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Mariam Chami não precisa voltar a seu país

Porque ela já está nele. Conversamos com a influenciadora brasileira sobre intolerância religiosa, feminismo e seu desejo de acabar com estereótipos do islã

por Beatriz Lourenço 22 abr 2022 01h56
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Ilustração/Redação

sonho de Mariam Chami era ser nutricionista. Após se formar, passou um bom tempo procurando emprego na área. Porém, na hora dos resultados, sempre recebia respostas como “contratar uma pessoa como você não vai dar certo” e até “você é muito séria para o cargo”. O motivo não estava ligado à sua competência e, sim, à sua religião. Anos após ouvir essas falas discriminatórias, a influenciadora ocupa as redes sociais para explicar o islã. 

“Desistir da minha paixão foi muito difícil. Mas digo que, se antes usar o hijab me impediu de trabalhar, hoje, justamente por usá-lo, realizei o sonho de ter minha voz ecoando na internet e de ser cotada para trabalhar com marcas incríveis”, afirma Mariam à Elástica. “Eu represento mulheres muçulmanas e não muçulmanas porque todas nós, independente da religião, somos fortes e lutamos muito.” 

Sua trajetória como criadora de conteúdo começou em 2016, quando abriu um grupo no WhatsApp de mulheres para trocar informações e esclarecer os principais pontos do islã. Com o passar do tempo, a explicação que se destinava a 50 meninas cresceu e se expandiu para outras redes. “Comecei a fazer alguns vídeos para o Instagram e TikTok com assuntos muito básicos para tirar dúvidas de quem não conhecia nada sobre a nossa cultura, vestimenta ou o que acreditamos”, conta. “Com os feedbacks positivos, imprimi a minha personalidade ao criar roteiros mais criativos e divertidos.”

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“Se antes usar o hijab me impediu de trabalhar, hoje, justamente por usá-lo, realizei o sonho de ter minha voz ecoando na internet e de ser cotada para trabalhar com marcas incríveis”

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Mariam Chami/Arquivo

Para Mariam, o sentido de tudo isso é disseminar a tolerância e tentar acabar com os estereótipos ocidentais sobre os muçulmanos. Por isso, ela já tratou de temas como seu relacionamento com o marido – arranjado pelo Facebook –, moda modesta, os cuidados com o cabelo – mesmo sem mostrá-lo – e as rotinas de orações e jejum. “O ocidental acredita que só a roupa que ele usa é certa, a música que ele ouve é melhor e isso também vale para a religião. Penso que se eu não responder essas dúvidas, as pessoas vão procurar na internet e podem achar muitas informações falsas ou distorcidas”, afirma.  

Apesar de seu alcance, ainda há quem solte a frase que ela menos gosta: “volte para o seu país”. E isso não é necessário, porque sua mãe é mineira, seu pai é libanês e ela nasceu aqui mesmo, no Brasil. “As pessoas associam religião com nacionalidade e confundem tudo. Há quem diga que o Talibã é o islã e não sabem que um não tem nada a ver com o outro. Ainda assim, vejo que há muito conhecimento disponível, só não aprende quem não quer”, desabafa. Abaixo, você confere nossa conversa com a influencer sobre feminismo, preconceito e religião.

“O ocidental acredita que só a roupa que ele usa é certa, a música que ele ouve é melhor e isso também vale para a religião. Se eu não responder essas dúvidas, as pessoas podem achar muitas informações falsas ou distorcidas na internet”

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Mariam Chami/Arquivo
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Você trata das questões religiosas com diversão e um pouco de ironia. Essa é uma maneira didática de combater os preconceitos?
Sou uma sagitariana bem debochada, adoro fazer brincadeiras. Ao mesmo tempo, tento ser muito didática na forma de falar e explicar. Precisamos entender que já foi a época que as religiões eram sérias e cheias de proibições. Antes, elas falavam que algo era proibido e não explicavam o porquê. Hoje, a melhor forma de criar conexões com os fiéis é por meio da diversão. 

O islã é leve e fala sobre equilíbrio. Por isso, trazer o conteúdo desse jeito é essencial. O que deixa a religião pesada, e não só a minha, são os maus seguidores e os que não têm noção do que a religião é, de fato. 

Sua bio do Instagram é “brasileira muçulmana que não precisa voltar pro seu país pois já está nele”. Ela é fruto de intolerâncias? Como você lida com esses comentários?
O problema é que as pessoas associam religião com nacionalidade e confundem todos os lugares. Há quem diga que o Talibã é o islã e não sabem que um não tem nada a ver com o outro. Eles não representam o islamismo. Os muçulmanos não apoiam suas atitudes. 

Já lidei com tudo isso de várias formas diferentes: retruquei, fiquei brava e ignorei. Hoje, lido abordando a pessoa e perguntando o que ela conhece sobre a cultura. A partir daí, tento levar algum conhecimento. Ainda assim, vejo que há muita informação disponível, só não aprende quem não quer. O perfil das pessoas que me seguem é muito distinto: tem gente mais nova, homens, pessoas mais velhas e de outras crenças. Isso é positivo porque é uma ideia que vai passando de um para o outro e vamos criando uma rede de apoio e tolerância. 

“O problema é que as pessoas associam religião com nacionalidade e confundem todos os lugares. Há quem diga que o Talibã é o islã e não sabem que um não tem nada a ver com o outro. Eles não representam o islamismo. Ainda assim, vejo que há muita informação disponível, só não aprende quem não quer”

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Mariam Chami/Arquivo

Seu conteúdo visa combater estereótipos do islã. Por que ainda há tanto desconhecimento sobre a religião?
Digo sempre que crio conteúdo a partir da desinformação. Quando vejo algum comentário ofensivo, acabo transformando em pauta para um vídeo novo. Sinto que ainda há muito estereótipo porque a mídia pega alguns pontos do islã e deixam eles muito maiores do que são. Podemos ver isso em filmes e novelas também. Além disso, há uma questão do ocidental, que tem uma visão de que só o que eles gostam e acreditam é correto. Só sua roupa é certa, sua música e suas crenças.

Não nego que há pessoas que fazem mau uso da religião. Assim como há extremistas muçulmanos, há em todos os outros lugares. Mas não é a religião em si que é extremista. Tanto que há aquele ditado: Deus é perfeito, mas o fã clube atrapalha. A religião preza pelo amor, respeito e tolerância. Acontece que os seguidores são seres humanos e erram. 

“Não nego que há pessoas que fazem mau uso da religião. Assim como há extremistas muçulmanos, há em todos os outros lugares. Mas não é a religião em si que é extremista. Tanto que há aquele ditado: Deus é perfeito, mas o fã clube atrapalha”

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Seus vídeos sempre falam sobre direitos e igualdade de gênero. Como você descobriu o feminismo e qual a sua relação com o movimento? Quais são as principais reivindicações feministas das mulheres muçulmanas?
Falo bastante sobre igualdade e equidade de gênero. No islamismo, há muitos pontos que tratam o homem e a mulher como iguais, mas tem outros que não para que possamos ser justos, já que cada um tem uma necessidade. Por exemplo: as mulheres que estão no período menstrual não fazem as orações e nem jejuam porque nós ficamos mais sensíveis e com dores. 

As mulheres muçulmanas não reivindicam direitos dentro da religião porque o islã dá direito a tudo. O voto feminino, por exemplo, foi pensado há mais de 1.400 anos. Nós podemos nos divorciar, escolher nossos maridos, casar novamente, trabalhar, estudar… O nosso dever é, portanto, reivindicar tudo isso quando os muçulmanos não aplicam o que a religião impõe – lembrando que o machismo está enraizado em todas as culturas e nacionalidades. Dito isso, eu me considero feminista porque, se estou no Brasil e as mulheres devem lutar pelos mesmos direitos de trabalho, salários iguais e reconhecimento em diversas pautas, estou com elas.

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Mariam Chami/Arquivo

Se o feminismo é dar autonomia para as mulheres escolherem como querem viver, por que incomoda tanto quando elas escolhem o islã? E, principalmente, quando elas escolhem usar o hijab?
Acho que ainda há um feminismo seletivo. As pessoas falam que a mulher pode ser o que quiser, mas quando escolhem o hijab, não estão sendo o que querem. Hoje em dia, as pautas femininas são muito associadas à vestimenta e sinto que isso é válido apenas quando a mulher expõe seu corpo. 

Recentemente, vimos que o lenço amarrado no cabelo e a balaclava viraram acessórios estilosos. Mas, quando são usados por uma mulher muçulmana, isso toma outro rumo. O hijab é sempre visto como opressor, sendo que a maioria das mulheres é que fazem essa escolha. Há quem diga que no Brasil é muito fácil ser muçulmana – pelo contrário, é muito mais difícil porque sofremos muito preconceito com a forma como nos vestimos. 

Como foi a recepção dos seus ciclos mais próximos quando você começou a se posicionar sobre questões feministas, religiosas e até se expor na internet?
Meus amigos e família me apoiam muito. Os líderes também porque eles percebem que a minha intenção não é converter ninguém, mas espalhar informação de qualidade para diminuir a intolerância. Eles conseguem entender que na internet e com essa linguagem mais solta, consegui alcançar públicos que eles não conseguem. 

No seu perfil do Instagram, você compartilha vídeos de maquiagem e a série “arrume-se comigo”. Qual é a sua relação com a moda? Você compra roupas em lugares específicos para mulheres muçulmanas ou faz uma curadoria de lojas que são contra o preconceito religioso?
Sempre amei muito moda, ela que nunca gostou muito das muçulmanas. Até alguns anos atrás, eu não conseguia comprar roupas porque nenhuma loja atendia a gente. A solução era fazer um milhão de camadas na hora de me vestir e o resultado não era tão bom. 

Acho que a moda está se tornando mais democrática aos poucos. Hoje, sinto que ficou mais fácil encontrar peças legais e descoladas – posso escolher entre camisas, pantalonas e vestidos numa boa. Não gosto de usar nada muito certinho, amo makes coloridas e peças estampadas! Além disso, tem um salão de beleza que viu esse mercado e fez um dia só para atender mulheres muçulmanas. Se colocarem o preconceito de lado, as lojas vão perceber que somos, sim, muito vaidosas. 

“Acho que ainda há um feminismo seletivo. As pessoas falam que a mulher pode ser o que quiser, mas quando escolhem o hijab, não estão sendo o que querem. Hoje em dia, as pautas femininas são muito associadas à vestimenta e sinto que isso é válido apenas quando a mulher expõe seu corpo”

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Mariam Chami/Arquivo

Uma marca de shampoo veio até você para fazer publi e o resultado foi um vídeo com bastante engajamento. As empresas já perceberam que não há barreiras quando o assunto é criatividade?
Já fiz publicidade para duas marcas de cabelo. Acho que, aos poucos, elas estão entendendo isso. Trabalho com marcas muito tolerantes e isso é essencial para mim. O público também tem pressionado muito por mais diversidade e representatividade. As pessoas não querem mais aquela perfeição inalcançável nas telas, elas querem ver gente como a gente. Com isso, as empresas são obrigadas a mudar seu posicionamento para não perder o público – e isso é muito legal. 

Sobre a educação do seu filho, de que forma você concilia os ideais do islã com uma criação contemporânea no Brasil? Há algum receio?
É tudo muito natural porque eu já vivo uma vida baseada na religião. Antes de comer, fazemos uma súplica juntos, por exemplo. Por ele ainda ser muito pequeno, tem apenas um ano, não tem o meio externo afetando muito as atitudes dele. Acho que vou aprender com o tempo como vai ser esse processo. Meu pai é libanês e minha mãe é mineira convertida, se eu conseguir dar a mesma educação que eles me deram, com a junção das duas culturas, já estou feliz. 

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Feed mais diverso

Agora, confira cinco perfis de mulheres muçulmanas para seguir nas redes sociais:

Mag Halat

Carima Orra

Iris Cajé

Ver essa foto no Instagram

Uma publicação compartilhada por Iris Cajé • Vida nas Arábias (@vidanasarabias)

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Fatima Cheaitou

Hyatt Omar

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