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Elástica explica: Kama Sutra

Muito mais do que uma enciclopédia de posições sexuais, o livro indiano é um guia moral e amoroso para o bem-estar da vida a dois

por Redação Atualizado em 28 mar 2022, 18h42 - Publicado em 18 mar 2022 01h26
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Taine Gonçalves/Ilustração

om certeza você já ouviu falar do Kama Sutra. Um dos livros mais antigos do mundo, ele é reconhecido como uma enciclopédia indiana de posições sexuais – do tradicional missionário (o papai e mamãe) até as complicadas pás de moinho, libélula e parafuso. Mas, para além desse reducionismo erótico, a publicação é um apanhado de textos que falam sobre condutas morais e espirituais – por isso o nome sutra.

Sutra (सूत्र em sânscrito) é uma palavra que tem origem na antiguidade, na região onde hoje fica a Índia moderna, ainda na época do hinduísmo e do bramanismo. Com a vinda de Sidarta Gautama à Terra, ficou convencionado que os sutras seriam compilados das ideias de Buda. Desde então, todo ensinamento filosófico, teológico e comportamental em forma de aforismos passado por sábios indianos é chamado de Sutra.

O Kama Sutra não tem um autor. Trata-se de um compilado de ideias pelo sábio Vātsyāyana, um filósofo que viveu em algum momento entre os séculos terceiro e segundo antes de Cristo, embora as lendas milenares digam que sua primeira versão foi escrita seiscentos anos antes, no século oitavo da era antiga, por Nandi, o touro que serve de montaria para Shiva – a título de curiosidade, é devido a Nandi que muitos hinduístas são vegetarianos, ou pelo menos não se alimentam de carne bovina.

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Colonização de corpos e ideias

O Kama Sutra teve sua primeira tradução no Ocidente realizada pelo explorador britânico Richard Burton, em 1883. Na época, a Índia era colônia inglesa, um lugar tratado com exotismo pelos súditos pudicos da rainha Vitória.

Embora trate abertamente de relacionamentos homossexuais, fale sobre transexuais e indique até mesmo o uso de dildos para apimentar as relações, todas essas partes do texto original foram propositalmente suprimidas ou alteradas por Burton para adequar a publicação aos costumes cristãos fervorosos vigentes àquela época na Inglaterra.

Com isso, o Kama Sutra ficou o próximo século inteiro sendo mal-interpretado – e mal traduzido para outras línguas além do inglês –, isso sem contar os livros vendidos apenas como guias de posições sexuais, sem que toda a parte filosófico-teórica fosse publicada.

Isso só começou a mudar a partir de 1992, quando o historiador francês Alain Daniélou reeditou na íntegra e com propriedade o Kama Sutra. Daniélou, que viveu 15 anos na Índia, morreu na Suíça em 1994, sem ver sua versão da obra tornar-se o cânone oficial desse livro tão importante.

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Taine Gonçalves/Ilustração

O Kama Sutra é machista?

Em linhas gerais, a resposta mais fácil de dar é que sim, o livro é um tanto machista para os padrões atuais.

Boa parte dos capítulos iniciais do Kama Sutra fala sobre como mulheres devem se portar para terem bons maridos e de como elas devem estar sempre preparadas para satisfazê-los durante o ato sexual.

O terceiro capítulo do livro, por exemplo, fala exclusivamente das práticas de se “adquirir” uma boa esposa, enquanto o capítulo seguinte tem o sugestivo título de “Os deveres e privilégios da esposa”.

Dentre as pérolas que poderíamos esquecer nesses trechos do Kama Sutra estão as seguintes dicas, da maneira como foram traduzidas e interpretadas por Daniélou: “Para criar uma família, a garota deve ser jovem; pertencer à mesma casta [do pretendente]; não ter experiências prévias; seguir os livros sagrados no que diz respeito à virtude e ao dinheiro; concordar com a relação e desejar relações amorosas e filhos”; ou então: “Deve-se procurar uma garota nascida de família nobre, com o pai e a mãe ainda vivos, que seja pelo menos três anos mais jovem que o garoto; que tenha bom caráter, seja rica, devota à família, carinhosa com seus parentes, com boas relações com seus vizinhos, pubescente, obediente, bonita, com boas maneiras, nada banal, saudável de corpo e alma, com todos os dentes na boca, com unhas, orelhas, cabelo, olhos e seios sem defeitos; sem nenhuma doença de constituição.”

Olhando por esse lado, você até pode dar razão a todos os textos que suprimem esses conselhos morais do Kama Sutra em prol de divulgar apenas suas posições sexuais, mas você deve se lembrar que o livro tem quase 2.500 anos de idade, e que certas nuances dele também revelam uma sociedade extremamente progressista à época.

Por exemplo: diferente dos dias atuais, naquela época as viúvas indianas podiam se casar novamente. O guia também fala abertamente sobre como mulheres podem seduzir – e até mesmo enganar – os maridos, além de dar um enorme destaque à inversão de papeis dentro do casal, colocando a esposa como dominadora e o esposo como dominado no sexo. Tudo isso é impensável para nossa família tradicional brasileira® hoje.

O livro ainda dá dicas para cortesãs e prostitutas – inclusive ensinando os machos a respeitá-las – e, embora a poligamia fosse comum, beneficiando os homens, Vātsyāyana lista os benefícios de ser fiel a uma única esposa, afirmando, entre outras coisas, que “mulheres protegidas por uma boa conduta obtêm respeitabilidade, riquezas e amor, um status de provedora e protetora”.

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LGBTQIAP+ na antiguidade

Diferentemente do Ocidente, que ainda trata qualquer gênero ou sexualidade fora dos padrões cisheteronormativos como monstruosidades, algumas culturas do sudeste asiático têm uma longa história de aceitação a gays, lésbicas e transsexuais – estes últimos até mesmo considerados sagrados em certo grau.

É curioso notar que muitos templos antigos na Índia têm imagens do Kama Sutra em suas paredes assim como os egípcios têm hieróglifos em suas pirâmides e nós temos imagens de Jesus e dos apóstolos em nossas igrejas, e que muito do moralismo moderno indiano tem origem em ninguém menos que Mahatma Gandhi – que foi educado na Inglaterra antes de tornar-se uma das figuras mais proeminentes do país no século 20, exigindo que a imagem de erotismo fosse suprimida da cultura popular em prol de uma modernização.

O Kama Sutra trata com naturalidade da lesbianidade em seu texto principalmente quando trata da poligamia, afirmando – também na tradução de Daniélou – que “há apenas um marido, enquanto as esposas, que normalmente são muitas, permanecem insatisfeitas. É por isso que, em prática, elas obtêm satisfação entre si próprias.”

Para além do reducionismo que essa pequena citação traz, o livro então começa a discorrer sobre maneiras que as mulheres podem se relacionar sem que haja a interação com o sexo masculino.

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Em outros momentos, o Kama Sutra fala que é direito dos nobres irem para a cama com outros homens se assim desejarem, explica em detalhes como um homem pode praticar felação em outro homem, e dá regras de conduta aos transexuais.

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Isso se dá porque muitos mitos indianos colocam as divindades como homens ou mulheres de acordo com a história narrada, e muitas vezes as próprias divindades mudam de sexo de acordo com seus deveres. Mais uma vez falando em Shiva, há contos em que ele e sua consorte Parvati se amalgamam em uma única persona, Ardhanarishvara, cuja metade esquerda do corpo é feminina, e a metade direita do corpo é masculina.

Em outro de seus textos, Daniélou ainda escreve: “Os hermafroditas, os homossexuais e os transsexuais têm valor simbólico e são considerados seres privilegiados, imagens de Ardhanarishvara.”

Há outros exemplos dessas fusões entre duas divindades, como Vishnu e Lakshmi, e mesmo o herói humano Arjuna, protagonista do Bhagavad Gita, um dos textos mais importantes do Hinduísmo, transforma-se em mulher em determinado momento de sua epopeia.

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Entenderam? Vamos às posições

Se você chegou aqui buscando aprender novas posições sexuais sobre o Kama Sutra e foi brindado com essa enxurrada de informações, não se desespere. Chegou a hora de falarmos sobre essa que é a cereja do bolo quando o tema é o livro indiano.

Caranguejo

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Taine Gonçalves/Ilustração

O caranguejo exige uma mesa pesada, ou então uma que esteja encostada na parede. Isso porque o homem deve ficar de pé apoiado nela, enquanto sua parceira se encaixa nele de costas, tendo então que flexionar seu corpo todo para frente. É uma posição que exige trabalho conjunto para manter a penetração.

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Aranha

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Taine Gonçalves/Ilustração

Para essa posição, você vai precisar de uma cama ou sofá baixos. A mulher deve se deitar na borda, com a bunda apoiada na cama, mas as pernas soltas no chão. O homem, então, se ajoelha para a penetração, segurando as pernas da parceira para auxiliar no movimento.

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Tesoura

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Taine Gonçalves/Ilustração

Essa é fácil. O homem fica deitado e a parceira vai em cima dele, só que virada na direção oposta. A movimentação é compartilhada, com ela indo para frente e para trás, enquanto ele faz o auxílio com a força dos braços. Uma dica: nada de passividade, macho! A tesoura é uma boa oportunidade para o homem explorar a região anal da parceira com os dedos.

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Carrinho de Mão

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Taine Gonçalves/Ilustração

O carrinho de mão exige um pouco de equilíbrio e força, mas é garantia de um gozo delicioso. A mulher fica de quatro na beira da cama, mas, antes de penetrá-la, o homem levanta suas pernas, segurando-as como se a parceira fosse… um carrinho de mão, é óbvio.

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Abraço de Ursa

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O abraço de ursa é uma posição bastante comum. O homem fica sentado na beira da cama e a mulher senta por cima dele, passando suas pernas pelo corpo do parceiro. Ótimo para aqueles momentos em que é preciso baixar um pouco a intensidade do sexo. Cara a cara, o casal pode aproveitar o caramujo para trocar beijos e carícias, estimulando zonas erógenas além da região das genitais.

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Jiboia

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Taine Gonçalves/Ilustração

A Jiboia é uma variação do papai e mamãe, mas a mulher deve aproximar o parceiro para perto de si com suas pernas, abraçando-o. A pressão causada pelo exercício cola o corpo do homem ao da parceira durante a penetração, forçando com que ele faça movimentos mais colados ao corpo dela. A mulher, em vantagem de dominação, fica livre para passar os pés pelas costas e nádegas do parceiro, e usar sua língua em toda região do pescoço e das orelhas.

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Amazona

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Taine Gonçalves/Ilustração

Gostei tanto da amazona que vou testar assim que terminar de escrever essa reportagem. Nessa posição, o homem se deita com a barriga para cima, flexionando suas pernas para próximo do seu abdômen. A mulher, então, se encaixa no pênis por trás das coxas do parceiro. É ela quem dita o ritmo, enquanto mantém o parceiro dentro de si.

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Libélula

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Na libélula, o homem se encaixa entre as pernas da parceira, segurando a perna que ficar para cima por cima de seu próprio quadril. Dica: a mulher pode variar o encaixe de suas pernas para que seu parceiro encontre diversos pontos dentro de sua vagina. O homem, por sua vez, pode usar suas mãos livres para carícias no corpo dela, e também para masturbá-la.

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