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Contra a alienação da geração z

Kaique Brito fala sobre política, posicionamento nas redes sociais e como a chave para combater o fascismo está nas nossas mãos

por Beatriz Lourenço 16 Maio 2022 23h39
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Clube Lambada/Ilustração

m 2019, com apenas 14 anos, Kaique Brito viralizou na internet. Ele gravou um vídeo dublando um áudio de uma mulher dizendo que “agora os negros estão sendo racistas com pessoas brancas”. Além das frases absurdas, o que chamou atenção no conteúdo foi o uso do humor para ironizar as falas. De um dia para o outro, o post ganhou mais de 100 mil curtidas e 52 mil compartilhamentos no Twitter.

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“Por ser um adolescente negro, eu já sabia o que era racismo na prática. Ainda assim, passei a prestar mais atenção quando esses temas passaram a ser mais falados na internet”, conta à Elástica. “Já o humor é uma forma de conscientizar e dizer o que penso. A dublagem, por exemplo, traz um pouco mais de reflexão sobre o conteúdo.”

Hoje, aos 17, o jovem usa sua voz para tratar de temas como política, diversidade e meio ambiente. Por sua visibilidade e a facilidade de se comunicar com os adolescentes, Kaique tornou- se embaixador do WWF-Brasil e, em suas redes, ajuda a ONG a divulgar campanhas. “Esses assuntos são muito importantes, principalmente em ano eleitoral. Eu viralizei me posicionando, então acho que é essencial falar sobre isso”, reflete. “Algumas pessoas usam as redes apenas para ostentar, mas não se posicionar significa ignorar o que a sua audiência está passando. Precisamos mostrar que estamos prestando atenção no que está acontecendo no mundo.”

Após dublar um discurso do presidente Jair Bolsonaro sobre o coronavírus, o garoto foi bloqueado nas redes sociais. “Tenho pensado que as próximas eleições serão um caos, vem muita luta contra as fake news e o discurso de ódio por aí. A chave para combater o Bolsonaro vai ser a informação, os dados e a lembrança de tudo o que aconteceu nos últimos anos”, afirma. Abaixo, você confere um papo com o influencer sobre política, redes sociais e criação de conteúdo. 

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De onde surgiu a ideia de criar conteúdo na internet?
Desde criança, me lembro de usar o iPad da minha mãe para gravar vídeos. Comecei pesquisando “gravar vídeos” no Google e testando, mesmo. Colocava uma música qualquer e aprendia a usar a edição, os efeitos e as trilhas sonoras. Em 2019, fiz o primeiro vídeo com uma crítica social e, quando postei, viralizou. E essa virou uma forma de me comunicar com as pessoas.

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Kaique Brito/Divulgação

Você tinha 14 anos quando seu primeiro vídeo viralizou. Era uma dublagem de um áudio que falava sobre “racismo reverso”. Você tinha noção da gravidade daquelas falas?
Tinha, sim. Eu já conversava com amigos e queria me posicionar mais sobre esses assuntos, mas não me sentia confortável em gravar vídeos comigo falando. Até que encontrei no humor uma forma de conscientizar e dizer o que penso.

Acho que aprendi mais sobre política nas eleições de 2018, fiquei muito indignado pela quantidade de gente apoiando o Bolsonaro. Os argumentos daquelas pessoas eram muito contraditórios, aí resolvi pesquisar sobre o que estava acontecendo. Por ser um adolescente negro, já sabia o que era racismo na prática. Ainda assim, passei a prestar mais atenção quando esses temas passaram a ser mais falados na internet.

“Acho que aprendi mais sobre política nas eleições de 2018, fiquei muito indignado pela quantidade de gente apoiando o Bolsonaro. Os argumentos daquelas pessoas eram muito contraditórios. Por ser um adolescente negro, já sabia o que era racismo na prática”

Como foi crescer com holofotes?
Sempre quis que a criação de conteúdo fosse minha profissão, foi uma surpresa ter acontecido tão rápido. Via os influencers dizendo o tanto que ia demorar, mas da noite para o dia todos os meus ídolos já me conheciam. Isso é o que acho mais incrível até hoje. Não tenho milhões de seguidores, mas é uma responsabilidade muito grande estar nos holofotes. Posso dizer que acabo deixando de falar algumas coisas e pensando duas vezes antes de fazer algo. Confesso que é um pouco difícil ter muita gente me olhando e dizendo o que pensam sobre mim. É preciso desenvolver um filtro muito bom para saber o que é válido e o que não é.

A partir daí, você passou a se posicionar sobre questões como diversidade, meio ambiente e política. Qual é a melhor forma de fazer com que os jovens prestem mais atenção nesses temas?
Esses temas são muito importantes, principalmente em ano eleitoral. Eu viralizei me posicionando, então acho que é essencial falar sobre esses assuntos. Algumas pessoas usam as redes apenas para ostentar, mas não falar sobre esses temas significa ignorar o que a sua audiência está passando. Precisamos mostrar que estamos prestando atenção no que está acontecendo no mundo.

Sinto que precisamos de mais jovens falando para jovens. Minha audiência é majoritariamente adulta, mas é porque eles se interessam mais por pautas sociais. Quando se trata de entretenimento, precisamos fazer com que a política, o meio ambiente e a diversidade sejam tratados de forma leve, mas sempre encorajando a ampliação do debate. 

“Confesso que é um pouco difícil ter muita gente me olhando e dizendo o que pensam sobre mim. É preciso desenvolver um filtro muito bom para saber o que é válido e o que não é”

Você acredita que o humor é uma forma de conscientização? Como esse pode ser um elemento que traz reflexão aos debates?
Total, é uma forma de provocar reflexão sim. A dublagem, por exemplo, é um tipo de humor que faz com que as pessoas pensem um pouco mais no conteúdo. O assunto principal está nas entrelinhas de um vídeo engraçado. Há outras formas de fazer isso, o Yuri Marçal e a Maria Bopp fazem isso muito bem e de forma muito inteligente.

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Na internet, geralmente vemos algumas pessoas com opiniões muito sólidas e até disseminando ódio. Há alguma maneira de abrir um espaço de diálogo na internet?
Acho que falta um pouco de sinceridade. No Twitter, por exemplo, algo vai viralizar se você tem uma opinião muito forte, seja ela boa ou ruim. Nas outras redes, pessoas também procuram quem tem opiniões muito formadas. Mas quando estamos abertos a dialogar e a aprender e quando compartilhamos mais experiências e menos verdades absolutas, as discussões ficam menos densas e mais produtivas. 

“Precisamos de mais jovens falando para jovens. Minha audiência é majoritariamente adulta, mas é porque eles se interessam mais por pautas sociais. Quando se trata de entretenimento, precisamos fazer com que a política, o meio ambiente e a diversidade sejam tratados de forma leve, mas sempre encorajando a ampliação do debate”

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Kaique Brito/Divulgação

Você se tornou embaixador da WWF-Brasil. O que te despertou interesse para a causa ambiental e como levar mais consciência para as novas gerações?
A causa ambiental é um assunto que eu não tinha muita interação e precisava pensar mais sobre. Até que a WWF chegou com a proposta de comunicar a mensagem que eles pregam. Eles viraram uma fonte de informações necessária que eu posso repassar sem medo. Falar sobre o meio ambiente é muito urgente, colocar isso em pauta e sentir que as mobilizações com meus seguidores funcionam é muito massa. 

Hoje vivemos a cultura do cancelamento. Não é possível errar na era da internet. Como você analisa esse momento?
Não sei se é impressão minha, mas sinto que a gente tem compreendido mais as pessoas. Às vezes, assuntos que podem ser facilmente resolvidos são tratados de forma agressiva. Ao mesmo tempo, tenho medo que pessoas que cometem crimes cibernéticos e falem algo muito sério se safem disso. Monark, por exemplo, falou algo criminoso em seu podcast e depois falou que estavam indo para cima dele por conta da cultura do cancelamento. Não é exatamente assim que as coisas funcionam. Quando algo é crime, não tem o que dialogar. Mas se é apenas uma opinião que não afeta a vida de ninguém, precisamos tratar de forma mais leve.

Como você lida com o hate?
No começo foi algo muito tranquilo de lidar porque eu ignorava tudo. Com o passar do tempo, passei a prestar mais atenção. Tem dias que eu nem ligo, outros, já fico um pouco chateado. Lido com isso fazendo muita terapia, conversando com meus amigos e entendendo que há pessoas por trás dos perfis.

“Monark, por exemplo, falou algo criminoso em seu podcast e depois falou que estavam indo para cima dele por conta da cultura do cancelamento. Não é exatamente assim que as coisas funcionam. Quando algo é crime, não tem o que dialogar”

Esse foi o ano que o TSE registrou o menor número de jovens com título de eleitor. Por que você acha que eles não querem tirar o título? Como ensinar para eles a importância do voto?
Acho que a gente ainda direciona a política para os adultos. A comunicação sobre o voto distancia esse assunto dos jovens. Os termos usados são complexos, ninguém explica pra quê serve o título e como o voto impacta a nossa vida. Isso acaba fazendo com que o jovem tenha um sentimento de falta de esperança, como se a gente não tivesse o poder de mudar nada. Precisamos tratar os jovens como o futuro do país.

Tenho pensado que as próximas eleições serão um caos, vem muita luta por aí contra as fake news e o discurso de ódio. A chave para combater o Bolsonaro vai ser a informação, os dados e a lembrança de tudo o que aconteceu nos últimos anos.

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Kaique Brito/Divulgação
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