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O retorno de Rico Dalasam

Depois de um hiato e um cancelamento, o rapper volta com novo álbum sobre afetividade de pessoas negras e relações interraciais

por Amauri Terto Atualizado em 16 jun 2021, 23h53 - Publicado em 16 abr 2021 00h13
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Clube Lambada/Ilustração

Fui porque acabou a fé / Não porque acabou o amor.  Mudou? Mudou como? /Devo tá com síndrome de Estocolmo / Amo pra caralho, amo / Mas desse jeito você me põe no manicômio. Você argumenta, eu trago os fatos / Só chama pra ser seu PF / Diz que eu sou BFF / Quando cê chega em casa de moto / Eu penso: ‘tomara que me leve’. Caro menino branco / Esse nosso encontro pede lucidez / De saber o lugar que me encontro / E você, por sua vez / Se é pra andar do meu lado, saiba que / Alguém foi senhor, alguém foi escravo / E, entre nós, esse espaço / Pede alguns passos” 

Os versos românticos, doloridos e confessionais que você acabou de ler fazem parte do repertório de Dolores Dala Guardião do Alívio, segundo disco cheio do rapper, cantor e compositor Rico Dalasam. Idealizado como uma fábula e lançado em março, o álbum aborda de forma poética e franca questões em torno da afetividade de pessoas negras na América do Sul e dos desdobramentos de relações interraciais no meio LGBTQIA+.

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Larissa Zaidan/Divulgação

DDGA traz um Rico Dalasam reinventado. Pioneiro do queer rap, o artista nascido em Taboão da Serra, periferia paulistana, passou por um hiato criativo de dois anos após se ver “cancelado” devido a uma briga judicial pelos direitos de Todo Dia, hit do Carnaval de 2017 que alavancou tanto a sua carreira quanto a de Pabllo Vittar na época. O fim do hiato veio em 2019, com “Braille”, vencedor do Prêmio Multishow na categoria Canção do Ano.

“Antes de ‘Braille’, estava tudo meio turvo”, ele conta, em entrevista à Elástica por videochamada. “Eu não sabia exatamente o que eu era, se ainda era ou se era pra parar mesmo. Aí, quando veio essa música, deu um brilhinho de novo”, completa. Com 11 faixas, DDGA conta com um time diverso de produtores e colaboradores, como Mahal Pita (BaianaSystem), Dinho Souza, Chibatinha (ATTOOXXA), Moi Guimarães, Netto Galdino e Pedrowl (MC Tha e Lia Clark) – que imprimem sonoridade pop e ao mesmo tempo econômica ao disco.

Na entrevista a seguir, Rico Dalasam reflete sobre as questões afetivas que aborda no disco, analisa a cena queer rap brasileira e fala sobre os planos futuros para Dolores Dala Guardião do Alívio.

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Mauricio Nahas/Divulgação

Cinco anos separam o seu primeiro disco cheio de Dolores Dalas Guardião do Alívio. Nesse meio tempo, você passou por um “cancelamento” após se envolver em uma disputa judicial com Rodrigo Gorky, produtor da Pabllo Vittar. Como foi esse período até a concretização do novo álbum?
Esses últimos anos de prática de ausência foram pra saber se eu tinha que continuar fazendo canções, se era a minha mesmo ou se eu tinha que voltar para a minha profissão anterior e tocar o sonho por lá de outro jeito. No offline, eu fui me relacionando com a música com mais intimidade, mantendo uma rotina que antes eu não tinha. Isso foi confirmando que eu deveria fazer alguma coisa. Antes de “Braille” estava tudo meio turvo. Eu não sabia exatamente o que eu era, se ainda era ou se era pra parar mesmo. Aí, quando veio essa música, deu um brilhinho de novo. Antes de chegar “Braille”, em 2019, a gente se reuniu aqui, eu e as pessoas que trabalham comigo, para recalcular a rota. Recalcular mesmo, olhar os códigos e ver quais não serviam mais. Códigos que a gente usou bastante e que não faziam mais sentido. No âmbito pessoal, eram só análises sobre o histórico da música brasileira, sobre apagamento, esse epistemicídio, a produção intelectual do artista preto que ajuda a construir patrimônio e carreira de um artista branco. Essas coisas que são recorrentes na música brasileira. Eu não sou o primeiro e queria muito que eu fosse o último, mas a gente sabe que também não vou ser. Mas são experiências que, às vezes, não dá pra você mudar o começo, mas dá pra você mudar final. E mudar o final, no caso, é ir até o final. Levou um tempo até isso tudo se resolver, mas sei lá, esses dias a música tocou no Big Brother e foi massa. Certamente, se eu tivesse ficado quieto, se as coisas não tivessem se resolvido, eu ia ficar vários dias sem saber por que que eu estava triste, tá ligado? Aí passou um tempo e eu estava trabalhando, fazendo coisas no paralelo para outras pessoas. Veio “Braille” e eu animei pra caramba. Paramos as outras coisas que a gente estava fazendo sentiu que “Braille” era o universo dizendo alguma coisa. Aí veio “Mudou Como?”, veio “Vividir”, começamos a desenvolver a fábula, os interlúdios foram entrando pra ajudar a gente a contextualizar.  Aí veio “Supstah”, depois “Expresso Sudamericah” e as músicas todas. As últimas foram “Estrangeiro” e “Última Vez”. A partir daí, a gente viu que tinha uma história com poder de síntese, abordando uma coisa que me interessa muito e que, acho, interessa uma galera da minha idade. A gente pode ficar horas discutindo as coisas que esse disco traz porque talvez a gente já esteja discutindo isso há um tempo. Na internet, só vira um nevoeiro, mas essa discussão nunca se desdobra. Também achei um jeito muito simples. Porque essas discussões que o disco traz são muito elaboradas no campo acadêmico, na Filosofia, na Psicanálise, na História, na Geografia, mas às vezes isso recorta quem vai estar dentro dessa discussão, recebendo ou trazendo. E, do jeito que vou falando ali no disco, é bem simples. Todo mundo capta, pega as referências, são referências também universais. As melodias também são de coisas que as pessoas já conhecem: pagode, funk ou sertanejo.

“Em 2019, recalculamos a rota. Olhar os códigos e ver quais não serviam mais. Códigos que a gente usou bastante e que não faziam mais sentido. No âmbito pessoal, eram só análises sobre o histórico da música brasileira, sobre apagamento, esse epistemicídio, a produção intelectual do artista preto que ajuda a construir patrimônio e carreira de um artista branco. Essas coisas que são recorrentes na música brasileira”

Como foi essa “chegada” de “Braille”?
A gente estava fazendo um álbum e parou. E não sei, começou a vir. Claro, eu estava cheio de motivos pessoais para escrever “Braille”, para elaborar essa confusão, esse conflito que a música traz. Ao mesmo tempo, a gente estava fazendo outra música. E a levadinha da outra música sugeria essa coisa: “fecha o olhinho e me lê em braille, braille, braille”, que é um pagode. [ele reproduz o som de percussão] “tcha qui tum, tcha qui qui tum”. E assim foi. Depois, comecei a escrever como se eu estivesse contando mesmo porque eu estava cheio de motivos reais. Só que escrevi rimando do jeito poeta. E veio o trecho “deixa um pouquinho pra ler amanhã e diga o que entendeu de mim e leia”. Nessa parte, a gente tinha acabado de gravar a música, estava só ali entendendo como montar. Vendo se tinha acabado mesmo, quando vimos que sobrou um espacinho, que cabia umas letras. Aí veio “deixa um pouquinho pra ler amanhã e diga o que entendeu de mim. Deixa um pouquinho pra ler amanhã, se o tempo amanhecer ruim”. Depois disso, chama para o último refrão e encerra.

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Larissa Zaidan/Divulgação

O pagode romântico está na base desse novo trabalho. Queria que você falasse sobre a sua relação com esse estilo musical.
É a relação que eu tenho de vida, mas é um lugar em que eu não estava exatamente. Talvez porque eu estivesse olhando para outras coisas. Sempre tem uns Estados Unidos fodendo com o nosso processo criativo. Mas, nesse combo de ser extremamente sincero, ser visceral e de contar histórias muito reais, eu só podia trazer a minha primeira referência enquanto música. E as minhas primeiras referências musicais da vida são o pagode e suas variáveis. Dodô, [vocalista] do Pixote, é minha referência de jeito de cantar. Tata, [vocalista] do Araketu, lá em Salvador. Claudinho e Bochecha no Rio de Janeiro. Acho que são as coisas que, na hora que tenho que ser mais sincero na vida, preciso me agarrar. Porque eu consigo puxar coisas da minha fase de criança até aqui. 

As implicações de relacionamentos interraciais vêm sendo discutidas com maior força pela comunidade LGBTQIA+ nos últimos anos. Para além do que você aborda no disco, qual a sua visão hoje sobre esse tipo de relacionamento?
Os últimos anos foram de experiências intensas. Eu tinha 25 anos quando namorei pela primeira vez. Hoje, tenho 31. Até então, nunca tinha namorado. Estou falando do meu caso específico porque é uma coisa a se catalogar. Você pode ir lá na estrutura de construção brasileira e dar um diagnóstico sobre a questão, sobre o que está engendrado dentro de um relacionamento interracial a partir dos imaginários de violência do país. As pessoas partem desse princípio muitas vezes para elaborar essas discussões. Sem dúvida, o efeito colonial não está fora desses processos. Só que uma coisa é você ser um professor de História, Filosofia ou um militante nessas discussões. É diferente no particular, quando você não viveu nada e passa a viver algo do tipo sem fazer essa reflexão. Isso vai se desdobrando porque não é uma ciência exata. Aí, você cria uma primeira experiência. Cada um leva do seu modo emocional-afetivo, que é extremamente subjetivo. Depois, você fica um tempo sozinho, repensando os conceitos. Aí, você se abre para uma outra experiência. No meu caso, foram relações intensas e muito rápidas que aconteceram depois de 25 anos de uma vida em que nada acontecia ou acontecia muito devagar. Do nada, veio a coisa Rico Dalasam e destravou um monte de coisas que nunca se destravariam para mim, talvez, se não fosse isso. A partir daí, você passa a pesar o mundo e ver quais são as possibilidades. O mundo vai se desenhando à sua volta de outra maneira. Parece que, quando aparece um pouco de dinheiro, vão sumindo as pessoas pretas à sua volta. Começa a ser um trabalho de esforço pra você não estar sempre enfiado no meio de um monte de gente que nunca esteve no seu caminho. Você tem que criar o seu mundo paralelo. Você já reparou que todo mundo que canta e é preto anda sempre com dez pessoas? O Djonga, por exemplo, está sempre com dez negros juntos.

“Parece que, quando aparece um pouco de dinheiro, vão sumindo as pessoas pretas à sua volta. Começa a ser um trabalho de esforço pra você não estar sempre enfiado no meio de um monte de gente que nunca esteve no seu caminho. Você tem que criar o seu mundo paralelo. Você já reparou que todo mundo que canta e é preto anda sempre com dez pessoas?”

Queria que você comentasse uma afirmação que fez recentemente em uma outra entrevista: : “pra mim, ainda é uma mágica namorar”.
Talvez eu esteja menos eufórico, mas é um assunto que muito me interessa ainda. Porque ele é muito recente, muito pouco elaborado em experiências. Ainda tenho mais estudo de caso do que, de fato, experiências. Minha visão sobre relacionamento é mais acadêmica do que prática [risos]. Namorar ainda é uma mágica. Talvez eu tenha aprendido a me proteger um pouco mais. E quando eu digo me proteger, não é dentro [de um relacionamento], é antes de entrar. Saber onde não pisar. Saber que “aqui não vai ser maneiro, não vai valer a pena”. Mas ainda é mágica. Não está posto de maneira universal, onde as pessoas marcam um encontro e, a critério da química, veem se é bom ou não. Não dá pra gente se nortear assim. Bicha preta não pode se basear em química. 

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Mauricio Nahas/Divulgação

Como a pandemia te afetou e porque você decidiu lançar o disco nesse momento?
Eu já estava em distanciamento social. Totalmente offline dos rolês e do trabalho, fazendo as coisas no modo lockdown. A gente estava pronto pra lançar o disco, já tínhamos cinco shows marcados nas principais capitais do país quando tudo fechou. Só que esse é um disco que faz sentido, né? Se fosse um bagulho de festa, talvez batesse errado, mas a sonoridade é possível de ser assimilada dentro de uma experiência fone de ouvido, em casa ou caixinha de som enquanto você está trabalhando. Não demanda, exatamente, a experiência maior que é o show. Não sei, casou com o tempo porque eu estava elaborando o tempo. Não era sobre lançar álbum de Carnaval, não era sobre a temporalidade. Era sobre inverter os códigos usados anteriormente. Por isso, talvez, o disco esteja se assentando de maneira cômoda entre o público e a crítica. Ele não é um disco do verão, com o hit do Carnaval, entende? Não é uma crítica a isso também, mas eu precisava trazer exatamente o inverso desse código, que é o meu código anterior. Não sei, tem me feito bem. São músicas que eu não consigo parar de ouvir. Tem algumas que ainda não zeraram pra mim, sabe? Quando não zerou é porque alguma hora isso vai se desdobrar de outra maneira. Em algum lugar, “Mudou Como” ainda grita muito dentro de mim. “Última Vez” grita muito dentro de mim. Não sei, são coisas que ainda estão desacertadas. 

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“Namorar ainda é uma mágica. Talvez eu tenha aprendido a me proteger um pouco mais antes de entrar. Não está posto de maneira universal, onde as pessoas marcam um encontro e, a critério da química, veem se é bom ou não. Não dá pra gente se nortear assim. Bicha preta não pode se basear em química”

Você disse recentemente que perdeu o interesse em fazer videoclipes e que está mais propenso a lançar um livro. Por quê?
É questão de linguagem. Eu sou um artista jovem, que tem algum interesse no popular. Não sou um artista pop, mas trago os acabamentos do popular. Nesse momento, não achei o corpo ainda. Não dá pra eu me meter em um videoclipe que eu tenha que entregar performance. Eu não me vejo fazendo performance de nenhuma das músicas do disco. Sei lá, me vejo lendo carta, recitando poema, lendo as coisas que eu escrevo, mas não em uma performance. Neste momento, não. Pode ser que uma hora dessa eu faça um single e aí tente de novo achar que corpo é esse. Mas estou aqui editando as tantas coisas que já tenho escrito pra ver o que é que dá. Pra ver se isso dá um caldo. Se dá uma narrativa interessante pra se tornar uma publicação. 

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Mauricio Nahas/Divulgação

Que tipos de texto você tem guardado?
Eu tento confessar as coisas, mas, quando vejo, achei um caminho estético ali de rima que me interessa. Escrevo umas coisas e depois volto pra esse lugar de ir contando a história. E tem flow, né? Disso talvez eu entenda um pouquinho por causa do rap. Mas me pergunto se isso não é estranho pra uma escola literária porque não é uma antologia poética, não é um livro de crônicas e não dá pra amarrar em um enredo só como um romance. Estou analisando isso. Estou juntando tudo pra dividir com editores e entender qual é a estética que isso pode atender, para não ser só um livro de poemas.

Pra quem não te conhece, você é sempre apresentado como pioneiro do queer rap no Brasil.  Como você avalia essa cena hoje?
Esse negócio virou uma manifestação cultural. Diferente do que é nos Estados Unidos. Já não é mais o código americano. Não dá, o negócio brasileiro, ele entorta aqui. Ainda mais porque impulsionou a ousadia de artistas de todas as partes do país. Em todas as regiões do Brasil tem um artista fazendo algo porque sofreu uma gigante inspiração ao escutar Modo Diverso, que é aquele primeiro EP lá de 2015. Esse EP é extremamente sincero. Desde esse EP que não vinha algo tão sincero de mim pra música. E isso desembocou. Existe hoje uma gama de artistas fazendo coisas. Belém do Pará, São Luís do Maranhão, Salvador, Fortaleza, Brasília, aqui no sudeste, no sul. E todos dentro desses caracteres: corpos racializados com alguma estética queer e de periferia, tendo o Hip Hop como ponto de partida. Eu fico feliz porque é sobre manifestação cultural, é sobre produção cultural em um lugar que é muito difícil de produzir cultura, que é o Brasil. Não está demandando apenas para o entretenimento, mas também para algo que está fundando um lugar. O queer rap está fundando um lugar no Brasil. Eu tenho cinco anos de trabalho e já aconteceram várias coisas. Quando você olha para os lados, vê que chegou um bonde achando o seu lugar no mercado. É um código muito específico, não dá pra pegar o universo LGBT artístico e colocar no lugar. Entendo a luta, entendo as nossas questões que são muito específicas aqui no Brasil, mas o queer rap é específico. O queer rap não é o pop, o queer rap não é cultura drag, queer rap não é performance ou gênero musical. É uma manifestação cultural. 

Recentemente, tivemos no BBB21 a repercussão de comentários de cunho racista e homofóbico feitos por um artista de alcance nacional, assim como você. Esse tipo de situação te afeta?
Acho tudo extremamente pertinente. Nos últimos anos, tenho me cuidado pra não cair nesse espaço, sabe? O BBB é um programa que todos estamos assistindo, mas tem BBBs acontecendo diariamente em outros espaços. Essa aglutinação de pessoas, esse senso de justiça, gente que quer fazer justiça com pessoas pretas, ao mesmo tempo que quer fazer um lugar igualitário, mas você sabe que é um igualitário passando pano pra homens brancos, passando pano para questões muito básicas da vivência social. Uma coisa que eu tenho evitado a todo custo há muito tempo já: participar e estar. Tem coisa que eu não vou, não é sobre mim mais. Não porque não seja uma questão que me afete, mas é uma negociação que eu não estou disponível. Não me chama, não dá pra ir. 

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Larissa Zaidan/Divulgação

No ano passado, Emicida afirmou no Roda Viva que você é “uma das canetas mais importantes do país”.  Esse elogio veio com algum sentimento de responsabilidade?
Responsabilidade não. Eu já tenho minhas tretas pessoais pra resolver. Inclusive, eu posso fazer outra coisa em outra disciplina. Eu não tenho essa pretensão. Não estou aqui pra me consagrar como o novo “tal coisa”, sabe? Ou a versão brasileira de alguma coisa. Eu não me vejo nesse processo mesmo. Mas acho importante o reconhecimento de coisas que estão de alguma maneira desassistidas. O país é muito grande. Uma outra pessoa com o alcance maior que lança luz sobre algo que está desassistido ou apagado por alguma questão é muito nobre. Estou falando sobre o efeito disso em mim, mas cada um tem as suas razões pra fazer algo gratuitamente assim. Pra mim, é por aí que bate.

“Uma coisa que eu tenho evitado a todo custo há muito tempo já: participar e estar. Tem coisa que eu não vou, não é sobre mim mais. Não porque não seja uma questão que me afete, mas é uma negociação que eu não estou disponível. Não me chama, não dá pra ir”

Quais os seus planos para Dolores Dala Guardião do Alívio?
Eu tenho recebido muitos depoimentos. Acho que nos próximos dias vou começar a fazer a leitura dessas cartas. Tenho algumas cartas também que gostaria de ler com o público. Em algum momento, vou entrar diariamente, talvez no Instagram, e fazer essa leitura – das minhas e das cartas das pessoas. Porque às vezes as pessoas escrevem coisas que elas não têm como verbalizar. Não tem esse ímpeto. Vou fazer essa leitura. Talvez seja algo terapêutico para todos nós: escutar a história e se reconhecer nela. Conseguir desopilar essas questões todas vividas. Eu também sou melhor escrevendo do que falando. Vou partir para esse lugar. Já que essas músicas provocam tantas coisas em tantas pessoas, a gente precisa de fato ter um saldo positivo nas nossas emoções e afetos dentro dessa narrativa do Dolores Dala Guardião do Alívio. Não tenho considerado o show como a minha primeira e única via de experiência. Ele está indisponível, mas existem inúmeras outras linguagens que estão disponíveis. E eu vou continuar meu trajeto. Quando não dá pra costurar na máquina, você costura na mão. 

Pra encerrar: o que você tem ouvido além do seu disco?
Eu fico numa pesquisa aí, mas é muita maluquice. Eu não tenho, tipo, um artista. É muita doideira. Mas sempre estou de olho nas coisas do mundo árabe. É outra escala, não é digestível pra gente. Acho que é basicamente isso. E fico entendendo as claves das coisas. Estou de olho em tudo: ouço musique berbère [música tradicional indígena do norte da África], depois ouço algo muito antigo, como um samba reggae. Aí volto na Amy Winehouse e penso em alguma coisa da vida, na Sade, no Bon Iver, no Frank Ocean, na Kali Uchis….

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