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50 anos depois, tudo igual

Série documental “1971: O Ano que a Música Mudou o Mundo” mira o progresso mas mostra que não aprendemos nada com nossas liberdades

por Artur Tavares 13 jul 2021 00h13
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Clube Lambada/Ilustração

s anos 1960 haviam sido coloridos. Pela primeira vez no século 20, os jovens estavam no controle intelectual. Houve momentos semelhantes em séculos anteriores, como a Belle Époque e a Renascença, mas agora com um ineditismo: a mídia global amplificou essa luta por progresso e contra as forças conservadoras pelos quatro cantos do mundo. O rock ‘n’ roll abraçou o flower power e, impulsionado pelo LSD, gritou por liberdade espiritual e social. Mas, como sempre, os poderosos deram um jeito de vencer essa geração.

Quando os anos 1970 chegaram, a Guerra Fria estava em um momento crítico. Os soviéticos e os norte-americanos conflitavam em diversos lugares do planeta, entre eles o Vietnã. Lideranças progressistas como John Kennedy e Martin Luther King haviam sido assassinadas, a segregação racial era imensa e, na face sul do planeta, ditaduras cada vez mais sangrentas estavam no controle. Dizia-se que o sonho acabou, mas o que viria a seguir foi muito maior.

Em cartaz na Apple TV+ desde o final de maio, o documentário em oito partes 1971: O Ano que a Música Mudou o Mundo não é apenas um registro de alguns dos melhores álbuns e músicas já produzidos, mas também um apanhado de momentos que foram faíscas para mudanças sociais importantes, do fim do racismo à quebra do machismo.

Mas… 1971 foi mesmo o ano em que a música mudou o mundo? Por que, 50 anos depois, ainda estamos vendo jovens negros sendo brutalizados? Por que o feminicídio é uma realidade, as guerras por interesses políticos continuam matando inocentes, os LGBTs continuam sofrendo preconceito? Por que fascistas ainda comovem uma parcela atrasada e ignorante da sociedade com suas mentiras e hipocrisias sobre Deus, a família e as tradições?

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Arte/Redação

What ‘s Going On?

Baseado no livro Never a Dull Moment: 1971 The Year That Rock Exploded, do jornalista britânico David Hepworth, o seriado da Apple tem registros riquíssimos da atuação anti-guerra de John Lennon e Yoko Ono; filmagens dos Rolling Stones na região da Provence, na França, enquanto gravavam o seminal álbum Exile on Main St.; imagens de David Bowie antes de se tornar um grande camaleão do rock; vídeos de Marvin Gaye gravando seu disco mais político e de Tina Turner debatendo a violência doméstica que sofria de seu então marido, Ike.

Mas, 1971 é menos sobre músicas que são trilhas sonoras dos nossos melhores momentos e mais sobre tentativas de pequenas revoluções. São marcantes os episódios que falam sobre Joni Mitchell e Carole King, mulheres fortes que foram exemplos para a emancipação feminista de mulheres de meia idade descontentes com abusos em seus casamentos, e também a rememoração sobre a vida de lutas da líder do movimento negro Angela Davis, acusada injustamente de assassinatos que não cometeu.

Embora seja otimista naquilo que se propõe a mostrar, porque de fato os resultados tenham sido valiosos em um primeiro momento, a série apenas deixa no ar um futuro que nunca se realizou, seja nos países mais desenvolvidos, onde esses artistas e grupos musicais se criaram, ou em todo o resto do planeta, onde a produção intelectual muitas vezes nem chega a arranhar aquilo realizado meio século atrás.

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Não é dizer que esses artistas venderam pouco ou não impactaram pessoas suficientes para que mudanças ocorressem. Apenas 2 anos depois, em 1973, o Pink Floyd lançou The Dark Side of the Moon, até hoje o álbum de rock mais vendido no planeta, e naquela época os Stones iniciaram um ciclo de turnês recordistas em audiência – que culminaram, já nos anos 2000, em um show para 1.5 milhão de pessoas na Praia de Copacabana. Elton John demorou 40 anos para sair do armário, é verdade, mas não foi isso que permitiu que a homofobia dominasse o planeta, e não foi o abuso de drogas de Sly Stone que criou um genocídio contra populações negras.

Mas foram esses e tantos outros retratados na série que carregaram as bandeiras mais importantes do século passado, e que ainda são necessárias até hoje. Ainda que houvesse exemplos de como os EUA, a Inglaterra e outros lugares tivessem aprendido com seus artistas, poderíamos fazer ode a algum sucesso, mas o que temos hoje dos dois lados do Atlântico são os mesmos conservadores supremacistas de sempre, desinformação, pessoas marginalizadas, jovens censurados por seus comportamentos.

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Construção

Obviamente, “1971” é uma série totalmente dedicada à música anglófona, e se desvia do eixo EUA/Reino Unido apenas para falar do reggae jamaicano, ainda que num contexto onde os negros da ilha caribenha tenham feito a cabeça dos brancos skinheads britânicos, um movimento que levaria à explosão do punk rock alguns anos depois. Mesmo assim, vale falar um pouco do que foi o ano de 1971 para a música brasileira, e entender que aqui também não houveram tantos avanços assim.

O AI-5, decretado em 1968, havia implantado uma censura dura aos artistas brasileiros. Muitos deles decidiram sair do país para não ficarem sujeitos a um estado repressor de difamação e tortura. Em 1971, os primeiros frutos do exílio começaram a chegar. De Londres, Caetano Veloso e Gilberto Gil gravaram álbuns homônimos e, da Itália, Chico Buarque produziu “Construção”.

Caetano e Chico, sempre muito políticos, embalaram 1971 com letras doloridas de “Shoot Me Dead”, “London, London”, “Cotidiano”, “Desalento” e “Deus Lhe Pague”, enquanto Gil, mais poético, experimentava com a língua inglesa em “Nêga” e no cover de “Can’t Find My Way Home”.

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Aqui no Brasil, Erasmo Carlos e Roberto Carlos – amparados pelo sucesso da Jovem Guarda – também lançaram ótimos discos. O Tremendão, sempre muito subversivo, abriu seu álbum fazendo uma ode à cannabis, enquanto seu parceiro Roberto, sempre bastante chapa-branca (e, porque não, conivente) com a ditadura, produziu um apanhado de canções completamente apolíticas, ainda que clássicas e impecáveis, como “Todos Estão Surdos” e “Detalhes”, apenas para citar algumas.

Jorge Ben e Tim Maia estavam na crista da onda. Aproveitando o movimento de afirmação dos artistas negros estrangeiros, gravaram canções como “Negro é Lindo” e “Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar)”, enquanto o sambista Paulinho da Viola produziu não apenas um, mas dois álbuns repletos de clássicos. Elis Regina, engrossando o caldo, também cantou “Black is Beautiful” no mesmo ano.

Mais transgressora do que nunca, Gal Costa iniciou a década de 1970 com Fa-tal, um álbum duplo ao vivo gravado à sombra dos censores em uma série de shows que realizou Rio de Janeiro. A cidade também recebeu turnê de Maria Bethânia, que lançou no final de 1971 o também ao vivo Rosa dos Ventos.

Não menos importante, 1971 foi o ano em que os integrantes do grupo Secos & Molhados conheceram Ney Matogrosso e realizaram seus primeiros ensaios, um encontro que resultaria em um dos discos mais explosivos da ditadura no Brasil.

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Meu País

1971 foi musicalmente incrível no Brasil, mas na nossa sociedade moralmente destruída de hoje, como são vistos a maioria dos artistas que lançaram discos há meio século? Caetano transita entre “bicha velha”, “pedófilo” e “comunista”, enquanto a profunda intelectualidade de Chico Buarque é resumida também à uma manipulação para posicionamentos políticos “subversivos”. Elis, Raul Seixas e Tim Maia morreram pintados como uma viciados em drogas e Ney Matogrosso nunca deixou de sofrer com a homofobia.

Olhar para 1971 e fazer qualquer comparação com o que vivemos hoje é entender que aquele não foi o ano em que a música mudou o mundo. Nem 1971, nem ano nenhum. O mundo não muda porque a podridão conservadora detém o poder econômico, social e cultural.

À sua maneira, cada ano depois da década de 1960 trouxe uma batalha, uma tentativa de derrubar esse muro que nos impede de chegar num lugar de progresso, e ainda que tenha havido algum tipo de melhoria, tudo o que restou foram efeitos rebote duros demais. Não seria exagero dizer que estamos enfrentando um desses movimentos agora em todo o mundo, uma década de extremismos fabricada por poucos após um respiro de líderes globais conscientes nos dez anos anteriores.

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Infelizmente, hoje nossa cultura de massa não é nem um pouco contestadora, como foi há meio século. Não teremos um documentário chamado “2021: O Ano em que a Música Mudou o Mundo”, porque o capitalismo coibiu praticamente todas as maiores celebridades, impedindo que elas se manifestem sobre causas importantes, as mortes de garotas grávidas e de pessoas por uma epidemia amplificada por líderes corruptos. O dinheiro fala mais alto nesses tempos de superexposição das redes sociais, enquanto lá atrás aqueles que realmente tentaram mudar o mundo só queriam causar escárnio e arranjar um pouco de diversão.

Resta, então, a nostalgia por tempos que nunca tivemos. Essa é a lição que fica com o fim de 1971: O Ano que a Música Mudou o Mundo. Quem sabe a gente não consiga um pouco de inspiração, enfim.

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