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Onde estão os negros nos videogames?

Produções independentes brasileiras quebram ciclo de falta de representatividade

por João Varella 13 jan 2022 09h07
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Clube Lambada/Ilustração

jogo Super Smash Bros. Ultimate, da Nintendo, pode ser chamado de “Videogame, o Videogame”. Trata-se de uma mistura de alguns dos principais bonecos dos jogos eletrônicos para lutar uns contra os outros. Nele, é possível ver Samus, da série Metroid, descendo o sarrafo em Cloud, de Final Fantasy VII.

Lançado em 2018, Smash Ultimate traz uma lista com mais de 70 opções de lutadores vindo de algum título de videogame do passado. Não há um único personagem negro jogável.

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O coletivo de arte Frente 3 de Fevereiro instalava, há alguns anos, faixas com o questionamento “ONDE ESTÃO OS NEGROS?” em instituições de arte como Masp e Instituto Tomie Ohtake. Embora videogame não tenha um espaço físico, a mesma pergunta é cabível. Onde estão? 

Lançado em 2018, Smash Ultimate traz uma lista com mais de 70 opções de lutadores vindo de algum título de videogame do passado. Não há um único personagem negro jogável

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Nintendo/Reprodução
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No paralelo

Smash é reflexo da baixa quantidade de protagonistas negros nos videogames. Lançamentos recentes parecem apontar para uma mudança nesse padrão. Jogos como Spider-Man: Miles Morales, Dishonored: Death of the Outsider e Uncharted: The Lost Legacy colocam o jogador no papel de uma pessoa preta. 

No entanto, esses títulos são continuações menores de games protagonizados por homens brancos heterossexuais. Até por isso, os títulos são cheios de palavras e sem um número, uma forma de descolar dos games maiores. Ou seja, Dishonored e Dishonored 2 são protagonizados por brancos; enquanto que, em Dishonored: Death of the Outsider, a heroína é uma mulher negra. Uma história paralela, menor, menos arriscada. Quase um spin-off.

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Uncharted: the lost legacy / Sony/Divulgação

Com protagonistas negros, Deathloop rompe esse esquema. O game, com estética de TVs de tubo, psicodelia e design gráfico à Saul Bass, foi lançado em setembro com personagens negros à frente. Na história principal, o jogador encarna Colt, um agente consciente de que o dia está se repetindo. Ele deve matar oito pessoas em 24 horas para quebrar esse ciclo. O maior obstáculo é Julianna, uma obstinada assassina que quer preservar essa repetição. A dupla se mata na base dos tiros e bate-boca. 

Não só na narrativa que o protagonismo é representativo, mas também nos bastidores – os dois principais atores e o diretor criativo são pessoas de pele preta. Outra raridade na cena, já que a presença negra na criação dos jogos é escassa. Um relatório de 2020 da International Game Developers Association (IGDA) apontou que 2% dos desenvolvedores se identificavam como negros.

“Podemos citar um título que já fez isso? Isso é transformador. Isso é inovador. Isso é afrofuturista. Isso é hip-hop. Isso é pela cultura”

Jason E. Kelley
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Jason E Kelley “JK”/Divulgação

“Podemos citar um título que já fez isso? Isso é transformador. Isso é inovador. Isso é afrofuturista. Isso é hip-hop. Isso é pela cultura”, diz Jason E. Kelley, ator estadunidense que deu voz ao protagonista Colt no jogo. Deathloop foi a primeira experiência do ator com videogames. Estreia forte, pois ele é um dos finalistas na categoria atuação do The Game Awards (TGA), o Oscar do videogame. 

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Death Loop/Bethesda/Divulgação

É publicidade?

Deathloop foi desenvolvido pelo estúdio francês Arkane Lyon, parte da Bethesda, que por sua vez foi comprada neste ano pela Microsoft. Matrioska corporativa à parte, Deathloop é uma produção grandiloquente. Quando o capitalismo de altas somas está em operação, é difícil distinguir se o alvo é o jogador ou o acionista.

Um caso sintomático aconteceu durante a apuração desta reportagem. Elástica pediu uma entrevista com Dinga Bakaba, diretor do jogo e da Arkane. O pedido foi negado por alegada falta de tempo do executivo. 

Foram apontados outros porta-vozes e que seria necessário adiantar as perguntas por escrito. Questões enviadas, veio o anúncio de que a entrevista deixaria de ser por videochamada, as respostas seriam enviadas por e-mail. Não é uma situação ideal, pois assim não há chance de contraditório, a réplica ou dúvidas que surgem no momento.

Entre as respostas mandadas por escrito, havia um texto assinado por Bakaba. 

As mesmas palavras foram publicadas dias depois pela IGN Brasil como se fosse uma declaração exclusiva ao veículo, um dos mais influentes na cobertura de videogame. A fala foi postada no Twitter oficial do veículo, com uma hashtag alusiva a um slogan publicitário da fabricante de processadores Intel. 

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A mesma hashtag foi postada dezenas de vezes desde setembro, em alguns casos com influenciadores exibindo brindes recebidos. Não há sinalização explícita de que se trata de uma campanha publicitária.

Na dúvida sobre quais são os fins das declarações enviadas à Elástica, foi decidido que o material não seria publicado neste texto. 

Produção dominada por empresas, videogame é uma linguagem artística que sofre influência direta do financeiro. Manobras na comunicação e tentativas de controle da mensagem ocorrem. Um caso emblemático aconteceu no ano passado com Cyberpunk 2077

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The New California / Game Art/Reprodução

“Tokenizam o corpo preto”

Ao escrever sobre videogame, todo cuidado é pouco, ainda mais quando se tratam de temáticas que requerem mais reflexão, contra o clima de entretenimento hedonista que por regra domina a conversa sobre essa mídia. 

“As grandes empresas que compreendem que, ao colocar a representação de um personagem preto no videogame vão ampliar seu público consumidor e seu faturamento, estão cooptando pautas de representatividade de um grande grupo de pessoas ao seu favor”, afirma Tainá Felix, da Game Arte, responsável por produção de eventos. 

“Tokenizam o corpo preto numa bela e lucrativa vitrine interativa”, diz ela, que trabalhou no desenvolvimento de games como A Nova Califórnia e Amora. Oriundo do inglês, o termo ‘tokenismo’ se refere à tentativa de uma empresa de promover a imagem de diversidade e inclusão por meio da contratação de funcionários-símbolo. O pastor e ativista estadunidense Martin Luther King empregou o vocábulo em um artigo publicado pelo New York Times em 1962

“As grandes empresas que compreendem que, ao colocar a representação de um personagem preto no videogame vão ampliar seu público consumidor e seu faturamento, estão cooptando pautas de representatividade de um grande grupo de pessoas ao seu favor”

Tainá Felix
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André Lucas/Divulgação

A representatividade ressoa no Brasil. De acordo com os dados da Pnad (Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio), do IBGE, 54,2% da população se identifica como preta ou parda. A Pesquisa Game Brasil 2021 aponta que 50,3% dos cerca de 70 milhões de jogadores brasileiros são pessoas negras.

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Importância

A falta de representatividade é apontada como causa e efeito do racismo histórico e institucionalizado. “O racismo constitui todo um complexo imaginário social que a todo momento é reforçado pelos meios de comunicação, pela indústria cultural e pelo sistema educacional”, escreve o professor, advogado e filósofo Silvio Almeida no livro Racismo Estrutural

Ele diz que quem se baseia nas telenovelas vai achar que lugar de mulher negra é na cozinha, que homem negro é criminoso e que “homens branco sempre têm personalidades complexas e são líderes natos”. É possível extrapolar esse argumento para os games. 

A produção local de jogos parece atenta a isso. “Falamos a história e a cultura das minorias, que não foi contada, não foi preservada, e que é importante para trazer para o público”, disse João Brant, desenvolvedor da Long Hat House, responsável pelo game brasileiro Dandara. O jogo arrebatou diversos prêmios, chegou a ser apontado como um dos melhores de 2018 pela revista americana Time

“Falamos a história e a cultura das minorias, que não foi contada, não foi preservada, e que é importante para trazer para o público”

João Brant

O game faz diversas referências a ícones brasileiros – há um Abaporu, de Tarsila do Amaral, logo no início – e é protagonizado por uma personagem inspirada em Dandara dos Palmares, guerreira negra do período colonial do Brasil. Segundo Brant, a Long Hat está trabalhando em outro hoje que “segue na onda de explorar a cultura brasileira”. Enquanto isso, Dandara se espalha. Em breve, chegará ao Apple Arcade, o Netflix de jogos do iPhone. 

Unsighted, da Pixel Punk, é outro exemplo de game brasileiro protagonizado por uma pessoa negra. “No Unsighted, seguimos a ideia de quebrar com padrões de jogos AAA [jargão para grandes produções de games] e tentar aproximar o mundo de ficção com a realidade brasileira”, diz Tiani Pixel, desenvolvedora do jogo – Elástica falou do jogo aqui

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Unsighted/Reprodução

Tiani escancara uma dialética dos independentes em relação ao mainstream. A história do videogame mostra que há exemplos esparsos de pessoas negras no papel de heróis em jogos grandes, como na série The Walking Dead, Watch Dogs 2 e GTA San Andreas, que recentemente ganhou uma versão remasterizada. 

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O pai dos cartuchos

A mesma história também tem apagamentos. O engenheiro eletrônico Gerald “Jerry” Lawson (1940-2011) raramente é lembrado, mas seu pioneirismo é vital. Ele desenhou o console Fairchild Channel F, o primeiro a utilizar cartuchos, o que possibilitou que os games fossem comercializados separadamente. Também trouxe um inovador botão de pausa. O aparelho foi lançado em 1976, mas teve vida curta, pois a concorrente Atari lançaria logo depois o Atari 2600, um arrasa-quarteirão cheio de jogos famosos. 

Lawson era negro. Comumente, era o único afroamericano nos encontros e eventos de desenvolvedores dos anos 1970. Em uma entrevista de 2009, ele comentou essa situação. “Podia ser tanto um ponto positivo quanto negativo. Poderia até ser uma vantagem porque você tem muitos, digamos, olhos te observando. E se você fez algo bem, você fez em dobro”. Jerry mudou para sempre o videogame, fez bem mais que o dobro.

“Podia ser tanto um ponto positivo quanto negativo. Poderia até ser uma vantagem porque você tem muitos, digamos, olhos te observando. E se você fez algo bem, você fez em dobro”

Jerry Lawson
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