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Fogo nos racistas

Membros da Revolução Periférica, Paulo "Galo" Lima e Danilo "Biu" de Oliveira discutem sentidos históricos, artísticos e políticos do incêndio do Borba Gato

por Gabriel Rocha Gaspar e Vanessa Oliveira Atualizado em 14 set 2021, 20h40 - Publicado em 13 set 2021 23h34
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Clube Lambada/Ilustração

Eu sou a favor de não reformarem a estátua. Não tem que preservar a história? A gente fez história!”, exalta o entregador antifascista Paulo “Galo” Lima, consciente de que as chamas que ofuscaram a estátua do bandeirante Borba Gato reverberam para além do dia 24 de julho, para além do espaço físico da Avenida Santo Amaro. Galo, como o parceiro Danilo “Biu” de Oliveira, foi responsabilizado criminalmente pelo ato, mas conclui: “Nada do que a gente diga é mais bonito do que o que a gente fez”.

Nesta primeira entrevista de fôlego depois da ação, Galo e Biu não discorrem sobre as consequências jurídicas, mas sobre o sentido histórico, as reações (tanto à esquerda quanto à direita), a qualidade estética da ação e como ela insere a militância brasileira no movimento internacional de ressignificação, de baixo para cima, de monumentos que homenageiam “heróis” da colonização, da escravidão e do racismo. Foi o Revolução Periférica que colocou o Brasil nas trincheiras de uma importante guerra simbólica de nosso tempo.

“Eu sou a favor de não reformarem a estátua. Não tem que preservar a história? A gente fez história!”

Paulo Lima, o Galo
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Danilo “Biu” de Oliveira e Paulo “Galo” Lima, em São Paulo
Danilo “Biu” de Oliveira e Paulo “Galo” Lima, em São Paulo Renato Nascimento/Fotografia

Internacional periferismo

Demorou para o ativismo brasileiro chegar: já se vão quatro anos da retirada da estátua do general confederado Robert E. Lee, erigida num parque de Charlottesville, Virgínia, Estados Unidos. A decisão de remover aquela ode ao racismo (os confederados eram o lado rural da Guerra da Secessão, que lutava pela manutenção da escravidão, contra o norte industrializado) não veio exatamente das ruas, mas do gabinete. Só que fascistas do país inteiro – de membros da Ku Klux Klan a nazistas de suástica em riste – resolveram surfar na pauta, transformando Charlottesville no palco da manifestação Unite the Right (“Unir a direita”, em tradução livre). Como exige a história, um amplo espectro da esquerda se uniu em contra-protestos e adentrou a cidade com um objetivo: mandar os reacionários de volta pro buraco de onde saíram.

Particularmente animada pelos incentivos trumpistas à revolta, a extrema-direita foi para o confronto. A ativista Heather Heyer morreu quando um homem jogou o carro sobre a contra-manifestação. Um homem negro, DeAndre Harris, ficou seriamente ferido depois de ser espancado por skinheads.

Em 2020, quando ocorreu o assassinato filmado de George Floyd por um policial branco, a ofensiva popular contra monumentos em homenagem a racistas se acalorou no coração do Império. Outra representação de Robert E. Lee veio abaixo pela mão do povo em Montgomery, Alabama, assim como o também general confederado Williams Wickham, em Richmond, Virginia. Em outras praças, as prefeituras se adiantaram à fúria antirracista e removeram por conta própria seus opressores petrificados, como no caso do ex-chefe de polícia da Filadélfia Frank Rizzo ou do Almirante supremacista branco Raphael Semmes, escorraçado do centro de Mobile, Alabama. Do outro lado do Oceano, em Bristol, Inglaterra, imigrantes negros sob a bandeira do Black Lives Matter botaram o escravista Edward Colston para dormir com os peixes do rio Avon.

Danilo “Biu” de Oliveira
Danilo “Biu” de Oliveira Renato Nascimento/Fotografia

“Muita gente que apoiou o Black Lives Matter, que achou a causa justa, foi contra quando rolou a ação no Borba Gato – inclusive progressistas, do nosso campo”, lamenta Biu, denunciando a gravidade da divisão de classe, mesmo dentro das fileiras da esquerda. “Agora, quando eu volto pra favela, a tia fala: ‘por que você fez isso?’ Eu tenho certeza de que eu consegui cinco minutos da atenção dela. Nesses cinco minutos, a gente mostra pra ela o porquê, mostra quem é o culpado de todo sofrimento que ela passa. E já era, irmão. Era isso que a gente queria: a atenção do favelado. E a gente conseguiu ter mais voz que o Datena. Essa é a parada. A gente entende que política é feita de simbologia. Nem precisa mais derrubar esse filho da puta. Todo mundo que passar por ele vai lembrar do bagulho, tá ligado?”

“Quando eu volto pra favela, a tia fala: ‘por que você fez isso?’ Eu tenho certeza de que eu consegui cinco minutos da atenção dela. Nesses cinco minutos, a gente mostra pra ela o porquê, mostra quem é o culpado de todo sofrimento que ela passa”

Danilo de Oliveira, o Biu
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Incêndio Replicado

Que tenha ficado bem escuro: queimar o Borba Gato foi uma decisão isolada de jovens ativistas periféricos. Não passou pela esquerda institucionalizada nem foi, como imediatamente se aventou em círculos até progressistas, um ato de infiltrados interessados em desviar o foco da manifestação anti-Bolsonaro que acontecia naquele mesmo dia, a 14km dali, na Avenida Paulista. E já mostrou seu potencial inspirador: exatamente um mês depois dessa primeira imolação pública de um símbolo opressor, ativistas do coletivo indígena Uruçu Mirim atearam fogo ao monumento em homenagem ao “descobrimento” do Brasil no bairro da Glória, Rio de Janeiro.

Danilo “Biu” de Oliveira
Danilo “Biu” de Oliveira Renato Nascimento/Fotografia

Do outro lado das labaredas, o rocambolesco trecho do poema de José do Patrocínio que adorna o pedestal de Pedro Álvares Cabral – “Qual a palmeira que domina ufana os altos topos da floresta espessa, tal bem presto há de ser no mundo novo bem fadado” – foi complementado, em tintas preta e vermelha, por recados mais diretos: “Marco temporal é genocídio. PL 490 não”. Em linhas gerais, o Projeto de Lei abre (mais) terras indígenas para a exploração do agronegócio, da mineração e da infraestrutura consequente. Em termos de articulação, nada conecta as duas histórias, mas a convergência simbólica é inescapável: são ataques populares contra a persistência violenta, em pleno século XXI, de figuras exaltadas por fundar um país no genocídio.

Embora esta entrevista tenha sido concedida antes da réplica carioca, Biu, que é estudante do sexto semestre de História e ex-militante do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), já via a ação do Revolução Periférica como um chamamento à re-união política e espiritual dos povos oprimidos do Brasil: “Depois de 521 anos, ter participado de uma ação dessa me faz sentir o peso dos meus ancestrais. A nossa autoconfiança se eleva porque aqui, do nosso lado, tem milhões de negros e indígenas, todos filhos da opressão e da exclusão”.

Ativismo por uma questão de classe

Mas quem são esses dois jovens periféricos que a cidade foi obrigada a ouvir, depois que o fogo da Sul ofuscou a manifestação do centro? Biu tem 36 anos e começou seu ativismo lutando contra a reintegração de posse de quase 200 barracos na sua quebrada, a Favela do Vietnã, na zona Sul de São Paulo. A conquista, que já dura cinco anos, foi a chave para a sua conscientização. Segundo ele, a politização da favela é uma meta que ele persegue enquanto a associação que coordena garante coisas básicas à comunidade, como cursos de profissionalização, sopão semanal, entrega de marmitex e cestas básicas, auxílio que se tornou imprescindível durante o período da pandemia. “Antes mesmo do Revolução [Periférica], a gente já estava fazendo a revolução”, avisa.

Paulo “Galo” Lima
Paulo “Galo” Lima Renato Nascimento/Fotografia

Já Galo, hoje com 32 anos, começou a se interessar pela política por meio do rap, ainda muito jovem. Escola potente na quebrada, o rap é ponto importante de contato com a cultura, a identidade de raça e de classe. Ele conta que pediu ao amigo rapper Dugueto Shabazz que o ensinasse a compor. “Pra escrever, tem que ler”, ameaçou Dugueto, lançando nas mãos do garoto dois livros que Galo chama hoje de “o kit Alex Haley de revolução”: Negras Raízes e A Autobiografia de Malcolm X.

Dali, começou a brotar a consciência racial, que seria aprimorada por outro veterano militante, Altino Jesus do Sacramento, conhecido como Gato Preto. O Galo pardo teve a coragem de dizer ao Gato Preto que era branco. “Branco igual o Gianecchini?”, intercedeu o parceiro. “Não, o Gianecchini é branco bonito, eu sou branco feio”. “Feio porque você tem o nariz mais largo, a boca mais grossa, a pele mais escura?”. Já meio intimidado, Galo respondeu que sim, pronto para tomar a “oreiada”: “Então, você é feio porque você se parece mais comigo? Você é preto, truta. Pode não ser preto assim igual eu, retinto, mas você é preto. Você vive igual preto, você come igual preto, você mora igual preto. Preto você é, meu truta”. Ao virar “escravo de aplicativo”, em 2019, Galo entendeu que classe e raça são o mesmo problema no Brasil e viralizou com um vídeo colocando um questionamento moral profundo: “Sabe o quanto é difícil transportar comida de estômago vazio?”

O caminho desses dois militantes se cruzou durante a manifestação antifascista das torcidas organizadas, em junho de 2020, na avenida Paulista. O ato foi inspiração para que Galo mobilizasse os entregadores precarizados em uma greve inédita no Brasil. Um ano depois, em uma conversa sobre a exclusão das periferias no projeto brasileiro de cidade, nasceu a discussão sobre os símbolos opressores que São Paulo ostenta. Inicialmente, a ideia de Biu era colocar lambe-lambes nos pontos de ônibus, para que trabalhadoras e trabalhadores tivessem a curiosidade de buscar mais informações sobre quem foi e quem é Borba Gato na história brasileira. Eles até colaram os lambes, mas acharam o resultado tímido. Galo colocaria lenha na fogueira, literalmente, algumas semanas depois.

Paulo “Galo” Lima
Paulo “Galo” Lima Renato Nascimento/Fotografia

“O Borba Gato é um recado da burguesia. É a elite dizendo: sempre que você passar dessa linha, vai existir um bandeirante na porta de vocês, com uma arma, pronto pra matar, roubar, abusar sexualmente”

Danilo de Oliveira, o Biu
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Guerra do Fogo

Naquele 24 de julho, a esquerda saía às ruas pela quarta vez desde o início da pandemia, permeada por grupos que contribuíram com a ascensão fascista e hoje se colocam como oposição ao governo, amarelando o ato para além do gosto da esquerda mais aguerrida. No ato anterior, militantes do PCO tentaram avermelhar as ruas expulsando na porrada peessedebistas arrependidos. Os até então coladores de lambe-lambe do Revolução Periférica optaram por outra estratégia: descarregaram um caminhão de pneus usados na avenida Adolfo Pinheiro. Parte deles foi posicionada na faixa que margeia a praça Augusto Tortorelo De Araújo, antiga intersecção de bondes da cidade e o restante, aos pés da estátua de 13 metros, erigida em 1963 pelo artista Júlio Guerra.

A ação toda estava pensada para durar 6 minutos, em plena luz do dia, antes mesmo que o ato da Paulista começasse. Descarregar, subir os pneus, jogar gasolina, atear fogo, estender uma faixa, fazer imagens e “vazar”. Aos poucos, os grupos de WhatsApp e as redes sociais foram sendo povoados pela imagem feita de cima para baixo em que se via uma fumaça espessa flamulando sobre um rosto de pedra. Virou o assunto na avenida Paulista, onde empolgação e preocupação se misturavam. Do caminhão, passaram a ecoar frases como “O Borba Gato é o Bolsonaro do século XXI” e “Fogo nos racistas”. Havia acontecido algo diferente naquele início de tarde em São Paulo.

Especulações pululavam nas redes sociais. As arenas digitais bolsonaristas foram agitadas por defensores do bandeirante e da importância de se preservar a “História”. Entre a esquerda intelectual e institucional, o apoio era entremeado pela preocupação sobre os efeitos que a ação teria na tal “conjuntura”. Mas enquanto se discutia o significado da ação, as forças repressivas do Estado iniciaram a caça.

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Via crucis

Depois de mais de dois anos, ninguém foi preso pelas queimadas do Pantanal, da Amazônia, do Museu Nacional, do Museu da Língua Portuguesa ou do galpão da Cinemateca. Mas, em menos de 24 horas, o motorista do caminhão, Thiago Zem, estava atrás das grades. Para demonstrar que não se esquivaria da responsabilidade por seus atos, Galo se apresentou voluntariamente à polícia no dia 28 de julho, ao lado da companheira Géssica. Embora o objetivo da visita não fosse mais do que uma prestação de depoimento, o ativista teve a prisão temporária decretada em tempo surpreendentemente curto. E, de forma ainda mais arbitrária, Géssica, que nem estava presente no dia da ação, também foi presa de imediato, deixando desassistido a filha de três anos do casal. Ela seria liberada dois dias depois, mas Galo enfrentaria 15 dias de cárcere – boa parte, à revelia da lei, já que sua prisão temporária foi revogada pelo Superior Tribunal de Justiça em 5 de agosto, mas a insubordinada justiça de primeira se recusou a emitir o alvará de soltura.

Para piorar a situação, no dia seguinte, a juíza Gabriela Marques Bertoli acatou um pedido da Polícia Civil e do Ministério Público e decretou a prisão preventiva de Galo, Thiago e Biu, sob as acusações de incêndio, dano, associação criminosa e adulteração de veículo. De imediato, Biu foi considerado procurado e sua defesa informou que ele se apresentaria à Justiça na segunda-feira seguinte, dia 9 de agosto. Biu se apresentou e passou dois dias encarcerado, até que os três ativistas foram liberados no dia 11 de agosto, depois que o juiz Eduardo Pereira Santos Junior revogou as preventivas. Hoje, eles respondem em liberdade.

Arrependidos? “De jeito nenhum, a gente abriu o debate”, ostenta Galo.

Leia a seguir os principais trechos da conversa que a Elástica teve com Paulo “Galo” da Silva e Danilo “Biu” de Oliveira, entremeados pelo ensaio do fotógrafo Renato Nascimento.

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Danilo “Biu” de Oliveira e Paulo “Galo” Lima, em São Paulo
Danilo “Biu” de Oliveira e Paulo “Galo” Lima, em São Paulo Renato Nascimento/Fotografia

Como surge a ideia da ação do Borba Gato?
Biu – Precisava de algo impactante, que chamasse atenção. Tivemos a ideia de colocar lambe-lambe nos pontos de ônibus, que é onde está nossa mãe, nosso pai, nossos tios. Eles vão ver [nos lambes] quem é o Borba Gato. Isso vai instigar a curiosidade. E a curiosidade traz o conhecimento. Se você for curioso, vai no Google e em três linhas você já vê quem é o Borba Gato. E entendendo quem defende ele, você sabe que não corre com você, mano.

O Borba Gato é um recado da burguesia. É a elite dizendo: sempre que você passar dessa linha, vai existir um bandeirante na porta de vocês, com uma arma, pronto pra matar, roubar, abusar sexualmente. Por que existe a favela? Ela só existe por causa desses filho da puta rico aí, mano. Simples assim, por causa dos patrões. Nosso inimigo número 1 é o burguês, é o patrão. Mas como a gente fala isso pra mulher que acorda pra trabalhar às seis horas da manhã?

Daí ao incêndio do dia 24… 
Galo – A coisa que o favelado mais precisa agora é de uma Revolução, mano. Nós estamos em guerra. E não temos uma estátua de 13 metros de altura do Zumbi dos Palmares dizendo: ‘Aqui é nosso’. Sabe como tinha que ser o nome do Brasil? República palmarina. Era para a gente ter rua, avenida Zumbi dos Palmares. Rodovia Luís Gama. Mas a gente tem a estátua de um branco, português, que estuprou, matou, torturou, foi senhor de escravo, com uma carabina, dizendo: “Aqui é nosso”. É sério que o povo brasileiro prefere homenagear quem escravizou do que homenagear quem lutou contra isso?

“Mas a gente tem a estátua de um branco, português, que estuprou, matou, torturou, foi senhor de escravo, com uma carabina, dizendo: “Aqui é nosso”. É sério que o povo brasileiro prefere homenagear quem escravizou do que homenagear quem lutou contra isso?”

Paulo Lima, o Galo

Eu não quero passar todo dia por Santo Amaro e ver aquele cara ali, me ameaçando com uma carabina. Isso porque eu sei o que é. Agora, imagina a Dona Maria – mulher preta, mãe solteira, 67 anos de idade – passando debaixo daquela estátua todo dia pra ir atender aos herdeiros do Borba Gato. Você acha que aquilo não faz ela se sentir mal? Mesmo não entendendo a situação: é um homem, loiro, de olho azul com uma carabina na mão, com 13 metros de altura, mano! Não precisa comunicar mais que isso, não precisa nem explicar o que é. Já está dito.

Se tivesse uma estátua de 13 metros do Hitler na Alemanha e o povo judeu fosse lá derrubar aquela estátua, não ia ter um ser humano no mundo pra dizer que os judeus estão errados. Agora, se é pobre, se é preto, se é indígena, não pode? Nós somos um povo também, mano. Não nascemos de uma jaca.

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E o que aconteceu no Borba Gato não é nem um sopro. Tem três crianças sumidas em Belford Roxo. Tacar fogo num pedaço de pedra choca mais do que três crianças desaparecidas? Ninguém é burro pra acreditar que vai botar fogo lá e isso vai fazer mais do que chamuscar os joelhos da estátua. Aí vai ter gente dizendo: “Vocês estão querendo apagar a história”. Eu não tenho como “apagar a história”. A história tá na minha carne, na carne do nosso povo! A gente quer construir uma história melhor, uma história em que a gente caiba, sem ser só o povo que toma tapa na cara, que é estuprado, morto, escravizado.

“Se tivesse uma estátua de 13 metros do Hitler na Alemanha e o povo judeu fosse lá derrubar aquela estátua, não ia ter um ser humano no mundo pra dizer que os judeus estão errados. Agora, se é pobre, se é preto, se é indígena, não pode? Nós somos um povo também, mano. Não nascemos de uma jaca”

Paulo Lima, o Galo

Falando em revolução, o que é Revolução Periférica?
Galo – Palmares é revolução periférica, os Black Panthers são revolução periférica, os zapatistas, os tupamaros, o panafricanismo. Nós somos revolução periférica… essa história não começa agora, essa história é antiga, mano.

Biu – Revolução Periférica não é uma institucionalidade, não é uma estrutura física. É quando eu estou no ônibus, dou atenção para um tio e ele fala: ‘É, a vida tá difícil’. E eu falo: ‘Tá difícil sabe por quê? Por conta do patrão, que paga pouco pra gente. E por que ele paga pouco pra gente? Porque ele quer sempre ter mais e mais lucro.’

Revolução Periférica é quando a Dona Maria, que não tem nem o ensino fundamental, entende que o culpado pela vida dela ser do jeito que é, por ela não ter atendimento médico, não ter comida na mesa, é do capitalismo, dos ricos. Que só existem ricos por conta da desigualdade. É quando você começa a sentir a dor do outro. Isso é Revolução Periférica: ter um ideal.

E Revolução Periférica já existia antes da ação?
Biu – A revolução sempre existiu, mas não de uma forma ordenada. A ação do Borba Gato trouxe a articulação do preto, do pobre, do favelado. E é por isso que a gente chamou de “revolução”. Pra ser impactante mesmo. A gente quer passar uma ideia para o favelado que nunca teve entendimento estrutural nenhum. E pra isso, a gente precisa ser audacioso. Quiseram taxar a gente de terroristas, mas isso é só porque a gente tá querendo fazer o povo raciocinar, entender que a gente continua sendo exterminado, escravizado… é trazer conscientização.
Tem muito tempo que a gente atua em várias quebradas. Antes mesmo do Revolução [Periférica], a gente já estava fazendo a revolução. Só se autodenominou pra ninguém tomar conta dessa porra. Quem fez foi nois mesmo. E revolução aqui é questão de sobrevivência. Não é profissão, igual esses brancos acham. A gente elevou o nível e deixou bem pior pra bunda-mole.

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O incêndio do Borba Gato inseriu o Brasil num debate internacional a respeito da retirada de monumentos que homenageiam escravistas, colonizadores, racistas e genocidas do passado. Vocês pensaram nessa perspectiva internacional?
Biu – Muita gente que apoiou o Black Lives Matter [nos Estados Unidos] foi contra a ação no Borba Gato. Inclusive progressistas, do nosso campo. Isso só demonstra o quanto é cruel a questão de classe. Só que agora, quando eu volto pra favela, a tia fala: ‘por que você fez isso?’ Eu tenho certeza de que eu consegui cinco minutos da atenção dela. Nesses cinco minutos, a gente mostra pra ela o porquê, mostra quem é o culpado de todo sofrimento que ela passa. E já era, irmão. Era isso que a gente queria: a atenção do favelado. E a gente conseguiu ter mais voz que o Datena. Essa é a parada. a gente entende que política é feita de simbologia. Nem precisa mais derrubar esse filho da puta. Todo mundo que passar por ele vai lembrar do bagulho, tá ligado?

Galo – A questão internacional estava no horizonte, sim. Por mais que a gente esteja no gueto, na periferia, a gente tem noção do que acontece no mundo. A gente sabia que isso ia ser importante. Porque o Brasil não tá seguindo muito esse movimento que tá acontecendo lá fora, mas a gente tá dentro dessa conjuntura faz tempo. E outra, a gente não é só ser humano do Brasil, a gente é ser humano do mundo. A gente não é nem originalmente desse continente. A coisa toda aqui é pra além das fronteiras artificiais que eles ficam criando. Ninguém estava falando sobre isso aqui. A gente só abriu o debate.

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Renato Nascimento/Fotografia

Uma revista britânica de arte, a Art Review, fez uma crítica estética do ato, olhando do ponto de vista artístico. O texto chama “A queima de um bandido: Brasil entra na guerra das estátuas”. Vocês pensaram essa ação como arte?
Galo – Eu não faço política, faço arte. Eu não tenho discurso, tenho flow. Pra mim, arte e política é como raça e classe, favela e cadeia… não se dissocia. Claro que a gente estava fazendo arte ali. E arte da melhor qualidade. Arte que o Kanye West e o Banksy nunca vão conseguir fazer. É a arte que só a gente e os pixadores conseguem, que é a de doar a própria vida pra expor a arte.

Mano, um dos movimentos que eu acho mais cabulosos é a pixação. O moleque tem lá seus 16, 17, 18 anos e arrisca a vida pra subir no prédio mais alto de São Paulo e deixar a marca dele toda pontiaguda lá. Basicamente, ele tá gritando: ‘Ei, São Paulo! Nóis existe, nóis tá aqui!’ Aí, vocês querem que a gente faça isso com flores?! Sendo que os caras vão na favela bater em você, te zuar, te humilhar, te maltratar. É esgoto a céu aberto, é fome, é sarna, é doença, é covid, num sei quê.  Você dá um tapa na minha cara, eu vou atrás pra dar um tapa na sua cara também. Dizer ‘eu existo’ é arte política, arte da sobrevivência.

Uma mãe solteira de sete filhos, o que ela faz? Arte. E essa mulher tinha que ser o quê? Ministra da economia. Porque se, sozinha, ela consegue alimentar sete crianças, ela faz um bagulho que o Paulo Guedes não consegue fazer: arte. Paulo Guedes não tem um pingo de arte. O Bolsonaro não tem um pingo de arte na vida dele. É tudo bruto. Concreto, cimento, igual o Borba Gato. Tudo duro. Não tem flexibilidade, não tem suingue.

A gente é capoeira, irmão, olha como a gente luta. Os caras falaram: aí, seu bando de preto, vocês não podem lutar. Aí, a gente falou assim: vamos fingir que estamos dançando. Aí, quando eles menos esperarem, a voadora vai na cara. Então, a gente é arteiro.

“Eu não faço política, faço arte. Eu não tenho discurso, tenho flow. Pra mim, arte e política é como raça e classe, favela e cadeia… não se dissocia. Claro que a gente estava fazendo arte ali. E arte da melhor qualidade. Arte que o Kanye West e o Banksy nunca vão conseguir fazer”

Paulo Lima, o Galo

Biu – Arte é quando a gente começa a escrever nossa história. De onde a gente vem, a nossa origem. Pela história que eles contam, o negro só entra na dança a partir do século XVI. E na posição de escravo ainda. Então, a gente está escrevendo história em pleno século XXI. Qualquer brasileiro que nascer hoje vai vir com uma narrativa completamente diferente. A gente virou um capítulo no livro da história contemporânea. Minha arte é deixar um mundo melhor pra minha filha, para ela ser empoderada. Ela tem que poder ser o que ela quiser, todo mundo tem que poder ser o que quiser. Se sozinho a gente já é potente, unido, então… É isso, nosso povo unido é arte.

Galo – Vem cá, o Djonga não cantou fogo nos racistas? Nós fizemos um clipe pra ele! [risos] Enfim, a intenção era mesmo fazer uma coisa simbólica, porque fogo nenhum vai derrubar aquela estátua. Agora, eu sou a favor de não reformarem a estátua. Não tem que preservar a história? A gente fez história! Os joelhos chamuscados e as peças que caíram fazem parte da história agora também. E eles? Vão apagar a história? A gente não apagou a história, a estátua continua lá. Vai lá agora e coloca uma placa do lado explicando porque um grupo de favelados foi lá e tocou fogo na estátua.

Falando em arte, vocês colocaram um trecho de samba na faixa do Revolução Periférica e até isso causou polêmica…
Galo – A gente colocou na faixa do Revolução Periférica a seguinte frase: “a favela vai descer e não vai ser carnaval”. É uma adaptação da música do Wilson das Neves. Quem resgatou isso pra periferia foi o Emicida, mano. E teve um partido político que falou: ‘Olha lá. Isso aqui não pode ter sido feito por jovens da periferia porque essa música não é a música habitual da periferia’. Eu fico me perguntando: Wilson das Neves é preto, nasceu na favela e a música não é nossa? É um patrimônio deles? Eles se sentem donos disso mesmo? É sério? Aí quando apareceu que era Galo, que era Biu, eles silenciaram, porque passaram uma grande vergonha.

Por que vocês acham que a ação foi repudiada até por setores do campo progressista?
Biu – Pixaram o muro da Marielle [em Pinheiros], né? Escreveram “Viva Borba Gato” embaixo. Os boys querem ter a gente como símbolo, mas eles não têm culhão pra proteger a gente. Se aquele mural fosse na favela, não tinha acontecido isso. Queria ver o playboy peitudo que ia ter coragem de entrar lá e pixar “Viva Borba Gato”. Não ia ter essa coragem.

Eu, particularmente, estou cansado de ser o bárbaro que só é chamado para a guerra. Acho que eu tenho competência, condição de pensar, elaborar e conduzir aquilo que é melhor pra minha vida, pro meu povo, pro lugar onde eu vivo…

“Não tem que preservar a história? A gente fez história! Os joelhos chamuscados e as peças que caíram fazem parte da história agora também. E eles? Vão apagar a história? A gente não apagou a história, a estátua continua lá. Vai lá agora e coloca uma placa do lado explicando porque um grupo de favelados foi lá e tocou fogo na estátua”

Paulo Lima, o Galo

Mas é fato que tinha uma outra movimentação de esquerda rolando naquele mesmo dia…
Galo – Ah, é! Teve gente falando: nossa, mas nem deram atenção pro que aconteceu na Paulista [os atos contra o presidente Jair Bolsonaro, que ocorriam no mesmo dia]. Claro! É porque o que aconteceu em Santo Amaro foi muito mais louco… Um conselho pra playboyzada, pra eu começar a respeitar: o Marighella não deu a vida pela luta, pela revolução? Não basta usar a camiseta do Marighella, tem que acompanhar esse ritmo aí. Tá procurando casa na Santa Cecília? Por que não aluga uma em Paraisópolis? Por que você não pega todo esse conhecimento acadêmico, sai da zona oeste e vai pra favela, descentralizar a informação?

Então essa esquerda branca está brava porque ela não está dentro do quadro. E não estava porque a gente não quis colocar. Porque esse espaço é lugar de favelado. Por isso a gente assinou o ato e colocou lá “Revolução Periférica”: pra não parecer uns playboys anarquistas da Vila Madalena. Povo favelado, inteligente, entendido das ideias, que foi lá deixar seu recado. Tem que olhar no espelho e ficar bravo com vocês mesmo e não com a gente.

Biu – Revolução aqui é questão de sobrevivência. Não é profissão, igual esses brancos acham. Eles sempre tiveram televisão a cores e bolacha com guardanapo. A gente entende que não tem que vir nada resumido de cima pra baixo. A gente tem que construir aqui [na favela] e levar as pautas pro espaço partidário, institucional. Quem é branco, tem essa empatia e quer fechar com nois, daora. Tamo junto. Mas sai da Paulista, porque quem está na Paulista já compactua com os seus ideais. Quer fazer política, faz. Mas não com essa metodologia… Eu tô culpando o jogo, não o jogador.

Por que não participaram outras pessoas e grupos políticos do campo progressista?
Galo – Eu acho que essa pergunta deveria ser feita para eles. Por que vocês não estavam? Vocês sempre souberam da existência do Galo, sempre souberam da existência do Biu. Onde vocês estavam? Não é obrigação nossa fazer um ato e colocar o nome deles na bandeira. Eles é que precisam estar juntos.

Biu – Nossa voz só é ouvida quando a gente anuncia que o café está na mesa. Na cabeça deles, ainda é só para isso que a gente serve. Subestimam a gente, dizem que tem alguém financiando. E quem financia são os aplicativos em que a gente continua trabalhando para sobreviver. Muita gente tem medo da gente querer salário nas estruturas partidárias, de estar iludido com isso tudo, mas eles não sabem de onde a gente veio. Agora, se eles têm medo da gente, eles têm respeito. Que eles continuem tendo respeito pelo Revolução.

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Renato Nascimento/Fotografia

Elástica – A esquerda brasileira tá precisando de uma reformulação?
Galo – Existe uma crítica a questões da esquerda, mas tem muito mais identificação com ela do que com o lado de lá, óbvio.

Eu, particularmente, acho as ferramentas da esquerda cabulosas. Acho o comunismo foda, o anarquismo foda. Acho as teorias do Marx cabulosas, as do Bakunin também e por aí vai. Tem gente que fala assim: ‘Galo, o Gramsci falou de você lá atrás’. E eu acho isso muito louco, mesmo não sabendo bem quem é o Gramsci. Eu acho foda as ferramentas que tem na esquerda, mas tem que pegar isso aí e fazer um acarajé, um baião de dois, uma feijoada. A gente aqui vai fazer revolução com capoeira, com arco e flecha, nós vamos fazer uma revolução do jeito que o Brasil entende uma revolução. Ou seja, não adianta empurrar esses formatos goela abaixo.

“Nossa voz só é ouvida quando a gente anuncia que o café está na mesa. Na cabeça deles, ainda é só para isso que a gente serve. Subestimam a gente, dizem que tem alguém financiando. E quem financia são os aplicativos em que a gente continua trabalhando para sobreviver”

Danilo de Oliveira, o Biu

Essas ferramentas são potentes, mas a gente precisa traduzir pro Brasil e buscar caminhos pra gente seguir juntos, colaborando. ‘Você tem que ser trotskista!’ Sai fora, mano. Como é que uma solução coletiva é o nome de alguém? Só aí, já tá errado.

Nossa esquerda ainda é muito eleitoreira. E nossa luta aqui não é eleitoreira, ela é econômica. ‘Se a classe trabalhadora tudo produz, à classe trabalhadora tudo pertence’. É tudo nosso, truta! Não tem nada no mundo que não tenha sido feito por um trabalhador. O Brasil é uma nação de trabalhadores; não é uma nação de patrão.

Se você junta um grupo de trabalhadores e organiza, você tem uma cooperativa. Se você junta um grupo de patrões, você tem uma festinha com uísque e cocaína. Então, o Brasil que a gente quer é um Brasil para os trabalhadores. E um recado: não foca só no que a gente precisa comer, mas no que a gente quer gozar também. Porque quando as pessoas falam da gente, é sempre assim: ‘ah, o povo humilde, carente’. Então, esse povo carente também quer gozar, quer viajar, quer curtir, sem se estrepar. Nossas necessidades vão além de um quilo de fubá. O que a gente quer é um Brasil que supra as nossas necessidades e não que nos suprima coisas o tempo todo. A gente teve um período no Brasil que o pobre começou a ascender. E um pouquinho que a gente subiu os caras se mexeram desse jeito…

Eles [a direita] acreditam mais em luta de classe do que nós mesmos. Nós temos que querer a luta de classes também. Vamos ficar só apanhando? Vamos bater também! Não tem zap? Grita truco! Você não sabe o poder que é. Às vezes você não tem uma carta para bater, mas você grita truco e o cara corre. E você ganha um ponto. Nós conseguimos esse feito. E nós podemos conseguir mais. E se o cara não comprar? Se não comprar a gente se une, chuta a mesa e começa o jogo de novo. Mas a gente dá um jeito.

“Se você junta um grupo de trabalhadores e organiza, você tem uma cooperativa. Se você junta um grupo de patrões, você tem uma festinha com uísque e cocaína. Então, o Brasil que a gente quer é um Brasil para os trabalhadores”

Paulo Lima, o Galo

São Paulo vai inaugurar cinco estátuas de personalidades negras. Conquista do movimento, cagaço do sistema ou os dois?
Galo – Eu sou de comemorar pequenas vitórias. Eu enxergo as cinco estátuas como uma vitória. Mas vitória mesmo é a gente fazer a ilha de São Domingo virar no Haiti de novo. Na verdade, fazer o Brasil pro brasileiro. As correntes não foram quebradas, elas foram alongadas… Meu sobrenome (da Silva) é o nome de uma fazenda de escravos. “Da”, “de”, “do” é pertencimento. A escravidão está em tudo. De um lado tem barraco de pau; do outro, o Luciano Huck andando de helicóptero.

Tem um filme que chama ‘Uma noite em Miami’. Numa cena, o Jim Brown e o Malcolm X estão sozinhos em um quarto, enquanto o Mohammed Ali e o Sam Cooke conversam lá foram. O Jim Brown tem a pele muito escura, enquanto o Malcolm tem aquela história de que a avó foi estuprada por um holandês, ele tem o cabelo vermelho e é mais claro. Jim Brown fala: eu não entendo vocês pretos de pele clara. Vocês sempre são os mais radicais. Parece que vocês ficam querendo se provar a todo momento. Eu acho esse diálogo foda. E é isso mesmo. É uma coisa de se provar mesmo. Porque, tudo bem que a gente tem a pele mais clara e isso, de certa forma, é um privilégio, mas a gente come igual preto, toma enquadro igual preto, pega cadeia igual preto, vive vida de preto, irmão. Eu recebi um áudio do Mano Brown depois da ação e para mim, aquilo foi um prêmio de guerra.

Biu – Quando o povo se organiza, o Estado mostra sua fraqueza. Depois de 521 anos, ter participado de uma ação dessa me faz sentir o peso dos meus ancestrais. A nossa autoconfiança se eleva porque aqui, do nosso lado, tem milhões de negros e indígenas, todos filhos da opressão e da exclusão. Então, a gente pautou um debate importante. Recentemente, eu fui no terreiro com a minha companheira, Letícia, e conversei com o Preto Velho. Está todo mundo contente… eu sempre converso com ele e peço direção.

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Renato Nascimento/Fotografia

O que ele te diz?
Biu – Que a gente estava melhor na época da escravidão. Perguntei por quê. E ele me disse que, naquela época, nós éramos mais unidos. A dor do outro era a minha dor. Mas eu fico pensando, hoje em dia, como a gente vai conseguir mais união? Nosso povo tem limites de sonhos, de prazeres. A gente precisa lutar no dia a dia, conscientizar no dia a dia… Rico, a gente não vai ficar, mas se a gente se organizar, a gente melhora o posto de saúde, a gente forma professores para a EMEI do bairro, a gente consegue assistência jurídica. Escuta, empatia, só esse tipo de proximidade já desconstrói totalmente essa narrativa que afasta a gente. É construir a união do favelado. E eu falo favelado porque o favelado não é só preto, embora seja a maioria.

O que te pesa mais, Galo, a questão de raça ou a questão de classe?
Galo – No Brasil, raça e classe são a mesma coisa. É o mesmo problema. Hoje eu entendo que o pior racismo não é você entrar num shopping e não ser atendido. O pior racismo é não ter dente na boca. O pior racismo é você não saber ler, é você ser mãe solteira com sete filhos, morando na beira do córrego. Não ser atendido no shopping é um racismo zuado, mas esse racismo aqui, o estrutural, esse é o que fode mesmo. É o que faz a Cracolândia e a cadeia estarem lotadas de preto e a universidade, lotada de branco.

“No Brasil, raça e classe são a mesma coisa. É o mesmo problema. Hoje eu entendo que o pior racismo não é você entrar num shopping e não ser atendido. O pior racismo é não ter dente na boca. O pior racismo é você não saber ler, é você ser mãe solteira com sete filhos, morando na beira do córrego”

Paulo Lima, o Galo

Quando eu descubro que minha luta é tanto pela raça quanto pela classe, eu começo a me organizar dentro da categoria à qual eu pertenço, os motoboys. Aí surgem os entregadores antifascistas… os Entregadores Antifascistas surgem por causa da ação antifascista que o Biu fez junto com a Gaviões lá, das torcidas organizadas. Surge a greve dos motoboys; surge toda essa sequência que o pessoal já viu, acompanhou.

Quem vocês colocariam no lugar da estátua do Borba Gato?
Biu – Que pergunta difícil… acho que tinha que ser uma coisa coletiva. Sei lá, não queria propor um indivíduo. Eu penso nas crianças pretas. Menino Miguel, Ágatha…

Ou seja, um monumento a quem não teve o direito de ter um futuro?
Biu – Isso! Pra quem morreu pelas tropas que representam a mesma coisa que o Borba Gato representava, só que hoje em dia. Algo que fosse pra todo mundo, com muitos nomes.

Galo – Achei a mesma coisa que o Biu. Porque se tiver só o Zumbi lá também não comunica. Seja o que for, precisa ser uma homenagem ao coletivo. Tirar o cara pra colocar mais gente.

Biu – Revolução é isso aí. Olhar pra cima e seguir.

Galo – E posso falar uma coisa? Tudo isso que a gente falou aqui hoje ainda não consegue ser mais bonito do que o que a gente fez. Certo, Banksy?

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As imagens que você viu nessa reportagem foram feitas por Renato Nascimento. Confira mais de seu trabalho aqui

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