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“Quero ser a Oprah brasileira”

Thelma Assis, comunicadora, apresentadora e campeã do BBB 20, bate um papo com a gente sobre cancelamento, racismo, política e maternidade

por Alexandre Makhlouf 24 set 2021 00h43
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Clube Lambada/Ilustração

o dia 27 de abril de 2020, um discurso marcou a vida da médica anestesiologista Thelma Assis. Na voz de Thiago Leifert, ela escutou que, no meio de uma quarentena, de uma pandemia que ainda tiraria milhares de vidas pelo mundo, sua participação em um reality show era uma “vitória histórica”. O prêmio “só pode ser seu, ele tem que ser seu, Thelma”. A emoção de vencer o BBB 20, edição que teve uma das maiores audiências da história do reality e debateu diversas questões importantes – como machismo, relacionamentos abusivos e sororidade entre as minas –, rapidamente ganhou a companhia de outras tantas emoções: sair de um confinamento para entrar em outro, dentro de sua própria casa, e não da casa mais vigiada do Brasil. “Foi um processo de readaptação. Percebi que minha família estava mais adaptada que eu quando os reencontrei depois de ganhar o BBB. Os protocolos de mudar de roupa, tirar sapato… tudo me assustou muito no começo, mas sempre confiei muito na ciência, sabia que em breve ela traria uma resposta, que seria a vacina”, ela conta. 

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Quase um ano e meio depois de ter se tornado milionária e uma das poucas mulheres negras a vencer o BBB – a única, diga-se de passagem, desde que a onda conservadora que assola o país chegou –, Thelma acumula mais uma série de credenciais, todas conquistadas com empenho, dedicação, preparação e uma boa dose de carisma. Ela encabeçou uma campanha da prefeitura de São Paulo de conscientização para o uso de máscaras e os cuidados contra a covid-19; subiu em um avião com destino a Manaus para atuar na linha de frente do combate à pandemia no pior momento dela na capital amazonense; ganhou um quadro no Bem Estar, programa da Globo que passa nas manhãs de sábado; e também comanda seu próprio talk show no YouTube, o Triangulando, que encerrou sua segunda temporada há poucas semanas.

Neste último, Thelma conseguiu mais um feito histórico: reuniu o ex-presidente Lula, a cantora e ativista Linn da Quebrada e o líder da Central Única de Favelas (CUFA) Celso Athayde em um debate de duas horas sobre política, fascismo e o futuro do Brasil. “É super importante que os políticos estejam cada vez mais abertos ao diálogo com os diferentes representantes da nossa sociedade. Só assim teremos novas perspectivas de um futuro melhor.”

Em uma tarde de sexta-feira, conversamos com Thelminha por vídeo chamada e tivemos um gostinho do que é a rotina corrida da campeã do BBB20, que usa toda a influência conquistada para comunicar, informar, espalhar a importância da educação e servir de exemplo para tantas outras mulheres como ela. “Hoje, uma menina preta periférica como eu vai olhar pra mim e ver que ela pode realizar seus objetivos. Mesmo existindo uma série de opressões e empecilhos, ela pode lutar contra. É esse respiro assim de esperança, de ela olhar para mim e saber que, se eu consegui, ela também pode.” Aqui, você confere nossa conversa na íntegra.

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Thelma Assis/Arquivo

Queria começar te parabenizando e perguntando sobre o Triangulando, que teve uma excelente segunda temporada. É um programa de debates sobre questões atuais, que envolvem comportamento e sociedade. Queria que você me contasse um pouco sobre o processo de escolha dos temas, dos convidados e a sua participação nas pautas. Como é essa rotina?
É um projeto em parceria com a Dia Estúdios que tem me deixado muito feliz e realizada. A ideia do formato foi do Rafa Dias e ele me convidou exatamente porque, ao me assistir no BBB, percebeu que eu era essa pessoa que busca entender diferentes pontos de vista, sempre procurando por uma reflexão construtiva. Em relação às pautas, a gente sempre começa com bastante antecedência e escolhe pautas que tem tudo a ver com o momento que vivemos. A ideia inicial era que essa temporada tivesse acontecido no primeiro semestre, mas acabamos decidindo adiar para o segundo por causa da pandemia. Queríamos trazer os convidados presencialmente, o olho no olho é muito enriquecedor. 

A escolha dos convidados também passa por mim. Eu sugiro vários nomes e não necessariamente vou concordar com todas as opiniões de quem participa – e acho que isso contribui muito para deixar o debate mais rico. Acho que a pauta que eu mais quis fazer era a do cancelamento. A Karol Conká sofreu muito com isso e tinha que estar ali. Trouxemos também o Fefito, que trabalha com figuras públicas, e a Vera Iaconelli, psicóloga. O tema sobre os impactos da covid-19 também foi muito interessante – temos falado muito disso e queríamos trazer uma pesquisa mais voltada para o futuro. Acho que, no geral, estou sempre buscando temas em que eu consiga colocar um pouco mais da minha vivência, mesmo que não tenha experiência, para continuar o debate.

O episódio com o ex-presidente Lula, a Linn e o Celso Athayde, da CUFA, teve uma repercussão positiva incrível e foi histórico. Queria saber como foi seu processo de preparação e, na sua visão, qual é a importância de ter uma figura política do porte do Lula interagindo com figuras que, historicamente, não estavam incluídas nas discussões políticas.
Estou sempre atenta ao cenário político, gosto de acompanhar as diferentes opiniões dos especialistas no assunto e a minha preparação foi dessa forma, além da leitura que sempre me ajuda a formar opiniões sobre diversos assuntos. O Brasil é imenso, plural e os líderes devem governar para todos nós. Para isso, acho super importante que os políticos estejam cada vez mais abertos ao diálogo com os diferentes representantes da nossa sociedade. Só assim teremos novas perspectivas de um futuro melhor.

“O Brasil é imenso, plural e os líderes devem governar para todos nós. Para isso, acho super importante que os políticos estejam cada vez mais abertos ao diálogo com os diferentes representantes da nossa sociedade. Só assim teremos novas perspectivas de um futuro melhor”

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Thelma Assis/Arquivo

Como foi descobrir esse seu lado apresentadora e comunicadora? Porque o trabalho que você vem desenvolvendo depois do BBB é muito mais do que o de influenciadora, parece ter mais propósito e mais engajamento com questões importantes!
Eu sempre fui uma médica exibida (risos) e dentro de mim sempre existiu essa comunicóloga. Eu já tentava aflorar um pouco isso, já tinha um trabalho no YouTube e agora, pós BBB, com tantas oportunidades na mídia – sou colaboradora médica do Bem estar também – não saí da TV desde que saí do BBB. Foi uma novidade muito boa, gosto de aproveitar cada oportunidade que me dão. Estudo muito, assisto outros apresentadores, me preparo como posso – estou fazendo fono, vou voltar a estudar inglês… O céu é o limite, quero ser a Oprah brasileira.

A gente falou sobre cancelamento e a Karol Conká. O caso dela foi muito emblemático não só pelo cancelamento em si, mas também sobre as muitas camadas racistas que estavam envolvidas. Qual o nosso papel como comunicador – e também como pessoa – ao analisar esses casos e “descancelar”, se posicionar contra, o cancelamento de figuras como a Karol?
Uma coisa é o cancelamento que consegue te trazer uma crítica e uma reflexão construtiva sobre o que você fez. Porém, acontece que tem muito hate na internet: racista, machista, homofóbico, misógino. E, na internet, muita gente acaba se disfarçando, se camuflando por trás de um perfil de internet para destilar preconceito. Aí, a gente parte pro lado da injúria racial, que é crime, e a gente precisa saber separar. Não há dúvidas de que o cancelamento é, sim, seletivo. Se você pega o homem branco hétero e uma mulher negra, como a Karol, e começa a tentar mensurar o impacto do cancelamento, a duração dele, é nítido. O homem branco tem o apoio de muitas pessoas para se reerguer. A mulher negra, em geral, precisa fazer isso sozinha.

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Além de trabalhar como apresentadora atualmente, Thelma segue exercendo medicina – ela é anestesiologista.
Além de trabalhar como apresentadora atualmente, Thelma segue exercendo medicina – ela é anestesiologista. Thelma Assis/Arquivo

Além de todas as mudanças que o BBB te proporcionou, a pandemia também afetou muito a sua rotina. Você esteve na linha de frente de combate à covid-19 em Manaus, atuou como embaixadora da prefeitura de São Paulo em campanhas e lutou ativamente contra o vírus. Como foi viver essa experiência quase apocalíptica depois da euforia do BBB?
Foi muito impactante. Eu entrei num reality com a vida normal e saí sentindo o baque. Num primeiro momento, como ser humano mesmo, de conseguir entender o que está acontecendo, processar. Máscara para mim era coisa de hospital, para quem estava em tratamento, a gente nunca teve essa cultura de usar quando está resfriado, como sempre existiu no Japão. Foi um processo de readaptação. Percebi que minha família estava mais adaptada que eu quando os reencontrei depois de ganhar o BBB. Os protocolos de mudar de roupa, tirar sapato… tudo me assustou muito no começo, mas sempre confiei muito na ciência, sabia que em breve ela traria uma resposta, que seria a vacina. Encabecei uma campanha com a prefeitura de São Paulo porque eles entenderam que eu estava saindo de um confinamento e indo para outro, e as pessoas iam se identificar. Entendi meu papel como comunicadora social, usar minha voz e minha profissão, ainda mais durante uma pandemia que está sendo totalmente mal gerida. 

“Se você pega o homem branco hétero e uma mulher negra, como a Karol, e começa a tentar mensurar o impacto do cancelamento, a duração dele, é nítido. O homem branco tem o apoio de muitas pessoas para se reerguer. A mulher negra, em geral, precisa fazer isso sozinha”

Queria que você falasse também um pouco do que você viu na linha de frente e fora dos grandes centros, de como esse descaso todo com a pandemia afetou, em especial, as populações que já eram mais vulneráveis: pessoas negras, indígenas…
A pandemia escancarou ainda mais a desigualdade social, especialmente do ponto de vista de acesso. A gente percebe que as pessoas mais pobres, que por triste coincidência são as pessoas negras, são as que morrem mais. São as que não tiveram o direito de ficar em casa. Fique em casa pra quem? Uma parte da sociedade conseguiu fazer o isolamento da forma correta, tinha condições, mas as diaristas, os motoristas de ônibus, a funcionária da farmácia – todas essas pessoas são linhas de frente. A gente sabe que o acesso é mais difícil à saúde se você está na periferia. É uma desigualdade social que já existia, e diante de uma crise sanitária, só se agravou. É um ciclo vicioso aterrorizante: fome, desemprego, violência, aumento de pessoas em situação de rua. A gestão tem sido péssima, as pessoas estão desorientadas, pautadas em fake news. Essas coisas são inadmissíveis. Decidi usar minha influência e minha voz de forma correta. Inclusive, depois que terminarmos esse papo, ainda tenho 3 ou 4 pesquisas para ler e me preparar para o Bem Estar amanhã. Gosto de estar sempre atualizada.

E, pensando nisso tudo, qual a importância de, no Brasil de Bolsonaro, termos uma mulher preta vencendo o maior reality show do país e crescendo cada vez mais profissionalmente? E, mais ainda, de ver uma médica negra bem sucedida?
Tenho a intenção de passar várias mensagens. Primeiro, de que a educação muda a vida das pessoas. Além de me trazer todo conhecimento e formação, me possibilitou uma ascensão social que me permite estar aqui falando com você hoje. O fato de ser uma médica negra foi um dos motivos por estar na minha edição do BBB. Você não encontra médicos negros na mesma proporção de brancos. A representatividade que isso gera é saber que uma menina preta periférica como eu vai olhar pra mim e ver que ela pode realizar seus objetivos. Mesmo existindo uma série de opressões e empecilhos, ela pode lutar contra. É esse respiro assim de esperança, de ela olhar para mim e saber que, se eu consegui, ela também consegue.

“Tenho a intenção de passar várias mensagens. Primeiro, de que a educação muda a vida das pessoas. Além de me trazer todo conhecimento e formação, me possibilitou uma ascensão social que me permite estar aqui falando com você hoje”

Thelminha com o marido, o Denis Santos
Thelminha com o marido, o Denis Santos Thelma Assis/Arquivo

Recentemente, você comentou também que agora é hora de focar na sua vida profissional e, por isso, deu entrada no processo de adoção, que é demorado, e congelou óvulos. Ser mãe é, e sempre foi, uma responsabilidade e um desafio enormes. Que poderes você acredita que a sua maternidade terá na hora que ela chegar?
É um sonho, é o próximo grande sonho que eu gostaria de realizar. Quero separar um momento da minha vida para me dedicar exclusivamente para minha maternidade. Tenho uma grande responsabilidade de fazer com que meus filhos sejam cidadãos conscientes. Tanto eu quanto meu marido viemos de condições sociais muito desfavoráveis – meu marido quase passou fome na juventude –, então não queremos criar pessoas fora da realidade. É preciso mostrar a desigualdade, temos que valorizar o que a vida nos possibilita. Eu quero ter um filho adotado e outro biológico, para mostrar esse contexto de que a vida e a família podem partir de várias perspectivas. E que, independentemente da origem, o desfecho da nossa história sempre pode ser positivo.

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Thelma Assis/Arquivo

Também li que você está escrevendo uma biografia! Já tem título? Tem alguma história inédita sua que vai estar no livro e que você pode adiantar pra gente?
Eu sempre li biografias de pessoas mais experientes, mais velhas, com vários anos de história profissional e tinha essa visão. O Manoel Soares, apresentador do É de Casa, falou que minha história de vida poderia, sim, servir de incentivo e inspiração para outras pessoas, que era “história de livro”. Fiquei com a pulga atrás da orelha e comecei a escrever. Estamos preparando esse livro há um ano. Sou muito perfeccionista e detalhista. No livro, eu também dou minhas opiniões sobre cada detalhe. Ainda não temos título, está na fase de revisão agora, mas o que posso contar é já chorei lendo meu livro. Chorei lendo minha própria história, lembrando do que vivi, e espero que ela seja motivadora para outras pessoas também.

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