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Monique Evelle: “Empreender é sobre sonho e coragem”

Conversamos com a empresária sobre a desigualdade no mundo do trabalho, sua vontade de mudar o mundo e como a educação é uma saída para mais oportunidades

por Beatriz Lourenço Atualizado em 11 abr 2022, 14h50 - Publicado em 11 abr 2022 02h10
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Clube Lambada/Ilustração

om apenas 16 anos, Monique Evelle decidiu mudar o mundo. Cansada de viver o racismo na escola, criou uma chapa para concorrer ao grêmio estudantil – a “Desabafo Social”. Quando percebeu que poderia levar seus projetos além, fez parcerias com empresas e passou a criar atividades em seu bairro, Nordeste de Amaralina, que remuneravam ideias. De repente, estava numa jornada empreendedora que alia os negócios à educação. 

“Inicialmente, não sabia o que era empreender e nem que poderia me visualizar como empresária. Meu sonho era mudar o mundo na perspectiva das questões raciais através da educação”, revela à Elástica. “A partir das minhas criações, entendi que existia a possibilidade de fazer isso e ganhar dinheiro ao mesmo tempo.”

Hoje, Monique é dona da Inventivos, uma plataforma que organiza todas as informações necessárias para criar e crescer uma empresa. Seu foco é democratizar o conhecimento para que mais pessoas tenham oportunidades no mercado de trabalho, principalmente as que moram na periferia. Segundo ela, há uma dificuldade dos centros urbanos dividirem o holofote e isso faz com que o destaque nunca chegue a quem é diferente. “A sociedade não quer dividir o dinheiro. Quando pensamos no Brasil, todas as incubadoras e aceleradoras estão em São Paulo”, reflete. “Existe uma concentração de renda, territorial, de gênero, de cor e etária. Por isso, ninguém olha para outras possibilidades.”

Segundo uma pesquisa feita por sua empresa, 40% dos adultos negros brasileiros são empreendedores, o que corresponde a uma movimentação de R$ 1,73 trilhão por ano e a 56% da população do país. Desses, 61,5% são mulheres e 40,4% têm dificuldade de acesso a créditos bancários. “Estamos mais visíveis e somos maioria. Mas, quando falamos em dinheiro, não conseguimos faturar, lucrar ou ter investimento necessário para continuar. Além disso, não somos reconhecidas pelo nosso brilhantismo”, explica a empresária. Em uma longa conversa conosco, Monique explicou como a saída pode ser a educação e analisou a atuação de corporações frente às questões de inclusão e diversidade.

“A sociedade não quer dividir o dinheiro. Todas as aceleradoras estão em São Paulo. Existe uma concentração de renda, territorial, de gênero, de cor e etária. Por isso, ninguém olha outras possibilidades”

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Pablo Saborido/Fotografia

Como começou sua jornada como empreendedora? Era seu sonho?
Na verdade, foi a vida que me levou, mas não deixa de ser um sonho. No começo, não sabia o que era empreender e nem que poderia me visualizar como empresária. Meu sonho era mudar o mundo na perspectiva das questões raciais através da educação. Mas, a partir das minhas criações, entendi que existia a possibilidade de mudar o mundo e ganhar dinheiro ao mesmo tempo – e está tudo bem. 

Você criou a “Desabafo Social” com apenas 16 anos. De onde veio essa vontade e de que forma a empresa mudou a vida das pessoas ao seu redor?
Ela começou como grêmio estudantil na época do colégio. O nome surgiu porque eu era uma das poucas pessoas negras e, quando falava sobre questões raciais, poucos ouviam ou tinham interesse em falar sobre isso, diziam que era algo da minha cabeça. Assim, a única forma de verbalizar e fazer alguma coisa foi a partir da criação de uma chapa. Ali, consegui criar propostas para a escola. 

Como já estava no terceiro ano do ensino médio, resolvi levar as ações de formação e bate-papo para as ruas do meu bairro. Tudo foi crescendo até se tornar um laboratório de tecnologias sociais para comunicação, educação e geração de renda. Fizemos parcerias com empresas, pensamos em desafios criativos e conseguimos remunerar as pessoas por suas ideias. Chegamos assim até 2020, quando eu passei o bastão e deixei minha participação de lado. 

“Ao conhecer Eliane [Dias], percebi que fazia a mesma coisa que ela. Eu crio projetos e contrato pessoas, então sou empresária, sim. Foi nesse momento que terminou o sofrimento de verbalizar isso. Ela me resgatou dessa dúvida sombria sobre quem eu era”

Quando você entendeu que, além de ativista, também era empreendedora?
Eu tinha 19 anos quando soube da existência de Eliane Dias, a empresária do Racionais e CEO da Boogie Naipe. Ela sempre falava que era empresária, até que percebi que eu me parecia com ela. Quando crescemos na periferia, acreditamos que ser empresário é algo ruim – porque são pessoas que sonegam impostos, que só querem dinheiro e que não pensam no bem das pessoas. Ao conhecer Eliane, percebi que fazia a mesma coisa que ela, mas não na música. Eu crio projetos e contrato pessoas, então sou empresária, sim. Foi nesse momento que terminou o sofrimento de verbalizar isso. Ela me resgatou dessa dúvida sombria sobre quem eu era.

A Inventivos é uma plataforma que educa novos empreendedores. Como democratizar esse conhecimento para que mais pessoas tenham oportunidades?
Há muito conteúdo na internet e nas redes sociais. Mas, ao mesmo tempo, como fazemos a curadoria se somos bombardeados por tudo ao mesmo tempo? Ficamos tão ansiosos que não conseguimos procurar o que precisamos porque, além de tudo, há termos em inglês que nem entendemos. Os pequenos empreendedores não vão procurar sobre “growth marketing” – eles querem saber como vender na internet e como crescer o seu negócio, ponto final. Existem termos e formas de fazer com que as pessoas consigam encontrar o que precisam. Pensando nisso, produzimos muito conteúdo gratuito considerando tanto a busca daquela pessoa que está no interior do Piauí, quanto de quem mora no centro de São Paulo. 

Também há o desafio de estruturar as informações de forma que eles consigam resultados a longo prazo. Pensando no Brasil, vendemos algo hoje considerando nossas dívidas e a nossa sobrevivência. Mas como ensinamos os empreendedores a continuarem sonhando? Empreender é sonho e coragem, além de técnica, ferramenta e dinheiro.

“Pensando no Brasil, vendemos algo hoje considerando nossas dívidas e a nossa sobrevivência. Mas como ensinamos os empreendedores a continuarem sonhando? Empreender é sonho e coragem, além de técnica, ferramenta e dinheiro”

Uma saída seria incluir esses temas no currículo escolar?
Isso é muito complexo porque muitas coisas deveriam ser da escola, mas não exclusivamente dela. Acabamos terceirizando o trabalho para a escola quando ela também cumpre o papel de família e de socialização. Mas, pensando no nosso currículo, acredito que uma das saídas seria, sim.

Antes de me formar, fiz Engenharia Ambiental, fui para Direito e terminei em no Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades com ênfase em política e gestão da cultura. Passei por tudo isso porque ninguém nunca apresentou a possibilidade de ser dona do meu próprio negócio. Precisamos ter inúmeras possibilidades antes de escolher nosso caminho. 

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Diva Nssar/Fotografia

Você costuma dizer que a verdadeira inovação vem da periferia, e não do Vale do Silício. Por que é tão difícil as empresas darem destaque para pessoas periféricas? 

É difícil porque estamos falando sobre distribuição de renda. A sociedade não quer dividir o dinheiro. No Vale do Silício, as empresas colocam todo o dinheiro ali. Quando pensamos no Brasil, todas as incubadoras e aceleradoras estão em São Paulo. Existe uma concentração de renda, territorial, de gênero, de cor e etária. Por isso, ninguém olha para outras possibilidades. Inclusive, as novas criações de periferias são consideradas gambiarras e nunca inovação. Mas se funciona, por que não é inovador? Para dar destaque, é preciso dar o nome certo – dizer que é inovação. 

Outro ponto importante é que nunca convidamos pessoas diferentes para o evento das empresas. Não compartilhamos o holofote. Ao mesmo tempo, temos que distribuí-lo para que outros apareçam. Precisamos investir e parar de olhar a periferia sempre na perspectiva da escassez ou conflitos. 

“As novas criações de periferias são consideradas gambiarras e nunca inovação. Mas se funciona, por que não é inovador? Para dar destaque, é preciso dar o nome certo – dizer que é inovação” 

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O empreendedorismo é mais fácil para quem não vem da periferia? Considerando a meritocracia.
É mais fácil por vários motivos. Um deles é que o olhar romântico do investimento e de ser dono de negócio é naturalizado. Ser chefe vem do convívio! Seja da sociedade, que espera isso, ou seja dos pais, que esperam que os filhos assumam a empresa da família. 

Tem uma coisa interessante de falar sobre meritocracia que é como precisamos reconhecer o mérito preto, das mulheres e das maiorias silenciadas porque a jornada é difícil demais. Para eu estar aqui falando contigo, só eu sei o que continuo passando todos os dias. Às vezes, as pessoas acreditam que os problemas se esgotam e a ascensão social vai me embranquecer, que não vou passar por nenhuma situação de racismo, machismo e sabemos que não é assim. 

Sua atuação é voltada para a educação e geração de renda de brasileiros. De que forma esse caminhar coletivo ajuda a transformar a sociedade?
Chegamos em 2022 e percebemos que, sozinhos, nada deu certo até agora. A humanidade só falta assinar que faliu quando não pensou coletivamente. Passamos por uma pandemia e uma crise sanitária global – é o maior sinal da nossa geração para mostrar que o caminho é nós por nós. 

Quando criei a Inventivos, parti do pressuposto de ser uma comunidade de empreendedores. Lá há a formação, a troca de ideias e, neste ano, vamos apostar na parte de investimento e financiamento para dar continuidade no processo de crescimento das empresas. Esse pensar coletivo é o único caminho para que sigamos vivos a longo prazo.

Além disso, a forma mais barata de realizar alguma coisa é vendo o erro dos outros e pedindo ajuda. Ser a primeira em alguma coisa no ano de 2022 diz muito sobre a sociedade que estamos construindo. Se aplaudimos isso, tem algo errado. Pensando em empreendedorismo, muitos já fazem diversas atividades e ainda não são reconhecidas. Acredito que o coletivo pode ser potente o suficiente para desprecarizar o empreendedorismo no Brasil. O resultado é o crescimento de empresas, o que significa geração de empregos e renda.

“Ser a primeira [mulher negra] em alguma coisa no ano de 2022 diz muito sobre a sociedade que estamos construindo. Se aplaudimos isso, tem algo errado”

Algumas empresas estão repensando seus modelos de contratação e criando processos seletivos exclusivos para pessoas negras. Como resultado, ainda vemos muitas críticas da sociedade civil. Por que estamos tão atrasados quando pensamos em diversidade no mercado de trabalho?
Quando alguém considerado padrão normativo tem consciência do seu privilégio, não significa que vai renunciar a seus cargos. E a dificuldade está aí, porque parece que a contratação dessas maiorias silenciadas se torna uma ameaça. Esse impeditivo faz com que a gente tenha mais dificuldade, inclusive, em falar sobre o assunto. 

Falar sobre a questão de gênero é um pouco mais fácil porque existem mulheres brancas. Quando o assunto é a questão racial, é muito mais difícil porque precisamos de aliados para fazer com que entendam a importância. Ainda dependemos de pessoas brancas – como se fosse um aval para o próximo passo. Há dificuldade em olhar pessoas negras como seres intelectuais e ativos. Além de fazer programas inclusivos, também é preciso pensar na permanência dessas pessoas nas empresas, já que os funcionários vão ser atravessados todos os dias pelo racismo. 

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Pablo Saborido/Fotografia

Nesse sentido, o que pode ser feito para termos avanços significativos?
Há uma máxima que diz: nada sobre nós sem nós. Não adianta contratar consultorias em diversidade que só tem um único perfil de pessoa. São muitas complexidades que precisamos olhar. Também é preciso entender a cadeia de fornecedores das empresas. Quando contratamos uma agência de publicidade, por exemplo, precisamos questionar os índices de diversidade e inclusão nesse lugar. 

Tem outro ponto importante que as corporações precisam entender: elas estão contratando para consertar uma falha ou para esse profissional criar? Entre um e outro, há uma grande diferença. No fim do dia, e isso não está no escopo, a maioria precisa apagar incêndios na área de diversidade e inclusão. Esses lugares acreditam que por ser um funcionário preto, ele precisa lidar com essas questões. E não deve ser assim.

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Como você percebe o cenário do empreendedorismo negro e feminino no Brasil?
Estamos mais visíveis e somos maioria. Mas, quando falamos em dinheiro, não conseguimos faturar, lucrar ou ter investimento necessário para continuar. A Inventivos fez uma pesquisa ano passado que mostra que, por mais que a maioria de empreendedores negros tenham graduação e pós, quando comparados com brancos, ganhavam menos da metade — e poucos chegavam até cinco salários mínimos. 

Nesse universo perverso, ainda há uma questão muito importante: quantas mulheres e pessoas pretas conseguem continuar empreendendo? Temos tudo para desistir todos os dias. É exaustivo e frustrante. Além disso, poucas são reconhecidas pelo seu brilhantismo nos negócios. 

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6 dicas para empreender do zero

Liste suas habilidades e problemas que você identifique ao seu redor. É muito melhor quando a gente alinha essa habilidade com uma oportunidade de negócio. Não precisa pensar no mundo todo, pode começar pensando no seu próprio bairro.

Ninguém tem certeza que a ideia é boa no começo, mas escolha uma área para iniciar. Começar por onde? Pense em uma macroárea, como gastronomia, por exemplo. A partir daí, ajuste a ideia.

Pergunte para as pessoas sobre o que elas sentem falta na área em que você decidiu apostar. É a partir disso que você vai ter seu feedback. Além disso, está tudo bem não ser o primeiro a fazer algo – às vezes o custo é menor e isso já é inovador.

Teste a sua ideia o quanto antes e de forma barata!

Encontre uma tribo para pedir ajuda.

Está tudo bem pausar de vez em quando. Lembre-se de que a pessoa física vem antes da jurídica. Nós só somos produtivos quando estamos bem. 

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