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Lugares e valores

Mudar e ampliar o olhar, questionar o que é patrimônio, construir coletivamente memórias: os caminhos para cidades que reconheçam os vários mundos nelas

por Adriana Terra Atualizado em 2 dez 2021, 18h55 - Publicado em 2 dez 2021 00h00
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Clube Lambada/Ilustração

ra 2013 em São João do Cabrito, bairro na região conhecida como Subúrbio Ferroviário, em Salvador, quando as crianças dali foram questionadas sobre o que é memória. A resposta não veio em forma de palavra, mas alguns caminhos foram revelados em uma série de fotos que elas fizeram desse espaço: casas com varal adornando a fachada, um cardume de peixes, uma coleção de conchas, ruínas de antigas construções, a linha do trem.

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Os registros foram reunidos na exposição “A Beleza do Subúrbio”, do Acervo da Laje, iniciativa surgida pelas mãos dos professores José Eduardo Ferreira Santos e Vilma Santos que, desde 2011, vem provocando o olhar sobre o que é valorizado na cidade. “É muito difícil na noção brasileira que palavras como periferia e beleza, subúrbio e patrimônio convivam. Causa espanto nas pessoas quando você fala”, nota Ferreira.

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Belezas do subúrbio / Acervo da Laje/Reprodução

Criado e residente no bairro soteropolitano, quando estudava violência contra jovens na pós-graduação, Ferreira se impressionou com a falta de pertencimento dos adolescentes com seus locais de moradia. “Sem contar o olhar do Estado, só pra precariedade desses territórios”, diz. “A gente então iniciou a pesquisa e foi um assombro porque aconteceu muita coisa que contribuiu para o Brasil nesse território: o Quilombo do Urubu, invasões holandesas, tudo isso foi apagado. Começamos a mapear artistas e a partir deles a memória do território. Porque é um chão que nunca foi olhado como patrimônio”, afirma. “Tanto que se diz que o patrimônio é uma linhagem patriarcal, e a gente olha pensando como fratrimônio, da ideia de que a gente está construindo memória o tempo todo.”

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Beleza do subúrbio. Acervo da Laje/Reprodução
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“As coisas existem, mas nosso olhar não foi educado para lê-las”

Olhar para esse chão implicou em refletir sobre apagamentos, seja de lugares como o Quilombo do Urubu – onde fica o Parque São Bartolomeu, local que hoje corre risco de passar para as mãos da iniciativa privada em uma concessão –, seja da arte e das vivências dos moradores. “Aqui a gente vive muito da pesca, da mariscagem, das praias, então tem uma vida que não foi contada”, conta Ferreira.

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Belezas do subúrbio / Acervo da Laje/Reprodução

Implicou, ainda, em ver as incoerências nos discursos sobre a cidade. Enquanto a mídia geralmente coloca a região como precária, conta ele, políticos costumam visitar a praia de São Tomé de Paripe. “Atravessam essa pobreza toda que dizem que existe e vêm passar férias na praia privativa, separada por uma cerca da praia da população.” Mas essas belezas naturais não são diretamente vinculadas ao subúrbio e a seus moradores.

Ao falar sobre a travessia até as praias, o professor lista os locais: Paripe, Rio Sena, Periperi. “Cada nome desse, pra gente que palmilhou cada pedaço, tem valor”, diz ele. Não por acaso, uma das obras do Acervo da Laje é uma coleção de azulejos do artista Prentice, parte da exposição “A memória é uma invenção”, em cartaz no Museu de Arte Moderna do Rio, onde estão gravados os nomes dos vinte bairros da região. Eles também estão em tijolos das antigas olarias locais, reunidos em outra coleção do projeto. “Um pedaço de tijolo, pra nós, afirma uma materialidade presente”, diz o professor.

“Cada nome desse, pra gente que palmilhou cada pedaço, tem valor […] Um pedaço de tijolo, pra nós, afirma uma materialidade presente”

José Eduardo Ferreira Santos, professor
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José Eduardo e Vilma – acervo da laje/Arquivo

Essa materialidade – de tijolos, esculturas, telas e outros objetos reunidos há uma década em um espaço que não é só expositivo, mas de aprendizado e construção conjunta – ajuda a reconhecer a existência de quem a produz (ou lhe dá sentido) e expõe elaborações estéticas locais, diz Ferreira. Ele crê que o trabalho com a memória na região ajuda ainda a criar “campos de proteção”: “Quando um jornal que atravessa a cidade para vir cobrir uma briga de vizinhos vem aqui falar de memória, arte, ele cria outra pauta. Isso protege vidas. A gente cria um cinturão que provoca discussões sobre a nossa pertença à cidade. Essas micro histórias, narrativas que nascem da vida das pessoas, vão contar o Brasil que precisa ser contado, sabe? Acho que aí vai ter uma mudança histórica.”

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Memórias do território / Acervo da Laje/Reprodução
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Que representação é essa que está sendo construída?

Uma das violências comuns que “campos de proteção”, como o Acervo da Laje, ajudam a enfrentar é a expulsão de moradores de seus locais por meio da especulação imobiliária. Olhar para os espaços com respeito a seus significados, registrar sua importância para um ou mais grupos pode ser uma forma de contê-las. Na década de 1990, esse foi o caminho trilhado por dois patrimônios negros em Belo Horizonte.

O terreiro de candomblé Ilê Wopo Olojukan e a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do Jatobá foram tombados pelo município nas comemorações do tricentenário de Zumbi dos Palmares, em 1995. No caso do terreiro, havia uma proposta de construir uma avenida que iria destruir parte da casa. A irmandade corria o risco de perder seu terreno. “Teve uma importância para o reconhecimento da população negra na constituição identitária e na construção da cidade, mesmo; para as comunidades religiosas envolvidas”, diz a antropóloga Mariana Ramos de Morais, que pesquisa patrimônios religiosos de matriz africana.

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Terreiros Ile Wopo Olojukan/Reprodução

Morais frisa a relevância de voltar no tempo para falar sobre como o estado veio lidando com esses espaços. “Em 1938, um ano após o início da política do patrimônio no Brasil, com a criação do Iphan (órgão nacional), uma série de bens são tombados e há um único referente à cultura negra, a coleção na época chamada ‘Magia Negra’, com objetos de terreiros do Rio capturados pela polícia que ficaram sob a guarda civil até ano passado. Ou seja, a única referência que tinha tratava esses objetos como crime”, diz ela.

“Então a gente tem um longo percurso dessa política que está vinculada à ideia que a gente tem do que é o Brasil, e ainda que houvesse uma ideia de nação brasileira composta por três raças nascente nesses anos 1930 – uma ideia de encontro, como se fosse um encontro pacífico –, por muito tempo a gente não tinha tantos elementos vinculados nem às culturas negras nem indígenas”, explica. Quando o Ilê Wopo Olojukan foi tombado, apenas dois terreiros eram considerados pelo estado patrimônio no país: a Casa Branca, em 1984 em Salvador, e o Axé Ilê Obá, em 1990 em São Paulo. “Dentro do próprio Iphan tinham pessoas mais conservadoras que questionavam na época da Casa Branca o fato de um terreiro ser tombado. Imagina, um terreiro que não tinha a suntuosidade das igrejas barrocas?”, conta.

“Em 1938, um ano após o início da política do patrimônio no Brasil, com a criação do Iphan (órgão nacional), uma série de bens são tombados e há um único referente à cultura negra, a coleção na época chamada ‘Magia Negra’, com objetos de terreiros do Rio capturados pela polícia que ficaram sob a guarda civil até ano passado. Ou seja, a única referência que tinha tratava esses objetos como crime”

Mariana Ramos de Morais, antropóloga
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Mariana Ramos de Morais / Iphan/Divulgação
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Acervo da Laje/Reprodução

Os preconceitos presentes na vida social também se materializam no espaço

Morais destaca que a Constituição de 1988 gera abertura ao ampliar a noção de patrimônio, incluindo o valor imaterial e reforçando que o Estado brasileiro deve desenvolver ações para resguardar a diversidade de um país pluriétnico. Uma noção que ainda precisa de muito debate. “Quando olhamos para as comunidades negras, estamos falando de formas diferentes de se colocar no mundo, viver e interpretar esse mundo – os povos indígenas também apresentam outras formas de viver esse mundo – e que muitas vezes não condizem com aquilo que a gente tem nas legislações, na forma de construção do espaço urbano”, diz.

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Marco Iluminati / Acervo da Laje/Reprodução

Para a antropóloga, é basilar pensar essas questões junto aos diversos grupos que constroem as cidades, que devem estar representados em todas as esferas do poder. Quanto aos espaços tombados em 1995, em Belo Horizonte, ela atenta que o estado deveria garantir também uma manutenção adequada, o que não tem ocorrido. Mesmo em um contexto político federal de descaso, coletivos têm discutido na capital mineira – e em outras pelo país – memória e patrimônio afro-brasileiro, um processo que ela localiza junto a um debate maior sobre decolonialidade e ao pensamento feminista negro do país.

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Marco Iluminati / Acervo da Laje/Reprodução

Fruto desse momento, a própria origem de Belo Horizonte vem à pauta. Há um pedido de registro do Largo do Rosário no antigo Curral Del Rey, o arraial que existia no espaço que hoje é a capital mineira. “Ele foi totalmente destruído para a construção da cidade no fim do século 19. No local havia festas, uma capela e uma Irmandade dos Homens Pretos”, conta a pesquisadora. O projeto NegriCidade, do padre Mauro Luís da Silva, mestre e doutorando em ciências sociais, está à frente do processo, junto ao Centro das Tradições do Rosário de MG. “Havia ali um cemitério. Será que nossos antepassados negros estão ainda debaixo do asfalto sem nem uma referência?”, questiona o sacerdote.

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Marco Iluminati / Acervo da Laje/Reprodução

Memória que se faz na construção e escuta coletiva

No livro “Nem tudo era italiano – São Paulo e pobreza (1890-1915)”, o historiador Casé Angatu Xukuru Tupinambá mostra como a capital paulista tinha forte presença indígena, negra, caipira e cabocla na virada do século 19 para o 20. “E a elite paulistana busca apagar, fazer uma limpeza social. Havia um projeto de europeização arquitetônica nesse período. E não é só São Paulo: o Rio passa por isso, e também Salvador”, diz ele.

Morador do Território Indígena Tupinambá de Olivença, ele é professor na Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus (BA), e na pós-graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais da Universidade Federal do Sul da Bahia, em Itabuna. No fim dos anos 1990, quando fazia doutorado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, teve uma experiência trabalhando no órgão de patrimônio de Guarulhos (SP). Ali, percebeu a dificuldade em tombar bens entendidos como populares, de campos de futebol de várzea à Igreja do Bonsucesso, fundada em 1950 no município.

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Patrimônio indígena Cachoeira Jauarete / Iphan/Reprodução

“A gente queria tombar não só a igreja, mas a espacialidade, incluindo a Festa da Carpição, uma festa que remete aos séculos 17 e 18, que reúne os caipiras, os índios descendentes, os negros descendentes daquela Paulicéia, Folia de Reis, Congado, Moçambique”, conta Casé. Não conseguiram. “Porque o poder impede: queria-se construir a ideia de uma cidade aeroportuária, então você tem de caminhar nessa direção. O campo conceitual caminha com passos diferentes dos que estão à frente das políticas públicas.”

“A gente queria tombar não só a igreja, mas a espacialidade, incluindo a Festa da Carpição, uma festa que remete aos séculos 17 e 18, que reúne os caipiras, os índios descendentes, os negros descendentes daquela Paulicéia, Folia de Reis, Congado, Moçambique”

Casé Angatu Xukuru Tupinambá, historiador
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Didier Lavialle/Divulgação

Apesar de ter tido essa experiência, o historiador diz não ser apaixonado pela ideia de patrimônio. O motivo é que ele entende que, mesmo a noção se ampliando como tem ocorrido, ela ainda se dá na base de uma seleção. “E essa escolha sempre vai ser excludente, política e ideológica no sentido foucaultiano, das microfísicas de poder”, coloca, reforçando que, com isso, não está diminuindo atuações nesse universo ou áreas correlatas. “Mas na minha concepção, nós [indígenas] já fazemos isso naturalmente. Nossos saberes, artes e espaços são naturais e advêm do pertencimento que temos na natureza”, explica.

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Beleza do subúrbio / Acervo da Laje/Reprodução

“Nós, povos originários, conseguimos manter a nossa memória sem precisar de monumentos. Nós somos, nesse sentido, decoloniais por natureza.”

Qual seria um caminho para reconhecer os muitos povos e modos de vida existentes nas cidades sem, necessariamente, patrimonializar via estado? “O espaço é físico, mas vamos pegar o Viaduto do Chá [como exemplo]: para quem vende, ele é território de venda; para quem compra, é território de compra; para quem passa, é território de passagem; para quem vai marcar um encontro, é um território de encontro. O mesmo espaço físico tem diferentes territorialidades. E como se respeita isso? Ouvindo os coletivos”, diz Casé.

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Marco Iluminati / Acervo da Laje/Reprodução

Ouvir a coletividade é perceber como ações como a queima da estátua do Borba Gato, em São Paulo, são apontamentos sobre as próprias violências contidas no patrimônio. Sobre a possibilidade de um monumento a uma pessoa indígena no local, ele diz enxergar de outra forma. “Uma estátua não representa o profundo das vivências físicas, espirituais. A gente está falando dos encantados, dos povos originários. Em vez de colocar uma estátua de um indígena, por que não um jardim cheio de árvores com rituais uma vez por semana, por mês, contando histórias, narrativas negras, de mulheres, LGBTQIA+, indígenas? Assim eu penso. Até porque na nossa temporalidade, naquela em que eu fui criado, só existe o tempo presente das coisas passadas e o tempo presente das coisas futuras”, explica o historiador.

“Eu falo sempre uma frase do Movimento Zapatista: ‘para um mundo onde caibam vários mundos’. É necessário pensar que nós já somos esse mundo. Muitos de nós já praticamos esse mundo onde cabem vários mundos. Queremos a igualdade social – combate à pobreza, miséria, fome –, mas respeitando a diversidade e a diferença”, resume o historiador, que dedicou a entrevista ao artista indígena macuxi Jaider Esbell (1979-2021).

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