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5 opiniões de Marcelo D2 que você precisa escutar

Conversamos com o músico sobre a volta aos palcos, cannabis, política e como suas letras repercutem mesmo após 30 anos

por Beatriz Lourenço 5 jun 2022 21h01
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Redação/Ilustração

obra de Marcelo D2 é completa. Ele faz samba, rap, e, seu último disco solo – Assim tocam os meu tambores –, tem nuances que nos remetem às religiões de matriz africana. Sua cabeça é uma “verdadeira salada” (nas palavras do próprio Marcelo) e, na hora de criar, tenta organizar as informações partindo de um conceito e a vontade de comunicar uma mensagem importante e interessante ao público.

Esse tem sido um ano intenso em sua carreira, já que está preparando um disco solo e outro com a banda Planet Hemp. “Meu próximo álbum tem a ver com uma ancestralidade de futuro. É sobre um passado que nos trouxe até aqui – é o que às vezes a gente nem sente no nosso dia a dia, mas que importa muito, como um tempero, uma comida que nos rege”, revela. “O momento que estamos vivendo pede o resgate das nossas raízes. Saber de onde a gente veio pode nos ajudar a descobrir para onde vamos.” 

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O lançamento, possivelmente em novembro, é o desaguar de dois anos de produção. “Tive momentos de trabalho intensos e outros em que deixei o disco parado, mas agora estamos nessa reta final”, conta. “É muito difícil entregar um projeto, sempre falta alguma coisa. Ainda não tem nome, está aqui na minha frente mas não consegui descobrir.”

A volta aos palcos também tem deixado esse período não só mais intenso, como também mais prazeroso. No dia 28 de maio ele se apresentou no 16º Festival América do Sul Pantanal, realizado em Corumbá, no Mato Grosso do Sul. “É uma loucura viajar depois de tanto tempo trancado em casa, parece até um sonho. Para mim e para a minha equipe voltar para a estrada é uma bênção porque é a nossa vida, o nosso trabalho e o que escolhemos seguir como carreira. O setor do entretenimento foi o que mais sofreu, mas ver os festivais voltando é muito bom e está a coisa mais linda do mundo acompanhar tudo.” Conversamos com o rapper um pouco antes do show sobre cinco temas importantes da atualidade. Confira o resultado abaixo:

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Marcelo D2/Divulgação

O mundo em 30 anos

Desde o início de Planet Hemp, em 1993, Marcelo D2 escreve letras que tratam de questões sociais, como a legalização da maconha, violência policial e desigualdade. Após 30 anos, falando sobre isso, ele acredita que os problemas ainda são os mesmos. “Acho que a gente mudou a maquiagem em volta, mas o problema continua lá. O que antes era chamado de manipulação de massas, hoje é chamado de fake news”, conta, “Esses dias brinquei com o pessoal e disse que poderíamos pegar as mesmas músicas da banda e relançar – já que estamos na mesma. Sempre que sento para escrever, é inevitável pensar ‘de novo isso?'”

Quando perguntamos o que ele acredita que poderia ser feito para que os avanços, de fato, ocorram, ele comenta que é uma saída complicada porque “vivemos num país que é a vanguarda do atraso”. “Fomos o último a adotar o ensino público, o último a acabar com a escravidão, tivemos a maior ditadura militar da América Latina… Só temos grandes chances de mudar isso depois de um grande surto coletivo”, reflete. “Não sei como as pessoas acreditaram que um miliciano de merda que roubava gasolina iria melhorar as coisas se tornando presidente. Agora é a hora de botar o trilho no trem e pensar num novo projeto de Brasil, não discutir mamadeira de piroca e kit gay – para mim, parece a mesma coisa que falar de bicho papão, soa tão imbecil. Hoje a segurança pública é sobre matar gente, e não defender a vida. Os valores estão totalmente distorcidos. Precisamos de um banho de realidade e nos informar mais.”

“Não sei como as pessoas acreditaram que um miliciano de merda que roubava gasolina iria melhorar as coisas se tornando presidente. Agora é a hora de botar o trilho no trem e pensar num novo projeto de Brasil”

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sambadrive – genebra / Wilmore Oliveira/Divulgação

Censura e posicionamento político

Em 1997, Marcelo D2 chegou a ser preso por “apologia às drogas”, uma espécie de censura à música do Planet Hemp. Neste ano, com a volta dos shows presenciais, é comum que ele se posicione gritando frases de protesto. “Esse papel que a arte tem é muito imprescindível, vemos isso no mundo todo – do apartheid, na África do Sul, aos direitos civis, na América do Norte. A própria América Latina, com todas suas ditaduras, teve resistência artística”, afirma. “Vou lançar dois discos esse ano, então sinto que faço muito bem a minha parte. Já me cobrei e cobrei mais os outros sobre isso. Ainda assim, sinto que hoje os movimentos como o rock e o rap estão um tanto alienados com tudo o que está acontecendo. As pessoas se preocupam mais em conseguir área VIP, champanhe e carros enquanto tem gente morrendo por aí. Espero que quem tem voz se posicione. A própria Anitta tem dado a cara a tapa nessas discussões e isso é muito bom. A mim me incomoda muito ver dancinhas nas redes enquanto tem gente sofrendo.”

Ele acredita, ainda, que nesses ambientes Bolsonaro não tem voto algum. Pelo contrário, são lugares de mudanças. “Não sei o quanto isso reverbera fora da minha bolha. Tomara que reverbere muito, mas precisamos conversar com quem está em volta, com a família, os mais velhos. Principalmente eles, que estão tomando um baile do Whatsapp e do Telegram. Mas essas manifestações são sempre válidas e importantes para mostrar o posicionamento dos artistas.”

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Vanessa Carvalho/Divulgação
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Maconha

Durante nosso papo, o artista conta que passou um tempo morando na Califórnia, nos Estados Unidos, e que percebeu como a relação do estado com a Cannabis é menos prejudicial à sociedade. “A proibição foi a maior estupidez da humanidade porque gera violência, a falta de acesso para quem precisa e a guerra às drogas. A legalização lá está longe de ser o ideal porque as grandes empresas já entraram no mercado e estão acabando com os pequenos produtores, mas pelo menos acabamos com a ponta mais nociva, que é a violência do tráfico, a polícia corrupta e a violência na favela. A ilegalidade é muito burra”, diz.

“Socialmente, a maconha já é legalizada nas classes A e B. É muito difícil ver um rico ser preso por causa de maconha, quem é preso é o pobre – há essa desigualdade muito latente no Brasil. Outra coisa é que, para mim, não existe maconha medicinal, terapêutica etc. É tudo Cannabis. Essa coisa de maconha medicinal começou a ser falado para que ela fosse mais aceita e menos estigmatizada. Sinceramente, tudo é remédio e é bom. Se eu estou de cabeça quente e fumo um, como um ou tomo uma pílula de THC, que é a dita não medicinal, é bom também. Saúde mental também é saúde”, completa.

“A proibição [da maconha] foi a maior estupidez da humanidade porque gera violência, a falta de acesso para quem precisa e a guerra às drogas”

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Marcelo D2/Divulgação

Eleições e Bolsonaro

Quando pedimos para Marcelo D2 fazer um balanço dos últimos quatro anos de governo, ele responde sem hesitar que foi um pesadelo. “Espero que acabe agora. Se a gente colocar um cone lá vai ser melhor. Os estragos no meio ambiente, na saúde, na cultura, na economia e na educação vão demorar muito tempo para serem arrumados. Nós andamos muito para trás em todas as questões possíveis. O Brasil é um país novo que poderia estar se desenvolvendo muito bem, mas foi o contrário”, comenta. “O governo que entrar agora, se tiver boas intenções, saberá que a primeira coisa a se fazer é reerguer o país. Muito mais do que a economia, é necessário reerguer a autoestima do Brasil – tem gente morrendo, fome, desesperança. Precisamos acertar o básico primeiro. Esse é o maior desafio.”

Ainda que esteja descontente com a política, o músico não perde as esperanças de um futuro diferente. “Se a gente não tiver um pingo de esperança, não vale a pena viver. É o papel do artista, bancário, motorista de ônibus, de todo mundo, formar um país melhor. Tem uma letra do Planet Hemp que fala ‘se outros aguentaram, a gente aguenta também’. Tivemos ditadura, escravidão e muitas coisas ruins que fizeram parte da nossa história e estamos aqui. Acredito que precisamos resistir, dar a volta por cima e sair melhor dessa experiência.”

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“Se a gente não tiver um pingo de esperança, não vale a pena viver. É o papel do artista, bancário, motorista de ônibus, de todo mundo, formar um país melhor”

ktt zoo tour/Divulgação

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Marcelo Maldonado/Divulgação

Música e paternidade

“As minhas letras são basicamente sobre o meu dia a dia, sobre o que faço, o que vivo, minhas escolhas e minha família. Aqui nós trabalhamos muito juntos e aprendemos a olhar com admiração um para o outro, deu um orgulho danado. A paternidade muda a postura no palco, as composições, tudo”, revela o cantor quando perguntado sobre sua família. 

Ele diz, ainda, que seu último disco – “Assim tocam os meus tambores” – teve um resultado diferente porque foi pensado em conjunto: “É quase que uma salada de tudo o que eu estava pensando. Foi tão marcante que resolvi fazer uma trilogia: ele representa o tempo presente, o próximo que vai sair é sobre o tempo passado e o outro será sobre o futuro.” As composições, as letras e as melodias geralmente surgem a partir de um conceito e seu objetivo é sempre comunicar uma mensagem importante e interessante ao público. “É difícil explicar como organizo tudo isso porque minha cabeça é um caos! Nesses últimos discos eu tenho a Luiza como minha parceira para dividir ideias e me ajudar a organizar e executar tudo. Há maneiras diversas de fazer um disco, eu gosto de partir de um conceito e fazer com que as músicas girem em torno disso”, revela.

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Assim tocam meus tambores/Divulgação

Faixa bônus

Você já pensou em se candidatar para um cargo público?
“Deus me livre!”, diz D2. “Tenho alguns amigos políticos que são super gente boa e sempre digo que não sei como eles aguentam lá dentro, viver aquela podridão. Acho que as pessoas têm vocações. Para mim, política não dá.”

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