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Tempo de viver, tempo de morrer

Casal de brasileiras trans cria jogo futurista em que todos estão à beira do falecimento, até mesmo o jogador

por João Varella Atualizado em 3 nov 2021, 16h03 - Publicado em 28 out 2021 22h38
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Clube Lambada/Ilustração

pós quatro anos de trabalho, Tiani Pixel, 26 anos, e Fernanda Dias, 29, receberam as primeiras reações à sua obra no final de setembro. A data marcava a publicação das primeiras críticas ao game Unsighted, por elas desenvolvido. Para a Screenrant, trata-se de um dos melhores games do ano em seu gênero. Já o The Indie Game Website qualificou como “esquecível”.

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As reações díspares eram esperadas. Tiani e Fernanda conversaram com Elástica momentos após a publicação das primeiras resenhas. “O jogo tem umas mecânicas arriscadas”, diz Tiani. Unsighted exige envolvimento e atenção, pois os personagens estão em seus últimos minutos de vida, inclusive a protagonista controlada pelo jogador.

Tiani Pixel, uma das criadoras de Unsighted
Tiani Pixel, uma das criadoras de Unsighted Arquivo/Reprodução

Cada segundo conta, indo de encontro à proposta de exploração amiúde vista nos jogos, deixando o jogador desconfortável. “É o que faz a experiência ser mais forte”, afirma Tiani, com sotaque do interior paulista – ela nasceu em Cruzeiro.

O jogador é o único capaz de impedir as fatalidades. Se não for rápido o suficiente, não tem mais volta, um amigo falece. É assim como a Vila da Engrenagem, comunidade de sobreviventes, vagarosamente perde seus habitantes. O jogador testemunha a gradativa degradação do local. Um memento mori, termo em latim para a lembrança de que somos mortais.

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Jogo mortal

Vida é um elemento fútil no videogame. Antigamente, ser derrotado significava perder a ficha. Com a evolução da tecnologia e a mudança no modelo de negócio do videogame, o desenho dos títulos mudou. A punição passou a ser uma tela de carregamento com o retorno a alguns minutos anteriores. A morte virou um trâmite, um baque na estrada, tente outra vez. O jogo brasileiro desafia essa comodidade contemporânea. À primeira vista, isso não fica evidente. Unsighted aparenta ser um jogo corriqueiro, com câmera alta, visual 2D e arte em pixels, remetendo à era do Super Nintendo. São elementos vistos em centenas de jogos, como CrossCode, Hyper Light Drifter e alguns títulos da série The Legend of Zelda. Porém, logo Unsighted chama a atenção para cronômetros marcando o tempo de vida que resta aos NPCs (sigla em inglês para personagem não jogável, os coadjuvantes da trama). Há remédios paliativos espalhados pelo cenário, porém escassos. É preciso escolher quem vai viver.

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Unsighted/Reprodução

Unsighted se vale da ficção científica para discutir os imponderáveis da vida. O jogo versa sobre andróides que ganharam consciência graças à substância de um meteoro. Isso provocou uma guerra com humanos, que selaram a pedra. Sem essa matéria, os robôs ficam unsighted, tornam-se máquinas violentas sem raciocínio, quase como zumbis.

O jogador controla Alma, uma desmemoriada autômata de combate, capaz de empunhar diversos armamentos. Ela precisa reunir cinco fragmentos espalhados no mundo e assim liberar o meteoro. O estúdio Pixel Punk conta essa história com elementos de outros jogos. Usa a barra de vigor à la Dark Souls, aprimoramentos no estilo Nier: Automata, criação de itens meio Minecraft, relacionamentos como Stardew Valley, recarregamento de arma tipo Gears of War, pesca na pegada de Hades e muito, mas muito Zelda. Esse encadeamento faz de Unsighted um videogame bem… videogame. “Tem muito jogo que tem vergonha de ser videogame. Se a gente quisesse fazer um livro, teríamos escrito um”, afirma Tiani. “É uma história que só pode ser contada como videogame”, complementa Fernanda.

“Quem é contra o direitos das pessoas trans, gays ou anti-vacina não precisa comprar nosso jogo, pode piratear se quiser”

Tiani Pixel

São sistemas e cenários instigantes, um convite à exploração. Os devaneios são interrompidos quando chega um aviso de que um amigo vai morrer nas próximas 24 horas, o que na prática significa alguns minutos.

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Unsighted/Reprodução

Pressão

Lançamentos recentes trazem o tempo ao centro do enredo. Outer Wilds, Twelve Minutes e Deathloop lidam com o tempo como se fosse um curto ciclo de repetições perpétuas, constituem quase um subgênero de loop temporal, popularizado pelo filme Feitiço do Tempo. Nem sempre o relógio foi amigável. Tempo era fator de pressão na era dos fliperamas e nos primeiros consoles. A trilha sonora que toca em Sonic quando o ouriço azul está por morrer afogado traumatizou uma geração. Unsighted resgata esse sentimento. Um segundo da vida real vale um minuto dentro da narrativa. Foi desenhado para ser experimentado mais de uma vez, sendo que a primeira tentativa mais guiada, com ordens recomendadas do que fazer. Diluíram um pouco do sentimento dos speedruns, a parcela de jogadores que gostam de terminar um game no menor tempo possível. Esse modo gera registros de recordes, campeonatos e festivais beneficentes.


Um segundo da vida real vale um minuto dentro de Unsighted. Foi desenhado para ser experimentado mais de uma vez, sendo que a primeira tentativa mais guiada, com ordens recomendadas do que fazer

Fernanda Dias, uma das criadoras de Unsighted
Fernanda Dias, uma das criadoras de Unsighted Arquivo/Reprodução

A Games Done Quick, cuja próxima edição acontecerá entre 9 e 16 de janeiro de 2022, diz ter arrecadado US$ 34 milhões a instituições de caridade. Quem não topar a proposta da Pixel Punk pode ligar o modo exploradora com opções para facilitar a jornada, sendo que uma delas desabilita o timer dos personagens.

Acessibilidade, speedrun e arte em pixel são qualidades divididas com Celeste, um dos jogos independentes de maior repercussão dos últimos tempos. As coincidências não param por aí: Celeste teve brasileiros na sua composição – um dos estúdios que participou da criação do jogo foi o Minibosss, dos brasileiros Amora, Pedro e Heidy. Quer mais? Pois a líder de criação Maddy Thorson é uma mulher trans, assim como Tiani e Fernanda.

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Unsighted/Reprodução

Diversidade

Tiani fez a arte, enquanto a Fernanda se ocupou da música. Ambas trabalharam na programação. Como é praxe em empresas pequenas, as posições não são lá muito estanques. A dupla se desdobra para fazer o atendimento aos jogadores nas redes sociais, em inglês e português. Entre um jogador com dificuldade de superar um obstáculo e outro, elas postam fotos dos gatos Panqueca, de 2 anos, e Pom, 3, no canal de texto cute (fofo, em inglês) do Discord.

Tiani e Fernanda são parte de uma minoria. Unsighted não foi programado pelos tipos masculinos que dominam as produções – segundo o levantamento State of the Game Industry 2021, três em quatro trabalhadores do ramo são homens. A situação é assim por mais que as mulheres representem a maior parte do público em alguns países – no Brasil elas são 51,5%, conforme a Pesquisa Game Brasil. Apenas 5% dos desenvolvedores moram na América do Sul.

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Unsighted/Reprodução

A dupla se conheceu no Facebook. “A Tiani gostou do meu chapéu”, conta Fernanda. Seu retrato na rede social mostrava um chapéu de bruxa, com óculos estilo steampunk. “Era só uma mistura de acessórios que eu tinha aqui em casa, eu tinha trocado a foto de perfil para o Halloween”. Tiani estava desenvolvendo Unsighted. Fernanda mandou seu portfólio e se ofereceu a ajudar. Assim começou uma parceria profissional e afetiva.

O projeto teve seu debut público na BIG 2018. Foi um dos indicados a melhor jogo. “Fizemos um recorte vertical, com 20 minutos muito polidos, parecia que o jogo estava pronto”, conta Tiani. O vencedor do certame foi “punk”, mas não Pixel Punk. O caneco foi para Frostpunk, do polonês 11 bit Studios. Mesmo assim, Unsighted chamou a atenção de publicadores, empresas que oferecem financiamento, divulgação e outros apoios ao desenvolvedor. “Um jogo é fazer, terminar e lançar, três coisas completamente diferentes, todas muito difíceis individualmente”, desabafa Fernanda. “As pessoas não sabem o quão difícil é, quantas noites a gente passou sem dormir, tendo que resolver mil coisas ao mesmo tempo. São várias dinâmicas, psicologia, música, burocracia…”, enumera Tiani.

“Colocamos vários casais LGBT e o jogo aborda várias questões políticas no universo fantástico dele. Defender direitos de pessoas marginalizadas é a única posição possível, não estamos interessadas em ceder”

Fernanda

Unsighted tem uma quantidade de conteúdo desproporcional à sua reduzida mão de obra. O público pode acompanhar, os bastidores do desenvolvimento foram compartilhados e comemorados… e também alguns perrengues e pedidos de ajuda. “Devs brasileiros: alguém sabe como evitar dupla tributação em cima dos 30% do imposto internacional quando recebe dinheiro de venda dos EUA? (steam por ex.)” ou “E novamente nos encontramos sem contador pq ninguém quis ou sabia lidar com isso, massa d+”

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Contrato fechado

A Humble Bundle, conhecida por ofertar pacotes de jogos, foi uma das empresas interessadas em Unsighted. Na época, eles ensaiavam entrar no ramo de publicação de jogos, o que viria a acontecer com mais clareza em 2020 com a subsidiária Humble Games. Outro jogo brasileiro nesse guarda-chuva é Dodgeball Academia, do estúdio Pocket Trap, também lançado neste ano. Aliás, cabe destacar que 2021 promete ser um marco para o desenvolvimento de games brasileiros: Dandy Ace, Spacelines from the Far Out e Tetragon são outros exemplos de jogos nacionais deste ano com acordos de publicação com empresas de fora.

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Unsighted/Reprodução

Após a BIG, Fernanda e Tiani passaram a morar juntas em Santo André, na região metropolitana de São Paulo. Com o apoio da Humble, Unsighted chegou às principais plataformas, inclusive no Game Pass, o serviço de assinatura da Microsoft. Unsighted chegou ao público no dia 30 de setembro. Teve de dividir os holofotes com a chegada oficial do serviço de nuvem do Game Pass no Brasil e a estreia das grandes produções Scarlet Nexus e Marvel’s Avengers.

Game Over. Continue?

Videogame é um campo cada vez mais importante da política, abarcando desde disputas eleitorais a debates de representatividade. Fernanda e Tiani honram o “punk” de seu estúdio. Não temem expor suas posições políticas nas redes sociais, é “fora Bolsonaro” com naturalidade. “Muita gente já falou que não vai jogar por sermos esquerdistas”, conta Tiani. “Quem é contra o direitos das pessoas trans, gays ou anti-vacina não precisa comprar nosso jogo, pode piratear se quiser”. Segundo ela, um dos critérios para escolher a Humble como publicadora foi o apoio que a empresa deu a diversas causas humanitárias. “Parte do texto e do subtexto é abertamente político”, complementa Fernanda. “Colocamos vários casais LGBT e o jogo aborda várias questões políticas no universo fantástico dele. Defender direitos de pessoas marginalizadas é a única posição possível, não estamos interessadas em ceder”. Tiani e Fernanda são mulheres trans. Por mais que rejeitem falar apenas de questões identitárias (“somos muito mais do que isso”), ambas se dizem dispostas a dialogar. Querem participar de construções inclusivas, do lado certo.

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Unsighted/Reprodução

A nota do jogo se estabilizou em 80 no agregador de resenhas Metacritic. Recebeu uma rara unanimidade no OpenCritic, com 100% dos críticos recomendando o jogo. Isso considerando o momento em que este texto era escrito. Videogame é volúvel. Unsighted teve cinco atualizações oito dias depois que o jogo foi lançado. Com a missão cumprida, Tiani e Fernanda pensam em descansar. Afinal, ninguém é máquina – pelo menos, não na vida real.

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