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“Jesus é negro”

Conversamos com o pastor Henrique Vieira sobre religião, cinema, política e sobre a fala que gerou debate na internet

por Beatriz Lourenço 18 jan 2022 08h45
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arte/Redação

pastor Henrique Vieira cresceu na periferia do Rio de Janeiro e teve contato com a religião desde cedo. Para ele, a fé tem a ver com a luta pelos direitos humanos e o amor ao próximo. E isso se traduz não só no discurso, mas também na prática: é militante do PSOL, é formado em Ciências Sociais e História e é membro do conselho deliberativo do Instituto Vladimir Herzog. Além do evangelho, a arte também faz parte de sua vida, já que estuda a palhaçaria, é ator e teve uma participação importante no filme Marighella, lançado em 2021.

“Desde criança, acolhi a mensagem de Deus. Na adolescência, passei a frequentar a Primeira Igreja Batista de Niterói – e essa semente, que já estava no meu coração, frutificou de vez”, conta. “Para mim, a espiritualidade sempre esteve relacionada ao engajamento social. Já o desejo de ser pastor tinha muito a ver com amar, servir e me comprometer com a causa da justiça dos pobres.”

Ao perceber o conservadorismo da igreja que frequentava, junto com a vontade de falar sobre temas como feminismo e negritude, ele e seus colegas dissociaram e criaram a ​​Igreja Batista do Caminho. “Ela surge como um espaço para salvar e ressignificar a nossa própria fé, já que estávamos em crise com a experiência religiosa, mas não queríamos perder, em hipótese alguma, o vínculo com o evangelho”, resume. “Os princípios batistas falam sobre a separação entre igreja e Estado, que tem a ver com respeito à diversidade e a pluralidade de crenças religiosas e não-crenças religiosas.”

Atualmente, a religião evangélica representa quase um terço da população do país (31%), ficando atrás somente do catolicismo. Porém, isso não significa que ela é um “bloco monolítico”. Segundo o pastor, pensar dessa forma estigmatiza os fiéis – que são, em sua maioria, mulheres, negros e pessoas da periferia. “A experiência evangélica popular precisa ser melhor compreendida”, explica. “Não dá para sair por aí dizendo: evangélico é igual conservador, ponto. Contra a democracia, ponto. Vota em Bolsonaro, ponto. Essa generalização não dá conta da diversidade, do caráter popular ou do valor que essas igrejas têm.”

Em Marighella, Henrique Vieira teve uma de suas falas entre os assuntos mais debatidos na internet: “Jesus é negro”. À Elástica, ele conversa sobre a repercussão da declaração, racismo, religião e sobre ser ator – sua paixão para além da palavra de Jesus.

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Como foi seu primeiro contato com a religião? Quando você entendeu que tinha uma vocação religiosa?
Cresci num lar evangélico batista. Meus pais, avós e bisavós já eram religiosos. Por isso, desde criança aprendi sobre o evangelho e acolhi a mensagem. Na adolescência, passei a frequentar a Primeira Igreja Batista de Niterói – e essa semente, que já estava no meu coração, frutificou de vez.

Lá, mais do que uma herança familiar, abracei a causa do evangelho e me apaixonei pela pessoa de Jesus. Também comecei a pregar nos lares e a liderar o ministério de jovens. Nesse contexto, me percebi vocacionado para o ministério pastoral. Mas nunca usei, por exemplo, a expressão ‘vocação religiosa’ porque ela me parece reproduzir uma lógica de separação entre religião e vida, espiritualidade e sociedade.

Desde jovem me envolvi com o movimento estudantil, depois com a militância de direitos humanos. Fui aluno do Marcelo Freixo no ensino médio. Para mim, a espiritualidade sempre esteve relacionada ao engajamento social. Já o desejo de ser pastor tinha muito a ver com amar, servir e me comprometer com a causa da justiça dos pobres. Eu tinha, desde muito novo, duas grandes referências: o Pastor Martin Luther King, que lutou contra a segregação racial nos Estados Unidos, e Dom Hélder Câmara, um bispo católico comprometido com a causa dos pobres e que fez denúncias durante a ditadura militar.

E antes de fundar a Igreja Batista do Caminho, você estava em outra igreja. Quando você percebeu que precisava dissociar daquele lugar e criar um outro?
Eu era seminarista da Primeira Igreja Batista de Niterói e é nela que surge a semente da nossa. Apesar da minha espiritualidade já não caber naquele espaço e eu ter críticas ao conservadorismo, também reconheço que ela foi importante na minha vida, na adolescência e, especialmente, nas amizades que mantive até hoje. Como seminarista, fiquei responsável pela implantação de uma nova igreja. Porque é assim que as igrejas Batistas nascem: uma igreja-mãe estabelece uma congregação, essa congregação se desenvolve, se auto-organiza e se torna uma nova.

Nesse contexto, eu e alguns amigos estávamos em crise com o fundamentalismo e com distanciamento da igreja dos dramas do mundo, como a pobreza, a miséria, a fome e a desigualdade social. Já as minhas amigas estavam querendo discutir o papel da mulher na Bíblia enquanto estudavam a teologia feminista. Então, é verdade que a nossa espiritualidade estava em conflito profundo com o lugar que frequentávamos. Assim, a Igreja Batista do Caminho surge como um espaço para salvar e ressignificar a nossa própria fé, já que estávamos em crise com a experiência religiosa, mas não queríamos perder, em hipótese alguma, o vínculo com o evangelho. Geralmente, uma igreja nasce para chegar a outras pessoas. E eu costumo dizer que a Igreja Batista do Caminho, em primeiro lugar, nasceu para acolher nosso próprio coração.

“Eu e alguns amigos estávamos em crise com o fundamentalismo e com distanciamento da igreja dos dramas do mundo, como a pobreza, a miséria, a fome e a desigualdade social. Já as minhas amigas estavam querendo discutir o papel da mulher na Bíblia enquanto estudavam a teologia feminista. Então é verdade que a nossa espiritualidade estava em conflito profundo com o lugar que frequentávamos”

Chamamos de Batista porque a gente reivindica os princípios fundacionais batistas do século 17, não porque a gente pertença a alguma convenção Batista. Eles falam de liberdade individual e coletiva, democracia e sobre a doutrina ter que ser permanentemente revisitada. Os princípios batistas também falam sobre a separação entre igreja e Estado, que tem a ver com respeito à diversidade e a pluralidade de crenças religiosas e não-crenças religiosas. E ‘do caminho’ porque é uma fé que não é fixa. Ela está aí na praça, na rua, no movimento estudantil, no movimento negro, na luta por justiça social, ou seja, uma fé que está onde a gente está.

Jesus tem todo um discurso sobre amar o próximo. Para você, como se deu essa visão tão conservadora da igreja evangélica?
Não existe só uma igreja evangélica, né?! O campo evangélico é muito diverso e muito plural, não é um bloco coeso e monolítico. Hoje, ele é majoritariamente negro, feminino e com grande presença das camadas populares do nosso país. Nesse sentido, há o protestantismo histórico, o movimento Pentecostal, o neopentecostal e as igrejas não denominacionais. Essa é uma síntese para mostrar que é um campo que gira em torno de um monte de coisa ao mesmo tempo.

A segunda observação é que há um conservadorismo, mas eu não acho que ele seja tão diferente do que existe no contexto da sociedade brasileira. Ou seja, esse campo não é dono do conservadorismo em geral. O que acredito é que há lideranças evangélicas com grande poder político, midiático, televisivo e econômico e elas me parecem oportunistas. São empresas religiosas que fazem um jogo político bem conservador com traços anti-democráticos, passando para a sociedade essa referência do que é ser evangélico.

Dito isso, acho que é preciso diferenciar e identificar essas liderança e o peso que elas têm. É preciso identificar a força da bancada evangélica no Congresso Nacional, que faz o jogo dos ricos e dos poderosos. Assim, se faz necessário reconhecer que existe isso no Brasil, mas também reconhecer essa pluralidade evangélica.

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Pastor Henrique Vieira/Divulgação

Gostaria que você falasse mais sobre essa diversidade.
Existe movimento negro evangélico, movimento feminista, debate de diversidade de gênero e sexualidade e mesmo coletivos de direitos humanos. É preciso dar visibilidade à expressão evangélica que tem compromisso com a democracia, com os direitos humanos, com o estado laico, e com o respeito à diversidade e à justiça social. Além da expressão evangélica progressista organizada em coletivos, tem outra dimensão que é a seguinte: a experiência evangélica popular precisa ser melhor compreendida. Porque essas igrejas que se multiplicam por aí, especialmente nas periferias, funcionam como um espaço de acolhimento, de senso de pertencimento, de produção, de comunidade e comunhão. Às vezes, abertura de perspectivas de estudo, assistência médica, assistência social, possibilidade de emprego.

O que eu quero dizer é que essa experiência evangélica popular cumpre uma função muito importante na vida de milhares de brasileiros. Por isso que ela não pode ser simplesmente esquematizada ou descartada. Até colocada em um patamar de ‘ultra conservadores contrários à democracia que saem por aí fazendo o mal’. Quando a gente fala em evangélicos, não é só o evangélico em si, é a dona de casa, a empregada doméstica, o motorista do Uber, o pedreiro, o padeiro — são pessoas de carne e osso, trabalhadores que vivem em um país brutalmente desigual e que estão lutando para sobreviver.

“É preciso dar visibilidade à expressão evangélica que tem compromisso com a democracia, com os direitos humanos, com o estado laico, e com o respeito à diversidade e à justiça social. Além da expressão evangélica progressista organizada em coletivos, tem outra dimensão que é a seguinte: a experiência evangélica popular precisa ser melhor compreendida”

Não dá para sair por aí dizendo: evangélico é igual conservador, ponto. Contra a democracia, ponto. Vota em Bolsonaro, ponto. Essa generalização não dá conta da diversidade do campo evangélico, do caráter popular ou do valor que essas igrejas têm. Eu não quero romantizar, nem essencializar, muito menos defender a experiência evangélica. Não se trata disso. Tem conservadorismo, tem fundamentalismo e grupos com projeto de poder antidemocrático, anti laico, vinculados à produção do ódio. Mas não dá para acabar aí a leitura. Ela é um pouco mais complexa do que nossos conceitos e generalizações.

Essas pessoas que você comentou, que têm todo esse poder e não são democráticas… Para mim, parece que elas estão mais longe de Deus do que aquilo que elas pregam. E, um segundo ponto, me parece que essas igrejas chegam onde o Estado não chega.
Sobre essas lideranças, eu guardo uma palavra mais firme e mais incisiva. ‘Não posso julgar seus corações, mas posso entender o sentido de suas palavras e suas ações’. Eles não têm compromisso algum com o evangelho, com Jesus, com o amor ou com a solidariedade. Não têm compromisso com o povo. Para esses, o que eu vejo é gente que usa a fé para benefício próprio e nada tem a ver com ética.

E, neste segundo ponto, as Igrejas acabam, em certo aspecto, cobrindo esse vazio do abandono do poder público. Mas isso não quer dizer que se o poder público estivesse agindo adequadamente, deixaria de haver igreja. Porque a espiritualidade é algo mais profundo, não tem a ver apenas com assistência e socorro diante das questões objetivas da vida material. Mas sim, elas acabam sendo um pólo de acolhimento do vazio deixado pela falta da garantia de direitos.

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Pastor Henrique Vieira/Divulgação

No dia do lançamento do Marighella, vi algumas pessoas dizendo para você que não acreditam em Deus, mas que gostam muito do que você fala. Isso tem relação com o estereótipo do que é ser evangélico?
Acredito que sim. Existe um imaginário pronto sobre o que é ser evangélico e isso precisa ser superado. É importante usar esse espaço para dizer isso. Eu não sou o primeiro, não sou o último, não sou o único e não prego nenhuma novidade. Quero muito poder dizer isso, porque se eu for visto assim, é derrota da minha militância e do meu ministério. Eu sou fruto da minha família, das minhas amizades e da minha comunidade de fé. Eu, meus irmãos e minhas irmãs construímos coletivamente a nossa espiritualidade, nossa leitura da Bíblia e do mundo.

Eu me inspiro na teologia da libertação, na leitura popular da bíblia, em Frei Tito, Frei Betto, Dom Helder, Martin Luther King, Irmã Dorothy, Teresa D’Ávila e Francisco de Assis. Quando as pessoas me abraçam e agradecem pela minha vida, pelos meus ministérios, eu agradeço a Deus, mas acolho com muita humildade e sabendo, no meu coração, que eu sou resultado de uma história e de muita comunhão.

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Marighella / Wagner Moura/Reprodução

Falando agora de Marighella. Como essa experiência te marcou?
Foi uma experiência que me marcou profundamente porque, além de pastor, eu sou ator e faço um esforço muito grande para que as pessoas entendam isso. Parte desse estereótipo sobre evangélico e pastor impede que as pessoas reconheçam que eu sou plenamente um artista. Eu pedagogicamente falo assim: pastor tem família, se diverte, pode ter outras profissões. E é artista também. Eu faço teatro desde 2015, pesquiso a arte da palhaçaria, tenho um palhaço chamado Rabiola – uma construção artística delicada, fruto de trabalho e pesquisa.

“Eu me inspiro na teologia da libertação, na leitura popular da bíblia, em Frei Tito, Frei Betto, Dom Helder, Martin Luther King, Irmã Dorothy, Teresa D’ávila e Francisco de Assis. Quando as pessoas me abraçam e agradecem pela minha vida, pelos meus ministérios, eu agradeço à Deus, mas eu acolho com muita humildade e sabendo, no meu coração, que eu sou resultado de uma história e de muita comunhão”

Fui para Marighella indicado pelo Wagner Moura, mas fiz um teste, passei, fiz preparação de elenco e todo um trabalho de ator na construção daquele personagem. Fiquei muito impressionado com a delicadeza e a competência do Wagner como diretor e fiquei muito apaixonado pelo elenco. Espero fazer outros filmes ao longo da vida, mas se for sempre como Marighella, a impressão que tenho é que a cada filme vou fazer novas amizades – o que me deixa muito feliz.

Para além da dimensão profissional, me sinto contemplado pela mensagem que o filme transmite de compromisso com a democracia, com a liberdade e com a justiça social. E chamando a gente à consciência, à urgência e à gravidade do momento histórico que nosso país atravessa. Não é qualquer coisa ter como presidente um amante da ditadura, autoritários e torturadores. Isso é sinal de que estamos em crise e precisamos superar esse momento.

Você tem uma das falas mais impactantes no filme quando diz que Jesus é negro. Algumas pessoas se incomodaram com isso. Como está sendo lidar com esse impacto?
Isso acontece por conta do racismo, né? É a explicação mais óbvia. O Jesus branco não incomoda, parece neutro, puro e universal. Então, as pessoas se incomodam com a negritude de Jesus por causa do racismo. Não é só o Jesus negro que incomoda, é a negritude que incomoda a branquitude. O Jesus branco parece natural e o Jesus negro precisa ser provado. Quando dizem “qual é a tese acadêmica que você tem pra dizer que Jesus é negro?”, eu devolvo a pergunta: qual a tese acadêmica para dizer que Jesus é branco?

O racismo naturaliza e universaliza a branquitude e estigmatiza aquilo que vem direta ou indiretamente da África. Ele é tão estrutural no nosso imaginário coletivo e na nossa subjetividade que não está só na intenção deliberada de uma ação discriminatória, mas na forma de sentir. Isso só aumenta a necessidade de falar sobre o Jesus negro. É muito simples: do ponto de vista historiográfico e geográfico, Jesus não foi branco. Isso é consenso entre pesquisadores do tema. Oriente Médio, palestino, primeiro século… Jesus não foi branco. Mas quando eu falo que Jesus era negro, para além de uma dimensão epidérmica, é uma dimensão existencial, ética e política. Jesus veio da periferia, de um vilarejo camponês. Andou e permaneceu a vida inteira com os pobres, no meio do povão. Entrou em Jerusalém montado num jumento, contra o poder, porque ‘cavalaria’ era expressão do poder do imperador.

Ele foi preso, torturado e executado pelo Estado. Ou seja, existe uma conexão direta do corpo de Jesus com a experiência negra na América. Foi alvo de preconceito, discriminação, desvalorização social, simbólica e objetiva. Então, existe uma conexão com a luta e esperança do povo negro. E não quero falar só sobre a cruz e o sofrimento. Mas Ele também ressuscitou, o que significa driblar a opressão por teimosia de amor à vida.

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Pintor desconhecido / Colônia Holandesa no Brasil / século XVII/Reprodução

Bolsonaro fala em nome da religião e dos evangélicos. Mas ao mesmo tempo vai contra ao que Jesus falava. Como você enxerga essa postura?
Eu percebo isso de forma diabólica, não no sentido de diabo, mas pensando no significado da palavra. Diabólico quer dizer aquilo que mente, ilude, falsifica a realidade, causa discórdia e destrói. Ele consegue, com muita competência, cumprir com todos requisitos aquilo que é diabólico. Bolsonaro é a expressão contemporânea brasileira do anticristo. Não tem nenhuma proximidade entre o evangelho de Jesus e o bolsonarismo.

Jesus disse que a marca de quem caminha com ele é o amor, Bolsonaro transpira ódio pelas palavras e pelos poros. Jesus disse que felizes são aqueles que promovem a paz, Bolsonaro se alimenta da violência, propõe o armamento da população, tem relação com milícias e fala abertamente sobre ameaças a quem discorda dele. Promete a morte de seus adversários políticos. Jesus viveu cheio de compaixão diante do sofrimento humano, Bolsonaro é um iceberg, um gelo, uma indiferença profunda. A gente viu isso na pandemia, não teve uma palavra de consolo, de ternura, de bondade diante das milhares de famílias enlutadas.

Jesus denunciou o acúmulo de riquezas. Bolsonaro faz um jogo econômico que privilegia os super ricos, massacra o povo, aumenta o desemprego, a inflação e a fome. Jesus deu a vida, Bolsonaro tira a vida. E sobre falar em nome de Deus, quem matou Jesus também falava em nome Dele. Quem matou Jesus achou que estava defendendo a moral, a família, os bons costumes, a religião e Deus. Falar em Deus, qualquer um pode falar. Isso não determina se a gente caminha com Deus.

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O que determina se a gente está caminhando com Deus?
Não tem nem a ver com fé, na realidade. Está escrito no evangelho de João, capítulo 13, versículos 34 e 35. Jesus diz assim, no finalzinho de sua vida: “novo mandamento eu dou para vocês. Que vocês amem uns aos outros como eu amei vocês. Nisto, todos conhecerão que vocês são meus discípulos. Se vocês amarem uns aos outros”.

Eu respondo com a própria Bíblia. O que define caminhar com Jesus não é a fé, a crença, o pertencimento a uma religião, é a capacidade efetiva de amar as pessoas. Veja, Jesus falou ‘ame uns aos outros como eu amei vocês’, ou seja, não é um amor sem parâmetro, um amor sem conteúdo, um amor romântico-sentimental. É um amor ético de quem tem compaixão, de quem tem solidariedade, de quem se importa com a vida do outro, de quem chora a dor do mundo por ver na dor do mundo seu próprio mundo de dor. Então, amar radicalmente e eticamente é o que define quem caminha com Jesus.

“Jesus denunciou o acúmulo de riquezas. Bolsonaro faz um jogo econômico que privilegia os super ricos, massacra o povo, aumenta o desemprego, a inflação e a fome. Jesus deu a vida, Bolsonaro tira a vida. E sobre falar em nome de Deus, quem matou Jesus também falava em nome Dele. Quem matou Jesus achou que estava defendendo a moral, a família, os bons costumes, a religião e Deus. Falar em Deus, qualquer um pode falar. Isso não determina se a gente caminha com Deus”

Você falou em uma entrevista anterior que a esquerda não dialoga tanto com os evangélicos. Como mudar esse cenário?
Eu acho que com humildade, capacidade de escuta, convivência com o povo na sua luta cotidiana pela sobrevivência e quebrar estereótipos e preconceito. Não tem uma receita, mas tem uma introdução aí. Não rotular o campo evangélico como exclusivamente conservador, mas enxergar que são pessoas oprimidas e exploradas num país brutalmente desigual e violento. Esse é o ponto de partida para estar junto com o povo evangélico numa agenda de país.

A esquerda que eu entendo e defendo tem princípios humanos que dialogam com o evangelho. Essa esquerda está interessada em superar a desigualdade, em combater a pobreza, em dividir os bens para que todos tenham acesso aos bens da vida. Então ela tem humildade e escuta, eu acho que algo bonito pode acontecer.

Quem seria Jesus hoje?
Acho que a resposta nem cabe nas palavras porque Jesus não cabe nas palavras. Mas tem um texto do evangelho que Jesus fala assim: quando tive fome, me deram de comer; quando tive sede, me deram o que beber; quando estava nu, vocês me vestiram; quando estava preso e doente, vocês me visitaram; quando era imigrante; vocês me acolheram. E as pessoas perguntam ‘mas Jesus, quando foi que te fizemos essas coisas?’, e Jesus responde: sempre que você faz a meus irmãos, vocês estão fazendo para mim’.

Ou seja, Jesus se identificou com quem está passando fome, sede, com quem não tem o que vestir, com quem está privado de liberdade, quem está padecendo fisicamente, quem não tem acesso à terra, à moradia. Segundo o Evangelho, Jesus está dizendo: quer me encontrar? Quer me ver no mundo? Mais do que olhar para o céu, olha para o lado. Em especial, olha pra quem está à margem.

Ele está no corpo e no rosto da criança que vai dormir com fome, da mulher que foi violentada dentro de casa, do camponês que está na porta do latifúndio improdutivo querendo só um pedacinho de terra para plantar. Acho que Jesus está jogado em uma das calçadas do Rio de Janeiro, pedindo moeda para comprar algo e sendo negligenciado pelas pessoas que passam. Ele está com a transsexual que é apedrejada na rua e é humilhada pelos outros. Eu me permito dizer que Jesus está aqui hoje sim, se atualizando nesses corpos oprimidos.

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