estímulos

Como a maconha pode afetar seu sono

Tem gente que jura que a cannabis é um santo remédio para a insônia – mas será? O que a ciência já sabe sobre como a erva afeta os padrões do nosso sono

por Girls in Green Atualizado em 29 abr 2022, 11h34 - Publicado em 29 abr 2022 02h27
-
João Barreto/Ilustração

Você deve lembrar daquela propaganda de colchões que dizia “você passa um terço da sua vida dormindo”. E isso é verdade – a menos, é claro, que você sofra de insônia.

Uma pesquisa da Associação Brasileira do Sono (ABS) mostra que 73 milhões de brasileiros sofrem com esse problema. E, se você mora em uma cidade grande, a probabilidade de isso acontecer é ainda maior! Dados do Instituto do Sono (Episono) mostram que 45% da população da cidade de São Paulo tem dificuldades na hora de adormecer. Ou seja: se sua realidade é contar carneirinhos toda noite, você não está só!

A verdade é que o sono é fundamental para manter o equilíbrio nessa complicada máquina que chamamos de corpo. E, com tanta gente sofrendo, a maconha se tornou uma promessa atrativa – já que alguns dos principais remédios convencionais para dormir apresentam riscos relacionados à mortalidade, infecções, depressão e câncer. Mas, como em muitos outros casos, precisamos assumir uma postura temperada e entender que a ajuda não é assim tão simples e não vem sem pontos de atenção!

Vem com a gente entender essa relação complexa entre o sono e a maconha.

Continua após a publicidade

O que a maconha pode fazer pelo seu sono?

Existem alguns estudos bem interessantes que surgiram para abordar a questão do sono de quem fuma unzinho. Por exemplo: essa pesquisa, publicada no Journal of Psychoactive Drugs, entrevistou mil clientes de dispensários do Colorado, nos Estados Unidos, e descobriu que:

-
Arte/Redação

Além das experiências empíricas

Como as experiências pessoais podem ser subjetivas, vamos trazer a ciência para esse rolê?

Você já deve saber que existem diferentes cepas (ou seja, variedades) de maconha. Seus efeitos dependem da quantidade e do equilíbrio de centenas de diferentes canabinoides, terpenos e terpenoides – e podem ser mais energizantes ou calmantes e sedativos. Dois elementos estão sempre sob os holofotes quando o assunto é a plantinha:

O canabidiol, ou CBD, é um canabinoide que traz uma série de benefícios terapêuticos e não é intoxicante, ou seja, não dá a chapadeira. Também é conhecido como o elemento calmante da planta! Já o tetrahidrocanabinol, ou THC, é um canabinoide chapante (psicoativo) que traz aquela euforia típica pós-baseado.

Mas, olha só que loucura: segundo este ensaio clínico, é o THC quem ajuda a induzir o sono. Então, você vai querer uma variedade que contenha mais THC do que CBD, ou pelo menos quantidades bem equilibradas.

-
João Barreto/Ilustração
Continua após a publicidade

Como a maconha age no descanso?

Quando falamos do sono, é importante ressaltar que ele vem em etapas. O sono não-REM (NREM) tem três fases: o sono N1, que é o famoso cochilo; o sono N2, que ocorre na transição do sono mais leve para um mais profundo; e o N3, conhecido também como sono de ondas lentas (SWS), que é “o mais restaurador física e mentalmente”. Ainda temos o sono REM, que nos traz os sonhos – gastamos cerca de 20% do nosso sono neste ciclo.

Pesquisas mostram que a maconha pode ser uma ferramenta extremamente eficaz para combater a insônia, ajudando pacientes a conseguir dormir e a se manter adormecidos. A substância diminui a latência do sono e promove a fase N3, responsável pela sensação de descanso. Entretanto, também há estudos que mostram a relação entre o consumo de cannabis com a diminuição do sono REM.

Com a diminuição do sono REM, também temos menos sonhos!

Além disso, existem algumas teorias sobre o sono REM e seu papel no processamento de informações e emoções – por exemplo, essa “falta” dele dificulta a consolidação de emoções e memórias, o que torna a maconha uma arma contra o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). Além da cannabis, alguns antidepressivos possuem efeito similar.
Entretanto, uma pesquisa do Reino Unido estabeleceu a ligação entre o sono REM e a retenção de informações e habilidades, de modo que a diminuição dele pode levar a algumas deficiências cognitivas. Ou seja: precisamos ficar de olho.

-
João Barreto/Ilustração
Continua após a publicidade

Mas dormir mais é dormir melhor?

Não exatamente.

Uma pesquisa bem recente publicada no British Medical Journal mostrou que adultos que usam maconha 20 ou mais dias durante o mês têm 64% mais probabilidade de dormir menos de seis horas por noite e 76% mais probabilidade de dormir mais de nove horas por noite. Já o consumo mais moderado (menos de 20 dias no mês) não criou problemas de sono, deixou os usuários 47% mais propensos a apenas cochilar nove ou mais horas por noite.

Para chegar a essa análise, foram usados dados do National Health and Nutrition Examination Survey de 2005 a 2018. O desfecho primário foi a duração do sono noturno, categorizado como curto (< 6 horas), ótimo (6–9 horas) e longo (> 9 horas). Os pesquisadores apontaram que tanto o sono curto (de menos de seis horas) quanto o longo (de mais de nove horas) estão associados a um risco aumentado de:

– Ataques cardíacos e derrames;
– Aterosclerose;
– Diabetes;
– Doença arterial coronariana;
– Problemas cardiovasculares de forma geral.

Isso tudo porque existe uma quantidade perfeita de sono para cada um. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos consideram sete a oito horas de sono por noite para pessoas adultas o número ideal. Entretanto, de acordo com seus dados, um em cada três americanos não dorme o suficiente – e uma população de 50 milhões a 70 milhões de americanos lutam com distúrbios do sono, como apneia do sono, insônia e síndrome das pernas inquietas.

Continua após a publicidade

Então, a cannabis ajuda ou não?

Depende do caso, da cannabis e da dosagem!

Em certas doses, o THC pode sim ajudar os pacientes a adormecerem com mais facilidade – principalmente quem sofre com Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), insônia, dores crônicas, esclerose múltipla ou outras condições autoimunes que afetam o sistema nervoso. Isso porque ele age aliviando sintomas que dificultam o relaxamento.

Além disso, a cannabis pode estimular a liberação de neurotransmissores que elevam o humor e auxiliam na promoção do bem-estar emocional. Tudo isso acontece devido ao nosso velho conhecido Sistema endocanabinoide, que possui um papel fundamental na regulação de funções como o sono, o apetite, o humor e várias outras. O uso da planta equilibra nossos endocanabinoides – principalmente a anandamida, que tem ação direta nos nossos padrões de descanso.

Mas é necessário lembrar: nem toda maconha é igual, e nem todas as variedades possuem as propriedades ideais para ajudar nesse processo. Por isso, precisamos saber exatamente o que estamos consumindo para tratarmos um sintoma específico.

Continua após a publicidade

Fique de olho nos terpenos!

Não somos médicas e não temos como dizer exatamente qual o perfil de canabinoides vai ajudá-lo, especificamente, a ter a melhor noite de sono da sua vida. No entanto, além de uma quantidade equilibrada de THC e CBD, fique de olho nos terpenos da plantinha escolhida. Para dormir, os mais recomendados são:

O terpinoleno, encontrado em lilases e maçãs, normalmente pode ser encontrado em pequenas quantidades em algumas cepas mais ricas em THC, como Jack Herer, Orange Cookies e Dutch Treat. Ele exerce um efeito sedativo.

O mirceno é um terpeno que também pode ser encontrado em frutas e ervas como mangas, capim-limão e manjericão. Ele possui propriedades sedativas, anti inflamatórias e analgésicas, e aparece em variedades como White Widow, Jack Herer e Pure Kush.

Já o cariofileno, presente também no lúpulo, é ótimo para ajudar a aliviar o estresse, dores e inflamações – ou seja: deixar você chillex. Você o encontra em variedades como Sour Diesel e Bubba Kush.

Continua após a publicidade

-
João Barreto/Ilustração

Os principais riscos da cannabis contra insônia

Um grande problema de usar a cannabis para dormir regularmente é desenvolver a tolerância. Isso significa que, conforme usamos a planta, nosso corpo vai ficando mais resistente aos seus efeitos. Por isso, você vai precisar de pequenas pausas de pelo menos duas semanas a cada seis meses para calibrar seu organismo!

Além disso, um estudo de sono de 2008 descobriu que usuários de longa data que não fizeram pausas tiveram problemas ao largar a plantinha – menor tempo de sono, menos sono de ondas lentas, pior eficiência do sono, início do sono mais longo, ciclos de REM mais curtos e mais interrupção do sono foram observados em indivíduos abstêmios do que no grupo de controle sem a erva.

No entanto, os cientistas reconhecem que as evidências são limitadas pelo pequeno tamanho da amostra e pela incapacidade de determinar a causa. Em outras palavras, é possível que os sujeitos do estudo tenham usado cannabis para tratar a insônia pré-existente e a interrupção do uso tenha causado um ressurgimento dos sintomas.

Continua após a publicidade

apoie

A forma como você usa importa!

Os efeitos da maconha no sono podem variar por diversos fatores além dos terpenos e canabinoides presentes na planta. Um dos mais importantes é a via de uso! Por exemplo:

– Pode demorar até 90 minutos para você sentir os efeitos de um comestível, mas a brisa pode durar por até dez (!) horas;
– Quem fuma ou vaporiza cannabis normalmente começa a sentir seu efeito em até cinco minutos, mas ele é mais rápido e pode ir embora em aproximadamente duas horas;
– Já as tinturas geralmente começam a funcionar dentro de 15 minutos, e podem durar de duas até seis horas.

Assim como em vários outros casos, é importante ter acompanhamento e saber o que você está consumindo! Enquanto uma dose de cannabis pode ser saudável para o sono de uma pessoa, pode atrapalhar o da outra, e é assim que o nosso organismo funciona: de maneira única.

Tags Relacionadas
mais de
estímulos
Nosso colunista Uno Vulpo reforça que ninguém precisa mascarar os odores da região e relembra como fazer uma boa higiene íntima
Mulheres e jovens lideram a pesquisa, que mostra que a sociedade está deixando o tabu de lado
pexels-rodnae-productions-5637703b

Paixão em toda idade

Por
As relações depois dos 60 anos tendem a ser mais satisfatórias e libertadoras para as mulheres, que aproveitam a fase para quebrar tabus sobre a vida sexual
Técnicas, dicas, cuidados e recomendações de sexólogos para curtir sozinho, sozinha e também com parceiros
gounageArtboard 1

Elástica explica: gouinage

Por
Entenda mais sobre a prática de sexo sem penetração, de onde surgiu o nome e como praticá-la em segurança