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Elástica explica: Nomofobia

A angústia de ficar longe do celular tem nome, prejudica nossa saúde mental e, infelizmente, só cresce

por Alexandre Makhlouf 21 out 2021 01h49
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João Barreto/Ilustração

Se você é brasileiro, muito provavelmente você vive colado no celular. Não apenas porque, todos os dias, o desgoverno, a CPI da covid e outros absurdos que aparentemente só acontecem no Brasil pipocam na tela do seu smartphone, mas porque o brasileiro não costuma ter muitos limites mesmo – e os dados comprovam. De acordo com dados da pesquisa Global Mobile Market Report, feita pela consultoria Newzoo, o Brasil é o quinto país no mundo com maior número de smartphones – um total de 109 milhões de aparelhos, o equivalente a mais da metade da população. 

Junto com a comodidade de ter aquela comprinha online, a conversa com o/a crush, o mapa pra chegar em casa e as redes sociais – tudo à distância de um toque –, vem também mais uma ameaça para a nossa saúde mental. Isso porque muita gente tem sentido uma angústia, ou até um medo, meio inexplicável de ficar longe do celular. Batizado de nomofobia, ou no-mobile, esse fenômeno vem crescendo rápido e é mais uma camada da dependência digital que há algum tempo muita gente tem notado – em si mesmo ou nas pessoas próximas. A Digital Turbine, empresa de desenvolvimento de apps e marketing digital, divulgou dados mostrando que 20% dos brasileiros não passam mais do que 30 minutos por dia longe do celular. Parece assustador ou estranhamente familiar? Ou os dois?O jornalismo em que a gente acredita depende de você; apoie a elástica

Além dos avanços tecnológicos que não param, a pandemia também contribuiu – e muito – para o aumento da nomofobia por aqui. O estudo da plataforma de mídia revela que 92% dos brasileiros compram online e, desse percentual, 30% intensificou esse hábito desde que a covid-19 chegou no país. Isso ajudou muito a gente a ficar em segurança durante os piores momentos desse período, mas nem tudo são flores quando boa parte das nossas relações fica restrita à tela de um dispositivo. 

“Aparelhos celulares com as mais altas tecnologias surgem todos os dias e isso só reforça uma necessidade de estar sempre perto deles, pois ali se resolve tudo: trabalho, estudos, entretenimento e compras. Por isso, quando nos percebemos distante dele é como se deixássemos de viver ou de estar conectado com o mundo”, explica o professor de psicologia Davi Alves, da faculdade Pitágoras.

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gif com a tela de celular escrita nomofobia piscando

Será que estou com nomofobia?

Todo comportamento que tem o sufixo “fobia” gera aquela pequena taquicardia quando a gente lê e se identifica. Mas como saber se estamos realmente sofrendo de nomofobia ou gostamos de estar conectados de uma maneira saudável? Antes de responder, mais um dado importante para levar em consideração: um levantamento do Google mostrou que 73% dos brasileiros não saem de casa sem levar seu dispositivo – seja um smartphone, um tablet ou outro gadget que garante conexão com a internet. Seríamos, então, quase ¾ da população viciada?

A resposta é não, porque o que caracteriza um comportamento nomofóbico é o sentimento de angústia e a incapacidade de se afastar do celular. O problema, nesse caso, não é a tecnologia em si, mas a forma como você está se relacionando com ela. Davi Alves explica que é preciso ficar atento quando você percebe que não está conseguindo desenvolver alguma tarefa que não esteja vinculada ao uso imediato do celular. Saiu para encontrar amigos e não consegue ignorar aquela notificação do WhatsApp que apareceu? Alerta. Deitou para ler um livro e não conseguiu passar de duas páginas sem dar aquela olhadinha pra ver se aconteceu algo novo no Instagram? Alerta. 

Mas, calma, a solução para reverter esse tipo de comportamento não é se livrar do seu celular, porque boa parte de nós depende dele para, inclusive, trabalhar.  “Quando temos clareza da função daquele objeto, podemos controlar melhor nosso comportamento em relação a ele. Se o celular é usado para trabalhar, pode ser interessante definir qual o horário de trabalho. Se for para estudar, limitar o horário de estudo. Se usado para manter relações afetivas, definir quanto tempo do seu dia será dedicado a isso”, pontua.

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João Barreto/Ilustração

O que mais a nomofobia pode causar?

Depois de mais de um ano isolados por conta da pandemia, estamos, aos poucos, retomando nosso convívio social e nossa vida lá fora. Somos humanos, seres sociais, e as relações com outras pessoas são essenciais para que nossa saúde mental seja mantida no eixo – ainda que, saibamos, o convívio social com algumas pessoas possam contribuir para diminuí-la de vez em quando. Piadas à parte, falamos tudo isso para lembrar que é importante ficar de olho nesse vício em celular porque ele pode ser a porta de entrada para problemas maiores.

“Em termos de distúrbios ou comportamento disfuncionais, nota-se que a nomofobia pode levar a comportamentos de ansiedade e inabilidade social e redução de atenção por estar em hiperfoco. Vale dizer também que essa ansiedade acontece não só pelo uso excessivo do celular, mas também pela exposição às ondas emitidas por tais aparelhos”, completa Davi Alves. O professor alerta também para o aumento dos wearables, como smartwatches, e o quanto o contato na pele – literalmente – com dispositivos eletrônicos pode contribuir para desenvolver a nomofobia. “É importante compreender que todo comportamento acontece mediante a um estímulo e volta a acontecer mediante ao reforço deste estímulo. Isso significa que, quanto mais o indivíduo utiliza wearables, dentre outros recursos tecnológicos disponíveis no mercado eletrônico, e percebe ‘ganhos’ nesse uso, ele é reforçado a não somente reutilizar, mas também a pesquisar similares sempre na busca de algo melhor, e esse comportamento posto em repetições pode, sim, desenvolver e aumentar a nomofobia.”

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João Barreto/Ilustração

Tá, e para sair dessa?

Se você leu esse texto e muitos matches aconteceram entre a sua relação com o smartphone e as descrições da nomofobia, é hora de se inspirar na Tina e finalmente tomar uma atitude. Reconhecer que o comportamento não é saudável é sempre o primeiro passo, mas os próximos podem ser um pouco mais difíceis de colocar em prática. Se você usa muito o celular para trabalhar, uma boa saída é estabelecer um limite de tempo para usá-lo depois que o horário comercial acabar – existem inclusive aplicativos que te ajudam a monitorar e até a estabelecer bloqueios no smartphone para te ajudar, se o caso for grave.

“Outra atitude que pode ser tomada é, a partir de um horário específico, desenvolver outras atividades, como leitura, um esporte, academia, ou algo que possa promover saúde e, nesse contexto, evitar o uso do celular. Mas, se mesmo assim o resultado desejado não for obtido, é importante procurar um profissional, um psicólogo que possa auxiliar nesse remanejamento comportamental”, aconselha Davi.

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As imagens que você viu nessa reportagem foram feitas por João Barreto. Confira mais de seu trabalho aqui.

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