depende emocionalmente e fisicamente da mãe, porque se a mãe desaparecer, ela morre. Na nossa cultura, não somos incentivados a desenvolver essa capacidade de ficarmos bem sozinhos. Somos incentivados a encontrar a alma gêmea, a pessoa certa, a metade da laranja. A questão é que quando as pessoas entram numa relação amorosa, reeditam aquelas necessidades infantis, então, se tornam controladoras, possessivas, ciumentas”, explica Regina.

“Não tenho nada contra pessoas monogâmicas nem contra monogamia, alguém pode ficar casado 50 anos e só fazer sexo com aquela pessoa. A questão é que, para isso, a monogamia tem que ser espontânea, o que é raríssimo. Geralmente, as pessoas se sentem obrigadas a ser monogâmicas”

Regina Navarro Lins
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Juliana Frug/Fotografia

Amores não-mono

Se a monogamia promete tanta felicidade e segurança, por que as pessoas continuam traindo? E se um “caso” fora da relação fosse considerado algo potencialmente positivo e não um sinal de que algo vai mal na vida a dois? Juntos há 18 anos, o casal de cozinheiros Pedro Tannus, 41, e Amanda Limão, 37, abraçaram a ideia de que desejar outras pessoas é completamente normal e, inclusive, incorporaram isso na vida íntima. “Começou com a ideia de vivermos fantasias sexuais juntos ou separados. O tesão dela é o que me dá tesão”, conta Pedro. “Um é combustível do outro”, completa Amanda. 

Embora já tivessem experiências sexuais com outras pessoas, a construção da ideia de não-monogamia foi longa e envolveu muitas conversas. “Virar a chave de que somos pessoas não-monogâmicas e não só um casal com relação aberta ajudou a enxergar melhor nossa individualidade”, diz Pedro. “A gente entendeu que o amor e o carinho não acabam porque você vive outras experiências, a pessoa não vai ter mais ou menos amor no estoque. Claro que nem sempre estamos em sintonia com as nossas vontades. O lance é respeitar o tempo do outro, a coisa tem que ser leve”, explica Amanda. 

“A gente entendeu que o amor e o carinho não acabam porque você vive outras experiências, a pessoa não vai ter mais ou menos amor no estoque. Claro que nem sempre estamos em sintonia com as nossas vontades. O lance é respeitar o tempo do outro, a coisa tem que ser leve”

Amanda Limão
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Amanda e Pedro/Arquivo

Mayumi Sato, 38, diretora de marketing do Sexlog, rede social adulta voltada para swing, encontros sexuais, sexo virtual e exibicionismo, passou a questionar a monogamia já na pré-adolescência: “Eu achava o casamento muito estranho e, observando as relações dos meus familiares, via que não era todo aquele conto de fadas. Se nada garante que vai dar certo, por que todo mundo segue essa regra?”, diz ela, que atualmente vive um relacionamento não-mono. “A gente se dedica à nossa relação com mais prioridade e impõe alguns limites nas outras relações, o que não impede o afeto e a conexão com outras pessoas”, conta. 

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Juliana Frug/Fotografia

Uma escolha política

Um dos principais obstáculos para relacionamentos não-mono é o amor romântico, que está incrustado em nossas vidas e ter relações que não sejam pautadas pelo controle e pela dependência emocional ainda é um desafio. Para algumas pessoas que vivenciam a não-monogamia, o caminho envolve repensar não só as práticas afetivas mas também rever privilégios e entender como as opressões de gênero, raça e classe afetam escolhas que parecem naturais. 

Em seu perfil no Instagram, Mayumi posta vídeos comentando sobre os desafios e ciladas da não-monogamia para pessoas que querem entender um pouco mais sobre o assunto. “Quando comecei a falar sobre isso, recebi muitas perguntas de homens achando que não-monogamia é só farra, que é sinônimo de poder comer todo mundo. Claramente estavam entendendo tudo errado, então, resolvi ser mais didática. Tento explicar que a monogamia favorece a opressão das mulheres”, conta. 

“Quando comecei a falar sobre isso, recebi muitas perguntas de homens achando que não-monogamia é só farra, que é sinônimo de poder comer todo mundo. Claramente estavam entendendo tudo errado. Tento explicar que a monogamia favorece a opressão das mulheres”

Mayumi Sato
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Mayumi Sato/Arquivo

“No caso de uma bixa negra como eu, é comum associarem não-monogamia à promiscuidade, à exposição ao HIV, porque existe o senso comum de que a doença está relacionada à quantidade de parceiros”, conta Alef Santana, 27, pesquisador na área de gênero e sexualidade pela Escola de Enfermagem da USP. Para ele, a não-monogamia é uma escolha política: “É uma prática de vida, um eixo redirecionador de todas as relações, inclusive, de amizade. Quando eu começava a ficar mais sério com alguém, por exemplo, passava a excluir minhas amizades e o contato com outros boys, com medo de o meu namorado ver alguma brincadeira e não gostar. A gente tem o costume de hierarquizar as relações, como se uma fosse mais importante que a outra”, conta ele, que também colabora com o portal Não-Mono em Foco e é autor do livro Bixa ex-monogâmica (independente, 2021). 

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Para a rapper, produtora cultural e arte educadora Juliana Sete, 37, se afirmar como pessoa não-mono é uma forma de confrontar o sistema racista e machista: “A mulher preta cresce vendo e ouvindo que não é merecedora de afeto, que o racismo fetichiza nosso corpo e  marginaliza nossa intelectualidade. Por isso a não-monogamia é um posicionamento político, uma afirmação da busca pela emancipação”, explica ela. Desconstruir a ideia de exclusividade afetiva também mudou profundamente a forma como ela se relaciona: “A minha não-monogamia não está relacionada somente à maneira como me relaciono sexualmente, mas também como mãe, companheira, amiga e profissional. Na minha família, a construção é totalmente coletiva, costumamos dizer que somos uma cooperativa”.

“A mulher preta cresce vendo e ouvindo que não é merecedora de afeto, que o racismo fetichiza nosso corpo e  marginaliza nossa intelectualidade. Por isso a não-monogamia é um posicionamento político, uma afirmação da busca pela emancipação”

Juliana Sete
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Juliana Sete/Arquivo
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Juliana Frug/Fotografia

Guia (não) definitivo para relações não-mono

Batemos um papo com pessoas que vivenciam a não-monogamia e que podem apontar caminhos para quem deseja ter essa experiência. Reunimos aqui algumas reflexões, lembrando que tanto na teoria quanto na vida amorosa, nada é definitivo 

É tudo a mesma coisa?
Relações livres, poliamor, relacionamento aberto, são muitos conceitos dentro da ideia de não-monogamia. Mesmo com essas tentativas de nomeação, as relações são diferentes e é difícil medir o nível de liberdade de cada uma. “Às vezes parece até que você precisa ter uma carteirinha de pessoa não-mono, uma cartilha a seguir. De certa maneira, isso me incomoda, porque é mais uma tentativa de colocar as relações em caixas, ditar nossas formas de afeto e convivência”, reflete Juliana Sete.

Em seu livro Novas formas de amar, Regina Navarro Lins faz algumas diferenciações com base em sua observação clínica e em estudos sobre não-monogamia, embora não exista consenso sobre elas: “RI [relação livre], em princípio, é plena a autonomia sexual e afetiva. Não é necessária a permissão dos parceiros para novas relações”. O poliamor “defende a possibilidade de estar envolvido em relações íntimas e profundas com várias pessoas ao mesmo tempo, no mesmo nível de importância”. Já o relacionamento aberto seria um tipo de não-monogamia que prioriza a relação a dois e “cada um pode compartilhar a intimidade com outras pessoas, sem que o parceiro fixo se sinta magoado ou enganado”.

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Juliana Frug/Fotografia

Acordos
É comum ouvir de pessoas não-mono que esse tipo de relação exige diálogo constante, que é necessário rever acordos e limites o tempo todo. Para Mayumi Sato, o diálogo deveria estar presente em qualquer situação: “Eu tenho uma máxima de que uma relação sem ‘D.R.’ provavelmente é abusiva para um dos lados, isso sendo mono ou não-mono”, afirma ela. “Uma regra inegociável pra mim é o uso do preservativo, porque envolve o corpo e a saúde. O restante, acredito que  cada um sabe o que funciona melhor.”

“Eu tenho uma máxima de que uma relação sem ‘D.R.’ provavelmente é abusiva para um dos lados, isso sendo mono ou não-mono”

Mayumi Sato

“A gente entende traição como a falha em um acordo. Não é sobre ter desejo ou se relacionar com outras pessoas”, diz Amanda Limão. “Existem acordos mais simples do tipo ‘toda sexta-feira somos nós dois’ ou ‘quando eu for viajar, gostaria que você fosse junto’, até coisas mais abrangentes, como poder se apaixonar ou não”, explica Mayumi Sato.

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Juliana Frug/Fotografia

Rever o que é mais importante
“Em vez de nos preocuparmos se nosso(a) parceiro(a) se relacionou sexualmente com outra pessoa, deveríamos apenas responder a duas perguntas: ‘Sinto-me amado(a)?’ e ‘Sinto-me desejado(a)?’. Se a resposta for sim para as duas, ótimo. O que o outro faz quando não está comigo não me diz respeito”, escreve Regina Navarro Lins em seu livro.

Claro que essa construção não é tão simples e envolve encontrar ferramentas emocionais para lidar com o próprio medo da solidão: “Se as pessoas desenvolverem essa capacidade de ficarem bem sozinhas, se relacionar pelo prazer da companhia e não por uma necessidade de ter alguém, é possível que as relações sejam mais livres, que as pessoas vivam de forma bem mais satisfatória”, explica ela, que tem mais de 40 anos de experiência clínica.

“Em vez de nos preocuparmos se nosso(a) parceiro(a) se relacionou sexualmente com outra pessoa, deveríamos apenas responder a duas perguntas: ‘Sinto-me amado(a)?’ e ‘Sinto-me desejado(a)?’. Se a resposta for sim para as duas, ótimo. O que o outro faz quando não está comigo não me diz respeito”

Regina Navarro Lins

Tesão pela individualidade
Entender que um relacionamento amoroso é só uma pequena parte de um todo de relações (afetivas, profissionais, familiares) que temos ao longo da vida não significa amar menos, pelo contrário. “As pessoas projetam muitas exigências para que o outro se encaixe naquele formatinho que elas imaginam que é o amor. Não passam pelo ponto de olhar pra pessoa e tentar compreender, gostar, ter tesão do jeito do jeito que ela é”, diz Pedro Tannus.

“Eu só acredito que uma relação possa ser realmente satisfatória se houver total respeito ao outro, ao seu jeito de ser, de pensar, de se comportar. Se houver  liberdade de ir e vir, de fazer programas independentes e o mais importante de tudo: não haver controle algum da vida do outro”, completa Regina Navarro Lins. 

Cuide dos seus limite
Cuide dos seus limite Juliana Frug/Fotografia

Aprendizado, altos e baixos
Para Alef Santana, vale a pena buscar informações e leituras sobre vivências não-monogâmicas: “São vários os caminhos que levam à não-monogamia, mas é importante estar consciente de como ela pode afetar sua vida, se familiarizar e se apropriar da discussão. Claro que não é de um dia para o outro, é uma leitura teórica densa”, explica.

“São vários os caminhos que levam à não-monogamia, mas é importante estar consciente de como ela pode afetar sua vida, se familiarizar e se apropriar da discussão”

Alef Santana

Seja ela mono ou não-mono, nenhuma relação assegura viver em um mar de rosas, então, é preciso encarar os altos e baixos. “Teve uma época que a nossa relação desandou por causa de ciúme, mesmo, tanto dela quanto meu. Só com muita conversa a gente conseguiu chegar no que a gente é hoje”, diz Pedro Tannus. “Temos um relacionamento livre com 100% de sinceridade. A gente constrói um caminho juntos a cada situação que se apresenta”, completa Amanda Limão. 

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As fotografias que você viu nessa reportagem foram feitas por Juliana Frug. Confira mais de seu trabalho aqui.

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