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O primeiro haxixe da história

Charas é o nome do haxixe mais antigo do mundo, e ele tem uma história rica em lendas e tradições! Saiba tudo sobre esse concentrado canábico ancestral

por Girls in Green Atualizado em 12 jul 2022, 18h26 - Publicado em 12 jul 2022 00h09
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Clube Lambada/Ilustração

á milhares de anos, os seres humanos deixaram de ser nômades e se tornaram sedentários. Foi nessa época também que a agricultura começou a ser desenvolvida – nossos ancestrais coletavam sementinhas para poder propagar espécies necessárias para o seu desenvolvimento. Com as mãos nas plantas de cannabis (bem comuns na região entre o Butão, Nepal e Índia), apertando aqui e sacudindo acolá, descobriram a sua resina.

E é mais ou menos assim, de acordo com as histórias, que surgiu o charas, o primeiro concentrado canábico do mundo.

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Se você é um maconhista experiente, já deve ter visto, experimentado ou ouvido falar do charas. Além de ser permeado por ritos religiosos e lendas antigas, ele foi o pontapé inicial dos concentrados canábicos. O mais louco de tudo é que, para fazê-lo, são necessárias apenas a cannabis e as mãos – um contraste gigantesco quando observamos toda a tecnologia que envolve a produção de grande parte dos haxixes ocidentais modernos.

Bateu a curiosidade? Aqui, vamos contar para você os principais conceitos, curiosidades, tradições de uso e fabricação do charas, esse concentrado milenar.

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Nicole Bustamante/Ilustração

Para começar: o que é o charas e de onde ele vem?

Se formos pensar em um conceito bem simplificado, podemos dizer que o charas é um tipo de haxixe – que, por sua vez, é o nome dado às extrações canábicas feitas a partir das cabeças de tricoma presentes na maconha. Nessas cabeças de tricoma é que se concentram tudo o que nós, maconhistas, mais gostamos: canabinoides, terpenos, terpenoides, flavonoides e todas as substâncias terapêuticas e psicoativas da nossa amada plantinha.

Mas a verdade é que o charas não merece ser tão simplificado assim.

Falando de onde ele vem, há muito pano pra manga. Isso porque ele é tão antigo que é difícil apontar exatamente as suas origens. Acredita-se que tenha sido no norte da Índia que surgiu essa extração de tricomas, que se diferencia por ser totalmente artesanal. Como já mencionamos, ela é feita usando apenas as mãos!

Um dos seus principais diferenciais quando comparamos com outros tipos de haxixe é que ele é fabricado com a planta ainda viva: as flores e folhas são colhidas cerca de duas semanas antes da maturação completa, o que as torna ainda mais ricas em THC. Tradicionalmente, sua matéria-prima são landraces – plantas que crescem adaptadas às regiões em que se encontram, majoritariamente da variedade Indica, e que se desenvolvem sem a intervenção do homem.

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Como diferenciar o charas de outros haxixes?

Além de ser o primeiro concentrado da história da humanidade (um título que, convenhamos, já vem carregado de honra), tem muita coisa que torna o charas especial. Quando falamos em suas características, algumas das principais que você pode observar são:

– Sua cor é um marrom bem escuro, quase preto, por fora; e verde escuro ou marrom por dentro;

– Por ser feito com plantas ainda vivas, seu perfil de terpenos é um dos mais ricos;

– Sua maciez faz com que ele possa ser manipulado facilmente. Se ressecado, pode esfarelar;

– Uma altíssima concentração de canabinoides – alguns dos originais podem ter até 40% de THC – o torna muito, mas muito potente;

– Feito manualmente, é livre de solventes e uma ótima estratégia de Redução de Danos.

Atualmente, o charas original é muito raro. Isso porque o processo para produzi-lo é demorado e rende pouco. Isso também faz seu preço ser bem elevado! É bem comum na Índia por razões religiosas, mas também pode ser encontrado em outros contextos, como nos famosos coffee shops holandeses.

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Nicole Bustamante/Ilustração

Epa! Haxixe na religião?

É isso mesmo que você leu: antes de ser criminalizada no ocidente (e até os dias de hoje), a maconha e o charas se conectaram intrinsecamente a algumas religiões – principalmente ao hinduísmo.

A plantinha, além de ser considerada sagrada nos textos dos Vedas, escritos há mais de dois mil anos, ganha destaque em diversos rituais e festividades na Índia. Olha que interessante: segundo lendas e contos locais, o próprio deus Shiva consumia o concentrado durante suas meditações nas montanhas.

No país, ele normalmente é vendido em pequenas bolinhas ou bastões. Tradicionalmente, é utilizado em uma espécie de cachimbo chamado chillum, utilizado por monges hindus, os sadhus.

Esse ritual tem um significado espiritual que pode ser comparado à ingestão de vinho tinto pelos católicos. Frequentemente, o cachimbo é partilhado por um grupo – cada um dá uma tragada e passa para o seu lado direito. Os homens sagrados o levam em direção à testa, como um convite ao deus Shiva e alguns outros para aproveitar do prazer da inebriação.

Segundo a simbologia hindu, o charas representa a mente, o chillum simboliza o corpo de Shiva e a fumaça representa a influência sagrada dos deuses.

Inclusive, é por causa desses usos ritualísticos que a Índia sempre se posicionou contra o proibicionismo e a Guerra às Drogas em convenções internacionais. Embora tenha perdido algumas lutas, o uso de cannabis e charas é bem tolerado por lá.

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Nicole Bustamante/Ilustração

Como o charas é feito?

O charas tradicional indiano, como já explicamos, é artesanal e feito com a planta ainda viva. Seu processo consiste em esfregar a palma das mãos lentamente e repetidamente sobre as flores e folhas próximas a elas, até que todos os tricomas se separem do resto da matéria vegetal.

Mas é trabalho para caramba para um rendimento bem mixuruca: para você ter uma ideia, em oito horas de trabalho, normalmente são extraídas cerca de 12g de charas. Por isso que ele é tão valorizado por aí, e pelo qual pessoas que cultivam em casa não costumam fazer. O que se faz muito é o chamado neocharas – no qual os trimmers limpam suas tesouras e coletam a resina que se deposita ao cortarem suas plantas.

Para fazê-lo, basta ter flores de cannabis de plantas vivas que ainda estejam enraizadas e mãos muito limpas – afinal, você não quer germes no seu hash.

O passo a passo é mais ou menos assim:

Antes de começar, as mãos devem ser bem lavadinhas. Depois disso, basta pegar uma flor de cannabis na mão e remover as folhas e caules. Aí, a flor deve ser colocada entre as duas palmas e enrolada suavemente, em um movimento circular. Não se aplica muita pressão, ou o charas pode ser contaminado com matéria vegetal.

Nesse processo, uma resina grossa vai se formando no interior das mãos e dedos. Isso é essencialmente o charas. Ele é raspado e pressionado para criar um pequeno bloco ou bola. E isso se repete por quantas vezes e com quantos buds se faz necessário.

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E como o charas é consumido?

No chillum, que é a forma mais tradicional e ritualística de se consumir o charas, normalmente ele é misturado com flores ou tabaco. Caso escolha o segundo, é preciso aquecer o equivalente a um cigarro (sem queimá-lo) para que ele seque e esfarele bem. Faça isso na própria mão ou em uma tigela. Depois, basta juntar o haxixe, misturar com os dedos e transferir a mistura para o recipiente do chillum.

Um tecido, de preferência de algodão, é usado como um filtro embaixo do chillum. Assim, ele é fumado! E lembre-se: essa maneira é mais ritualizada e deve ser feita sempre com respeito.

Já no beck, o procedimento é bem parecido com os outros tipos de haxixe. Basta colocar a flor dichavada ou outro tipo de fumo na cuia, fazer uma cobrinha de charas, picotá-la e misturar bem. O baseado é bolado normalmente com essa misturinha, sem esquecer da Redução de Danos – seda de qualidade, piteira longa e filtro! Aqui, o segredo é equilíbrio entre hash e fumo para que tudo carbure sem problemas.

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Nicole Bustamante/Ilustração
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Se for usar, o cuidado é chave

Vamos falar de coisa boa? Vamos falar de reduzir danos! Para começar, o ideal é saber a procedência do seu haxixe e como ele foi feito. O famigerado “pretinho” que circula aqui pelo Brasil por exemplo, tem chances muito maiores de ser paraguaio – e não indiano.

Além disso, tenha muito cuidado na hora de dosar. As extrações canábicas são potentes e contêm altas concentrações de canabinoides. Elas podem ter muito mais THC do que seu corpo está acostumado! Por isso, pegue leve: comece devagar e observe as reações do seu corpo antes de consumir mais. E isso vale não só para o charas, mas para qualquer outro tipo de haxixe.

Respeite seus limites e Boom Shankar!

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As imagens que você viu nessa reportagem foram feitas por Nicole Bustamante. Confira mais de seu trabalho aqui.

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