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Por uma arte mais preta

As minas do Levante Nacional Trovoa lutam para que o mercado artístico valorize mais o trabalho e a produção de mulheres racializadas

por Alexandre Makhlouf Atualizado em 10 ago 2021, 12h12 - Publicado em 9 ago 2021 23h49
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Clube Lambada/Ilustração

uando entramos em uma galeria ou museu, quadros, fotografias, esculturas e outras obras de arte nos dizem muita coisa. Despertam sentimentos, resgatam memórias e nos dizem, de uma forma ou de outra, quem é a pessoa que criou aquela peça. Mas será que existe diversidade nessa seleção? Quantas das obras que você viu e registrou para postar no Instagram foram feitas por mulheres?

O resultado é um triste – e esperado – retrato do mercado artístico brasileiro: de acordo com uma pesquisa feita em 2017 por Ana Paula Simione, professora e pesquisadora do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, a presença feminina nos acervos da Pinacoteca, de Inhotim e da coleção Mario de Andrade gira em torno de 20%. No Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC), o número é um pouco maior, mas ainda longe do desejável: 29%. No mesmo ano, ​​a exposição das Guerrila Girls no Museu de Arte de São Paulo (Masp) revelou outro dado crítico: apenas 6% dos nomes em exposição na instituição eram femininos, mas 60% dos nus expostos são mulheres.

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Silvana Mendes/Arquivo

E se adicionarmos uma outra camada e perguntarmos quantas dessas obras foram feitas por mulheres pretas? É nesse contexto, de lutar por mais espaço para mulheres racializadas dentro das instituições, que atua o Levante Nacional Trovoa, coletivo feminista interseccional composto por mulheres de todas as regiões do Brasil. “A questão do levante nacional vem desse desejo de um montante de mulheres artistas que pensam de forma similar e desejam fazer parte de um grupo que as represente. Antes de ser coletivo, toda artista é independente, tem sua trajetória, mas existe algo que nos une”, explica Bianca Leite, artista visual, educadora e pesquisadora que faz parte do Trovoa.

“A questão do levante nacional vem desse desejo de um montante de mulheres artistas que pensam de forma similar e desejam fazer parte de um grupo que as represente. Antes de ser coletivo, toda artista é independente, tem sua trajetória, mas existe algo que nos une”

Bianca Leite

O movimento surgiu em 2017, a partir de quatro artistas no Rio de Janeiro: Ana Almeida, Ana Clara Tito, Carla Santana e Lais Amaral. Todas muito jovens – não só de idade, mas também de produção artística –, elas se organizavam em um ateliê que dividiam e faziam encontros e rodas de conversas e, aos poucos, a iniciativa ficou conhecida por outras artistas cariocas. Conforme as amigas foram conhecendo essas práticas de discussão e acompanhamento de produção de obra de arte, mais mulheres sentiram necessidade de começar a participar também. “Foi quando Ana Almeida começou a pensar que o Trovoa não fosse só delas, só do Rio, mas que fosse um coletivo nacional, para que as mulheres do Brasil todo pudessem participar”, explica Bianca. 

Hoje, quase cinco anos depois da fundação do coletivo, um primeiro censo foi feito para mapear essas mulheres e suas produções pelo território brasileiro. Ainda que seja difícil cravar quantas exatamente façam parte do Trovoa, o trabalho mostra que existem mais de 30 organizadoras espalhadas pelo país, que se organizam nas redes sociais, em grupos do Facebook e do WhatsApp, para dar apoio a novas artistas que entram em contato com o coletivo, fazer pontes entre elas e possíveis espaços de vendas das obras, além de prestar assistência e uma espécie de mentoria no que diz respeito à produção artística. “Algumas meninas não tem experiência na vendagem dos trabalhos, então as mais velhas ajudam as mais novas. Conversamos sobre precificação, portfólio e como arrumá-los com fotos em alta, tudo para dar mais conforto e segurança para que elas se sintam bem ao apresentar os trabalhos. Participamos de um projeto Baró Galeria em que eles receberam um grupo de artistas racializadas vinculadas ao Trovoa e o galerista explicou como formular contrato, fazer um atestado de autenticidade e outras coisas importantes, porque muitas meninas que vão chegando não têm essa experiência”, pontua Sheila Ayô, também artista, arte educadora e uma das lideranças do Trovoa na capital paulista.

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Carla Santana/Arquivo

A mulher negra nos espaços de arte

Para fazer parte do Levante Nacional Trovoa, basta estar interessada e entrar em contato com o movimento pelas redes sociais. Como tudo é feito de forma orgânica – e são muitas as mulheres artistas que querem participar –, as articuladoras costumam se organizar localmente para atender às demandas. “É um coletivo e não rola imposição de como participar, é uma ação para beneficiar todas. Horizontalizamos tudo: formação não é o peso do Trovoa. O peso são as discussões que viabilizam nossas pesquisas e agendas. E principalmente a naturalização das presenças nestes espaços de arte, que ainda hoje a gente fala ‘nossa, existe uma onda negra, uma onda indígena’, mas, na prática, vemos que não existe”, explica Renata Felinto, professora, artista visual, doutora e mestra em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP. Ela reforça dizendo que essa “onda”só vai existir quando muitas mulheres estiverem de fato representadas por galerias – ou, se não quiserem ser representadas, que tenham seus trabalhos de fato adquiridos, recebendo convites remunerados.

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Júlia Vincente/Arquivo

“É sobre oficializar a nossa ação como artista também. Tivemos entradas em lugares muito importantes, como a SP-Arte no ano passado, que era um lugar meio que inatingível para nós, onde só entravam artistas que estivessem vinculades a galerias. Nessa proporção, o Nacional Trovoa e outras coletividades também são lugares de comércio de arte. Somos coletividades que não têm esse capital financeiro histórico – quem tem, é em decorrência do próprio processo de violência, invasão da terra, dos corpos, então por um lado é até bom a gente não ter – e por isso não conseguimos ter um espaço físico”, continua Renata. 

“É sobre oficializar a nossa ação como artista também. Tivemos entradas em lugares muito importantes, como a SP-Arte no ano passado, que era um lugar meio que inatingível para nós, onde só entravam artistas que estivessem vinculades a galerias. Nessa proporção, o Nacional Trovoa e outras coletividades também são lugares de comércio de arte”

Renata Felinto

A falta de uma sede, um QG para o Nacional Trovoa, se provou, durante a pandemia, um ponto até que a favor. Por conta da atuação em território nacional e da pluralidade no centro do DNA do Trovoa, as articuladoras do movimento perceberam que o ambiente digital não tem o limitante que um lugar fixo teria. “Talvez a gente perdesse as trocas com todas as trovoas do Brasil. Eu, por exemplo, sou de São Paulo e, hoje, moro no Ceará, na região do Cariri. Aqui, temos algumas trovoas. que são pessoas que foram minhas estudantes, todas são artistas e entraram para o Levante a partir dessas relações de amizade ou profissionais”, explica.

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Bárbara Milano/Arquivo

Nesse processo de mentoria e assistência, em que uma mulher levanta a outra e todas crescem juntas, as trovoas que têm mais conhecimento das estruturas  do mercado artístico atuam rastreando editais e criando conexões com as instituições. As mais inexperientes, por outro lado, não são nem de longe desprezadas nesse processo e usam como combustível a motivação e a vontade de fazer arte – caso das mulheres que fundaram o Trovoa, inclusive. “Estamos sempre abertas a discutir o que é o mercado de arte, como podemos nos inserir nele do ponto de vista não só de expor, mas também de comercializar nossos trabalhos. Temos tentado profissionalizar o ofício de artista, algo que foi negado especialmente para mulheres racializadas, cujas produções sempre foram colocadas em outros lugares que não apenas arte: arte naïf, arte primitiva, arte popular. Se a gente observa história da arte, mulheres racializadas são as que mais são categorizadas dessa maneira”, analisa Renata.

Temos tentado profissionalizar o ofício de artista, algo que foi negado especialmente para mulheres racializadas, cujas produções sempre foram colocadas em outros lugares que não apenas arte: arte naïf, arte primitiva, arte popular. Se a gente observa história da arte, mulheres racializadas são as que mais são categorizadas dessa maneira”

Renata Felinto
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Maria Macêdo/Arquivo

Hackeando a lógica colonial

Estruturar-se de forma independente e atuar como um ambiente de comercialização de arte é, além de um propósito, um desafio gigante para o Levante Nacional Trovoa. Mas não é um trabalho que passa despercebido por instituições grandes do meio artístico como a SP-Arte, que desde o ano passado atua como parceira do coletivo. Por meio do Arte 365, plataforma digital da SP-Arte que conecta galerias-parceiras a colecionadores e compradores em potencial, o trabalho de 46 artistas do Trovoa está disponível em um ambiente que, na maioria das vezes, exclui as mulheres racializadas. 

“As galerias, que são instituições que vendem, e não só expõem, os trabalhos aqui no Brasil têm muita dificuldade ainda em reconhecer o potencial de artistas não brancos. Até existem galerias com focos racializados, mas, coincidentemente, são galerias de pessoas racializadas. Galeristas brancos e brancas não costumam recepcionar esses trabalhos em grandes volumes”, critica Renata. Traçando uma linha do tempo recente de quando o jogo começou a virar e a representatividade desses artistes começou a crescer, ela pontua a exposição Territórios: Artistas Afrodescendentes no Acervo da Pinacoteca, que aconteceu no fim de 2015. 

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Hariel Revignet/Arquivo

“Foi um marco importantíssimo para essa mudança de percepção da profissão de pessoas racializadas no mercado da arte, com o resgate de artistas que tinham obras já adquiridas no acervo. Quando Tadeu Chiarelli [diretor da Pinacoteca entre 2015 e 2017] se propõe a rever o acervo, adquirir novas peças e chamar essas pessoas para falar de uma arte que era chamada de arte negra anteriormente, ali tem um marco. Nenhuma outra instituição quer ficar atrás da Pinacoteca. A exposição foi um farol, iluminou outras instituições, fez surgir outras exposições.”

“As galerias, que são instituições que vendem, e não só expõem, os trabalhos aqui no Brasil têm muita dificuldade ainda em reconhecer o potencial de artistas não brancos. Até existem galerias com focos racializados, mas, coincidentemente, são galerias de pessoas racializadas”

Renata Felinto

Renata explica também que, hoje, existem outros motivos para que alguns galeristas se interessem em representar artistas racializadas em seus espaços de arte: uma espécie de pressão externa por diversidade, o que é quase uma jogada de marketing, e também a existência de artistas que vão se fazendo de forma independente nos meios virtuais e se tornam grandes. “As estratégias do Trovoa são de aquilombamento. Quilombo é um local de refúgio, mas também de estratégia para negociar com esse que se coloca como oponente. Historicamente, é um local de soma de forças.”

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Bianca Leite/Arquivo

E no futuro?

Depois de cinco anos na luta, os resultados do crescimento e da presença do Trovoa no mercado de arte são cada vez mais perceptíveis. Durante a pandemia, o coletivo participou de diversas ações online, rodas de conversa e eventos junto a Sescs, secretarias de cultura de alguns municípios e ações educativas junto à própria SP-Arte. Para se manter de pé, o Trovoa fica com cerca de 10% das obras vendidas em espaços que se conectam ao coletivo – “o objetivo não é fazer um fundo, mas remunerar as pessoas que organizam catálogo e fazem os contatos, por exemplo”, pontua Bianca. “O Trovoa mostra que a gente não está sozinha defendendo isso. Somos nós, é a trovoada, é uma energia que é fusão de acontecimentos para que o trovão exista. Trovoar é essa voz tão poderosa que não é mais ninguém sozinha. Nossas demandas são coletivas, chegamos com mais potência se estamos juntas e também nos protegemos”, afirma Renata.

“Queremos levar o nome do coletivo para o mundo, para que todas as artistas sejam conhecidas, porque todas elas importam. Lutamos para que a gente seja valorizada em vida. É bom reverenciar os mais velhos, os que se foram, mas a gente não precisa ser escravizada para se tornar importante”

Bianca Leite

O sonho é que, com o tempo, o trabalho de todas essas artistas seja reconhecido, devidamente remunerado e que elas possam ser as artistas que nasceram para ser. Que elas não precisem fazer jornadas triplas, dividindo-se em outros trabalhos, além dos trabalhos da maternidade e os domésticos, como é o caso de muitas mulheres que fazem parte do Trovoa, para garantir que sua arte exista. “Queremos levar o nome do coletivo para o mundo, para que todas as artistas sejam conhecidas, porque todas elas importam. Lutamos para que a gente seja valorizada em vida. É bom reverenciar os mais velhos, os que se foram, mas a gente não precisa ser escravizada para se tornar importante”, finaliza Bianca. 

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