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Permitir a vida

Doei quatro sementes de cannabis para um casal de idosos extraírem óleo, e auxiliar no bem-estar deles renovou minha fé

por Artur Tavares Atualizado em 25 out 2021, 14h44 - Publicado em 24 out 2021 22h39
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arte/Redação

uando a pandemia da covid-19 começou no ano passado, tomei a decisão de cultivar cannabis em casa. Assim como muita gente que se viu presa sem ter muita opção do que fazer, tornei a vontade de fumar um em uma experiência de reconexão com a natureza. Estudei – e venho estudando – a fundo como produzir plantas de altíssima qualidade. Importei sementes, conheci outros growers, coloquei a mão na massa, e descobri que muitos outros amigos e conhecidos iniciaram seus cultivos também.

Como qualquer maconheiro, nunca achei que a proibição fosse suficiente para dar conta de evitar o uso ou o abuso de qualquer droga. No caso da cannabis, especificamente, nem consigo considerá-la uma droga. Faço uso recreativo porque não tenho nenhuma condição médica diagnosticada, mas acredito plenamente em seu poder medicinal. Para mim, é como unir o útil ao agradável.

Mas sempre me incomodou dar dinheiro para o tráfico, e isso em qualquer situação. Experiências recentes de descriminalização e regulamentação completas, como a do estado americano do Oregon, mostram como uma sociedade pode viver bem com o consumo legal de LSD, MDMA, cocaína, ou seja lá o que for. A vida é de cada um para vivê-la como bem entender, e melhor comprar sua substância favorita na lojinha, pagando os devidos impostos, do que alimentar a criminalidade – que é, no final das contas, apenas uma arma do estado para exterminar pretos, pobres, e todos aqueles marginalizados nesse sistema econômico escroto que vivemos.

Sou uma pessoa jovem, esclarecida, consciente dos meus usos. Não preciso da cannabis como o casal de senhores que considero meus avós de consideração. A fim de preservá-los, contarei a história deles com nomes fictícios, afinal o que importa é a lição que dela fica. Carlos e Juliana já passaram dos 60 anos de idade. São aposentados, vivem em um sítio delicioso no interior de São Paulo.

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A vida é de cada um para vivê-la como bem entender, e melhor comprar sua substância favorita na lojinha, pagando os devidos impostos, do que alimentar a criminalidade – que é, no final das contas, apenas uma arma do estado para exterminar pretos, pobres, e todos aqueles marginalizados nesse sistema econômico escroto que vivemos.

Eles não são abastados, pelo contrário. Suas vidas são marcadas por histórias bonitas de muito trabalho e empenho para sustentar uma família enorme: ele fez carreira na antiga estatal Ferrovia Paulista S/A, a Fepasa. Homem da roça, humilde, pardo, um brasileiro comum. Ela, negra, daquelas que emanam a energia da própria natureza. Foi enfermeira durante a Ditadura, é parteira, benzedeira, curandeira… todas as palavras lindas que terminam em “eira” e descrevem mulheres poderosas, sábias, cujos abraços e palavras são capazes de curar sem muito esforço.

Há cerca de dois anos, Carlos teve um câncer agressivo no intestino. Além dos tratamentos comuns oferecidos pela medicina – quimio e radioterapia –, ele também fez uso do canabidiol em óleo e se curou. Na mesma época, Juliana conheceu o trabalho do falecido Padre Ticão, que ensinava com suas palavras de amor que a desobediência civil é importante, distribuindo sementes de ganja na periferia paulistana e dando cursos abertos para a produção do medicamento à base da planta.

Consumo necessário e uso consciente

No Brasil, o boom do CBD ainda não foi absorvido pelo SUS. Um vidro de óleo chega a custar até R$ 2.500, um absurdo promovido por empresários da indústria farmacêutica. Coisas que só acontecem por aqui: o medicamento é legalizado, mas o cultivo é proibido para pessoas físicas, dando muito poder para quem está mais preocupado em abusar dos necessitados do que realmente ajudar. Entrar para uma associação de cultivo ou conseguir autorizações judiciais? Muito difícil, um processo longo, inviável para muitos que precisam do remédio para ontem.

É absurdo dizer isso, mas o crime realmente compensa no Brasil: para quem vive do mercado ilícito, para os políticos que legislam em causa própria, para o estado assassino. Por que o crime de cultivar, então, não pode compensar para mim, que não quero cometer crime nenhum, ou para esse casal, que só quer ter um pouco de tranquilidade no fim da vida?

Na semana da chegada da primavera, a melhor época para iniciar o ciclo da cannabis, toquei o foda-se e doei quatro sementes para meus avós. Deveria ter feito isso antes, mas como todas as plantas que cultivo têm THC, pensei que eles não iriam querer usá-las para fazer o óleo. Engano meu, já que pesquisas recentes mostram que a substância psicoativa também é poderosíssima contra o câncer. E, vamos combinar, para um casal que já criou cinco filhos e um sem-número de netos, um pouquinho de brisa no meio da natureza não é nada mal.

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É absurdo dizer isso, mas o crime realmente compensa no Brasil: para quem vive do mercado ilícito, para os políticos que legislam em causa própria, para o estado assassino. Por que o crime de cultivar, então, não pode compensar para mim, que não quero cometer crime nenhum, ou para esse casal, que só quer ter um pouco de tranquilidade no fim da vida?

Todos nós tomamos ayahuasca há muitos anos, somos estudiosos e entusiastas das medicinas naturais, sabemos fazer uso delas. Ninguém está aqui de palhaçada, mas, sinceramente, pouco me importa se você quer fumar um beck de maneira inconsequente. Até porque, viva, a planta vai retribuir suas intenções com as energias dela própria, e cedo ou tarde você vai aprender a ter responsabilidade utilizando-a.

A humildade e a tranquilidade são bênçãos. Juliana ficou extremamente contente com as sementes, sabia que a procedência delas era das melhores. Carlos já queria jogá-las na terra, para que delas nascessem quatro árvores enormes, vivazes, que proveriam óleo suficiente para muito e muito tempo. Dei uma gargalhada alta e expliquei que a lei brasileira pune mais severamente quem tem cannabis na terra do que em vasos: você pode ser enquadrado como se fosse dono de um laboratório de drogas e perder o terreno. A cara do meu avô foi um misto de surpresa e bom humor. Para alguém que nunca teve benefício nenhum em ser brasileiro, mais esse detalhe da vida não fez sentido nenhum.

Poucos dias depois que fiz a doação, a Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça emitiu parecer afirmando que ter objetos de cultivo e de extração de óleo em casa, para uso pessoal, não pode ser considerado crime, abrindo uma jurisprudência para casos futuros. Nas entrelinhas da lei, isso significa um passo à frente para o autocultivo, um recado para o indivíduo que tem plantas em casa andar pelo caminho certo, não vender, não alimentar o tráfico, e assim não ser enquadrado de alguma maneira.

É óbvio que, na prática, quem é preto e pobre ainda vai sofrer para poder cultivar cannabis com dignidade. Mas é um avanço que servirá como reeducação para os próprios policiais, juízes e agentes da lei. Ainda não conversei com a minha avó desde que esse parecer foi emitido pelo STJ, mas imagino que ela esteja ainda mais tranquila do que já estava no dia que lhe dei as sementes. Para uma pessoa que enfrentou tantas situações de medo na vida, a possibilidade eventual de debater a posse de quatro plantas de maconha com um policial deve ser cômica.

E, o quanto é ridículo viver com medo. Que saco é transmitir essa apreensão para as plantas em cada rega, cada poda, cada olhar. Como seria bom que tudo que ela recebesse fosse amor e dedicação, porque sua retribuição terapêutica (e recreacional) seria muito mais plena.

Pra falar a verdade, eu já não estava nem aí se batessem na minha porta, e faço esse relato aqui igualmente tranquilo. Essa é minha defesa, a certeza de que sou correto. A possibilidade de incentivar outras pessoas a fazer igual a mim, jogar semente no vaso e parar de dar dinheiro para o crime, me motiva mais do que não viver em plenitude.

O mundo já está indo pro brejo, mesmo. Cada um que encontre sua paz. A minha está dentro do meu coração.

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