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Sua avó também transa, amore!

Em uma sociedade que desvaloriza e diminui os idosos, quem tem mais de sessenta continua sexualmente na ativa e escancara o etarismo no Brasil

por Uno Vulpo - @sentomesmo Atualizado em 6 Maio 2021, 17h50 - Publicado em 29 abr 2021 01h03
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Clube Lambada/Ilustração

oradora da cidade de São Paulo, Lourdes*, 68 anos, é uma mulher que adora uma putaria aventura no mundo das conversas online. “Tudo começou quando meus filhos já estavam todos encaminhados e tendo suas próprias vidas. Minha filha teve de comprar um computador para a faculdade e eu, naquela síndrome do ninho vazio – sensação de solidão quando os filhos saem de casa –, resolvi me aventurar na internet. Ali, descobri o mundo de chats virtuais e encontrei vários parceiros sexuais”.

Os idosos representam 13% da população brasileira, o que significa mais de 28 milhões de pessoas, de acordo com a Projeção da População, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2018. Mesmo com a expectativa de vida de 75,67 anos – com possibilidade de chegar 81,2 anos até 2050, segundo a ONU–- e com os idosos cada vez mais economicamente ativos, a população de uma forma geral ainda insiste em tratar a velhice como sinônimo de incapacidade ou decadência, desde as representações midiáticas até na infantilização do idoso. 

Eu, particularmente, não SUPORTO os diminutivos que o pessoal ama usar para falar com pessoas mais velhas. E, confesso, já fui daqueles que não podia nem imaginar a minha avó transando com um senhor qualquer. Além disso, entendo que você pode até não gostar da imagem da sua avó fazendo sexo oral no seu avô, mas eu tenho contar que eles podem ter uma vida sexual mais ativa do que a sua. Segundo o Datafolha, de 2017, 58% das pessoas entre 60 e 70 anos declararam fazer sexo. Entre 71 e 80 anos, 43%, ficando evidente que sentada está rolando horrores. 

Sexo na terceira idade, o que pensa, onde vive?

Eu tenho pavor daquela ideia generalizada de que a velhice carrega junto dela a decadência e a terminalidade. Percebo na mídia, nas conversas com amigos e nas redes sociais uma visão de que a idade acaba com qualquer perspectiva de vida. Mesmo que dados apontem que pessoas com mais de 60 anos estão viajando cada vez mais e vivendo a vida de forma ativa, haja vista o aumento da expectativa de vida – e você aí, parado e sem energia. Mesmo assim, a imagem da Dona Benta, cozinheira e que faz tricô é mais forte do que a da Jane Fonda militante ambientalista, que faz atividade física e é presa quase que mensalmente em meio aos protestos que participa.

Enquanto a gerontologia e sexologia modernas lutam o tempo todo, há décadas, em prol do que chamamos de erotização da velhice – e que eu chamo de incentivo da cachorrada na terceira idade – a ideia de um idoso assexuado é fortalecida até nos meios acadêmicos. Tem um trecho de um artigo que gosto muito que resume bastante minha visão do assunto:

[…] a sociedade acredita que tanto o homem quanto a mulher que atingem uma idade avançada perdem totalmente a capacidade, o interesse e o desejo de manter uma atividade sexual pelas modificações fisiológicas que ocorrem no processo de envelhecimento. Esta visão, porém, não é correta e este ciclo [da resposta sexual humana], mesmo possuindo alterações, se faz representar na vida de um indivíduo mais velho (Risman, 1995, p. 54). 

Outra coisa que me incomoda dentro das discussões acerca da sexualidade de pessoas mais velhas é a forma que a sexualidade é vista. Sempre quando a velhice é pautada, o Viagra, por exemplo, é mencionado como o que mudou as possibilidades da sexualidade na terceira idade. O que me irrita é justamente o ponto em que o sexo é visto como sinônimo de penetração. Para mim, a sexualidade é muito mais ampla do que apenas aquele bate estaca típico, heteronormativo e monótono que passamos a vida inteira fazendo. Quando abordamos o envelhecimento, frente às mudanças fisiológicas que acontecem, é necessário abrirmos a mente para formas alternativas de experimentação da sexualidade – inclusive para abrir a discussão num campo mais acessível para idosos que sofrem de disfunção erétil, por exemplo. 

Os idosos representam 13% da população brasileira, o que significa mais de 28 milhões de pessoas, de acordo com o IBGE. Já segundo o Datafolha, 58% das pessoas entre 60 e 70 anos declararam fazer sexo. Entre 71 e 80 anos, 43%

A partir do pouco conhecimento acerca da sexualidade e da vida do idoso, somados com o entendimento de que sexo é meteção e que é proibido brochar, a população de uma forma geral concebe que a sexualidade não pode ser explorada em totalidade por pessoas de mais idade, quando tais doenças e questões são mais prevalentes. O que é pouco sabido é que tais doenças não impedem por completo o desempenho sexual e que a cachorrada é liberada independente da idade ou quantidade de ânus anos.

Estamos num momento da saúde onde temos alternativas infinitas em prol da facilitação da safadeza dos idosos (risos). Mas tal incentivo não acontece com frequência e a sexualidade do idoso é deixada de lado. Não só isso: ela também é ridicularizada a partir da ideia negativa que existe quanto ao uso de medicações e tratamentos para possibilitar o sexo. Na minha visão, o mundo pensa que você precisa ser o Chuck Norris fodão que nunca pode brochar. E que é errado você ter uma ajudinha para transar. 

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João Barreto/Ilustração
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“Mas idosa não transa né? Pra que vou ajudar a levantar a libido dela?”

Não é de hoje que somos uma sociedade extremamente conservadora. Estamos em pleno século XXI e ainda discutimos se é “feio” ou “mal visto” transar com alguém no primeiro encontro. Imagine, então, acreditar na sexualidade e fogo dos idosos e incentivar a atividade neste grupo? Tal conservadorismo acaba “castrando” a população idosa. O impacto disso é o abandono da vida sexual por vergonha ou por crença na opinião da sociedade de que eles não sentem tesão, por possuírem distúrbios hormonais ou desvios psicológicos. No panorama da saúde, existe pouca formação do que chamamos sex positive, que são temas que propõem maior exploração e diversidade da sexualidade. Com isso, os idosos, que são parte dessa diversidade, têm suas questões pouco respondidas. 

Num âmbito histórico, podemos entender um pouco da mentalidade da própria velhice. Quem é idoso hoje, nasceu em meados da década de 40, onde o patriarcado e os bons costumes estavam bombando. Cresceram em meio às décadas de 50 e 60, antes da revolução sexual que iniciou na década de 70. Com isso, aprenderam valores bastante puritanos e religiosos. Nesse sentido, as mulheres, como sabemos, eram vistas como ferramentas reprodutivas ou para o prazer masculino. E acabavam explorando muito pouco suas sexualidades – salvo algumas exceções como mulheres lésbicas ou transsexuais e algumas prostitutas. Hoje, isso se expressa a partir de idosas que muitas vezes não sabem o que é um orgasmo e ainda conectam o sexo com a promiscuidade – se muitas pessoas jovens ainda pensam assim, imagine quem nasceu na década de 40.

Enquanto a gerontologia e sexologia modernas lutam o tempo todo, há décadas, em prol do que chamamos de erotização da velhice – e que eu chamo de incentivo da cachorrada na terceira idade – a ideia de um idoso assexuado é fortalecida até nos meios acadêmicos

No caso dos homens, esse período marcou uma masculinidade também conservadora, onde discussões como prazer anal ou exploração sexual eram raramente – se nunca – pautadas. Sempre houve mais estímulo à uma sexualidade rasa e condicionada a reprodução ou afirmação de virilidade (para provar que é macho mesmo). Mas mesmo assim, a sexualidade masculina sempre foi mais explorada do que a feminina. E dessa forma, é mais comum vermos homens idosos sexualmente ativos, como provam as pesquisas. Os dados do Datafolha apontam que a cada cem homens acima dos 60 anos, 83 disseram ser sexualmente ativos, contra 29% de mulheres que se dizem sexualmente ativas.

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João Barreto/Ilustração

Tá, mas quem é Lourdes?

Uma grande safada (aloka)! No início do texto, trouxe um trecho de uma conversa que tive com a Lourdes. Não é a da novela – que morreu e me deixou mega triste. Ela é seguidora do meu canal, Senta, e sempre comenta ativamente as minhas postagens. Fiquei intrigado com uma mulher mais velha comentando e participando ativamente das discussões que normalmente são apropriadas pelos jovens. 

Lourdes é viúva, avó e mãe. É adepta da inversão de papéis: prática sexual onde a mulher come o homem. Tudo começou quando os filhos dela saíram de casa e ela se viu sozinha e com tempo pra si mesma. Aqui, ela conta um pouco dessa história.

Como era a vida sexual da senhora antes dos 60, o que mudou de lá pra cá?
Lourdes: Com o pai dos meus filhos era um sexo tranquilo, sem tantas emoções. Ele me traía muito, mas eu não ligava e fui deixando. Fui cuidar dos meus filhos e deixei a vida sexual de lado. Quando é assim, já viu, né? Tinha que cuidar deles e eu não podia nem pensar em me relacionar. Mais tarde, aos 40 anos, descobri uma endometriose que me custou um ovário, fiquei arrasada pensando que minha parte mulher tinha ido embora. Meus filhos já estavam todos encaminhados, tendo suas próprias vidas e indo para universidade. Eu, naquela síndrome do ninho vazio, [sensação de solidão quando os filhos saem de casa], resolvi me aventurar na internet. Ali, descobri o mundo de chats virtuais e encontrei vários parceiros sexuais numa sala chamada “Mulher come homem”. Eu nem entendia direito o que era. Aos poucos, fui conversando e vi que eu tinha potencial para inversão. 

E hoje, qual é o perfil dos seus parceiros?
Meus “amigos” são todos casuais e conhecidos através das salas de bate-papo. Normalmente casados, acima de 55 anos, já na decrepitude [termo que significa velhice] e que querem experimentar coisas diferentes. Já que eles não têm ereção, estão topando outros tipos de prazer. Eu queria muito alguém fixo, mas ainda não consegui. 

E como foi sua primeira vez com alguém dessas salas? Quais as histórias mais interessantes?
A primeira vez foi muito esquisito. O cara queria se montar na minha frente de mulher. Ele era engenheiro civil, veio na hora do almoço. Fomos num motel. Ele se montou com roupas femininas, de sapato de salto e tudo. Na hora, eu não entendi o que estava acontecendo, mas estava engraçado. Daí, a gente começou a transar. Ele pediu que eu enfiasse o dedo no ânus dele e ele gozou rapidinho. Parecia que era a primeira vez dele também. Depois que ele foi embora, nunca mais nos falamos. Era bem frequente esse comportamento pelos homens da sala. Outro caso foi de um rapaz que quis se encontrar comigo e pediu que eu fizesse fisting – prática sexual onde se penetra o punho (fist) e braço no ânus – nele, coisa que eu nunca havia feito. No dia, fiquei horrorizada e doeu minha mão, mas fiz mesmo assim. Eu sempre estava com tesão e querendo encontrar mais pessoas, acredito que pelos hormônios que comecei após o tratamento da endometriose. Então, resolvi comprar um consolo (dildo), que fez muito sucesso com um rapaz que peguei uma vez, que esqueceu de mim e queria ficar só com a boca no meu brinquedo.

Aprendi a me soltar quando conheci um homem que era muito carinhoso comigo. Ele sempre levava o próprio dildo para os encontros. Era impressionante a expressão de prazer que ele fazia quando usava. Aos poucos, fui entendendo que realmente o prazer anal era diferente para os homens. Ficamos mais fixos e frequentes. Em determinado momento, tomei liberdade de convidá-lo para minha casa, para ficarmos mais íntimos um do outro. Era bem legal. Ele me encontrava em casa, às sextas-feiras à noite, comigo já nua e de cintaralho esperando. Ele adorava. Hoje, ele quer explorar como é dar para um homem, o tempo todo me pede para arrumar um homem pra ele (risos).

A senhora acredita que, hoje, sua vida é mais prazerosa do que antes?
Então, agora eu sinto muito mais gosto de fazer sexo. Hoje em dia, tenho orgasmos muito mais prazerosos. Após minha endometriose e todas as questões ginecológicas, comecei a tomar um medicamento chamado Tibolona, que protege o coração e os ossos. E, de um cinco meses pra cá, comecei a utilizar estrogênio também. Hoje em dia, é muito melhor. O que mais gosto é quando tem “carinhos de mão”, – acredito que seja a famigerada siririca. Nossa ,eu vou para o céu e volto, sempre! Me deixa doida. Penetração eu tive pouco depois dessa idade, meus parceiros são mais velhos. Então, é mais difícil. Eu gosto muito de sexo. Gosto de estar com homens. Gosto de carinho de homens e de acariciar o corpo deles, frente e verso. Se eu encontro um homem que gosta de todos esses carinhos da frente e atrás, é uma maravilha. Hoje, por conta da pandemia, está mais difícil. Ainda mais que eu gosto de homens com mais de 55 anos. E esses são os mais sem-vergonha, sempre levam as coisas para a sacanagem, mas tem dificuldade de se entregar. Ah, outra coisa que eu percebi é que os homens bissexuais são mais interessantes nesse último quesito, se entregam mais e não tem tanta resistência de me dar o verso – o verso é o ânus.

Lourdes, a senhora vê muito preconceito com sexo após os 50 anos? Qual recado você daria para pessoas da sua idade que são muito tímidas e retraídas?
Acho que sim, mas temos necessidades. No meu caso, as pessoas que saem comigo correm atrás de mim. Então, fico no meu canto. Quem quiser conversar comigo, ter amizade e afins, que o faça. Eu tenho muito preconceito comigo mesma, pela minha idade, maturidade e até mesmo por eu ser mulher. Acho que a pessoa que chega na minha idade, sobretudo mulheres, não gostam nem de falar de sexo. Elas dizem que já esqueceram isso. Eu me sinto muito privilegiada. Primeiro pela minha mentalidade, segundo pelo uso do meu hormônio. Acredito que eu seja assim pelo uso dele, pois sem ele eu fico com a pele seca, envelheço, entro em depressão e fico de mau humor.

E para os jovens, qual o seu recado?
Acho que eles devem olhar com mais amizade, carinho e atenção para nós. E não apenas como uma fantasia ou aventura com uma mulher mais velha. Uma mulher mais madura é carinhosa, atenciosa, que dá mais suporte para o homem e entende as fraquezas. Eu sinto que o jovem olha para a pessoa mais velha e acha que a gente não serve para mais nada. Muito pelo contrário, servimos muito: de conversa até sexo. Acredito, inclusive, que somos mais liberais e menos puritanas que os jovens. Acho que a partir dos 50 anos, a gente vive a vida sexual mais intensamente do que quando mais jovens. 

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João Barreto/Ilustração

Balança química

Um fator importante dentro de toda a conversa com a Lourdes é quanto ao seu uso de hormônios. Abrindo aqui um “momento saúde”: ao avançar da idade, nossos corpos se modificam muito em todos os contextos, e um deles é justamente nossa disposição sexual ou libido a partir de todas alterações hormonais que acontecem. 

Entretanto, frente aos estereótipos e preconceitos firmados sobre a velhice, existe uma tendência dos profissionais de saúde e dos próprios idosos a menosprezar sintomas como a diminuição da libido, o ressecamento vaginal (e a dor que ele gera) e a baixa de autoestima, como se tais fossem parte do envelhecimento e a partir disso são deixados de lado e nem discutidos amplamente, muitas vezes até por vergonha. Mas não precisa ser assim, e como vimos no caso de Lourdes, uma vida sexual ativa na terceira idade é muito saudável e recompensadora. 

A medicina e farmácia já possuem um grande arsenal de possibilidades para pintar um novo cenário para a terceira idade. Para a menopausa que interrompe a produção de vários hormônios, muitos deles responsáveis pela lubrificação e libido, temos desde cremes vaginais até reposição hormonal e exercícios de fisioterapia. Para os homens, soluções como a própria hormonioterapia e a programação sexual – transar no turno da manhã quando a testosterona está em níveis mais altos – já são possíveis e tangíveis. O que é preciso agora é uma maior inserção na educação dos profissionais de saúde, de cursos, incentivos e atividades para que eles estimulem mais a conversa com o idoso sobre o assunto, sem o medo de ofender e o sem o tabu que existe em torno da pauta. 

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João Barreto/Ilustração

Mudança de mentalidade

Para entender melhor o que e como que acontece a mudança de mentalidade, decidi conversar com uma pessoa que está chegando agora na terceira idade e entender o que acontece de lá pra cá. Carlos*, de – como ele preferiu dizer – cinquenta e muitos anos, é também seguidor do meu canal e topou responder algumas perguntas quanto às mudanças na sua vida sexual. 

Casado, pai e quase avô, ele relata que percebe, ao passar dos anos, uma vontade cada vez maior de se desprender de preconceitos e tabus. E tem cada vez mais desejo de tentar novidades. “Temos um monte de ‘foda-se’ que ligamos na vida. Com o passar do tempo, você percebe que você está se cobrando demais, com várias exigências e ambições. Aos 50, você vê que já passou metade da sua vida e você deveria fazer o que nunca fez agora, antes que seja tarde demais. Eu percebo, no meu grupo de amigos, uma cascata de liberação sexual de vários tipos. Uma primeira que aconteceu foi de todos nós abrirmos o casamento e começamos a sair com mais pessoas e até ver pessoas do mesmo sexo. Ménages e surubas se tornaram comuns. E é muito legal, pois isso nos fez ficar mais forte e nos uniu mais. Minha vida sexual hoje é muito mais próxima dos meus desejos”.

O relato do Carlos é interessante pois vejo nos jovens – eu incluso – um grande pudor quando o assunto é sexo. E é intrigante, pois deveria ser o contrário, haja vista que, na juventude, há uma disponibilidade sexual maior, um desejo aguçado e as possibilidades de parceiros são múltiplas. Fico pensando: se fôssemos mais liberais, teríamos uma vida mais saudável e leve, tratando o sexo como uma prática natural e desprendida de tantas condições e cobranças.

Carlos me conta que sempre marca presença nas festas de suruba online agora durante a pandemia e que, dentre os seus fetiches, o vouyerismo – observar outras pessoas transando – é o seu preferido. Enquanto você aí, leitor(a), que está nos seus 20 anos e com medo de levar uma dedada, tem gente que já liberou e está aproveitando o que você podia estar experimentando muito mais cedo. Acorda, gay!

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João Barreto/Ilustração

Heteronormatividade 

Aí ela, sempre aí fudendo o rolê. Ao longo das entrevistas que fiz, percebi que ambos se mostraram e propuseram uma menor heteronormatividade dentro das relações sexuais. Em todos textos que li, vídeos que vi e entrevistas que ouvi, se destaca sempre uma abordagem extremamente heteronormativa, falocêntrica e masculina. 

Sempre ao abordar o assunto, médicos, psicólogos e demais profissionais começam ou falando sobre disfunção erétil – geralmente, os médicos convidados são urologistas – e sobre como é possível, a partir de medicamentos, intervenções cirúrgicas e demais práticas tornar o pau “funcionante” de novo. Mas o interessante é que, quando ouvimos relatos como o da Lourdes e do Carlos, a noção de sexo fica mais ampla e percebemos que focar toda uma discussão sobre sexo ao redor de conseguir deixar o pênis ereto é ridículo. 

Primeiro porque existem mulheres cis lésbicas idosas que estão passando por essas questões e um pênis, na maioria dos casos, não é algo que está no contexto de vida delas, escancarando assim um apagamento da homossexualidade na terceira idade. Sem nem mencionar as idosas que ainda são prostitutas, homens gays e outros recortes. Em segundo lugar, trazer a Sildenafila (Viagra) pro centro da discussão, na minha opinião, é esquecer todas as várias áreas erógenas que temos no corpo, a iniciar pela pele, que é o orgão mais democrático que temos, e colocar o homem no centro da discussão sexual, como se o sexo só existisse se ele pudesse transar. E isso deixa a mulher que pode ser sozinha e bater siririca até os 100 anos fica sem orientação. 

Abro aqui um parênteses para um alerta. A falta de discussão acerca da sexualidade na terceira idade, além de tudo, também é preocupante. A pouca orientação e discussão sobre utilização de camisinha e sexo seguro abre portas para o aumento das infecções sexualmente transmissíveis no grupo etário como já vemos segundo os dados epidemiológicos. É mais um problema do pudor em falar sobre sexo com a terceira idade. De acordo com o boletim epidemiológico HIV/Aids de 2018, os diagnósticos de HIV aumentaram mais de 600% entre as mulheres acima dos 60 anos.

Fico muito feliz quando percebo sexólogos e gerontólogos abordando a sexualidade de forma mais positiva, mas sinto que a discussão ainda está parada num ambiente teórico e fazem-se necessários esforços para que a putaria chegue lá no “postinho” do bairro da Dona Maria que começou a sentir uns calores subindo nas pernas. 

As expressões de afeto, as fantasias, o desejo de ser seduzido e de seduzir, estão presentes na vida dos velhos como em qualquer outra etapa da vida, embora nem sempre se apresentem da mesma forma. Resgatar o direito a uma vida sexual do velho implica poder pensar o amor em suas formas de transformação libidinal, ou seja, outras formas de amor, que passam pela ternura, pelos contatos físicos que erogenizam o corpo, como o olhar, o toque, a voz redescobrindo as primeiras formas de amor do ser humano. […]. O velho não deixa de amar, mas reinventa formas amorosas (Santos, 2003, pp. 22-23). 

Precisamos cada vez mais pensar nos corpos idosos como potenciais, sexuais e eróticos. Discutir não apenas quanto às disfunções sexuais e hormonais mas também sobre autoestima, beleza, sensualidade e fantasias. Sexualidade além do ato sexual em si é também sobre aproveitar nosso corpo, amar nossa pele, nosso rosto e trabalhar o bem-estar. Assim, eu tenho esperança e acredito que tanto a velhice atual e a nossa futura será muito mais safada e feliz. 

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