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Sem memória

Bandeirantes, escravistas e assassinos homenageados com estátuas e bustos. Seus nomes estão eternizados em avenidas, ruas, edifícios e parques. Até quando?

por Erika Hilton Atualizado em 10 ago 2021, 12h11 - Publicado em
9 ago 2021
12h42

Erika Hilton

“Um povo que não conhece sua história está fadado a repeti-la.” Essa é uma frase usada para relembrar diversos processos históricos e, no caso específico do Brasil, é hegemonicamente empregada para gerar reflexões sobre a herança maldita do autoritarismo da ditadura cívico-militar na estrutura de nossa sociedade.

Para além desse período, se faz urgente ampliar o debate proposto por essa máxima e casá-la com outros aspectos dessa herança, inclusive mais profundos e enraizados na nossa sociedade. Precisamos olhar para nosso passado para entender como opressões e explorações de raça e classe se estruturaram e se cristalizaram, traços que perduram como reflexos de uma abolição incompleta de nosso povo pobre, preto, trabalhador, a herança colonial, escravista e genocida que mantém até hoje sua sanha punitivista contra corpos negros, dissidentes, os corpos destinados à servidão e à entrega para os senhores das casas grande.

Não é que faltem referências para que as brasileiras e brasileiros conheçam seu passado. Elas são abundantes e estão à vista em dezenas de estátuas, museus, bustos, em nomes de rodovias, parques, ruas, avenidas, edifícios. Identidades de bandeirantes, escravistas e assassinos, civis e militares, todos pintados como heróis. Enquanto isso, figuras históricas da negritude e dos povos tradicionais foram completamente dizimados, massacrados, propositalmente esquecidos e invisibilizados da nossa história, escrita de maneira a reforçar os apagamentos e silenciamentos, naturalizando processos históricos como se eles nada tivessem a ver com as mazelas atuais da estrutura social em que somos compulsoriamente inseridos de acordo com nossa raça, etnia, classe social e gênero.

A memória está aí para que todos vejam, em praça pública. Falta compreensão, portanto, de que essas homenagens não são apenas símbolos e homenagens adorados por uma elite racista e cafona, cujo incêndio sensibiliza e indigna mais do que pessoas como nós (mas diferentes deles) morrendo de frio nas ruas, presas injustamente por crimes que não cometeram. São valores enraizados dessa elite que até hoje se deleita em privilégios enquanto uma massa negra, periférica e trabalhadora entrega suas compras, seus jantares, limpa suas casas e em troca é explorada, presa, perseguida e morta.


“Falta compreensão, portanto, de que essas homenagens não são apenas símbolos e homenagens adorados por uma elite racista e cafona, cujo incêndio sensibiliza e indigna mais do que pessoas como nós (mas diferentes deles) morrendo de frio nas ruas”

Para subverter esses valores e, portanto, a estrutura de uma sociedade, não é preciso apenas conhecê-la. Às vezes, uma faísca é necessária para acender o debate que permitirá reescrever nossa história, para impedir que ela se repita.

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