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O peso de um nome

Paulo Menotti Del Picchia foi um herói do modernismo brasileiro. A partir do centenário da Semana de 22, seu bisneto desmitifica sua aura

por Meno Del Picchia Atualizado em 4 abr 2022, 15h50 - Publicado em 3 abr 2022 22h10
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arte/Redação

a minha família, somos três Paulo Menotti Del Picchia, mas somente um deles é considerado herói. Foi através das histórias dele, o meu bisavô de quem carrego o nome, que eu aprendi a tomar gosto pela leitura, me envolvendo com as histórias infantojuvenis de João Peralta e Pé de Moleque. Talvez também por causa dele, o meu pai, o segundo Paulo Menotti Del Picchia, médico de profissão, falecido em 1991, tenha vivido com o desejo frustrado de se tornar também um artista, deixando uma enorme produção de pinturas e esculturas que nunca foram exibidas.

Na minha família, o nome Paulo Menotti Del Picchia tem um peso e, desde pequeno, aprendi a me orgulhar do meu ancestral modernista que conquistou fama com a “nova” classe média paulistana ao lançar Juca Mulato (1917), seu terceiro livro. Fui ensinado que Menotti Del Picchia, como ele se tornou conhecido, era íntimo de nomes como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Victor Brecheret, Anita Malfatti e Tarsila do Amaral. Desenhos de Anita e Tarsila feitos como primeiros esboços para a capa de Juca Mulato, inclusive, estavam pendurados em sua casa na Avenida Brasil juntamente com algumas esculturas que ele ganhou de presente do próprio Brecheret.

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intervenção sobre foto de família de Meno del Picchia/Arquivo

A narrativa íntima que circulava entre meus avós, entre meus pais e, durante algum tempo, entre meus irmãos, era do papel central que ele tivera na Semana de Arte Moderna de 1922. Foi dele a conferência de abertura da segunda noite, em 15 de fevereiro daquele ano, feita sob vaias e gritos da plateia. Conferência na qual capta bem a atmosfera de modernização que pairava em São Paulo: “Queremos luz, ventiladores, aeroplanos, reivindicações, obreiros, idealismos, motores, chaminés de fábrica, sangue, velocidade na nossa arte! E que o rufo de um automóvel, nos trilhos de dois versos espante da poesia o último deus homérico que ficou anacronicamente a dormir e sonhar na era do jazz-band e do cinema com a frauta dos pastores de Arcádia e os seios divinos de Helena!”.

“Na fala daquela noite, hoje vejo um Menotti repleto de contradições internas, que louva o moderno, o progresso, a máquina e a velocidade ao mesmo tempo que faz questão de demonstrar sua erudição parnasiana com um texto exagerado e grandiloquente, carregado de referências a figuras mitológicas do classicismo greco-romano”

Na fala daquela noite, hoje vejo um Menotti repleto de contradições internas, que louva o moderno, o progresso, a máquina e a velocidade ao mesmo tempo que faz questão de demonstrar sua erudição parnasiana com um texto exagerado e grandiloquente, carregado de referências a figuras mitológicas do classicismo greco-romano – Oswald e Mário, no mesmo período, já propunham uma escrita bem mais livre, sem os excessos de erudição. De todo modo, é inegável que Menotti foi um ponta de lança do movimento com seu pseudônimo Hélios, através do qual se tornou divulgador das ideias modernistas no jornal Correio Paulistano, publicando crônicas sobre arte, literatura e estética a partir de 1920.

Há pouco tempo, em 2016, resolvi fazer uma parceria póstuma com meu ilustre bisavô. Coloquei melodia e harmonia em um trecho do poema Juca Mulato chamado “Pigarço” e lancei uma música com o mesmo nome. Pigarço era o nome do cavalo de Juca e era com quem o personagem conversava sobre as coisas da natureza, suas dores e desilusões.

Esse trecho do poema sempre teve um apelo grande para mim porque, quando era pequeno, ganhei de meu avô Ulpiano, filho de Menotti, um cavalinho de madeira que já veio batizado como Pigarço. Não tenho lembranças vívidas de Menotti, o conheci muito criança, mas tenho memórias fortes de meu avô Ulpiano, que transbordou amor e carinho na minha criação e foi quem me ensinou a ter um respeito enorme pelo nome que carrego. Um fato inusitado é que, para gravar a parceria musical com meu bisavô, tive que viajar à Itapira e pedir permissão à Secretaria de Cultura da cidade, que é detentora dos direitos de suas obras.

Menotti nasceu em São Paulo, mas em 1897 se mudou para Itapira. Foi nessa rica cidade do interior paulista, para os padrões da época, que passou boa parte de sua infância e adolescência, casando-se em 1912 com Francisca da Cunha Rocha Sales, filha de um fazendeiro de café. Foi ali, ainda, que escreveu o poema Juca Mulato – hoje nome de praça, onde existe também a Casa Menotti, uma espécie de museu que preserva sua memória. Visitei a cidade algumas vezes e pude perceber a aura de herói que paira sobre Menotti Del Picchia por meio das histórias de alguns moradores que atribuíam poderes de sedução ao meu bisavô mesmo em idade avançada. Histórias itapirenses que se misturam com as da minha avó e da minha mãe e que reforçam esse mito do poeta modernista heroico e sedutor.

Meu pai não gostava de se chamar Paulo Menotti Del Picchia e eu quase não me chamei Paulo Menotti Del Picchia. Durante vinte dias, fui Tiago, até que meu pai, inexplicavelmente, durante meu registro de nascimento, decidiu homenagear mais uma vez o poeta-herói da minha família. Não trago o nome Castro, do lado materno, e às vezes me pego imaginando como seria me chamar Tiago de Castro. Acabei me tornando Meno, abreviação de Menotti, por causa do jeito que minha mãe me chamava – talvez um esforço inconsciente para diminuir o peso e as sombras de um passado futurista-integralista?

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Meno del Picchia/Arquivo
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É curioso que um filho de italiano com um nome nada brasileiro participasse de um movimento que tentava inventar o que era o Brasil do século 20. Menotti talvez se visse como um novo bandeirante cuja missão era forjar a raça brasileira e unificar culturalmente nosso país sob uma bandeira integralista que negava certas diversidades socioculturais que desde sempre nos constituíram.

“Meu pai não gostava de se chamar Paulo Menotti Del Picchia e eu quase não me chamei Paulo Menotti Del Picchia. Durante vinte dias, fui Tiago, até que meu pai, inexplicavelmente, durante meu registro de nascimento, decidiu homenagear mais uma vez o poeta-herói da minha família. Não trago o nome Castro, do lado materno, e às vezes me pego imaginando como seria me chamar Tiago de Castro”

Esse é um aspecto do pensamento de meu bisavô que passou a me incomodar cada vez mais ­– o nacionalismo exacerbado de cunho integralista que flertava com o fascismo dos anos 1930; a amizade de Menotti com Plínio Salgado e Cassiano Ricardo e sua aproximação do movimento Verde Amarelo, de cunho autoritário e conservador; sua guinada para a direita do espectro político; seu papel de representante de uma elite cafeeira conservadora que fabricava a imagem de um Brasil espelhada em seus delírios de pureza e grandeza.

Como não problematizar isso no Brasil de hoje, radicalmente dividido entre direita e esquerda? Como manter intacta a estátua de Menotti que a mitologia íntima de minha família esculpiu? Tenho pensado muito em pichá-la, em atear fogo na sua base de granito cinza apoiada sobre a grama verde de uma praça. Sim, Menotti Del Picchia foi um Borba Gato italiano que nos anos 1930 trocou a vanguarda artística pela movimentação política de direita. Sim, ele participou ativamente do último governo de Getúlio Vargas (1937-45), estabelecido por vias golpistas para conter uma suposta ameaça comunista (qualquer semelhança com o momento atual não é mera coincidência). E mesmo assim, dentro de casa, nada era dito sobre isso, nenhuma palavra sobre sua amizade com Plínio Salgado, considerado o maior representante do fascismo na história do Brasil.

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Meno del Picchia/Arquivo

Tenho feito o exercício de tentar pensar como o Menotti das décadas de 1920 e 1930 e sei que, para um intelectual daquela época, não só no Brasil, a construção de uma imagem de nação era fundamental. O nacionalismo estava espalhado tanto entre pensadores de esquerda quanto de direita. Era urgente a fabricação de uma identidade que definisse o povo de um determinado território. O custo para isso, muitas vezes, era a negação de toda e qualquer diferença. A negação da diversidade racial, sexual, religiosa, étnica. A incapacidade de encaixar qualquer um que não estivesse dentro da narrativa que se pretendia oficializar.

“Como não problematizar isso no Brasil de hoje, radicalmente dividido entre direita e esquerda? Como manter intacta a estátua de Menotti que a mitologia íntima de minha família esculpiu? Tenho pensado muito em pichá-la, em atear fogo na sua base de granito cinza apoiada sobre a grama verde de uma praça. Sim, Menotti Del Picchia foi um Borba Gato italiano que nos anos 1930 trocou a vanguarda artística pela movimentação política de direita”

A Semana de Arte Moderna de 1922 fazia parte desse movimento de fabricar o “gigante pela própria natureza”, mas que também era diverso pela própria natureza.

De certo modo, ao me batizar apenas com o nome do meu bisavô paterno, meus próprios pais negaram simbolicamente a diversidade que trago em meu sangue. Meu avô materno, Zicão de Castro – caipira, feirante, caminhoneiro, violeiro autodidata e sem diploma superior – fazia parte desses outros mundos que foram obscurecidos pelo pensamento neobandeirante de Menotti. Minha música vem da catira que minha família por parte de mãe cultivava no terreiro de meu avô Zicão. Vem das congadas nas festas de São Benedito que aprendi a amar com Zicão em sua cidade natal, Silvianópolis, no sul mineiro.

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Meno Del Picchia/Arquivo

Mas a raça brasileira que Menotti sonhava não tinha espaço para as populações que haviam sido escravizadas e que louvavam o rei Congo em Minas Gerais. Não havia espaço para a multiplicidade de povos indígenas, para caboclos nem Jecas, como ele coloca em crônica de 1920 intitulada “A Nossa Raça”, publicada no Correio Paulistano sob seu pseudônimo Hélios:”A lenda do caboclo é como a lenda de Cadmus e dos vagos fenícios que formaram a grande Grécia. Daqui a anos esse tipo bizarro tomará indistintas proporções mitológicas. Será absorvido, é claro. Será uma memória apenas, é claríssimo… Nem por isso o Brasil deixará de ser cada vez mais brasileiro; talvez nunca o fosse tanto como agora que começa a criar sua independência industrial e econômica. Nos últimos ranchos que esboroam agonizam os últimos Jecas… Só sinto uma cousa: sumir-se o choro plangentes das violas”.

Ora, Menotti, meu avô Zico era um Jeca de boca cheia do qual muito me orgulho. Vive em mim seu toque caipira de viola, toque com o qual, de certa forma, ajudo a manter vivo o mito indistinto da genealogia modernista-parnasiana que os Del Picchia fabricaram em teu nome!

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