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Largados, pelados e queimados de sol

Visitamos uma praia de nudismo para descobrir o que um monte de gente sem roupa faz à beira-mar

por Artur Tavares Atualizado em 19 jan 2022, 16h02 - Publicado em 19 jan 2022 09h05
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Clube Lambada/Ilustração

izem que a História humana, assim mesmo com H maiúsculo, é feita de contradições. São elas que fazem girar o motor do progresso, das mudanças. Tirar pela primeira vez minha sunga em uma praia de nudismo me fez perceber que nem toda contradição leva de fato a uma evolução.

Nascemos todos pelados, e ao longo dos últimos 10 mil anos descobrimos como trabalhar tecidos vegetais, couros e peles animais para cobrir nossos corpos. Passamos a usar túnicas, saias, vestidos, calças, camisetas, ternos, cobrimos nossas vergonhas da cabeça aos pés, transformamos vestimentas em moral, poluímos nossos cérebros com julgamentos, e tudo isso para que, quando chega o verão, a gente queira ficar peladão.

Porque, em maior ou menor grau, estar na praia é mostrar o corpo, e isso exige um desprendimento. Acontece que quando cobrimos nossas genitais, nosso cérebro entende que não há mais diferença se estamos usando uma sunga, um maiô ou um trenchcoat. Soa bizarro dizer isso, mas coloque-se nesse lugar e me diga se você não se sente igualmente “protegido” dos olhos alheios assim.

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A grande maioria das pessoas que nunca foi a uma praia de nudismo tem dúvidas ao mesmo tempo pertinentes e absurdas sobre esses locais e os frequentadores. O que pode e o que não pode, afinal?

De acordo com as regras das sociedades naturistas – que certificam e estabelecem as normas de boas condutas dessas praias de nudismo –, as principais delas são condutas que garantem respeito, uma característica que deveríamos ter em todos os momentos das nossas vidas. Não fique olhando para outras pessoas a ponto de deixá-las desconfortáveis, não saia dando em cima de desconhecidos, não transe em público.

Na Praia da Galheta, na região leste da ilha de Florianópolis, as formações rochosas de pedras altas até formam lugares privativos para quem quiser se pegar, mas não acho que tenha sido o caso no dia que estive por lá. Também não notei ninguém olhando avidamente para meu corpo, nem pela curiosidade que eu eventualmente possa causar por ter minha bunda completamente tatuada.

Nesse sentido estritamente descritivo, o que dá pra dizer é que uma praia de nudismo é exatamente igual a qualquer outra: as pessoas tomam sol, comem camarão frito, bebem caipirinha, nadam no mar. A grande diferença são os locais do seu corpo que a areia alcança [risos].

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Arte/Redação

Sobre liberdades e prisões mentais

Por ser uma praia de nudismo opcional, a Galheta é um bom ponto de partida para curiosos que querem experimentar a prática do naturismo. Acessada apenas por uma trilha, ela é reconfortante logo de cara: os dois primeiros quiosques têm hasteadas as bandeiras arco-íris do movimento LGBTQIA+, hoje um símbolo que tornou-se também expressão máxima da quebra de preconceitos entre as pessoas.

Não se trata de uma praia exclusiva do público LGBT, embora no contexto atual da nossa sociedade dê pra dizer que todo mundo ali seja minimamente queer, até mesmo os heterossexuais.

Realmente interessante ali é a quebra total de paradigmas em relação aos corpos. Em tempos em que debatemos tanto neutralidade corporal e inclusão de corpos fora do padrão na mídia e em todas as engrenagens de consumo, percebe-se que para ficar sem roupa é preciso primeiro aceitar a si mesmo. Porque ficar nu é, em primeiro lugar, vencer barreiras e questionamentos como: “Eu sou bonito? Eu sou desejável? Estão me objetificando? Vão me comparar com alguém?” E então, desnudar-se torna-se um ato de olhar ao seu redor e perceber a beleza na diferença.

A partir do momento que você tira a roupa e fica lado a lado com outros pelados, acaba a separação. Não há moral que sobreviva a não ter aquilo que julgar: você (ou o outro) não usa roupa de grife ou dirige um carro melhor; seu pau pode até ser maior do que de alguém, mas outra pessoa terá um pau maior que o seu; todo mundo tem estrias, celulite, cicatrizes, pés chatos, mãos grandes, dentes tortos, pêlos, barba, cabelo e bigode. Você pode ser lindo, mas com certeza é feio para alguém. E o mais mágico de tudo isso é que foda-se, está tudo bem, ninguém se importa.

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A chatice da heteronormatividade machista

Daí que eu estava com a minha companheira na Galheta, e ao nosso redor estava um casal de namorados – também um homem e uma mulher – acompanhados de duas amigas, e um casal de boys gays com um terceiro amigo ali curtindo também. Meu pensamento logo alcançou meus amigos, e fiz um comentário sobre como um grupo de quatro “parças” HT nunca ficariam de boa numa praia de nudismo.

A heteronormatividade machista nos impede de conviver entre homens porque somos educados para competirmos entre nós, para sermos alfas. O hetero comum não quer ver a genital do amigo, e muitas vezes a mulher atingida pelo machismo não quer que seu namorado/parceiro/peguete fique nu perto de outras mulheres, mesmo que sejam melhores amigas.

Há ainda o agravante do preconceito. Heteros e gays juntos de bundinhas pra cima tomando sol? DU-VI-DO! A masculinidade é muito mais frágil que uma taça de cristal. E isso é completamente bizarro porque um monte de mulheres andavam juntas na praia, mas todos os grupos exclusivamente masculinos eram gays.

Se parte de mim fica aqui pensando quanto tempo vamos demorar para superar essa situação enquanto homens, me alegra que pelo menos uma vez na vida eu estava em um ambiente praticamente 100% seguro para o sexo feminino, e isso já é muito.

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Paula Jacob/Arquivo
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Claro que nem tudo são flores para elas. Quantitativamente, havia mais homens completamente pelados que mulheres. Muitas delas estavam apenas fazendo topless, e isso também deve ter a ver com as opressões machistas sobre corpos e as violências diárias que elas sofrem devido à objetificação.

Havia, também, menos corpos femininos jovens fora do padrão, embora houvesse mais mulheres de meia idade e acima disso sem roupa. Talvez a maturidade e as experiências de vida tragam um pouco mais de liberdade, e talvez isso se aplique aos homens também.

Tudo isso é muito bizarro de se escrever porque em um monte de países o nudismo é praxe nas praias, na beira de lagos e rios. As pessoas simplesmente tiram as roupas para tomar um pouco de sol, se bronzearem, sem implicância moral alguma. Já o Brasil, terra do samba, do calor e da sensualidade, vive num conservadorismo de fazer inveja e inspirar talibãs.

Nesse começo de ano, vá a uma praia e tire a roupa se puder. E, em vez de olhar para os outros, veja a si mesmo. Não por fora, mas por dentro. Faça uma análise real de como andam seus conceitos. Vai ajudar muito entender que, para sermos todos iguais de verdade, o primeiro passo é desnudar-se não somente metaforicamente, mas para a vida em geral.

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