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Da solidão de homens negros que, sozinhos, encontram a morte

Tragédias tão comuns à vida não são apenas fatalidades quando acontecem com uma parcela da população estigmatizada na sociedade

por Roger Cipó Atualizado em 26 jul 2021, 11h02 - Publicado em 25 jul 2021 21h22
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Clube Lambada/Ilustração

m dia desses, minha ex-namorada me escreveu para contar que seu tio havia falecido. Mais triste que a própria morte, a circunstância: ele, um homem negro de pele escura foi encontrado morto, dentro de sua casa, sozinho. Familiares estranharam a falta de contato, por dias, e foram procurar.

Depois daquela mensagem, eu paralisei por longos dois minutos e, após responder com minhas condolências, contei que meu tio, um homem, igualmente negro de pele escura, foi encontrado morto e, também, sozinho. Nós morávamos no mesmo quintal.

Era uma segunda-feira, abril de 2020. Meu irmão mais velho veio ver minha mãe, como faz de tempos em tempos. Aquele dia estava estranho. Quando meu irmão chegou, falou com minha mãe, tomou café, bateu na porta do meu quarto e disse que já voltava, pois iria nos fundos, ver meu tio. E foi. Bateu na porta, gritou e nada. Conta ele que, quando tentou abrir a porta, viu pela fresta que meu tio estava caído contra a parede, como quem tentou pedir alguma ajuda.

Sem batimentos, sem cor e só… Morreu sozinho.

Naquele dia, um terrível buraco se abriu na gente, porque todo mundo ficou se perguntando: “Será que ele pediu ajuda? Será que ele chamou e a gente não ouviu? Por que ele estava assim?”, e outras questões desoladoras. Eu me silenciei, não fui ao sepultamento e, até hoje, me pergunto: “Será que ele tentou chamar algum de nós?”

Um ano depois, ao saber da triste partida do tio de Gisele, minha ex-namorada, revivi alguns desses sentimentos e angustiado, escrevi no Twitter sobre essa tristeza que não é coincidência. Nossos tios se encontraram com a morte, mas antes se encontraram com a solidão e o mais cruel é que, como escrevi, eles não são os únicos e nem serão os últimos homens negros que terão esse fim.

Dói escrever isso porque sou um homem negro que não está livre de encontrar com a morte dessa forma: sozinho. Dói porque, com as respostas e menções, nesse tweet, conheci outros relatos de familiares que encontraram seus homens pretos escuros, mortos em condição de solidão. Talvez, ao ler esse texto, você se lembre de outro homem preto que morreu dessa forma.

Confesso que avaliei muito se traria essa reflexão para cá, principalmente porque a experiência me mostra que pouco se tem de atenção para as questões mais sensíveis das experiências sociais de homens pretos no Brasil. Não porque nós, esses homens, não produzimos e dialogamos sobre, mas porque o imaginário (que mantém a prática) naturaliza o violento tratamento que nos é dispensado, por aqui e não se questiona sobre. A violência aqui não se basta na ação policial que nos trata como principais inimigos do bem-estar social, nem na forma com que o Estado nos abate, porque nos entende como ameaça.

A ausência de políticas públicas direcionadas a nós é ação violenta.

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E a falta de condições para que esses homens tratem as doenças advindas desses trabalhos que ninguém quer fazer.

“Qual foi a última vez que você viu uma campanha contra doenças que acometem homens pretos, na maioria dos casos? Por que a sociedade não discute o cárcere como questão de saúde pública, nesse país onde a maioria das pessoas privadas de liberdade são homens pretos? E os adolescentes negros que são obrigados a abandonarem as escolas, para se tornarem “homens” e ajudarem no sustento de suas famílias marginalizadas por um país racista?

Sobre isso, preciso lembrar algo importante: Se você usa muito internet, já viu que, em algum momento, falarem: “No Brasil, homens perdem o pênis porque não querem se lavar”. É verdade que cerca de mil pênis são amputados, por ano, no país. Você sabe quem são essas pessoas?

Não são os homens que estão na internet ou em aplicativos de relacionamentos. São homens, em sua maioria negros, em condições de rua, trabalhos precários e insalubres, ou sem acesso a saneamento básico; A maioria está em estados como Maranhão e Piauí. Você conhece as condições sociais de homens pretos nesses estados? Procure saber para não espalhar o que já se tornou senso comum, para uma geração limitada da internet que faz chacota com esse triste dado de amputação de pênis, reduzindo a descuido de homens, sem dar cor e localização social desses homens.

Uma hora, eu volto nessa conversa que merece muito mais atenção, mas trago agora como um exemplo das complexidades em que esse grupo, que faço parte, está inserido.

“Se você usa muito internet, já viu que, em algum momento, falarem: “No Brasil, homens perdem o pênis porque não querem se lavar”. É verdade que cerca de mil pênis são amputados, por ano, no país. Você sabe quem são essas pessoas? Não são os homens que estão na internet ou em aplicativos de relacionamentos. São homens, em sua maioria negros, em condições de rua, trabalhos precários e insalubres, ou sem acesso a saneamento básico”

De volta a questão das violências, eu insisto nesses exemplos e poderia citar mais alguma dezenas para dizer que a violência polícia é uma só, nessa estrutura bem arquiteta e mantida, que extermina homens negros, todos os dias. Vários de nós morrem antes de encontrar a bala, a doença, os quartos frios de hospitais, o cárcere e as drogas.

O dado mais publicizado sobre o genocídio da população negra no Brasil afirma que a cada 23 minutos, um jovem negro morre, por aqui. Experimente somar esse dado aos de mortes pelas causas de ausência de políticas de saúde, aos de doenças crônicas que “curiosamente” tem entre suas vítimas, homens negros como maioria, aos de suicídios – que também tem em sua maioria, jovens negros, e outros dados. A experiência social de homens negros nesse país é a de tragédia absoluta como regra.

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Roger Cipó/Fotografia

Aqueles de nós que furam os bloqueios, conseguem estudar, ganhar algum dinheiro são a exceção que comprova a triste regra de miserabilidade e mortes. Por isso também que, ao olhar para a condição de homens negros, não se deve ter como único parâmetro os poucos homens negros que são jogadores de futebol, artistas, celebridades e afins. Esse grupo é pequeno, quase um acaso da história, porque, repito, a regra de morte para todos nós é clara. E reduzir nossa experiência social a um pequeno grupo é desonesto, também, mas não me demorarei nesse tema que merece mais tempo.

“Aqueles de nós que furam os bloqueios, conseguem estudar, ganhar algum dinheiro são a exceção que comprova a triste regra de miserabilidade e mortes. Por isso também que, ao olhar para a condição de homens negros, não se deve ter como único parâmetro os poucos homens negros que são jogadores de futebol, artistas, celebridades”

Então, por que passei por todos esses lugares, se comecei falando da morte solitária de homens pretos?

Porque a morte preta solitária não é repentina. É parte desse projeto de sociedade. Ela é construída, ao longo da história. Tanto é que acontece em milhares de outros lares, todos os dias. E todos os dias, outros homens pretos, como eu, temem encontrar a morte sozinhos (essa foi uma das respostas para meu tweet). Alguns até me escreverem dizendo que sabem que esse é o futuro. Agora, pensem como é cruel viver sabendo que você morrerá sozinho. Alguém só pode pensar isso se já vive uma experiência de solidão durante boa parte de sua vida…

Diria o Mestre Luiz Melodia que “cruel é isso tudo” e nós homens negros, sabemos disso, desde que nascemos.

Certa vez, um mais velho me disse: “Faz tempo que eu sinto que querem me matar, e eu vivo com essa certeza”. E eu pergunto a você que me lê: consegue imaginar o que é viver com esse sentimento? Pois é…

Por aqui, escrevo para dar conta da angústia que é a constante tragédia quase-vida e quase-morte. E nesse sempre “quase”, espero ter tempo. E que meus iguais também tenham. Por aqui, sigo tentando… acordar, desviar, trabalhar, ser, cuidar, me guardar, não morrer.

Aos homens pretos que me leem, eu digo: continue, irmão. Nós, que sabemos que estamos em solo inimigo, precisamos continuar a luta que é tentar viver, sem morrer, e mesmo com medo, continuemos…

(essa conversa, continua…)

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