estímulos

Assédio entre gays: existe e é um problema

O machismo e a sociedade patriarcal fazem parecer que não, mas abusos sexuais e até estupro são naturalizados em muitas situações entre homens gays

por Uno Vulpo - Sento Mesmo 28 nov 2021 23h23
N

uma típica balada, você está ali, dançando horrores, e de repente alguém passa a mão em você. Essa cena pode acontecer de várias formas, certo? Pode ser um rapaz escroto e machista passando a mão em uma mulher, como também pode ser uma mulher passando a mão em outra mulher, ou um homem passando a mão em outro homem. Nas duas últimas situações, pelo menos na minha cabeça, o pensamento de que é um assédio não é tão pesado, nítido – e, talvez, até imediato – como o da primeira. E para você? 

O jornalismo em que a gente acredita depende de você; apoie a elástica

Antes, tenho que explicar alguns conceitos que ficam muito confusos quando a gente fala sobre assédio, importunação e estupro. Esses termos são utilizados de maneiras diferentes em contextos diferentes e as definições legais podem variar de país para país. Assédio sexual é mais utilizado quando estamos falando de ambientes de trabalho ou outros locais onde exista uma clara hierarquia entre os envolvidos. Está até descrito no Art. 216-A do Código Penal que é quando alguém, partindo de uma diferença de hierarquia, constrange a vítima importunando, perseguindo, agindo e propondo com o objetivo de conseguir alguma vantagem sexual. O famigerado “Teste do Sofá”, por exemplo, é um tipo de assédio sexual, já que é uma pessoa dar um emprego a outra só depois de uma transa.

Já a importunação sexual (Art 215-A) é para quando essas situações acontecem em outros contextos mais amplos. É quando, por exemplo, chega alguém te encoxando na balada, rouba um beijo, passa a mão em você ou faz qualquer coisa de cunho sexual sem seu consentimento. E estupro é quando alguém, usando de violência ou ameaça, força relações sexuais – seja com ele mesmo ou com outras pessoas.

-
Antônio Luvs/Ilustração
Continua após a publicidade

“Como é que você negou um gostoso desses, bicha?”

Quando o abuso acontece entre um homem e uma mulher, mais frequentemente, esse abuso é baseado em estruturas machistas e patriarcais. O homem é socializado para ser um animal sexual, agressivo, viril, que não nega sexo e que tem a mulher como objeto de sua posse. No fim, já sabemos o que essa socialização acarreta, certo?

Entretanto, quando temos um homem abusando/assediando outro homem, a coisa fica mais confusa. Nesses casos, numa primeira análise, várias das ideias que são bases do abuso heterossexual teoricamente não se aplicam nessa relação homossexual, já que são duas pessoas num mesmo nível social e existe uma dificuldade de visualizar a mesma estrutura de quando o abuso é ‘heterossexual”. A suposta relação de posse do homem para com a mulher não existe entre dois homens, os envolvidos não deveriam negar sexo e, assim ,as relações de poder vão para um campo que não estamos habituados a discutir. Tudo isso, dificulta que homens gays entendam quando passam por importunações e assédios. É comum vermos que muitos não percebem a indignação de quando um cara – ainda mais se ele for um rapaz padrão, tido como gostoso – manda um nude sem pedir ou passe a mão sem consultar antes. Normal né? Receber um nude do nada na DM do Instagram ou no Grindr? Se o cara for babadeiro, tá tudo certo!

“A suposta relação de posse do homem para com a mulher não existe entre dois homens, os envolvidos não deveriam negar sexo e, assim ,as relações de poder vão para um campo que não estamos habituados a discutir. Tudo isso, dificulta que homens gays entendam quando passam por importunações e assédios”

-
Antônio Luvs/Ilustração
Continua após a publicidade

Bom, quando eu tinha 23 anos, conheci um rapaz numa balada, um turista que estava acompanhado de um amigo. Fiquei com esse turista, bebemos bastante e eu realmente “casei” com o boy na balada, ficamos o tempo todo juntos. Mais tarde, fomos todos para o aparthotel em que eles estavam hospedados, e por conta da bebedeira, eu e o boy combinamos de ir dormir – pela manhã, a gente veria o que dava. Já cedo, eu acordei com o amigo do bofe me chupando do nada e eu fiquei tão chocado que fiz um escândalo. Saí gritando, estressado, num ponto que o segurança do hotel chegou a bater na porta para ver o que estava acontecendo. Fiquei tão envergonhado que eu queria só sumir daquele lugar. Quando a poeira baixou, e eu já longe de lá, fiquei pensando se, na verdade, não tinha negociado algo com eles ou se eu tinha dado alguma abertura ou indicativo de que eu estava afim na noite anterior e não lembrava por conta da bebedeira. Foi uma mistura de culpa e vergonha. 

Anos mais tarde, aconteceu outro caso. Em Salvador, conheci um cara que virou meu Pinto Amigo (aquela pessoa que você sempre chama para transar, mas sem compromisso. um amigue colorido). Era bom e a gente fez tantas vezes que acabamos ficando mais íntimos um do outro. Cerca de um ano depois, ele se mudou e me chamou para conhecer a casa nova dele, que era num bairro mais afastado e, assim, fui para dormir mesmo, com medo de não conseguir voltar. Bebemos, transamos e daí apaguei. Quando acordei, por volta das 4 da manhã, ainda escuro, o rapaz estava ali já me dedando, preparando terreno, passando lubrificante, para me penetrar enquanto eu dormia. Na hora, fiquei muito assustado, mas não quis brigar porque eu estava na casa dele e fiquei com medo. Daí, resolvi acordar e dar uma despistada dizendo que iria até o banheiro. Fui para a sala com medo de ele tentar de novo, esperei dar umas 5 horas da manhã e consegui voltar para casa. Mais tarde, mandei uma mensagem para ele dizendo que eu não tinha gostado nada e que aquela situação não se repetiria. Nessa última vez, eu já tinha mais clareza quanto ao abuso, então não fiquei confuso, mas percebo que foi só porque eu já tinha uma visão mais clara por meio da militância e relatos de amigas mulheres, que passam bastante por isso também. 

Marcos Tolentino, 34 anos, Salvador, historiador

-
Antônio Luvs/Ilustração

Uma consideração importante a ser feita é que, mesmo sendo gays, os homens não estão isentos de serem machistas e performarem uma educação patriarcal. Já ouvi muitas mulheres se queixarem de “amigos gays” que, apenas por não terem atração física e sexual com elas, se sentem no direito de desrespeitar seus corpos. Tais atitudes não deixam de ser importunação e assédio, pois um corpo está sendo violado ativamente por alguém, independente da pessoa ter um foco de satisfação sexual. Então, querida homossexual, você é machista também, não dá uma de Dado Dolabela, não.

A própria cultura gay colabora para que tais assédios sejam invisibilizados. Começando na pornografia, temos uma imensidão de conteúdos e filmes com roteiros trabalhando em cima de relações de assédio e importunação sexual. Se você que estiver lendo for gay, com certeza já viu algum filme em que um entregador chega e é atendido por um rapaz nu que leva ele para a cama, ou no sucesso dos filmes chamados POV (point-of-view) com os boys sendo abordados na rua por um desconhecido oferecendo dinheiro em troca de sexo. Essas e várias outras histórias, somadas com uma educação sexual pobre, que não faz um contraponto, criam no imaginário de muitos homens gays uma ilusão de que a atividade sexual pode acontecer nesses moldes, fazendo com que entregadores, mecânicos, motoristas de aplicativo, diaristas, seguranças sejam assediados diariamente. É a pornografia a culpada? Não necessariamente. Eu vejo que a culpa é mais num caminho cognitivo de distinguir realidade de ficção do que culpar a dramaturgia pela ação criminosa de muitos homens.

“Mesmo sendo gays, os homens não estão isentos de serem machistas e performarem uma educação patriarcal. Já ouvi muitas mulheres se queixarem de ‘amigos gays’ que, apenas por não terem atração física e sexual com elas, se sentem no direito de desrespeitar seus corpos. Tais atitudes não deixam de ser importunação e assédio”

Continua após a publicidade

Eu estava há 2 semanas sem vir para São Paulo e consequentemente sem dar, sem transar, sem nem um selinho com ninguém. Esperei 20 dias da minha segunda dose e finalmente voltei para a cidade, onde aluguei um AirBnb especificamente para transar. Era minha prioridade. Conheci um rapaz através de alguns amigos em comum, mas por não termos nenhum contato, ele chegou aqui na hora e foi sem muita conversa mesmo. Estava já há um ano e meio sem dar, então quase já estava desacostumado e o rapaz mesmo assim socou forte sem nem colocar gel direito. Eu pedi na hora, e várias vezes depois, para que ele fosse devagar, que eu estava desacostumado, que o pau dele era grosso, mas mesmo assim ele socava mais fundo e parava para olhar para meu rosto e rir. Comecei a me lembrar de vários gatilhos, como aquela violência física e psicológica que sofremos na escola com os bullies, situação que todo gay já deve ter enfrentado. Foi horrível.

Outro caso, já fora da pandemia, foi quando eu saía com um cara e era incrível que, independente do lugar em que eu o encontrava, eu dava um tapa na bunda dele. Era como se minha mão tivesse um ímã e eu já chegava dando o tapa, onde quer que fosse e perto de quem fosse. Um tempo depois, fizeram isso comigo e eu me senti muito incomodado e percebi que talvez eu poderia ter incomodado esse rapaz durante um bom tempo – e ele nunca falou nada. Disse para ele que, da mesma forma que não queria que ninguém invadisse meu corpo daquela maneira, eu não iria mais invadir o corpo dele. 

Anônimo, 26 anos, São Paulo

-
Antônio Luvs/Ilustração

Refletindo sobre isso tudo, percebi que os comportamentos adquiridos de uma educação patriarcal e machista não desaparecem, mas são traduzidos dentro da realidade homossexual. A naturalização do assédio e abuso precisa ser mais discutida, incluindo esses outros recortes – inclusive entre mulheres lésbicas – para que tenhamos menos dificuldade de compreender quando que os limites são ultrapassados nas relações. Seja em situações mais claras, como a importunação física ou aqueles casos dos “testes do sofá”, ou em situações mais sutis e já naturalizadas que acontecem nos aplicativos de relacionamento ou redes sociais – mandar nude do nada ou fotos alheias sem permissão entre amigos. 

Então, gato, gata ou gate, não é normal passar a mão na bunda do carinha na balada, não é normal passar a mão no pau para “flertar”, não é normal mandar fotos de nudes sem uma solicitação prévia e não é normal receber propostas sexuais em troca de emprego. Se liga hein?

__________________________________

As imagens que você viu nessa reportagem foram feitas por Antonio Luvs. Confira mais de seu trabalho aqui.

Continua após a publicidade

Tags Relacionadas
mais de
estímulos
Uma conversa entre amigas sobre casos reais para mostrar como a mulher solteira sofre
gri

Afinal, o que é ser assexual?

Por
É hora de entender que os assexuais – espectro que permeia quase 2% da população brasileira – se relacionam e podem, sim, transar
cruzeiro

O ABC do gay cruising

Por
Gratuitos, consentidos e anônimos, os encontros sexuais rápidos e fáceis em locais públicos expõem prazer, tensão e vulnerabilidades. Mas não apenas isso
5-tantra

Voltar a se relacionar

Por
Com o aumento gradativo das interações sociais, matamos um pouco a vontade de transar com mais pessoas. Mas 2021 ainda foi um ano para repensar relações
contraceptivos-1_bebe-horizontal2-berje

Fugindo de bebês

Por
Em um país que proíbe o aborto e tem 55% das gravidezes não planejadas, falar sobre contraceptivos é fazer o que a saúde pública não faz

Não é ? Sair.

Ter independência no discurso, manter uma rede diversa de colaboradores, remunerar bem a todos e fomentar projetos sociais são bases fundamentais para a Elástica.
Vivemos de patrocínios de empresas que acreditam em nosso discurso e nossas causas, além da colaboração dos nossos leitores através de assinatura digital. Na página de Contas Abertas você pode ver os valores que hoje a Elástica arrecada, e conferir os custos que incorremos para produzir o conteúdo que oferecemos.