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Da energia à música, de Rafaela a BADSISTA

A DJ e produtora paulistana narra sua trajetória na cena musical brasileira - e mundial - e os preparativos para sua participação no Festival Gop Tun

por Bárbara Poerner 22 mar 2022 00h27
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Clube Lambada/Ilustração

esde sempre meio nerd, ligada em tecnologia, fã de videogames. É assim que Rafaela Andrade relembra parte de sua infância e adolescência. Quando descobriu que era possível juntar tudo isso com a música, “foi o melhor de dois mundos”, conta ela. Conhecida pelo nome artístico BADSISTA, a produtora musical, DJ e musicista vem se consolidando na cena brasileira e mundial há, no mínimo, uma década, mixando estilos do eletrônico, funk, reggae e o que mais sentir vontade. Ela também produziu os discos Trava Línguas e Pajubá, de Linn da Quebrada, e o EP CORPO SEM JUÍZO, de Jup do Bairro, além de firmar parcerias com artistas como Brisa Flow, Pitty e Elza Soares. Em 2016, lançou um EP homônimo, mas seu primeiro disco solo, Gueto Elegante, veio em novembro de 2021.

Agora, BADSISTA se prepara para tocar no Festival Gop Tun, programado para ocorrer em São Paulo no dia 2 de abril. O evento é uma celebração dos dez anos do selo, festa e coletivo de mesmo nome, que busca difundir e diversificar os espaços para a música eletrônica. Será o maior encontro desde seu surgimento, reunindo artistas de dez países: Chile, Itália, Angola, Reino Unido, Alemanha, Colômbia, Estados Unidos, Paraguai, Argentina e Brasil.

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É um momento histórico, ainda, pela possibilidade do presencial. Isso porque a indústria musical eletrônica foi bastante afetada pela pandemia. Após apresentar um crescimento constante desde 2012, ela perdeu 54% de seu valor global em 2020, conforme o International Music Summit Report 2021. As causas da redução são evidentes, balizadas pelas restrições necessárias de festas, aglomerações e encontros como os famosos festivais. Contudo, o segmento encontrou formas de se manter ativo, seja migrando para o digital ou fortalecendo conexões já existentes. Eventos como o Gop Tun sinalizam o momento de retomada e reconstrução da indústria.

Estar de volta nessas pistas é motivo de ansiedade para BADSISTA, que já participou de festas anteriores da Gop Tun. Ela diz que está 100% pronta para tocar e para ver as pessoas se acabando, além da animação por integrar o line com DJs que admira. A produtora diz valorizar o evento, que conta com uma maioria de artistas brasileiros e novos da cena. “A galera vem tocando um som que eles gostariam de ter escutado quando colaram nas festas ou estavam nas pistas. É um compromisso de manter aquela energia”, compartilha ela, em entrevista via chamada de vídeo.

Começar cedo na música é algo que também fez parte de sua trajetória. Natural de Itaquera, zona leste da capital paulista, com 14 anos a produtora já tocava em bares com seu primo e frequentava os roles gratuitos da sua região, mas ainda não sabia que era possível unir música, tecnologia e produzir um som com computadores invés de um violão. Quem lhe introduziu nesse universo foi outro primo. “A primeira vez em que peguei num sintetizador foi por causa dele”, relembra. “Ele fazia algo mais pesadão, industrial, e o que ouvíamos na periferia da zona leste era psytrance, eletro hits. Eu lembro de ser repetitiva. Ele falava pra mim: ‘a repetição é o que faz a hipnose. Até hoje levo isso pra minha vida.”

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Alguns anos depois, BADSISTA estudou Produção Musical por meio do PROUNI. Começou a jogar suas criações na internet e a frequentar rolês de rua. Nessa jornada, conheceu Lei Di Dai, artista que, segundo ela, foi a pessoa que lhe abriu as portas para a indústria musical em São Paulo. Acabou conhecendo também Luana Hansen, colega de profissão, que lhe apresentou alguns trabalhos de Linn, à época. Desde então, começou a produzir junto com ela e outras artistas. Sempre teve liberdade para criar e acredita que “a ideia é energia, não pertence a um indivíduo no mundo”, diz ela, que já rodou continentes com sua música ao tocar em festivais na Uganda e Reino Unido.

Quando começou a frequentar as festas de reggae, passou a buscar um nome artístico para chamar de seu. “Estava procurando um nome porque não dava pra usar ‘Rafaela Andrade’ era muito barzinho, já pensou? Toco tech house!”, brinca a produtora. O nome BADSISTA já rondava sua cabeça, mas a ideia se consolidou depois de uma briga com seu irmão. Ela gostou da sonoridade e da facilidade em memorizar e escrever, e pronto, passou a usá-lo em meados de 2013 e 2014.

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Pedro Pinho/Fotografia

Nas criações, a produtora traz referências que nunca saíram de sua vista, visibilizando, a sua maneira, a comunidade periférica e LGBTQIA+. Além do talento para a produção e para a música, BADSISTA tem a sensibilidade do coletivo. De se reconhecer como parte integrante de um todo cheio de possibilidades. De manter o coração aberto. “Nunca achei que fosse ser DJ, é uma coisa que me surpreende. Achei que ia ser cantora, guitarrista… mas sou também. Essa é a graça, poder ser mais de uma coisa”, comenta. Tudo isso é imerso em muita correria, de “ser uma mafiosa nesse meio” e abrir os próprios caminhos ao lado de quem também está no percurso.

Batemos um papo com BADSISTA sobre sua história, experiências de produção e o momento da indústria musical no Brasil.

“Nunca achei que fosse ser DJ, é uma coisa que me surpreende. Achei que ia ser cantora, guitarrista… mas sou também. Essa é a graça, poder ser mais de uma coisa”

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Como você começou na música e descobriu a produção musical?
A música sempre esteve na minha vida, desde pequena. Comecei a trabalhar quando comecei a tocar em barzinhos. Depois de uma cota fazendo isso, consegui uma bolsa [de estudos] de produção musical pelo PROUNI. Aí comecei a entender como fazia música no computador. Eu tinha vivência da música com instrumentos, sempre fui muito nerd de gostar de videogame e tecnologia, então pra mim juntou o melhor dos dois mundos: tecnologia com música. A partir desse momento, começo a jogar as coisas na internet e sair. Na época tinha muita coisa de graça na rua, isso borbulhou bastante, até que conheci a Lei Di Dai. A Dai foi a pessoa que abriu minhas portas, pra eu fazer meu caminho nesse rolê da música em São Paulo, conhecendo as pessoas etc. Esse lance de me jogar na música eletrônica foi convergindo. O fato da gente se abrir para que as coisas atravessem a gente… nunca achei que fosse ser DJ, é uma coisa que me surpreende também. Achei que ia ser cantora, guitarrista.. mas sou também. Essa é a graça, poder ser mais de uma coisa.

Esse processo, de descobrir a música, teve alguma influência de alguém da sua família ou de outras pessoas próximas?
Tenho um casal de primos que tinham uma banda de forró, comecei a tocar com eles em barzinhos de sertanejo com uns 14 anos. Eu tocava violão, foi muito bom e aprendi muita coisa, estava bem novinha e me jogando. Outro primo era do rolê de música eletrônica. A primeira vez em que peguei num sintetizador foi por causa dele. Ele fazia algo mais pesadão, industrial, e que ouvíamos na periferia da zona leste era psytrance, eletro hits. Eu lembro de ser repetitiva. Ele falava pra mim: ‘a repetição é o que faz a hipnose’. Até hoje levo isso pra minha vida.

De onde veio o nome artístico BADSISTA?
Eu estava colando nos rolês de reggae e procurando um nome, porque não dava pra usar ‘Rafaela Andrade’, era muito barzinho, já pensou? Toco tech house! Eu tenho um irmão, com um ano de diferença, aí a gente tretou, e veio isso, ‘BADSISTA’. Comecei a soltar esse nome lá por 2013, 2014. Nas festinhas da faculdade eu colocava BADSISTA, e depois a Lei Di Dai me abençoou.

Como você conheceu Linn, Jup e outras artistas com as quais já fez parcerias? Como é trabalhar com elas?
Quando comecei a produzir fazia coisas para as meninas do rap e conheci a Luana Hansen. A Luana sempre estava envolvida em bagulhos LGBT+; ela produzia e tinha um estúdio simples, mas gravava essas pessoas, e a Linn foi uma dessas que ela conheceu, gravou “Enviadescer”, e foi isso que mandou pra mim. É meio que todo mundo conectado. Sempre me deram liberdade para criar e a gente gostava daquilo que estávamos fazendo. Foi chic ter feito isso [o álbum Pajubá, de Linn da Quebrada] e ter sentido a liberdade de criar onde a pessoa valoriza o que você está fazendo e você também valoriza a opinião dela. A troca é uma via que vai e vem, quando você está buscando ser vanguarda, não é ficar atrás da linha fazendo o que estão fazendo, mas colocar a sua pulsão ali… não pode e não dá pra ter medo.

Pode parecer prepotente pensar assim, tudo bem, não tem problema, a gente já passou muito tempo se sentindo com a autoestima baixa. O que estamos fazendo é algo do epicentro de uma onda, o que vai virar a gente não sabe, mas precisamos provocar de uma forma. ‘Ai que genial, ela misturou techno com funk’. Não é genial, estava na cara de todo mundo. Ideia é energia, ideia não pertence a um indivíduo no mundo, se pousou na sua cabeça e você não fizer, vai pousar na cabeça de outro. Esse negócio de pensar ‘eu criei’ é colonizador também. Às vezes é algo que está ali, faz parte de todo mundo. O psytrance e o funk andam lado a lado há anos, desde quando eu nem sabia fazer música no PC. Mas o jeito que eu fiz é só o jeito que eu posso fazer.

“O que estamos fazendo é algo do epicentro de uma onda, o que vai virar a gente não sabe, mas precisamos provocar de uma forma. ‘Ai que genial, ela misturou techno com funk’. Não é genial, estava na cara de todo mundo. Ideia é energia, ideia não pertence a um indivíduo no mundo, se pousou na sua cabeça e você não fizer, vai pousar na cabeça de outro”

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Passaram mais de três meses desde o lançamento do seu álbum, Gueto Elegance. Como ele foi recebido pelo público?
Eu sabia que estava arriscando no álbum. Estava construindo música de pista. Eu cantei, escrevi, toquei guitarra, montei beats, joguei efeitos, chamei pessoas. Na [última festa em que participei, toquei a versão de Chega Nas Ideia, e vi todo mundo cantando – e não eram só as minhas amigas. Quando fiz o show no CCSP, num formato banda, uma hora fizemos um momento de ‘agora só vocês’, e todo mundo cantou a letra. Fiquei emocionada de ver uma coisa que estava fazendo no meu quartinho, enfurnada há quase dois anos. Agora estou num lance de fazer um álbum de remix e chamar pessoas que admiro pra remixar e ver o que nasce, o que essa música vai virar além do que já é. O álbum nasceu daquele jeito porque foi uma hora que parei e fomos forçadas a parar, era um momento em que eu estava com um pézinho no burnout, num ritmo muito louco de viagem e trabalho sem descanso. Foi massa o fato de ter feito isso de forma independente, de dar tempo para as coisas existirem.

Nessas viagens, como foi participar dos festivais no Reino Unido e Uganda?
Lá [Uganda] o rolê que eu estava era da galera do underground, pessoal do Nyege Nyege. É uma cena em que todo mundo contribui, que borbulha, que está todo mundo ali junto. Lá é tudo bem binário, culturalmente falando. Às vezes, é uma ideia de mundo diferente, porque nossa vida e cultura no Brasil é de um jeito, aí você chega lá e vê várias similaridades, mas nas entrelinhas é tudo diferente. A galera parte de um ponto de princípio muito diferente em questão de ritmo e melodia, foi massa ficar esse tempo lá, cozinhar com pessoal… é o que falei da troca, deixar as ruas abertas, e não ficar ali querendo impor nada.

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Pedro Pinho/Fotografia

Como estão os preparativos para retornar às pistas presenciais com a sua participação no Gop Tun em abril?
Acho que vai ser um festival bafo, em questão de som. O line está muito massa e a localização também. O Gop sempre vem com outras abordagens. Eu sei que eles tem uma estrutura bafo, podiam lotar o line de gringo e quatro brasileiros e tchau, mas os gringos são a minoria. Estou 100% pronta, e 100% pronta pra ver as pessoas se acabando. Quando a gente está na pista de alguém é como se virasse uma bolha energética… não dá pra ficar de canto ou encostada na parede, tem que deixar rolar. Estou gostando de ver pessoas mais novas tocando, que ainda estavam galgando um espaço em 2019, aí teve o break total em 2020, mas agora estão ocupando os lines. A galera vem tocando um som que eles gostariam de ter escutado quando colaram nas festas ou estavam nas pistas. É um compromisso de manter aquela energia.

Como você visualiza a indústria musical no Brasil?
O dinheiro manda nas coisas. O caminho que fiz pra estar em alguns lugares é de mafiosa mesmo. Eu não gosto de puxar o saco de ninguém, mas sim construir relações que sejam legais para todo mundo. Aqui no Brasil, é o dinheiro que manda e quem você conhece, principalmente em São Paulo. Venho batendo na tecla de que a música periférica brasileira, toda vez que tem que existir num lugar que tem muito dinheiro, tem que ser embranquecida, e não é isso. Eu falo isso porque passei vários anos estudando música clássica e bossa nova quando eu fazia violão. O elitismo mata as pessoas criativamente. É um monte de regra pra não sei o que. E às vezes acho que é muita regra porque eles não têm muito o que contar.

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No começo, eu saía demais, colocava minha cara a tapa. Recebia convite não sei de onde e ia, sim. Fazia todas as conexões possíveis. Ninguém bota fé até ver o momento que você está rendendo. Claro, têm pessoas que botam desde o começo e agradeço muito por elas. É um caminho de formiguinha para as pessoas como eu no Brasil. Agora tenho uma rede de amigos e pessoas que conheço, mas antes não tinha. Toda a oportunidade que aparecia eu agarrava, tanto é que fiquei com um pézinho no burnout em 2019. É nesse pensamento da sobrevivência que a gente existe. Admiro quem tem a gana de fazer esse corre e pra quem já nasceu no meio e tem estrutura, o mínimo que pode fazer é ajudar a diminuir esse monte de erro que existe hoje.

“O dinheiro manda nas coisas. O caminho que fiz pra estar em alguns lugares é de mafiosa mesmo”

Como você vê a relação da música com a política, pensando no contexto brasileiro atual?
Eu acho que uso o espaço das entrevistas para falar das coisas que penso, de provocação. Não vejo a hora desse porco sair do poder, estou cansada, chega. Fiquei muito chateada porque o dia das eleições [de 2018] foi um dia depois de uma festona de aniversário que dei em São Paulo. No dia seguinte foram as eleições e foi uma queda, babado, eu tava muito feliz e de repente estava muito triste. E aqui estamos ainda, todos esses anos. Isso me deixa nervosa, porque a gente não precisava viver desse jeito, não tem porquê as pessoas pobres viverem nessa humilhação. Quanto mais eu viajo, mais vejo que o Brasil é muito rico. No fim o rolê do funk e da música, dos mais underground e LGBT+ de São Paulo, vem nesse lugar da gente se sentir vivo, uma válvula de escape pra sentir que você não está morrendo e desaparecendo no ar. Quando você tem um rolê que vai dançar, se sentir desejada, estar com suas amigas, conhecer gente, ou até tretar, é algo que faz a pessoa se sentir viva.

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