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Aline e o direito à solitude

Conheça a história da mulher que, depois de viver 20 anos no cárcere e passar por casas de acolhimento, celebra a conquista de estar sozinha

por Uma Reis Sorrequia 18 ago 2021 00h07
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ilustração/Redação

lguém que conheça Aline hoje talvez não consiga visualizar o processo de autonomia que ela vem (re)construindo, de modo mais intenso, nesse primeiro ano em liberdade, mas também durante as duas décadas em que esteve em cárcere. Seu medo em retornar à prisão se dá pelo não-direito à solitude – a convivência coletiva e compartilhada diariamente que lhe retira o direito de querer e poder estar só.

Em uma sociedade conectada e mediada na relação com outres, em que nosso bem-estar parece interdepender de terceires, reivindicar o gozo da solitude é uma das tantas práticas cotidianas que comumente chamamos de amor próprio. No primeiro episódio da série documental Respostas para Lynch, em fase de pós-produção, produzida pela CiA dXs TeRrOrIsTaS, conhecemos um pouco da história de Aline, atravessada verticalmente pelo cárcere ao ter sido privada de liberdade com apenas 18 anos. Embora marcada por essa fatalidade, sua história transcende esse episódio. É muito comum reduzirmos certas pessoas as suas cicatrizes, como na canção AmarElo, de Emicida com participação de Majur e Pabllo Vittar e sample de Belchior. Aqui, o trecho que estamos falando, para ouvir e entender:

Minha tentativa e erro é, portanto, em fugir de uma vitimização e de sentimentos como dó ou pena em torno de Aline – nem ela, nem qualquer outra das meninas que vocês conhecerão aqui nessas próximas semanas necessitam desse tipo de salvacionismo. Ao contrário: todas elas necessitam de proteção e garantia de direitos via políticas públicas que impeçam que a maioria de nós, travestis e mulheres transexuais, tenhamos nossas transhistórias calcadas em processos de violências transodiantes e violações de direitos humanos que nos empurram a uma condição de precariedade, marginalidade, vulnerabilidade e risco biopsicossocial.

Não quero com isso apagar as vivências e experiências de Aline nesses 20 anos, mas construir uma narrativa outra capaz de humanizá-la, e não reforçar estigmas e estereótipos que recaem sobre histórias semelhantes a dela. Em vários momentos, Aline diz: “Hoje sou eu, amanhã é você”, denunciando a função social que representa a prisão de um ciclo sem fim e (re)conhecendo que, como ela, qualquer um de nós está sujeito a ocupar a vaga que um dia foi dela. Essa perspectiva de olhar sobre a população carcerária nos tira – ou ao menos deveria – aquela ideia de superioridade e juízos de valor que nos levam a pensar que somos melhores que aquelus que um dia estiveram ou estão na prisão.

Aline fuma em sua casa, em São Paulo.
Aline fuma em sua casa, em São Paulo. Dan Agostini/Fotografia

A partir dessa introdução, é uma honra apresentar, finalmente, Aline Oliveira, 38 anos, travesti, branca, paulistana criada entre o Capão Redondo e Cidade Tiradentes, profissional do sexo, ex-jogadora de voleibol, que participou do projeto TRANSgressoras e, atualmente, é integrante da CiA dXs TeRrOrIsTaS e beneficiária do programa Transcidadania.

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Cada um no seu quadrado

Pisciana nascida em 15 de março, Aline cresceu no Rio Grande do Norte com seus avós maternos e até hoje se lembra e comenta dos tempos do Colégio Padre Covas. Sua infância ali foi muito tranquila, pacata e mimada, típica da criação de netas. Diferente do que passou a ocorrer com seu retorno a São Paulo, já com 8 anos, indo viver com seus responsáveis e irmãos. Aline abandonou a escola aos 14 anos, logo depois de concluir a antiga 7ª série do ensino fundamental II e, hoje, busca terminar seus estudos por meio do Transcidadania, visando melhores oportunidades de trabalho e de uma vida digna. No momento, sua única fonte de renda é a bolsa do programa. Para complementar os ganhos mensais e pagar seu aluguel de R$ 800, comer, vestir-se, transportar-se e se divertir, ela se prostitui. Já cansada da rua, Aline reforça que, como muitas outras, abandonaria a prostituição se tivesse qualquer outra oportunidade.

“Eu percebia uma certa diferença de tratamento, mas também uma certa diferença em relação a outres estudantes”, explica, falando sobre seu período na escola como uma adolescente “dissidente”. A honestidade de Aline não lhe permite questionar o papel da escola em sua formação humana, cidadã etc. Ela sempre toma para si a responsabilidade por seus atos, independente do contexto, situação, condição… Essa é a forma dela de lidar com as coisas que aconteceram e seguir em frente, sem culpar nada nem ninguém.


“Eu percebia uma certa diferença de tratamento, mas também uma certa diferença em relação a outres estudantes”, explica Aline seu período na escola como uma adolescente “dissidente”

Aquário sem peixes decora a cozinha de Aline. Ela encontrou o aquário na casa de Murilo e ganhou o objeto de presente. Agora, está em processo de decisão sobre ter peixes Beta como companhia.
Aquário sem peixes decora a cozinha de Aline. Ela encontrou o aquário na casa de Murilo e ganhou o objeto de presente. Agora, está em processo de decisão sobre ter peixes Beta como companhia. Dan Agostini/Fotografia

O que, por um lado, pode parecer muito nobre de sua parte é também muito violento diante da dura realidade das populações trans e travestis brasileiras. Sintoma do que acontece quando o Estado, a família e a sociedade lavam as mãos e as responsabilidades coletivas tornam-se exclusivamente individuais. Aline se arrepende de ter “abandonado” a escola para ir aos bailes, bares e baladas, principalmente, mas em suas falas sobre a vida nua e crua na periferia da cidade de São Paulo na década de 1990 existe um paralelo com o fenômeno que as escolas públicas atravessam há gerações, especialmente aquelas em áreas mais carentes, de um projeto de desmonte da educação pública, gratuita e de qualidade onde tudo parece mais interessante a juventude.

“Cada um no seu quadrado, cada um cuidava do seu nariz. Era cada um por si”, ela descreve sobre a convivência com sua família na época. As lembranças dessa fase de rebeldia, como ela coloca, são do pai, um homem abusivo e alcoólatra; da mãe, costureira e trabalhadora; e da separação dos dois. A memória também não a deixa esquecer dos tempos em que foi jogadora de voleibol amadora, dos treinos no Centro Olímpico da capital paulista, das copas Dan’up e Gatorade, ganhando cheques, visitando asilos, saltando de asa delta, entre outros prêmios e atividades por seu desempenho em quadras nas competições. E de quando ainda frequentava a escola, dos jogos interescolares no Clube Municipal Joerg Bruder, em Santo Amaro (Zona Sul) e das partidas improvisadas nas ruas do Capão Redondo.

Pequena planta cultivada por Aline, presente do amigo e vizinho Victor.
Pequena planta cultivada por Aline, presente do amigo e vizinho Victor. Dan Agostini/Fotografia

Mas as memórias desse tempo, infelizmente, não são construídas só de alegrias. Aline lembra também de sua reprovação na equipe de vôlei do Banespa – um sonho para qualquer atleta da modalidade naquele tempo – por motivo de baixa estatura. É nesse período de altos e baixos que Aline foge da vida cotidiana que caracteriza uma cidadã comum, como ela costuma dizer. São nesses anos de adolescência e início de vida adulta que ela começa a desviar-se de um caminho “direito e correto”, como convencionamos chamar uma vida baseada em estudos, trabalho, relacionamento, família etc. E é também nesse momento, em meio ao abandono da escola, à “liberdade” familiar, as discotecas, as quadras e o asfalto, explorando sua sexualidade, e sendo explorada por ela, que Aline é vítima de tráfico humano internacional para fins de exploração sexual.

Aline foi enganada como tantas outras mulheres cisgênero, travestis e mulheres transexuais, majoritariamente negras e latinas, que acreditam estar recomeçando suas vidas em outro país. Embora houvesse aceitado a proposta de ir trabalhar em Portugal como profissional do sexo, ela não tinha conhecimento nem noção das condições para exercer esse trabalho, das violências e violações que lhe aguardavam. Passado pouco mais de 3 meses em uma situação de extrema vulnerabilidade e risco biopsicossocial, depois de se recusar a trabalhar, de seguidos episódios de abusos, Aline, por fim, conseguiu retornar ao Brasil. É quando ela, após um certo tempo já por aqui, “tira sua neurose”, explica Aline. Não demora muito, ela é detida preventivamente por quase 3 anos, sendo condenada a 17 anos ao se declarar culpada dos crimes atribuídos e assumir a responsabilidade por seus atos, desde sempre, e relatando em juízo o motivo que a levou a cometê-los.

Aline brinca com Joana na área externa de sua nova casa. A relação entre Joana e Aline começou quando ela ainda vivia na Casa Florescer II, com um pedido amigável e também um convite proposital para que Aline mergulhasse em um processo de autonomia. Murilo (idealizador do projeto Transgressoras, vizinho e amigo de Aline e tutor da Joana) pediu que Aline cuidasse dos animais de estimação que ele tem junto de Victor, seu marido, durante uma viagem até o litoral de São Paulo. Aline passou uma semana cuidando da casa e alimentando a Joana e seus irmãos felinos. Depois dessa experiência, ela decidiu sair da Casa Florescer II.
Aline brinca com Joana na área externa de sua nova casa. A relação entre Joana e Aline começou quando ela ainda vivia na Casa Florescer II, com um pedido amigável e também um convite proposital para que Aline mergulhasse em um processo de autonomia. Murilo (idealizador do projeto Transgressoras, vizinho e amigo de Aline e tutor da Joana) pediu que Aline cuidasse dos animais de estimação que ele tem junto de Victor, seu marido, durante uma viagem até o litoral de São Paulo. Aline passou uma semana cuidando da casa e alimentando a Joana e seus irmãos felinos. Depois dessa experiência, ela decidiu sair da Casa Florescer II. Dan Agostini/Fotografia

Já no cárcere, revoltada, em constante negociação de sua vida, e querendo ter o mínimo de condições para sobreviver ao inferno diário que era a prisão, Aline é condenada a mais 8 anos por portar 380 gramas de drogas, divididas em 9 porções para fins de tráfico dentro de seu corpo em revista interna, aumentando sua pena para 25 anos. Novamente, Aline assume as responsabilidades por seus atos, não entregando ninguém.

Aline e o direito à solitude

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Parte do cis-tema

Nessas duas décadas, a família de Aline esteve presente e próxima dela, ano após ano, seja a visitando, lhe enviando o “jumbo” – remessa entregue pelos Correios contendo alimentos, produtos de higiene pessoal etc., quando esteve distante de São Paulo – e também lhe depositando uma quantia em seu pecúlio, uma espécie de poupança.

A “transição” de Aline se deu em seus primeiros anos no cárcere, ao ver pela primeira vez, na penitenciária I de Hortolândia, uma travesti e se reconhecer em sua corporalidade. Ela nos conta que foi durante uma de suas “saidinhas” temporárias, com o dinheiro do trabalho na prisão, que injetou silicone industrial no peito, posteriormente, no quadril e bumbum com uma bombadeira. Ao retornar à penitenciária, e os agentes não a reconhecerem, ainda com os pontos, ela balançou os peitos dizendo seu nome para liberarem sua entrada. “Parece que o peito me encorajou, fiquei doidona de peito”, me diz rindo.

Aline lava a louça na cozinha de sua casa, na Zona norte de São Paulo. Ela gosta de manter a casa limpa e organizada, diariamente reserva um tempo do seu dia para os afazeres domésticos.
Aline lava a louça na cozinha de sua casa, na Zona norte de São Paulo. Ela gosta de manter a casa limpa e organizada, diariamente reserva um tempo do seu dia para os afazeres domésticos. Dan Agostini/Fotografia

Sua família permaneceu a seu lado em todo esse tempo, inclusive, a acolhendo em seu livramento condicional. A família ainda a chama pelo nome civil, o que pode parecer violento para mim, mas Aline garante que não. “Apesar de não ser chamada pelo meu nome, todes me respeitam, aceitam, agradam, mimam com elogios, presentes, companhia, apoio, suporte e auxílio. E isso é mais o que importa no final das contas. O que adianta me chamar de Aline e me virar as costas?”, questiona.

“Apesar de não ser chamada pelo meu nome, todes me respeitam, aceitam, agradam, mimam com elogios, presentes, companhia, apoio, suporte e auxílio. E isso é mais o que importa no final das contas. O que adianta me chamar de Aline e me virar as costas?”

Aline Oliveira

Aline exerceu diversas profissões como auxiliar de atendimento no serviço de correio da prisão, auxiliar de serviços gerais (limpeza), carpinteira, copeira, operária na fabricação de bolas, cadeiras, calçados, prendedor etc., em várias empresas dentro do cárcere (regime fechado) e fora dele (semiaberto), no sistema de rateio das prisões, o que a ajudou a seguir tirando sua neurose, a matar o tempo que insiste em passar devagar a quem está ali. Rateio é o ato ou efeito de ratear, rateamento; ato de dividir proporcionalmente, o que não acontece nas cadeias, nelas o “trabalho”, não obrigatório, é uma das formas de exploração da mão de obra do apenado, se pensarmos que a grande maioria dos detentos não recebem nem mesmo um salário mínimo, sem quaisquer direitos trabalhistas, às vezes, em determinadas penitenciárias, recebendo alguns centavos de reais por um mês inteiro de trabalho. Aline nos conta que o maior rateio que recebeu foi de R$680,00, na penitenciária I de Balbinos, quando trabalhou na Bracol, uma fabricante de botas.

Ótima anfitriã, Aline mantém o hábito de oferecer alimentos e bebidas para suas visitas – Coca cola, queijo e chocolate costumam aparecer no cardápio
Ótima anfitriã, Aline mantém o hábito de oferecer alimentos e bebidas para suas visitas – Coca cola, queijo e chocolate costumam aparecer no cardápio Dan Agostini/Fotografia

Aline também teve muitos maridos, por tempos indeterminados – alguns mais esporádicos, outros mais duradouros, sem nunca se apegar; às vezes, o romance era rompido com uma nova transferência de unidade prisional dela ou dele, por exemplo. Das violências sofridas nesse período, ela não localiza em sua identidade de gênero a razão por tais episódios, mas na própria condição de apenada, embora tenha vivido mais anos junto à “população”, em convívio geral, dividindo cela com dezenas de homens cisgênero, do que em alas ou celas específicas destinadas a população de homens gays, travestis, mulheres transexuais, maridos e envolvidos.

Muitas travestis e mulheres transexuais privadas de liberdade expressam que preferem, as últimas podendo solicitar transferência para unidades prisionais femininas, permanecer em penitenciárias masculinas por questões de segurança, pois ali seu corpo funciona como uma moeda de troca, o que não deixa de ser extremamente violento, contudo, não é visto como uma potencial ameaça as mulheres cisgêneros em prisões femininas, o que é também transodiante, ou seja, a cadeia em sua estrutura e divisão binária não é segura a elas em nenhum dos segmentos baseado no sexo atribuído no nascimento (genitalidade), ou melhor, a cadeia não é um espaço seguro para ninguém, porém, possui alguns agravantes para corpos específicos.

“Tem dias que eu me aceito, tem dias que eu não me aceito, mas eu não tenho coragem de falar que sou mulher. Eu não sou mulher, sou travesti, transexual que diga. Mas também não tenho vontade de ser mulher, não me tornei travesti para ser mulher”

Aline Oliveira
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Dan Agostini/Fotografia

Ressalto que a identidade travesti, enquanto uma identidade histórica e de (re)existência latino-americana, em sua luta reivindica para si uma identidade feminina, tratamento no feminino, e um lugar na agenda transfeminista brasileira com suas agências em comum à pauta de mulheres cisgênero e transexuais, e suas especificidades as vivências e experiências como uma travesti em uma país transodiante como o Brasil. É necessário recordar a todes que as unidades prisionais são classificadas em masculinas e femininas, e não de homens e mulheres cisgêneros, de acordo com a genitália que possuem, pênis e vagina, respectivamente. Nesse caso, travestis também deveriam cumprir suas penas em unidades prisionais femininas, se desejarem.

Em um dado momento, Aline me diz: “Tem dias que eu me aceito, tem dias que eu não me aceito, mas eu não tenho coragem de falar que sou mulher. Eu não sou mulher, sou travesti, transexual que diga. Mas também não tenho vontade de ser mulher, não me tornei travesti para ser mulher”. Emocionada, quiçá, eu não tenha dito que sua coragem está em habitar as travestilidades, em reivindicar para si a identidade travesti no país que mata travestis e mulheres transexuais, uma identidade feminina permeada por um imaginário social coletivo que nos quer e deseja a morte, simbólica e/ou materialmente.

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Aline e o direito à solitude

Um novo capítulo

Nos 20 anos em que esteve privada de liberdade, Aline passou por 53 unidades prisionais do Estado de São Paulo, 14 anos no regime fechado e 6 no semiaberto (colônia). Atualmente, ela está, desde julho de 2020, em liberdade condicional vivendo em regime aberto, dos quais 1 mês residiu com sua mãe, 6 meses conviveu na Casa Florescer II, 1 mês dividiu casa com uma amiga em Jundiaí e, há 4 meses conquistou seu direito à solitude ao alugar uma casa no bairro paulistano do Tucuruvi, com o apoio e suporte das TRANSgressoras, em especial na figura de Murilo Gaulês e Victor Siqueira, co-fundadores do projeto e vizinhos dela, que viabilizaram a casa auxiliando nos trâmites burocráticos com a imobiliária.

Aline, Paula e Carla brindam o encerramento do Projeto Transgressoras.
Aline, Paula e Carla brindam o encerramento do Projeto Transgressoras. Dan Agostini/Fotografia

Durante a convivência na Florescer II, entre tantas outras atividades, Aline se aproximou e passou a fazer parte do TRANSgressoras, tornando-se amiga e frequentadora da casa de Murilo e Victor, auxiliando-os nos cuidados da cachorra e dos gatos. Nesse processo terapêutico, inicia um caminho de autonomia que diz respeito, sobretudo, à possibilidade e à capacidade de viver sozinha, em possuir um cantinho para chamar de seu, poder falar consigo mesma, não ter hora para acordar nem para dormir, sair, chegar, comer e tomar banho, como era na prisão e também na Florescer, em certa medida.

“TRANSgressoras é uma tentativa de hackear as artes em todas as suas linguagens, através de editais públicos e privados, produzindo práticas de insurgência sobre o cárcere e travestilidades a partir da distribuição e geração de renda para pessoas trans e travestis egressas do cis-tema prisional, a quem o projeto foi e é destinado, prioritariamente”, conta Murilo, que se denomina terrorista, artista e educador. “É nesse encontro e cruzamento de abusos, violências e violações que o projeto busca criar tecnologias múltiplas de enfrentamento e resistência a esse cis-tema.”

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Dan Agostini/Fotografia

“TRANSgressoras é uma tentativa de hackear as artes em todas as suas linguagens, através de editais públicos e privados, produzindo práticas de insurgência sobre o cárcere e travestilidades a partir da distribuição e geração de renda para pessoas trans e travestis egressas do cis-tema prisional, a quem o projeto foi e é destinado, prioritariamente”

Murilo Gaulês

O TRANSgressoras é um projeto de 2019 da CiA dXs TeRrOrIsTaS, fundada em 2015. que surge de um projeto anterior do grupo, chamado “Ditadura Gay”, contemplado por editais do Programa de Valorização de Iniciativas Cultuais (VAI), Programa de Ação Cultural (ProAC) e Programa Autonomia, Liderança e Direitos (LBT) do fundo ELAS, executado entre 2017 e 2019, no Centro de Acolhida Zaki Narchi I e Centro de Cidadania LGBTI Luana Barbosa dos Reis (Zona Norte), com pessoas em situação de rua. 

Aline e Érica enquanto viviam na Casa Florescer II, minutos antes de saírem para trabalhar como profissionais do sexo.
Aline e Érica enquanto viviam na Casa Florescer II, minutos antes de saírem para trabalhar como profissionais do sexo. Dan Agostini/Fotografia

Do trabalho em desenvolvimento na Zaki Narchi, o grupo se aproxima do Coletivo Valéria, formado por travestis e mulheres transexuais após a morte de uma companheira dentro do espaço. O Coletivo lutava para que ali dentro existisse uma ala específica para elas, mas também existia um movimento por moradia em suas demandas. É nesse interim que nasce o TRANSgressoras, em uma perspectiva disjuntiva com o cis-tema prisional e em defesa dos direitos humanos de presos e presas. Ainda nesse contexto, o primeiro edital do projeto submetido à 4ª edição do Programa de Fomento à Cultura da Periferia (FCP), da Secretaria Municipal de Cultura da cidade de São Paulo, e pensado para o Zaki Narchi, fechado antes de sua aprovação, é replanejado com a abertura da Casa Florescer II no Tucuruvi, território foco da CiA, na Zona Norte, ou zona da morte, como se referem à região. A CiA talvez seja o coletivo LGBTI+ mais antigo da ZN, um território militarizado e conservador, e por isso a importância de atuar em espaços e com as populações LGBTI+ dessas localidades.

Em fase de pré-produção, entre dezembro de 2019 e fevereiro de 2020, o projeto contemplado no FCP realiza suas atividades na Florescer II por 2 semanas, sendo suspenso com a pandemia até agosto, quando é todo reformulado, e como resultado temos: a pré-produção da série documental Respostas para Lynch, concorrendo em um edital da Spcine para sua fase de pós-produção; o livro Como recuperar o fôlego gritando, organizado por Murilo e Patrícia Cândido; e o podcast Rádio TRANSgressoras, com um episódio #7 – Aline.

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Há um mês, em 26 de junho, a CiA iniciou o 2º Festival POWlítico de Corpas Rebeldes – Fogo na Prisão, contemplado pelo 1º Edital Aldir Blanc, e submeteu um novo projeto a 6ª edição Programa de Fomento à Cultura da Periferia, voltado para a população LGBTI+ egressa do cis-tema prisional, baseado no livro Anjos de cara suja: três histórias sobre crime, prisão e redenção, sem tradução para o português, de Walidah Imarisha, uma das convidadas do 2º Festival, livro homônimo ao filme de 1938 dirigido por Michael Curtiz.

À esq., Aline mostra imagens do seu celular para Savanna durante churrasco na casa de Murilo e Victor, na zona norte de São Paulo. Elas se conheceram na Casa Florescer II; ambas saíram da casa e eventualmente se encontram. À dir, Aline posa com Murilo.
À esq., Aline mostra imagens do seu celular para Savanna durante churrasco na casa de Murilo e Victor, na zona norte de São Paulo. Elas se conheceram na Casa Florescer II; ambas saíram da casa e eventualmente se encontram. À dir, Aline posa com Murilo. Dan Agostini/Fotografia

Com os editais do 4º Fomento e 1º Aldir, o TRANSgressoras alcançou remunerar 24 travestis e mulheres transexuais, em sua maioria egressas do cis-tema prisional com bolsas de até R$900,00, a partir de sua participação nas atividades formativas e produções do projeto durante todo seu desenvolvimento.

Murilo afirma que o projeto tem como um de seus objetivos maiores a promoção da autonomia das meninas, sendo que 60% delas conquistam esse feito e 10% permanecem ou são encaminhadas às Casas Florescer I e II, (re)inseridas no cis-tema de algum modo ao dependerem do Estado. Um dos outros objetivos da CiA e do TRANSgressoras é a luta pelo abolicionismo penal, força motriz do trabalho do grupo. Já encerrando nosso bate-papo, ele diz: “Tem que ser bom para deixar de existir, virar uma biblioteca”, referindo-se às prisões, centros de acolhidas e outros espaços públicos. Seu objetivo é que eles fechem as portas, encerrem suas atividades e acabem. “É quando nos tornaremos uma Nação, uma sociedade mais humana, civilizada e cidadã”.

Aline e Paula aguardam a comprovação de matrícula na Escola Paulo Emilio Vanzolini, solicitada por Aline, que deseja voltar a estudar e participar do Projeto Transcidadania. Durante a prova para identificar seu nível de conhecimento, Aline recebeu a notícia que avançou duas séries na escola – aos 14 anos, ela parou de estuda na 7ª série do ensino fundamental.
Aline e Paula aguardam a comprovação de matrícula na Escola Paulo Emilio Vanzolini, solicitada por Aline, que deseja voltar a estudar e participar do Projeto Transcidadania. Durante a prova para identificar seu nível de conhecimento, Aline recebeu a notícia que avançou duas séries na escola – aos 14 anos, ela parou de estuda na 7ª série do ensino fundamental. Dan Agostini/Fotografia

A dureza da vida, assim como das paredes do cárcere com seus dias acinzentados, pouco a pouco abre espaço e dá lugar para uma leveza contagiante e eufórica, da mesma forma quando Aline, disposta a concluir o ensino básico ao chegar na escola, o Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (CIEJA) Paulo Emílio Vanzolini, no Cambuci, para realizar a matrícula depois de aceita no Transcidadania, sendo surpreendida positivamente por ter sido aprovada na avaliação de reclassificação escolar saltando duas séries do sétimo para o nono ano do Ensino Fundamental II. Para alguém como eu, como nós, pode parecer pequeno, mas para a Aline foi algo muito simbólico, que a emocionou e a deixou animada e feliz por sua coragem e capacidade em enfrentar uma prova escrita após duas décadas longe dos bancos da escola, em um momento em que ela já não espera grandes coisas vida, essas pequenas surpresas da vida ganha um tom vibrante, de vibração.

Há duas semanas, Aline foi novamente pega de sobressalto pela vida. Ela escutou uma amiga comentar sobre o Angels Volley Brazil conseguindo por meio do Transcidadania realizar a seleção para o projeto. Em entrevista com Willy Montmann, fundador e presidente do Angels Volley, ele falou sobre as habilidades e o domínio dos fundamentos da Aline na modalidade, o que o surpreendeu, ao que ele completa: “Com certeza ela ainda vai evoluir muito estando com a gente e treinando semanalmente. Quero ver a Aline crescendo dentro e fora das quadras. Ela agora faz parte da família Angels Volley”. Em tempos de Olimpíadas e transódio no esporte, ver Aline sendo bem recebida e acolhida em um espaço de prática esportiva é um alento, uma vitória de todas nós.

Aline aquece antes do início do treino de vôlei na quadra Cisplatina Futebol Clube, no bairro do Ipiranga, em São Paulo. Aline começou a jogar vôlei muito nova, conta que passou parte de sua infância jogando nas ruas do bairro onde cresceu, Jardim Atlântico, também em São Paulo.
Aline aquece antes do início do treino de vôlei na quadra Cisplatina Futebol Clube, no bairro do Ipiranga, em São Paulo. Aline começou a jogar vôlei muito nova, conta que passou parte de sua infância jogando nas ruas do bairro onde cresceu, Jardim Atlântico, também em São Paulo. Dan Agostini/Fotografia

O Angels Volley Brazil nasceu em 2008, e em seus 13 anos de história trabalha em prol e pela inclusão e visibilidade LGBTQI+ no mundo do esporte, mas com reflexos sociais, existindo também um trabalho fora de quadra com as pessoas integrantes das equipes. O projeto é um Movimento Político de Resistência dentro do Universo Esportivo. Hoje, o projeto conta com a equipe feminina inclusiva com 21 travestis e mulheres transexuais, a equipe masculina adulto com 21 homens gays e a equipe master masculina adulto com 21 pessoas acima de 40 anos. O projeto é aberto para mulheres cisgênero e  heterosexuais, sendo todas elas muito bem-vindas, em todas as equipes havendo pessoas cis hétero aliades.

“Com certeza ela ainda vai evoluir muito estando com a gente e treinando semanalmente. Quero ver a Aline crescendo dentro e fora das quadras. Ela agora faz parte da família Angels Volley”

Willy Montmann
Aline corta bola contra o time adversário. Ela fez um teste para entrar no time Angels Volley Brazil e foi encaixada na turma de mulheres com prática em vôlei avançada.
Aline corta bola contra o time adversário. Ela fez um teste para entrar no time Angels Volley Brazil e foi encaixada na turma de mulheres com prática em vôlei avançada. Dan Agostini/Fotografia

Hoje em dia, Aline nostalgicamente cultiva, talvez de maneira inconsciente, os modos de vida de seus avós maternos: a calmaria em viver um dia após o outro, a simplicidade, o autocuidado, a delicadeza no trato com suas conquistas materiais e imateriais, o brilho nos olhos pelas pequenas coisas, a afetividade íntima e intimista.. De poucas palavras, todas elas diretas e objetivas, Aline nos comunica e informa: “Apesar da dureza de ontem, hoje, amanhã e depois de amanhã, eu buscarei a ternura que insistem em me arrancar.”

Parte das jogadoras do time Angels Volley Brazil posa para retrato. “O intuito do projeto é conscientizar que esporte é um direito básico e constitucional, ou seja, para todes. Além disso, queremos mostrar que, com inclusão e diversidade, o mundo só cresce e melhora, que o esporte é um fenômeno socioeducativo capaz de transformar e salvar vidas. A nossa luta é dentro e fora das quadras!”, comenta Willy sobre o propósito do projeto.
Parte das jogadoras do time Angels Volley Brazil posa para retrato. “O intuito do projeto é conscientizar que esporte é um direito básico e constitucional, ou seja, para todes. Além disso, queremos mostrar que, com inclusão e diversidade, o mundo só cresce e melhora, que o esporte é um fenômeno socioeducativo capaz de transformar e salvar vidas. A nossa luta é dentro e fora das quadras!”, comenta Willy sobre o propósito do projeto. Dan Agostini/Fotografia

Em uma sociedade transodiante que nos imagina como criminosas por natureza, retomando Lohana Berkins, reivindico nosso direito à individualidade, pois quando um homem branco, cisgênero e heterossexual erra, se equivoca ou comete um delito qualquer, não imaginamos que todos os homens brancos, cisgêneros e heterossexuais fizeram o mesmo. Diferente, quando uma pessoa trans e travesti, uma pessoa preta ou uma mulher erram, se equivocam ou cometem delitos, em maior ou menor grau, toda uma coletividade é estigmatizada. Igualmente, em um sociedade punitivista e justiceira como a brasileira, gostaria de evidenciar que Aline foi julgada, condenada e segue “pagando” por seus crimes, e, novamente, ela não precisa que a julguemos ou condenemos uma segunda, ou terceira vez, a sociedade cotidianamente já o faz, quando lhe fecha portas que a impede de seguir em frente.

“O intuito do projeto é conscientizar que esporte é um direito básico e constitucional, ou seja, para todes. Além disso, queremos mostrar que, com inclusão e diversidade, o mundo só cresce e melhora, que o esporte é um fenômeno socioeducativo capaz de transformar e salvar vidas. A nossa luta é dentro e fora das quadras!”

Willy Montmann
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Serviço

Casa Florescer I
Rua Prates, 1101 – Bom Retiro (Centro), São Paulo – SP
Telefone: (11) 3228-0502
E-mail: cadiversidade@gmail.com
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Casa Florescer II
Rua Capricho, 872 – Vila Nivi (Zona Norte), São Paulo – SP
Telefone: (11) 2337-8459
E-mail: florescercroph@gmail.com
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Centro de Cidadania LGBTI Luana Barbosa dos Reis (Zona Norte)
Praça Centenário, 43 – Casa Verde (Zona Norte), São Paulo – SP
Funcionamento: De segunda a sexta-feira, das 9h às 18h
Telefone: (11) 3951-1090
E-mail: centrolgbtnorte@prefeitura.sp.gov.br
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TRANSgressoras

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