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Afinal, o que é ser assexual?

É hora de entender que os assexuais – espectro que permeia quase 2% da população brasileira – se relacionam e podem, sim, transar

por Uno Vulpo - Sento Mesmo Atualizado em 17 jan 2022, 18h06 - Publicado em 17 jan 2022 09h02
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Arte/Redação

Bárbara*, uma bibliotecária de 23 anos, me conta que descobriu o termo “assexual” no Google. Por volta dos seus 13/14 anos, em meio a dúvidas sobre o que sentia, pesquisou sobre “puberdade tardia”. No meio da busca, encontrou o termo assexual, que, na época, se encaixou perfeitamente na sua condição e serviu de alívio pensar que existem outras pessoas que se sentiam igual a ela. “Saber que eu não era doente, e que não estava sozinha, foi extremamente importante e libertador. A partir daquele momento, consegui embasamento para justificar as minhas vontades perante o mundo, coisa essa que não acontecia antes, pois simplesmente nem entendia o que se passava comigo”, conta.

Procurei bastante a respeito da quantidade de pessoas assexuais que existem no mundo, ou pelo menos no Brasil, e os dados todos variam entre 1 a 2% da população mundial. Entretanto, a assexualidade em si é tão pouco discutida e circundada de tantos tabus que acredito que tal porcentagem seja bem maior, considerando que boa parte da população que é de fato assexual não sabe que é por nunca terem nem ouvido falar a respeito da assexualidade.

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Talvez, a primeira vez que ouvimos falar o radical assex- é na escola, quando estudamos os organismos sexuados e assexuados. Nesse caso, são os organismos que, respectivamente, usam e não usam o sexo para se reproduzirem. No nosso caso, precisamos transar para gerarmos outros seres humanos, então nos encaixamos nos organismos sexuados. É comum que, quando as pessoas escutem a palavra assexualidade, a confundam com o tema visitado na biologia – e aí vira uma salada de termos. Antes de tudo, a assexualidade é uma orientação sexual. Não é um comportamento sexual, nem é uma fase da vida, nem é uma definição da biologia e ela está no mesmo lugar que homossexualidade, heterossexualidade e outras orientações.

“Saber que eu não era doente, e que não estava sozinha, foi extremamente importante e libertador. A partir daquele momento, consegui embasamento para justificar as minhas vontades perante o mundo”

Bárbara, bibliotecária

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As pesquisas apontam que o número de assexuais varia entre 1 a 2% da população mundial. Entretanto, a assexualidade é tão pouco discutida que tal porcentagem pode ser bem maior, considerando que boa parte da populaçãoque é de fato assexual não sabe que é por nunca ter nem ouvido falar a respeito da assexualidade

É comum acharmos na internet pessoas definindo a assexualidade como falta de atração sexual, ou diminuição dela. Eu particularmente tendo a achar que tais definições partem de um pressuposto que existe um nível normal de atração, ou que o normal é ser uma pessoa alossexual – o contrário de assexual. Logo, prefiro utilizar a definição da AVEN, a Rede de Educação e Visibilidade Assexual, que define alguém assexual como alguém que não sente ou experimenta atração sexual. Ela não vivencia a atração sexual de forma tão intensa e quase que necessária como as pessoas chamadas alossexuais, que sou eu, por exemplo, que sinto tesão por pessoas em específico.

Antes de nos aprofundarmos na assexualidade, existem alguns conceitos que acho importante você saber. Atração sexual é diferente de desejo sexual/libido e tudo isso é diferente de atração romântica. A primeira envolve apenas o ato sexual mesmo, é realmente sentir tesão em alguém, ficar ali molhadinha ou durinho quando passa aquele(a) gostoso(a) na rua ou na nossa timeline – vontade de transar com tal pessoa X. Já desejo sexual é a vontade de estimulação sexual, é aquele tesão que sentimos, mas que não é direcionado a ninguém, é só aquela molhadinha que uma masturbação mesmo resolve – vontade de gozar ou sentir prazer. E, por fim, a atração romântica é ficar todo caidinho ou caidinha de amores por uma pessoa, ou pessoas (as gatas não-monogâmicas brigam comigo se eu não falar delas).

“Eu sinto atração estética o tempo todo, mas ela não me impulsiona a nada. Posso encontrar um deus grego e isso não vai me fazer querer nem sequer dar um beijinho. Posso dançar a noite inteira com você, me despedir com um toquinho de mão e sair plenamente satisfeita”, explica Bárbara.

Atração sexual envolve apenas o ato sexual mesmo, vontade de transar com tal pessoa X Desejo sexual/libido é a vontade de estimulação sexual – vontade de gozar ou sentir prazer Atração romântica é ficar todo caidinho ou caidinhade amores por alguém, ou alguénsAtração estética é achar alguém bonite, como apreciara beleza de uma obra de arte

Advogado paulistano de 34 anos, Walter Neto relata que é uma pessoa assexual e que tem atração romântica por pessoas independente do seu gênero. Assim, se quisermos usar termos específicos para descrever essas relações, podemos dizer que ele é assexual e birromântico/panrromântico (tem um glossário que eu gosto muito e que tem várias dessas terminologias, veja aqui). “As pessoas não entendem quando você diz que gosta muito delas mas que não quer transar. Especialmente quando você está dentro de um relacionamento romântico com essa pessoa. Então, é muito normal que o outro tome isso pra si, achando que não é atraente ou desejado”, ele conta.

“Não sabia explicar como eu conseguia gostar de uma pessoa, pensar em tê-la na minha vida, de uma forma romântica, e ao mesmo tempo não ter interesse em transar”

Walter Neto, advogado

É importante contar toda essa história para você, leitor(a), entender que uma pessoa assexual pode ter relacionamentos amorosos, se casar, transar, se masturbar (tenho aqui um estudo ótimo sobre isso, inclusive) e fazer milhões de outras coisas que o preconceito e a discriminação escondem. Por exemplo, cerca de 33% das pessoas assexuais, de um estudo feito em 2004, estavam em um relacionamento de longa duração. “Não sabia explicar como eu conseguia gostar de uma pessoa, pensar em tê-la na minha vida, de uma forma romântica, e ao mesmo tempo não ter interesse em transar. Até porque é muito comum que pessoas assexuais escutem que, se você não quer transar com a pessoa, aquilo é uma amizade. Na verdade, não necessariamente. Quando isso acontece, respondo: ‘Você não sabe quando quer ter uma amizade com alguém e quando quer algo romântico? Não quero ter uma amizade com você, quero outra coisa.’ Mas essa associação da necessidade da prática sexual existir para que esse sentimento seja validado é uma grande questão”, Walter conclui.

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Sexo-normatividade e preconceito

O mundo é muito sexo-normativo. Historicamente e culturalmente temos a relação sexual não apenas como uma atividade prazerosa mas como uma marca de maturidade, como uma forma de conexão, hierarquia relacional (você sai da amizade e passa a ser namorado ou ficante a partir do momento que você transa). Midiaticamente, e até biblicamente, temos o sexo sendo disseminado como algo sagrado e que te faz vivo. Dessa forma, os padres e demais celibatários são vistos como os maiores mártires pela espiritualidade – já que sacrificam o sexo em prol de algo espiritual – e quem é assexual é visto como uma pessoa fria, psicopata ou traumatizada.

Quanto a isso, é importante diferenciar assexuais de celibatários ou pessoas que optam por não transar antes do casamento, por exemplo. Essas pessoas estão ativamente optando por não ter relações sexuais objetivando algum outro fim.

“Eu sinto atração estética o tempo todo, mas ela não me impulsiona a nada, posso encontrar um deus grego e isso não vai me fazer querer nem sequer dar um beijinho, posso dançar a noite inteira com você, me despedir com um toquinho de mão e sair plenamente satisfeita”

Bárbara, bibliotecária

Os pesquisadores Cara C. MacInnis and Gordon Hodson publicaram um estudo sobre como os assexuais são vistos socialmente. Eles descobriram que muitas pessoas heterosexuais as veem em um lugar de desumanidade – partindo da premissa que sexo é o que te faz vivo – e diferente de outros grupos sexuais (gays e lésbicas por exemplo).

Do ponto de vista jurídico e cultural, existem privilégios e representações que pessoas não-assexuais desfrutam, que são negados para pessoas assexuais ou arromânticas. No primeiro caso, as uniões conjugais, por exemplo, só são vistas como legítimas nos casos em que exista sexo entre os parceiros, coisa que pode não acontecer caso um deles seja assexual. Já no aspecto cultural, as representações de pessoas assexuais são, na maioria das vezes, atreladas com personalidades fora da curva, “estranhas” ou que beiram doenças psiquiátricas. Sheldon Cooper, de The Big Bang Theory, por exemplo, é um rapaz que aparentemente é assexual nas suas narrativas e sofre, em grande porção do enredo, investidas de amigos e parceiras em prol de uma vida sexual ativa, como se isso que fosse torná-lo uma pessoa “mais normal”.

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arte/Redação

Relacionamentos

Sempre ficava me perguntando como seria ter um relacionamento com alguém assexual. Na minha cabeça, a pessoa tinha uma repulsa por sexo, e eu ficava inseguro até mesmo de saber se podia dormir junto ou não, e coisas do tipo. Jornalista com uma pesquisa sobre identidades sexuais invisíveis, Cláudia Piazza conta que muitas pessoas assexuais têm uma vida sexual ativa e possuem relacionamentos em que o sexo acontece com uma certa frequência, apenas as motivações para ele são diferentes. Enquanto para pessoas não-assexuais a libido é motivada no parceiro ou parceira, para as pessoas assexuais as razões para se transar podem ser a vontade de ter filhos, desejo sexual alto aliviado com uma pessoa confiável, ou outras razões que não sejam “Puts, estou com muito tesão no João e quero dar pra ele”. Ela, que também é assexual, ressalva que existem de fato pessoas que têm repulsa ao sexo, mas isso não as fazem mais ou menos assexuais, significa só que elas têm uma relação diferente com a prática sexual em si e não necessariamente precisam de tratamento psicológico ou psiquiátrico.

Walter, por exemplo, não tem repulsa com práticas sexuais e me diz que das inúmeres formas de expressão de afeto, o sexo é uma delas, e que se sente confortável em praticá-lo caso sinta vontade. Mas afirma que isso não é generalizado e que varia de pessoa para pessoa. Já no caso da Bárbara, ela é arromântica e assexual, logo dentro de suas relações não tem sexo nem romance. Ela conta que seus relacionamentos são baseados na atração emocional e delimitados à amizade. Abraços, carinhos, conchinhas, filmes e rolês juntos sempre estão presentes, mas não vai além disso. Ela fala que teve de desenvolver e aprender muito sobre responsabilidade emocional a fim de evitar que as pessoas confundam amizade com “algo a mais” e, dessa forma, ela sempre procura fazer o outro entender que a reciprocidade romântica/sexual não é uma possibilidade e a amizade é o máximo que ela tem para oferecer – você já deve imaginar a quantidade de vezes que ela deve ter ouvido que “algum cara vai salvá-la” né?

Cláudia diz que está há 4 anos num relacionamento com uma pessoa que entende e sabe desde o primeiro encontro que ela tem uma libido e relação com o sexo fluidas, e isso não é um problema para o casal. O ponto, de acordo com ela, é que o importante é comunicação entre os parceiros, sinceridade, e que juntos é possível achar um caminho para um relacionamento. Se caso não for possível, tudo bem também, a incompatibilidade sexual é algo real e comum e pode acontecer até entre duas pessoas não-assexuais – o clássico caso das duas gays ativas ou duas gays passivas estritas, né?

O sexo não é o centro de um relacionamento e muito menos a única forma que podemos utilizar para expressar amor, carinho e afeto

No fim, depois de todas essas histórias, percebo que eu reduzia, e que muitos de nós reduzimos, toda uma experiência conjugal, de namoro ou de encontros em apenas uma sarrada. Como se sair para ver um filme, conversar, trocar referências, beijar, abraçar, trocar carícias, criar laços, se abrir, trocar vulnerabilidades e outras relações, fossem todas apenas introduções para o sexo, quando na verdade a conexão já aconteceu no início da interação. O sexo não é o centro de um relacionamento e muito menos a única forma que podemos utilizar para expressar amor, carinho e afeto.

Ah, e uma dica legal se você quiser conhecer mais sobre a assexualidade e se aprofundar no assunto, é o Coletivo Abrace e o grupo Assexuais, no Facebook. Nesses ambientes você consegue saber mais, e, se você se identificar como assexual, pode compartilhar vivências e dúvidas tranquilamente .

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