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Duda Beat e o próximo passo da sofrência

A cantora volta aos palcos e estreia o álbum "Te Amo Lá Fora" no Festival Campão Cultural. Ela falou com a gente sobre amor, política, música e a fase dark

por Beatriz Lourenço Atualizado em 9 dez 2021, 13h20 - Publicado em 8 dez 2021 23h30
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Clube Lambada/Ilustração

ntes de se tornar Duda Beat, Eduarda Bittencourt Simões queria cursar medicina. Mas, após tentar por sete anos e não conseguir, acabou indo para a faculdade de ciência política. Foi lá que ela entendeu a importância de se posicionar na sociedade, do voto consciente e do papel da bancada evangélica na política brasileira. Por outro lado, sua vida amorosa não estava indo como gostaria, já que só se apaixonava por homens que não a amavam da mesma forma. 

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Para organizar os sentimentos, ela resolveu ir para o Vipassana – um retiro de meditação onde a premissa é ficar dias em silêncio. “Durante esse tempo, tive a certeza muito forte no meu coração de que eu deveria começar a escrever minhas próprias canções”, diz. “Esse foi um momento muito simbólico porque eu resolvi acreditar em mim e seguir o desejo que nasceu ali de me tornar uma artista.”

Duda compôs músicas para superar suas dores e ajudar outras pessoas que atravessam desilusões. Porém, o caminho para as gravações não foi fácil: ela trabalhou por anos pintando paredes para financiar o álbum. O resultado disso tudo saiu em 2018 com o título Sinto Muito. Ele carregou hits dançantes, como “Bixinho” e “Bédi Beat”, para as pistas de todo o país e consagrou a cantora como ​​rainha da sofrência pop”. Segundo ela, escrever é um alívio – e cura. “Ver que as pessoas se identificam e se curam quando as músicas vão para o mundo é o encerramento desse ciclo que fez parte de mim e parte de algo muito maior, que é tocar o público com a minha arte”, declara.

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“Ver que as pessoas se identificam e se curam quando as músicas vão para o mundo é o encerramento desse ciclo que fez parte de mim e parte de algo muito maior, que é tocar o público com a minha arte”

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Duda Beat/Divulgação

Três anos, um casamento e uma pandemia depois, Duda chega em 2021 com o Te Amo Lá Fora.  O disco novo é um trabalho mais maduro, sombrio e carrega referências fortes do Nordeste, como a pisadinha e as parcerias com os artistas Cila do coco e Trevo. “No primeiro álbum, eu estava mais romântica, mais apaixonada, mais iludida e isso é bem visível através da estética. Já no segundo, eu encaro o meu sofrimento de uma forma mais madura. Eu me tornei protagonista do meu próprio filme de terror”, conta.  

Em apenas ​​20 dias de lançamento, as canções bateram os 10 milhões de streamings no Spotify e todas as 11 foram parar no top 200 do serviço de música. Além disso, a capa do disco rendeu até um outdoor digital na Times Square. A turnê de lançamento começa no Festival Campão Cultural, em Mato Grosso do Sul, e fomos até lá conversar com ela.

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Como o silêncio te influenciou a cantar? A música já fazia parte da sua vida antes?
Antes de me tornar Duda Beat, fui a um curso de meditação onde eu tinha que ficar em silêncio. Durante esse tempo, tive a certeza muito forte no meu coração de que eu deveria começar a escrever minhas próprias canções. Esse foi um momento muito simbólico da minha vida, porque resolvi acreditar em mim e seguir o desejo que nasceu ali de me tornar uma artista. Comecei a compor logo depois disso e nunca mais parei. 

De certa forma, a música sempre fez parte da minha vida. Meu pai amava rock e eu ouvia discos com ele quando era criança – ele me ninava ouvindo rock. Minha mãe, quando me levava para a escola, sempre ouvia MPB e isso também me influenciou muito. Já quando eu me mudei para o Rio, com 28 anos, meu primo fazia parte de uma banda, a R.Sigma, e eu era super fã. Ela era composta pelo Tomás Tróia, que hoje é meu produtor e meu marido, e o Castello Branco, meu amigo. Sempre os acompanhava em tudo. Coincidência ou não, os caras por quem eu sofri de amor eram todos músicos, e isso amarra muito bem a história.

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Duda Beat/Divulgação

Qual foi o aprendizado que você levou do curso de ciência política?
Foi a realização de um sonho. Eu jamais mudaria minha trajetória porque aprendi muito na faculdade. Nela, entendi que somos todos seres políticos e é extremamente importante que nós, enquanto sociedade, nos posicionemos dessa forma. É por isso que eu nunca deixei de falar sobre a importância do nosso voto e de me posicionar contra o presidente atual do nosso país, mesmo depois de me tornar artista. Eu sinto que é meu dever usar a minha voz e meu conhecimento para me comunicar sobre isso com as pessoas. 

“Somos todos seres políticos e é extremamente importante que nos posicionemos dessa forma. É por isso que eu nunca deixei de falar sobre a importância do nosso voto e de me posicionar contra o presidente atual do nosso país, mesmo depois de me tornar artista”

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Ivan Erick/Divulgação

Você diz que suas letras têm muito a ver com as suas próprias relações e desilusões amorosas. Cantar e colocar tudo isso para fora cura a alma e o coração?
Com certeza! Não só cantar sobre essas desilusões, mas escrever sobre isso tudo é a parte principal da minha libertação. Quando eu escrevo, sinto que superei de fato todos esses acontecimentos. Ver que as pessoas se identificam e também se curam quando as músicas vão para o mundo é o encerramento desse ciclo que fez parte de mim e parte de algo muito maior, que é tocar o público com a minha arte.  

Como você percebe a passagem de Sinto Muito para Te Amo Lá Fora? Quais são as evoluções e transformações que a sua música passou de um álbum para o outro?
Depois do primeiro álbum, sinto que evoluí muito como cantora e compositora. Posso dizer que a transformação mais marcante é que, no primeiro disco, trago pitadas das minhas referências musicais de Recife e, no segundo, eu mergulho cada vez mais nas minhas raízes e no convívio com o público. 

Vai muito nesse sentido de me colocar muito mais e me conhecer mais profundamente através do que me inspira. Eu trago maracatu com coco na primeira faixa do álbum, piseiro – que é uma célula do forró – e fiz questão de chamar dois artistas incríveis do Nordeste que eu admiro demais: dona Cila do coco e o Trevo, que é da Bahia. Te Amo Lá Fora é um convite para que o Brasil inteiro, ao escutar o meu som, reconheça mais uma vez a força cultural do Nordeste.

“‘Te Amo Lá Fora’ vai muito nesse sentido de me colocar muito mais e me conhecer mais profundamente através do que me inspira. É um convite para que o Brasil inteiro, ao escutar o meu som, reconheça mais uma vez a força cultural do Nordeste”

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Duda e Tomas / Duda Beat/Divulgação

Você escreve o Te Amo Lá Fora vivendo uma relação correspondida e madura. De que forma isso influenciou as composições?
No meu segundo álbum, estou encarando os assombros que o amor já me trouxe. Enquanto escrevia essas canções, já me sentia totalmente distante das minhas desilusões amorosas e isso traz uma certa maturidade muito verdadeira para as letras. Ainda no meio das músicas de sofrência, tem uma canção de amor dedicada a Tomás, a “Decisão de te amar”. É uma mescla desses momentos. 

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O álbum foi lançado durante a pandemia. Quais foram as maiores dificuldades e realizações? Esse momento difícil fez você ver sua carreira e vida por outra perspectiva?
Atualmente, me sinto muito realizada com a repercussão do álbum e com tudo o que eu tenho conquistado desde o lançamento. De início, tive muitas dúvidas se eu deveria lançar o Te Amo Lá Fora’ esse ano, até que eu entendi o quanto as pessoas precisavam da minha arte como uma válvula de escape nesse momento – visto que estar imersa nesse processo criativo se tornou um refúgio para mim também. Foi um momento muito intenso de trabalho que, com certeza, me ajudou a lidar com tudo isso. 

A parceria com Cila do coco é icônica. Como ela aconteceu e quais foram as contribuições e aprendizados que ela deixou para você?
“Tu e Eu” nasceu de uma vontade minha de declarar o amor por Recife e referenciar as minhas raízes. Quero cada vez mais trazer isso ao meu trabalho, honrar o Nordeste e deixar esse legado através da minha arte. Tenho certeza que essa é a minha maior vontade. A dona Cila do coco foi muito generosa comigo desde que nos conhecemos. Ela é uma mulher extraordinária, forte e inspiradora. Foi uma alegria muito grande poder conhecê-la pessoalmente e ter a oportunidade de trabalhar com ela. Cila é realmente patrimônio de Pernambuco e estou muito feliz que ela esteja no álbum comigo.

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Duda Beat/Divulgação

Como que o amor e suas músicas conversam com a sociedade que vivemos hoje? Falta amor e tolerância no nosso mundo?
Algumas das minhas músicas falam muito sobre relações amorosas abusivas em geral e também sobre se sentir sozinho em um relacionamento a dois. Eu acredito que, principalmente nós mulheres, vivemos o amor de forma muito tóxica. Na maioria das vezes, não nos damos conta disso porque simplesmente nos foi ensinado que está tudo bem dessa forma. 

Acho que minhas músicas conversam com a sociedade justamente porque elas dão voz a assuntos como irresponsabilidade afetiva e, ao mesmo tempo, querem empoderar outras mulheres. A ideia é mostrar para as mulheres que me escutam que podem superar esses assombros e darem a volta por cima depois de sofrerem como eu sofri.

“Nós mulheres vivemos o amor de forma muito tóxica. Minhas músicas conversam com a sociedade justamente porque dão voz a assuntos como irresponsabilidade afetiva e, ao mesmo tempo, querem empoderar outras mulheres”

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Duda Beat/Divulgação

A sua estética em Sinto Muito era bem colorida e cheia de brilho. Já em Te Amo Lá Fora, há tons mais sóbrios e até góticos. Como você percebe essa transformação?
Na verdade, o lado sombrio e melancólico do álbum tem muito a ver com o que vivemos durante a pandemia. Eu costumo dizer que minha era atual é dark porque não tinha como ser diferente. Estávamos no auge da Covid-19 quando eu criava o álbum e o mundo inteiro estava muito triste e cheio de incertezas. 

A minha estética visual comunica com esse momento muito bem, eu sinto isso. É um complemento das narrativas dos sentimentos que as minhas canções trazem. No primeiro álbum, eu estava mais romântica, apaixonada, mais iludida e isso é bem visível através da estética. Já no segundo, encaro o meu sofrimento de uma forma mais madura. Eu me tornei protagonista do meu próprio filme de terror. 

Você veio de Recife, que é berço de muita cultura e obras belíssimas tanto na música, quanto no cinema. Como a cidade te inspirou, apoiou e te fez crescer?
Grande parte de quem eu sou é graças ao meus país Pernambuco, minha terra amada que foi onde eu nasci e vivi. Toda a minha formação musical foi criada através dessa riqueza cultural que lá existe. Eu carrego isso no meu nome: o Beat que vem do movimento manguebeat e não tem inspiração maior do que essa. O povo de Recife me apoia demais, eu amo estar na minha cidade e é sempre a minha prioridade fazer shows pelo Nordeste.

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