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Comunicação não-violenta em 4 passos

A prática ajuda a entender os próprios sentimentos e estabelecer um diálogo compassivo com o outro

por Beatriz Lourenço 4 mar 2022 02h54
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Laís Brevilheri/Redação

uando o assunto é Big Brother Brasil, o público normalmente espera babado, confusão e gritaria como forma de entretenimento. E, por mais que o ator Tiago Abravanel quisesse que esta edição fosse paz e amor, percebemos que a falta de comunicação entre os brothers gera fofocas, intrigas e até corações partidos. É preciso lembrar que usar as palavras erradas no diálogo pode levar a muito mais do que magoar os sentimento dos outros: dependendo do nível de agressividade e dos termos usados, podem acontecer casos de racismo e discriminação, que são crimes. 

O caso da ex-participante Maria, que foi desclassificada e expulsa do BBB 22 por acertar um balde de água na cabeça da Natália durante o jogo da discórdia do dia 14 de fevereiro, mostrou que é preciso tomar cuidado com acúmulo de agressividade e tensão, já que isso pode acabar machucando fisicamente outra pessoa. O ideal para garantir a boa convivência é sempre manter uma conversa sincera quando há algo que o desagrada. 

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Para Evary Elys Anghinoni, mestre em Comunicação e Linguagens e professora da PUC-PR, a maior violência que cometemos na fala é o julgamento da ação dos outros: “Quando fazemos isso, o outro se sente atacado. Dessa forma, ele tem duas possibilidades: se defender ou te atacar de volta. É por isso que usar a técnica da comunicação não-violenta é uma saída viável.” 

A Comunicação Não-Violenta (CNV) é um conjunto de práticas que transforma a maneira como nos relacionamos. Isso porque ela ajuda na elaboração do que sentimos e na forma que nos expressamos, aumentando a compreensão e a conexão. “O objetivo é eliminar a taxa reativa de acordo com a nossa maneira de falar”, explica Evary.

“Quando julgamos a atitude de alguém, essa pessoa se sente atacada. Dessa forma, ela tem duas possibilidades: se defender ou te atacar de volta. É por isso que usar a técnica da comunicação não-violenta é uma saída viável”

Evary Elys Anghinoni

A teoria surgiu nos anos 1960, quando o psicólogo norte-americano Marshall Rosenberg entendeu que melhorar o jeito de se comunicar era essencial para uma sociedade mais plena e com menos conflitos. No auge do movimento a favor dos direitos civis nos Estados Unidos, ele atuava como orientador educacional em instituições de ensino que eliminavam a segregação racial. Foi aí que elaborou um método simples inspirado na definição de Gandhi de não-violência, que se refere a uma condição compassiva natural que aparece quando a violência é afastada do coração.

A abordagem compreende as habilidades de falar e ouvir, possibilitando laços verdadeiros consigo mesmo e com quem nos cerca. A ideia é que as interações ocorram com mais respeito, atenção e empatia. Ela pode ser usada em qualquer círculo social, como família, amizades, relacionamentos amorosos e no trabalho. “O objetivo é mostrar o que te incomoda e como você se sente sem fazer qualquer avaliação sobre a atitude alheia”, ressalta a especialista.

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Laís Brevilheri/Redação

Conectar-se com o outro

Para que a comunicação empática ocorra, Rosenberg explica que é preciso de apenas quatro passos:

olhos1. Observação
O primeiro é observar a situação sem qualquer julgamento de valor. A ideia é não interpretar o que está acontecendo, mas comunicar o que se está vendo. O segredo aqui é compreender o que se gosta ou não diante das atitudes alheias.

sentimento

2. Sentimento
A partir daquilo que foi visto, é preciso identificar o que aquele fato te causou. Pense nos sentimentos e se permita ser vulnerável para resolver os conflitos. “Se não é possível articular o que está sentindo, não é a hora de falar. Vale se afastar para poder esfriar a cabeça e analisar melhor. Isso faz parte da educação emocional”, afirma Evary. “Precisamos ter um repertório das emoções para conseguir identificar cada uma delas. Às vezes, estar triste significa estar frustrado e saber disso é essencial para entender os gatilhos que causaram isso.”

Lista de sentimentos: calma, raiva, triste, deprimido, inspirado, energizado, alerta, motivado, curioso, interessado, irritado, receoso, desconfortável, chateado, frustrado, surpreso, tenso, amoroso, centrado, feliz, alegre, disposto, agitado, exausto, desconcentrado, desanimado, renovado, grato, empoderado, seguro, aliviado, fragilizado.

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3. Necessidades
A partir da compreensão de qual sentimento foi despertado, é ideal reconhecer e dizer de forma clara quais necessidades estão ligadas a ele. Só assim você vai conseguir explicar e comunicar ao outro o que te desagradou.

Lista de necessidades humanas universais: ser visto, pertencer, amor, presença, liberdade, solitude, autonomia, harmonia, inclusão, segurança, reconhecimento, responsabilidade, empatia, equidade, escolha, aceitação, coerência, apoio, afeto, confiança, conhecimento, comprometimento, contribuição, intimidade, compaixão, conexão.

debate

4. Pedido
O último passo é fazer uma solicitação específica para o outro – sempre ligada a ações concretas. “Lembrando que se é um pedido, a pessoa tem o direito de recusar e devolver a você o lugar de fala para que uma nova negociação seja proposta”, aponta a professora. 

Em um contexto empresarial, por exemplo, a CNV funciona assim: 

Situação: Uma pessoa que deveria entregar um projeto em uma data específica atrasou o trabalho.

Forma violenta: Julgar o que aconteceu e dizer que o indivíduo foi irresponsável, fazendo uma acusação.

Forma não-violenta: “Nós havíamos combinado que o projeto seria entregue nesta data e não foi (observação). Fiquei angustiado (sentimento) porque eu dependia dele para fazer o meu trabalho (necessidade). Eu preciso disso o mais rápido possível, qual é a primeira data que você consegue me entregar? (pedido).”

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“A grande influência desse processo na convivência é que deixamos de estar presentes nos momentos importantes. Se estamos em uma discussão ou conversa e a cabeça está projetando respostas ou pensando em outras coisas, a chance de trazermos falas não produtivas é muito grande”

Evary Elys Anghinoni

O grande desafio da CNV é estar presente e exercitar a escuta ativa. Isso porque vivemos em uma sociedade em que há a rapidez dos atos, sentimentos e respostas. Assistimos a filmes enquanto checamos as redes sociais e ouvimos áudios na velocidade mais rápida. “A grande influência desse processo na convivência é que deixamos de estar presentes nos momentos importantes”, diz Evary. “Se estamos em uma discussão ou conversa e a cabeça está projetando respostas ou pensando em outras coisas, a chance de trazermos falas não produtivas é muito grande.”

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