expressão

O punk respira: Rakta

Trio escapa à generalidade musical e provoca ascese ao mistério expansivo das bruxarias rítmicas

por Eduardo RIbeiro Atualizado em 27 ago 2021, 13h16 - Publicado em 26 ago 2021 23h25
-
Clube Lambada/Ilustração

ruto das recentes transformações do punk que nos têm brindado com uma série de abordagens revigorantes, a Rakta surgiu como um quarteto feminino em 2011. Depois de uma temporada no exterior e da reconfiguração do grupo paulistano como um trio, dessa vez com Mauricio Takara na bateria, acompanhando Carla Boregas (voz e baixo) e Paula Rebellato (voz e teclado), retornou com os álbuns Falha Comum, em 2020, e o registro de uma experiência colaborativa com o Deafkids, Ao Vivo no Sesc Pompeia, deste ano.

A Rakta tem um dos nomes de banda mais espertos dos últimos tempos. Em sânscrito, significa “sangue”, ou, “vermelho-sangue”. O elemento, a cor, da vida e da morte. Isto espelha uma dualidade inerente às criações e às temáticas do conjunto, que iniciou flertando com a estética pós-punk e foi passo a passo sendo tragado para o centro de um universo musical tribalista, abstrato, transcendente, e apenas definível em termos que superam a facilidade das curtas alusões.

A fase atual segue no fluxo de combinar elipses rítmicas experimentais com preceitos estruturais da canção, o que aponta para gravações futuras cada vez mais flexíveis em sua camada de ritmos. O som, agora mais expansivo, incorporado numa espécie de viagem ritualística, abre espaço para inesgotáveis invenções.

Caminhando com a nossa série especial que contempla a mais ou menos nova safra de bandas underground no Brasil protagonizadas por mulheres, conversamos com Carla e Paula sobre como tudo começou, os diferentes ciclos pelos quais já passaram, vibes mântricas, paganismo, teoria musical, a necessidade de “negociar o tempo inteiro com o sistema” e outros tópicos instigantes, como a importância da “frequência da loucura”. Chega mais:

Continua após a publicidade

-
Ivi Bugrimenko/Divulgação

Podemos começar falando sobre a jornada criativa de vocês até a formação da Rakta?
Paula: O meu primeiro projeto se chamava Guma. Comecei pelo eletrônico, explorando Froot Loops, era uma pegada de som mais 8-bit, dub, assim, e envolvida com o punk também, o underground e tal. E aí tive uma banda anarcopunk, com 15, 16 anos, lá por 2004, por aí, mas a minha presença no grupo durou muito pouco, fazia vocal. Depois toquei baixo em outra banda, na qual também fiz só um show, era mais hardcore. Na sequência, veio o Rakta. Minha primeira relação mesmo foi com música produzida no computador. Já tinha tocado guitarra sozinha, essas coisas, mas, de falar “isso aqui é um projeto”, esse foi meu primeiro.

Carla: A Rakta foi onde eu comecei a tocar, de fato. Fiz uns ensaios antes tentando tocar, mas nem considero, foi uma experiência muito rápida, com a Estela, que tocava no Infect, e a Dani. Então comecei a tocar mesmo dez anos atrás, quando formamos essa banda. Mas meu envolvimento vem desde o colégio, de quando eu tinha 15 anos e estudava em uma escola técnica estadual, e a escola tinha um envolvimento político bem forte. Então a gente foi em todas as manifestações da época antiglobalização, comecei a ir em Verdurada, depois participei um pouco da organização (da Verdurada). Fui em turnês também, quando tinha uns 18 anos, para fora. Meu envolvimento era mais dessa forma, de fazer parte da contracultura. Na contracultura, as pessoas que não tocam também são parte daquilo e têm um papel tão importante quanto quem toca. Quando comecei no Rakta, já tinha uma ideia mais formada do que eu queria, uma cabeça mais direta.

E o que vocês queriam era imergir numa onda mântrica de transcendência rítmica? Como os elementos de ocultismo, espiritualidade, somaram-se às composições?
Carla: Acho que a banda é isso. E, também, nós já passamos por formações diferentes. Acredito que, em cada ponto, cada uma tem os seus desejos, e a banda é o lugar onde essas coisas se encontram. Quando começamos mesmo, essa coisa de uma transgressão de gênero aconteceu porque vínhamos cada uma com um universo já muito plural nesse sentido, sabe? Cada uma tinha a sua formação. Todo mundo vinha um pouco do mesmo lugar, mas acho que é isso: a Paula tinha passado pelas coisas dela; eu tinha passado pelas minhas coisas… tipo, larguei São Paulo e fui morar na praia e no nordeste, então tive relação com um monte de gente de um monte de rolê diferente. A minha vontade não era ter uma ligação de gênero com qualquer estilo. Era mais ter um espaço de abertura de criação. Sempre foi essa a vontade, poder ter um espaço para pensar as coisas. Falando pessoalmente, também essa questão de ocultismo, espiritualidade, para mim não era uma coisa tão clara. Acho que isso tem mais a ver com as minhas experiências. Não tenho uma identificação com algo exato, é mais em decorrência do que eu vivo e como isso é impresso nas coisas. Não sigo nada certo, mas estou aberta para isso.

Paula: No começo da banda, eu não sabia muito bem o que estava fazendo ou procurando. Nessa época, eu tive muita influência do lance do Sagrado Feminino. Estava vivendo bastante isso, envolvida com espaço, vivências e trabalho também, então foi inevitável que eu levasse isso para o primeiro disco, principalmente, que tem referências bem diretas para aquele livro, Mulheres que Correm com os Lobos (Clarissa Pinkola). Esse lado mais místico, vamos dizer assim, sempre foi muito presente para mim, e muito espontâneo também, natural. É o que a Carla falou, o que a gente vive se imprime no que fazemos. Mas sinto que o primeiro disco, a primeira fase da banda, foi muito direta essa influência, e proposital também, nas letras, as coisas que eram evocadas ali. Essas referências ao nosso som, acho que muitas das coisas que foram faladas sobre a nossa música não foram coisas que a gente pensou antes. Tipo, “ah, queremos ser chamadas de bruxas”. As pessoas foram projetando na gente, e acho que essa é a liberdade, cada um captar esse universo e traduzir em uma palavra que tenha um significado particular. Mas eu sei que a gente sempre trouxe essa coisa, mesmo querendo fugir dos rótulos, é uma coisa nossa.

Carla: Por exemplo, acho que quando se fala em música mântrica, isso, sim, tenho uma noção de que foi uma escolha consciente. Essa coisa da repetição talvez não fosse tanto o intuito, mas a gente percebeu a potência disso. E, claro, sempre ouvimos, tanto a Paulo como eu, músicas que têm essa relação mântrica, e transe, então acho que é isso, entrou justamente nesses dois lugares. Acho que esse campo, para o Rakta, foi um espaço em que, de fato, pudemos testar algumas coisas, às vezes nem de forma tão consciente, mas conforme criamos, descobrimos a força do que fazemos. Aí começamos a usar isso mais conscientemente. Mas já tínhamos, nós duas, interesse por música sufi, por exemplo, ou por músicas que são repetitivas, que têm esse lugar de um transe, que traz outras coisas com o som, que vai além da canção, vai para o lugar de criação de universo. Fomos descobrindo isso tocando juntas e sempre foi uma coisa mais de nós duas, de entender a música como essa ferramenta, essa linguagem de poder colocar as coisas em outro estado mesmo. Vários tipos de música fazem isso, mas acho que a gente achou, com o Rakta, um lugar que é muito natural. Não é que pensamos em fazer um som para “hipnotizar pessoas” [risos]

“Quando se fala em música mântrica, isso, sim, tenho uma noção de que foi uma escolha consciente. Essa coisa da repetição talvez não fosse tanto o intuito, mas a gente percebeu a potência disso. E, claro, sempre ouvimos, tanto a Paulo como eu, músicas que têm essa relação mântrica, e transe, então acho que é isso, entrou justamente nesses dois lugares”

Carla Boregas

Paula: Até porque, para mim, no começo havia a questão da limitação técnica, porque todo mundo estava meio que aprendendo a tocar junto, e isso favoreceu também para o som ser repetitivo. Hoje, a gente sabe o que quer melhor do que há dez anos, por ter crescido, amadurecido tecnicamente.

Carla: Sinto que, ainda hoje, por mais que tenhamos mais bagagem, ainda tenho o interesse de entrar nesses processos, de uma forma indefinida. É entrar com as coisas que se têm em um processo e entender como desejos e técnicas se traduzem em formas. Acho que, tanto a Paula como eu, quando nos encontramos para montar a banda, já tínhamos passado por muitas outras vivências que não eram só relacionadas ao punk e o hardcore, isso acabou imprimindo muito o que o Rakta é. E eu também já estava com 27 anos, quando comecei a tocar.

Paula: Foi justamente isso, lembrando agora, a Laura tinha voltado da Espanha super influenciada pelo punk de Barcelona. A Nata estava saindo do Vítima, já mais do punk. A Carla já tinha voltado da praia há um tempo. E eu estava começando a entrar num rolê mó pagão, meio hippie, meio louco. Você imagina juntar isso! [risos]

-
Ivi Bugrimenko/Divulgação

Teve momentos em que aconteceram um pouco de desencontros também?
Carla: Acho que a Paula e eu sempre estivemos mais alinhadas na questão estética, o que queria explorar e tal.

Paula: Na doidera, né. [risos] Usando uma palavra fácil, acho que é essa.

O que a entrada do Maurício Takara agregou à banda em termos de novas direções estéticas? Aliás, como ele veio parar na formação?
Carla: Foi em 2017 que ele entrou, em dezembro. A gente voltou da Europa, aí teve o show com o Acid Mothers Temple, na Associação Cultural Cecília, e ele começou a tocar. Foi o Mateus [Mondini, da Nada Nada Discos] que sugeriu. Ele é meio que o quinto membro do Rakta, sempre esteve com a gente, desde o começo, lançando disco, hoje em dia ele trabalha como nosso agente. A Nata já estava morando na Argentina, queria sair, e o Mateus sugeriu o Maurício, porque tínhamos feito um show que eram quatro bandas juntas: Hurtmold, Metá Metá, Bixiga 70 e Rakta. Acho que o Maurício tocou uma música nossa naquele dia, e o Mateus falou: “Por que vocês não convidam ele?”. O Maurício é muito experiente com coisas que vão para um lugar em que já estávamos trabalhando. Ele tem essa fluidez, e acho que a Paula e eu, depois de tocar há tanto tempo juntas, também já temos uma super fluidez. O Maurício só veio a agregar ainda mais isso, proporcionou mais base para fluir.

Vocês sempre tiveram momentos meio improvisados, e, acompanhando a evolução dos álbuns, parece que mais recentemente foram entrando nisso cada vez mais.
Carla: A Nata, que tocava bateria, não era muito a dela, sabe? Quando o Maurício entrou, abriu mais esse campo como uma parte rítmica também, porque a bateria pôde ir para outros lugares. Acho que entram os muitos gostos em comum de sonoridades…

Paula: …E a doidera! [risos] É a frequência da loucura, ela tem que encaixar.

“O Maurício é muito experiente com coisas que vão para um lugar em que já estávamos trabalhando. Ele tem essa fluidez, e acho que a Paula e eu, depois de tocar há tanto tempo juntas, também já temos uma super fluidez. O Maurício só veio a agregar ainda mais isso”

Carla Boregas

A proposta inicial da Rakta era ser uma banda só de minas, ou isto se deu pela ocasião?
Paula: No começo, sim. Foi a Nata que nos juntou, e acho que foi bem proposital. Ela já vinha de um trio, o Vítima, só de minas…

A que outras atividades vocês se dedicam, além da banda e da música?
Paula: Estou para começar a estudar agroecologia.

Carla: Eu tenho me dedicado cada vez mais ao som relacionado a outras linguagens, estou morando na praia com o Maurício, a gente namora. Tenho um projeto com ele, também tenho um outro duo, chamado Fronte Violeta, que aí já é mais transdisciplinar, investigamos arte olfativa, vídeo… fiz trilha para desfile, estou trabalhando também com o povo da dança, trilha para documentário. Nestes últimos tempos tenho me dedicado a isso. Antes, eu trabalhava com figurino, foram mais de dez anos. Também já trabalhei com joalheria. Nos últimos anos consegui ficar dedicada à música. Não sei os próximos passos, no momento estou me dedicando à arte mesmo.

O que vocês pensam sobre a teoria crítica feminista-vegetariana [de Carol J. Adams], que aponta uma ligação entre o machismo e o ato de comer carne?
Carla: Isso me lembra as antigas discussões da Verdurada, que as lutas são conectadas, porém não penso que o ser humano tem que ser isso ou aquilo, longe disso. Pessoalmente, para mim, todas essas formas de repensar o entorno são práticas conjuntas. Tipo, pensar em como me alimento é um ato muito importante, tem uma ligação com a terra, modo de produção. Isso foi o que aprendi lá atrás. Fui vegana dos 15 aos 19 anos, e isso me ensinou muita coisa sobre opressão, que é o ponto em comum dessas lutas. Não sou mais vegetariana, mas acho que repensar a alimentação traz também a questão da opressão em cima de quem produz, de quem consome. A minha preocupação é mais com os modos de produção. É preferível comprar um peixe da mulher que pesca aqui, um negócio local, da comunidade, do que um hambúrguer da Sadia. Tento praticar isso na minha vida. Acho que muitas das lutas giram em torno do capital mesmo.

Paula: Acho que, dentro do punk, uma das coisas que a gente mais acredita é a questão da autonomia. Esse é o ponto-chave para mim, tem mais a ver com isso, conhecer o processo das coisas. Tudo tem que ser contextualizado. São muitas as realidades que se sobrepõem. Cada um tem seu tempo, sua crença. Quando fui vegana, eu era adolescente, e era chata pra c******. Eu era uma fascistinha vegana [risos]. Julgando… enfim…

Carla: A gente cada vez mais se aliena do mundo de fato. Cada vez mais o modo como a sociedade opera sobre os nossos desejos é em torno de coisas que são um produto, você vai no supermercado comprar uma comida enlatada, um refrigerante açucarado, e, ao mesmo tempo, as cidades separam as pessoas da terra. Está todo mundo alienado no concreto. Somos herdeiros de uma violência descomunal, acho até que esquecemos que convivemos com isso diariamente. O que choca é pensar que nós, enquanto humanidade, parece que o tempo passa e não se aprende muita coisa. Não se aprende quase nada, na real. Mesmo com essa história toda da pandemia, o consumismo impera, o povo não está entendendo que o meio ambiente não vai dar conta, o mundo não foi feito para consumir dessa forma. Estamos tão alienados dos meios de produção que esquecemos de onde vai parar o nosso lixo. Aqui mesmo comecei a colocar o lixo numa composteira em um terreno ao lado e comecei a perceber a quantidade de lixo que produzo. Isto porque comemos muito mais coisa fresca. São montanhas de lixo orgânico mesmo, sabe?

-
Ivi Bugrimenko/Fotografia

Para artistas que criam fora do âmbito do entretenimento descompromissado, onde a música assume um fim em si mesma e não uma proposição social, acaba se tornando difícil viver lidando com as contradições inerentes ao percurso inverso. Para vocês, há casos em que vira um dilema aceitar certas condições para tocar, divulgar as paradas, disponibilizar os sons, vídeos, coisas assim?
Carla: Eu acho bem antinatural mesmo o processo do que fazemos, de viajar para tocar, dar mil voltas. Na Europa já tem uma coisa do pessoal não querer viajar muito de avião, os próprios artistas. E, assim, sinceramente eu concordo. Não acho que seja válido viajarmos tanto, mas quando você se coloca no lugar, se não formos de avião para lá, como iremos? Por que temos que ficar isolados também de um circuito cultural? É isso, por causa do sistema em que vivemos lidamos com contradições. Você tem que negociar o tempo inteiro com o sistema.

Continua após a publicidade

Paula: E consigo mesmo também.

Carla: Para mim é bem complexo, às vezes caio numas crises, principalmente no setor cultural.

“Acho que, dentro do punk, uma das coisas que a gente mais acredita é a questão da autonomia. Esse é o ponto-chave para mim, tem mais a ver com isso, conhecer o processo das coisas. Tudo tem que ser contextualizado. São muitas as realidades que se sobrepõem. Cada um tem seu tempo, sua crença”

Paula Rebellato

Tipo quando pinta projeto de marca?
Carla: Ah… a gente abriu mão disso…

Paula: …Depende, na verdade…

Carla: …É, tem coisa que a gente tem que avaliar. Porque é isso, as empresas trabalham com o setor cultural na base da esmola. Ouvi um dia desses uma história de que foi ter uma exposição na Ocupação Ouvidor e aí a Red Bull falou que ia patrocinar. Foi lá e não deu nem R$ 5 mil, sabe? Aí você fala assim, “gente, isso é, sinceramente, esmola.” O que são R$ 5 mil para essa empresa suíça, que lava dinheiro pra caralho lá? Só que é isso, para algumas pessoas que estavam participando também podia ser um dinheiro significativo.

Paula: Aqui é sempre encruzilhada uma proposta dessas. Foda, acho que algumas pessoas têm crenças mais assim. Esses tempos estive com um cara que é do skate das antigas, ele já é mais velho, com filhos. A gente entrou nesses papos e ele falava que skate não é esporte, aí eu comecei a supor situações, e ele rejeitava a ideia. Mas mesmo a pessoa com a ideia mais arraigada vai se moldar ao contexto. Os nossos valores estão sempre sendo testados. Acho importante sempre manter esse filtro das coisas, tem gente que já vai fazendo, não importa a marca. E aqui é fóda uma proposta dessas, porque não se ganha grana, e, quando aparece, tem uma marca, aí você fica pensando no que fazer.

Carla: O capitalismo abre esses espaços: “Você quer existir? Você quer até falar mal contra mim? Você pode falar, que ainda estará dentro do meu universo. Vamos dar um espacinho aqui para você.” Um exemplo é a gente enquanto artista e o uso do Instagram. Isto, para mim, é a maior contradição diária. Então é negociação o tempo inteiro.

De trampos novos, o que virá pela frente agora, depois do Ao Vivo no Novas Frequências?
Paula: No começo do ano fizemos uma trilha para um filme de uma artista, para uma exposição na Pivô, e participamos com uma performance. É baseado no livro As Guerrilheiras (Monique Wittig), reeditado há pouco pela Ubu. Agora, no segundo semestre, talvez comecemos a pensar em um novo disco.

Para ocasiões como aquela no Sesc, tocando junto com o Deafkids, ou mesmo a sessão “Patch Notes”, que fizeram para a Fact Magazine, vocês trocam uma ideia ou ensaiam antes para definir o que vão apresentar, ou acaba rolando como uma espécie de jam?
Carla: Com Deafkids, sim, a gente ensaiava em seis pessoas. Tem coisas improvisadas e partes que são composições das duas bandas, separadas e juntas.

No geral, os registros em estúdio da Rakta são fruto de um processo previamente esquadrinhado?
Carla: Acho que não…

Paula: É consciente, mas não desse lugar, talvez lógico, de colocar no papel…

Carla: Cada um, também, dentro do processo de criação, se enxerga de uma forma.

Paula: E a coisa vai se moldando. Começa de um lapso, aí vai para um campo racional, volta para uma abstração. Não é um caminho, é tudo junto, não somos rígidas.

Esta trilha que vocês comentaram, por sinal, foi inspirada no conteúdo do filme?
Carla: Na trilha, que provavelmente deve se desdobrar num álbum mais pra frente, nós tivemos como inspiração o livro. Não vimos o filme para o qual fizemos a trilha, mas tínhamos esse livro que era a base, então nos alimentamos muito dele. Mas não de uma forma tão literal, dentro do nosso universo.

Vocês curtem estudar teoria musical, Pozzoli, partituras, acordes, bicordes, aplicar os desenhos das escalas, das pentatônicas…?
Carla: Acho que teoria musical não é só isso, ela tem campos. Gosto bastante, quando aprendo coisas percebo que isso me abre mil portas. Eu tento aplicar da minha forma.

-
Ivi Bugrimenko/Divulgação

Mas a relação de vocês com os ritmos e melodias é mais ou menos diletante?
Paula: Acho que é mais isso, a gente [risos].

Carla: Quando aprendo um acorde, fico pensando nele, imaginando, é um outro processo.

Paula: Eu oscilo, em fases, sei lá: teve uma fase em que sentei e falei “Vou tirar essa música”, e fiquei, juro para vocês, eu estava conseguindo [risos]. Aí passa um tempo, e eu falo, “Foda-se”, e já começo a tirar as minhas piras. Tipo, estou com um instrumento rítmico, percussivo, aí vou mais pra um caminho de aprender os ritmos árabes…

Carla: Gosto de ler, por exemplo, sobre minimalismo etc., eu vou estudando. Para mim é mais isso, não estudo a teoria convencional, mas o que é relacionado a esses outros caminhos de pensar a composição, disso eu gosto bastante, assistir documentários. Isso imprime bastante depois, nos momentos de criação, dentro do meu modo de juntar esses mundos e trabalhar com o meu.

Beleza. O que eu tinha era isso, obrigado pela conversa! Se quiserem acrescentar alguma coisa, só dizer.
Paula: Você não vai perguntar como é ser mulher numa banda de rock? [risos]

[risos] Igual quando eu editava um site de música eletrônica, sempre tinha algum colaborador para lançar nas entrevistas: como é ser DJ e mulher?
Paula: Tô brincando, por favor, não…

Continua após a publicidade

Tags Relacionadas
mais de
expressão
Sem ideia do que fazer no fim de semana? Vem que aqui tem dica de série, programa de TV e filme pra driblar o tédio!
Música, arte e experimentação constroem o novo espaço cultural de São Paulo
capa

Confinada

Por
As tiras que surgiram nas redes sociais viraram um livro que retrata a sociedade de hoje e seus problemas, como desigualdade, racismo e xenofobia
Artes visuais, música, dança e teatro são alguns destaques da primeira edição do festival campo-grandense
No mês da Consciência Negra, listamos fotógrafos, grafiteiros e artistas plásticos que contribuem para a construção cultural da sociedade

Não é ? Sair.

Ter independência no discurso, manter uma rede diversa de colaboradores, remunerar bem a todos e fomentar projetos sociais são bases fundamentais para a Elástica.
Vivemos de patrocínios de empresas que acreditam em nosso discurso e nossas causas, além da colaboração dos nossos leitores através de assinatura digital. Na página de Contas Abertas você pode ver os valores que hoje a Elástica arrecada, e conferir os custos que incorremos para produzir o conteúdo que oferecemos.