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Pretas, chaves e da favela

Tasha & Tracie cantam e falam sobre moda, música, confiança e autoestima para quem está na correria vivendo a rua todos os dias

por Daniela de Jesus Atualizado em 22 nov 2021, 17h05 - Publicado em 11 nov 2021 02h54
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Clube Lambada/Ilustração

ncontro as gêmeas Tasha e Tracie em uma vídeo chamada durante o final de uma tarde. As irmãs, recém chegadas do shopping em que foram comprar roupas para o próximo show, emendaram uma reunião de trabalho com um almoço rápido e o nosso bate-papo. Tasha Okereke resume a sua parceria com sua irmã: “Somos artistas, artistas realizadoras”. Jovens de 26 anos com origem da Zona Norte de São Paulo, de Trindade e do Jardim Peri, as artistas realizadoras começaram como blogueiras e ativistas. Atualmente, são DJ’s, MC’s, estilistas, produtoras culturais e diretoras de arte. Com foco na música, Tasha e Tracie unem o rap com o funk em suas faixas e abordam diversos temas ligados a cultura negra, vivência periférica, sexo e ostentação.

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Essa mistura de ritmos e o amor pela moda vem desde cedo na vida das irmãs. Filhas de Roseane Aparecida do Nascimento, mãe brasileira, e de James Okereke, pai nigeriano, as artistas ressaltam que eles sempre foram suas principais influências, tanto musicais quanto visuais. “Minha mãe é aquela pessoa que você pode estar na merda, mas ela vai dar um jeito de nos deixar muito arrumada, muito linda. Meu pai também, e além disso, eles amam música. Então crescemos com essa parada da estética e da música”, explica Tracie.

Além disso, a cultura afro, presente na igreja e no restaurante que o pai das gêmeas mantinha no centro da cidade, colocou a dupla desde cedo em contato com a moda e com diversos ritmos musicais, como o dancehall, soul, samba e o pagode, que também tocava no restaurante aos finais de semana. Fora o restaurante, o bairro de Trindade e Jardim Peri também foram uns dos responsáveis pela formação musical de Tasha e Tracie, as artistas estavam cercadas de música já que viviam perto da escola de samba Explosão da Zona Norte, além de frequentar as rodas de pagode presentes no bairro e os bailes e fluxos com predominância do funk.

“O bagulho ainda era super fechado para mulher. Eu acho que é muito recente isso, de estar se abrindo aos poucos. Demorou bem mais para as minas de batalha conseguirem lançar um disco do que os cara de batalha”

Tasha

Mas foi com Bitrinho, irmão de consideração, que Tasha e Tracie compartilhavam o seu interesse por rap e hip hop: “O Bitrinho foi muito importante porque apresentou esse rolê do rap nacional pra gente. Já conhecíamos o rap em teoria, conhecíamos muita música mas não sabíamos que tinha esse rolê. Ele foi a pessoa que nos apresentou e nos levou pro Santa Cruz”, diz Tracie. Esse interesse em comum uniu as irmãs a um dos fundadores da Batalha do Santa Cruz, que acontece próximo ao metrô Santa Cruz, na Zona Sul de São Paulo. O espaço é marcado pelo rap de improviso que revelou grandes nomes do rap nacional como Emicida, Projota, Drik Barbosa, Rashid e Bivolt.

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Steff Lima/Fotografia

“A batalha foi um bom lugar para começar. Na época que começamos a colar em rolê de hip hop, os rolês fechados eram um pouco hostis, o pessoal era zero funk”, explica Tracie, que ao lado de Tasha frequentava a Batalha e que juntas carregavam o estilo e linguajar ligado ao funk. Apesar de frequentarem o evento, as artistas lembram que o espaço era menor para as minas que rimavam, “O bagulho ainda era super fechado para mulher. Eu acho que é muito recente isso, de estar se abrindo aos poucos. Demorou bem mais para as minas de batalha conseguirem lançar um disco do que os cara de batalha”, ressalta Tasha.

Mas foi nesse rolê que as artistas conheceram Drik Barbosa, rapper que as incentivou a criar um blog para falar sobre suas roupas. A partir daí surgiu, em 2014, o Expensive $hit, espaço que uniu moda acessível, ativismo e conteúdos sobre a cultura preta e hip hop, além de fazer com que as gêmeas se denominassem como It Favela, em contraponto ao It Girl. Com parcerias fechadas com diversas marcas, como Avon e Melissa, a moda se tornou o foco principal na vida das gêmeas, mas a música nunca foi deixada de lado e era feita através da discotecagem em festas.

Em 2019, com o lançamento do álbum Rouff junto com Ashira, pelo selo CEIA Ent, o trio nos convidou para dar uma volta na quebrada durante o dia. Em agosto de 2021, com o lançamento de “Diretoria”, o dia já terminou e Tasha e Tracie nos levam para um rolê na quebrada durante a noite. “Diretoria” conta com a produção de Pizzol, MU540, CESRV, DJ MF e Devasto, além de trazer as participações de ONNiKA, Yunk Vino, Febem e Veigh.

O álbum tem um caráter biográfico ao passar por temas que vão desde a criação do Expensive $hit como a ascensão social das artistas. Utilizando bastante a memória afetiva, as letras contam com elementos que exaltam a cultura negra e periférica, como gírias e citações de músicas e artistas. Aspecto que já podem ser notados pelo nome, que além de fazer referência a escola de samba, tem inspiração da faixa homônima do rapper Mc Primo e impõe como as gêmeas desejam se posicionar.

A mistura do rap com o funk, características do brime, marca o estilo das artistas que trazem influência do dancehall, drill, trap, gangsta rap e grime. Além do rolê pela noite na quebrada trazidos pelos elementos afetivos, Tasha e Tracie cantam sobre o foco em seu trabalho, se posicionam como mulheres que sabem o que quer e rimam abertamente sobre sexo e prazer. “Cantamos para que as minas se priorizem, principalmente as mais novinhas”, confessa Tracie. “Esse negócio de ser agressivo é para tomar o bagulho para gente. Porque os caras nos colocam em uma situação de sexualização que a gente fala tá bom, somos cadela, então vamos sexualizar mesmo, a ponto de ser tão agressivo que eles ficam com medo”, completa.

“Diretoria” é apenas a primeira parte da nova fase de Tasha e Tracie. Com um EP previsto ainda para este ano, os dois EPs de 2021 antecedem o álbum que tem lançamento previsto para 2022. Recentemente, as gêmeas estavam entre as poucas brasileiras escolhidas pelo Youtube no projeto #YouTubeBlack Voices, que visa promover e dar visibilidade a vozes negras. Em entrevista à Elástica, elas falaram sobre moda, influência do rap, funk e samba na sua música, sobre o impacto que a música pode ter e revelaram o que é preciso para andar na Mercedes SUV de Tasha e Tracie.

Vamos lá, primeiro eu quero saber como vocês definiriam Tasha&Tracie?
Tasha:
Nós somos realizadoras, eu acho que esse nome é muito bom. A gente se fode muito, mas realizamos muito as coisas. Somos artistas, artistas realizadoras.

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Steff Lima/Redação

Eu quero saber um pouco sobre a história do meio familiar de vocês, como isso influenciou tanto musicalmente quanto na moda. Vocês são filhas de pai nigeriano e também têm uma ligação muito forte com o Bitrinho, um dos criadores da Batalha do Santa Cruz. Então como foi crescer com essas influências?
Tracie: Influenciou totalmente. Na cultura nigeriana, a música é uma coisa muito ancestral. É muito simbólico, domingo na igreja todo mundo ir com a sua melhor roupa e as pessoas dançarem porque tem muita música. As pessoas até rebolam, mas não é uma coisa sexual. E tudo isso atingiu muito a gente, crescemos com um visual de coisas muito diferentes. Meu pai sempre teve restaurante no centro da cidade, de comida nigeriana, e não eram pessoas de uma só nacionalidade, eram pessoas de Gana, Angola, todas as etnias colavam, era um reduto para os imigrantes africanos. Eu, minha irmã e minha mãe também sempre fomos muito de festa, então a gente tinha isso na nossa quebrada também. A gente morava em frente a uma escola de samba, tinha muito pagode e samba na rua também. Essa diversidade alimentou muita a gente. O Bitrinho foi muito importante também, porque ele apresentou esse rolê do rap nacional. Já conhecíamos o rap em teoria, conhecíamos muita música mas não sabíamos que tinha esse rolê. Ele foi a pessoa que nos apresentou e nos levou pro Santa Cruz. Ele era uma pessoa que já estava inserida. Na época dos bondes, o dele era um dos maiores, e a gente fazia parte. Ele era um cara que já ganhava dinheiro gravando.

“Na cultura nigeriana a música é uma coisa muito ancestral. É muito simbólico domingo na igreja todo mundo ir com a sua melhor roupa e as pessoas dançarem porque tem muita música. As pessoas até rebolam, mas não é uma coisa sexual. E tudo isso atingiu muito a gente, crescemos com um visual de coisas muito diferentes”

Tracie

Como foi essa fase inicial que vocês começaram a fazer parte dos bondes?
Tracie:
Então nós participamos de vários bondes da Zona Norte.

Tasha: Não, você tinha sido já de dois e eu só entrei no Charada, você tinha sido do bonde dos românticos.

Tracie: Eu fui do bonde dos românticos (risos) e do Sharadas Surf.

Tasha: Vou até anotar aqui porque temos que escrever na música (risos). O bonde precede o rolezinho. Inclusive, quando começou esse bagulho, pelo menos lá na nossa quebrada, tinha acabado de abrir o Santana Parque, aí começou o bagulho de bonde e as reuniões eram no shopping. Então tinha muita gente de quebrada no shopping.

Tracie: Aí começou a sair na TV como se fosse gangue, facção. Era um monte de adolescentes tentando se divertir. Eram os jovens da periferia criando um lazer, criando uma rede de pessoas. Minha irmã e eu sempre saímos muito, desde os 11, 12 anos, e a gente encontrou o Britinho nessas aí. Nisso, os três gostavam de música, principalmente rap, e fomos as primeiras pessoas que ele conseguiu dividir esse amor pela música.

Puxando um pouco da Batalha do Santa Cruz, como foi esse momento inicial que vocês começaram ir para batalha e conhecer todo esse rolê do rap?
Tasha: Começamos a colar lá bem na época que o Projota e o Emicida estavam estourando, e eles tinham acabado de sair de lá. As pessoas começaram a fazer essa parada de comprar um CD virgem para gravar em casa, fazer as camisetas e sair vendendo, esse corre todo que foi inspirado muito nos caras. Vimos isso acontecer muito de perto, e a gente assistia as batalhas também.

Tracie: Mas a parada do rolê mesmo era muito de outro mundo. Principalmente porque é na frente do metrô, no meio da rua com toda essa coisa dos movimentos culturais. A batalha foi um bom lugar para começar. Na época que começamos a colar em rolê de hip hop, os rolês fechados eram um pouco hostis, o pessoal era zero funk. Não tinha essa de tocar funk, e a gente era muito quebradinha, tínhamos outro linguajar. E mesmo assim as pessoas não tinham preconceito com aquelas que não mostravam a estética do rap. Começar lá foi bom porque conhecemos uma linguagem de um pessoal mais parecido com a gente.

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O que surgiu primeiro na vida de vocês, a moda ou a música?
Tracie:
Eu acho que não tem como a gente colocar primeiro porque meu pai e minha mãe são pessoas obcecadas por estética, veio junto. Minha mãe sempre colocava a roupa combinandinho na gente, não importa se fosse barata. Minha mãe é aquela pessoa que você pode estar na merda, mas ela vai dar um jeito de nos deixar muito arrumada, muito linda. Meu pai também, e além disso, eles amam música. Então, crescemos com essa parada da estética e da música.

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Steff Lima/Fotografia

Em 2014, vocês fundaram o blog “Expensive $h1t”, que deu visibilidade à dupla. Além de falar sobre moda, o enfoque era cultura preta e hip hop. Como surgiu a ideia do blog?
Tasha:
Surgiu em 2014, lá na batalha. A Drika também frequentava e ela fazia muito refrão de vários caras. Ela e a irmã sempre comentavam das nossas roupas, e sempre compramos coisas baratas e acessíveis porque nossa condição era pouca. Nisso, ela disse que a gente tinha que registrar isso e acabamos fazendo. E nosso computador era zuado, ele desligava toda hora.

Tracie: E ela sempre rimou muito, se ela fosse batalhar ou rimar em alguma coisa, ela sempre se destacava muito. A gente ficava muito revoltada porque colocavam ela só para fazer refrão. E a gente não tinha internet, então usávamos um chip de celular que você colocava no pen drive para ter internet. Mas assim, a gente demorava umas 20 horas para fazer o post. Era um corre, o computador desligava de 30 em 30 minutos e gastávamos muito dinheiro em lan house porque a internet do chip era pouca. Mas fizemos porque sentimos que precisávamos dividir os nossos conhecimentos de moda e música.

E vocês falam bastante sobre autoestima, o “Expensive $h1t” foi uma forma que ajudou diversas pessoas trazendo representatividade. Mas como foi o processo pessoal de cada uma para o desenvolvimento da autoestima?
Tracie:
Cresceu muito com o blog. Porque foi a nossa transição, os 20 poucos anos são uma adolescência 2.0. Mas, no Brasil, temos mais responsa, tem que estar trampando e tal. Só que era muito gratificante, porque fazíamos pensando em pessoas iguais a gente, que não tinham referências, em pessoas que colavam no fluxo, nas nossas vizinhas. Nem mirávamos em outras coisas, eram nessas pessoas. E a gente queria até adaptar histórias, tipo a história do Prince, ele é um dos motivos de existir o selo [Parental Advisory] Explicit Lyrics. A gente queria falar uma linguagem que a pessoa que não conhecesse nenhuma música do Prince fosse se interessar, associando com uma coisa que a pessoa já conhece. Isso foi muito da hora, porque a gente teve uma dificuldade na escola, dificuldade de aprendizagem, de copiar, mas sempre desenvolvemos bem a leitura. Nisso, começamos a ser chamadas para dar palestra em escolas, faculdade, fomos tema de TCC, fotógrafo internacional nos chamou. Nós brisamos em uma ideia que teve crítica no começo, mas insistimos e vimos que, depois das críticas, todo mundo fez igual. Mas não foi nem uma autoestima estética, foi mais intelectual de que a gente consegue começar e terminar uma coisa.

E voltando na Batalha, uma coisa que vocês comentaram é que apesar da Drika rimar bem ela fazia mais refrão. Então como era esse começo para as minas que rimavam na Batalha?
Tracie:
Os caras ainda envolviam a Drika em vários bagulhos porque eles viam que ela tinha talento. Mas assim, não adianta, porque os caras se unem. Os caras que dominam vão te deixar ir até onde eles quiserem. Depois da ascensão do Projota e do Emicida, também teve uma ascensão dos brancos e ricos no rap, principalmente no Rio e em São Paulo. Era só isso que rolava.

Tasha: O bagulho ainda era super fechado para mulher. Eu acho que é muito recente isso, de estar se abrindo aos poucos. Demorou bem mais para as minas de batalha conseguirem lançar um disco do que para os caras.

“A gente queria falar uma linguagem que a pessoa que não conhecesse nenhuma música do Prince fosse se interessar, associando com uma coisa que a pessoa já conhece. Isso foi muito da hora porque a gente teve uma dificuldade na escola, de aprendizagem, de copiar, mas sempre desenvolvemos bem a leitura. Nisso, começamos a ser chamadas para dar palestra em escolas, faculdade, fomos tema de TCC, fotógrafo internacional nos chamou”

Tracie

E para vocês, como foi esse processo de ir da moda para a música e se lançarem como DJ’s?
Tracie:
Desde pequena, eu escrevia música. Sonhei em fazer muita coisa, mas a música sempre foi uma certeza para mim. Só que era uma coisa que eu não tinha autoestima pra fazer, era muito difícil de começar. Quando nosso trampo começou a dar certo na moda, era isso que estava sustentando a gente, então começamos a focar na moda. Mas chegou uma hora que começaram a pedir nosso trabalho como DJ e começamos a discotecar. E a Tasha também sempre escreveu muito bem, eu sabia que ia dar certo. Quando entramos na Ceia como DJ’s, deixamos clara a nossa vontade de ser MC’s, eles falaram que na hora que a gente estivesse prontas, estava liberado. Isso aconteceu em “ROFF”, chamamos a Ashira.

Depois do lançamento do EP “Rouff”, em 2019, vocês lançaram “Diretoria” neste ano. O EP conta com a participação de Yunk Vino, ONNiKA, Febem e Veigh e produção de ONNiKA, Febem e Veigh. Como foi que surgiu a ideia desse projeto? Escutando eu senti como se ele fosse uma biografia cantada.
Tracie:
O “Diretoria” é um dos aquecimentos para o nosso álbum, que na teoria sairia esse ano se não tivesse pandemia. Mas, com a pandemia, não deu para encontrar todos os produtores, e somos totalmente envolvidas no processo e de criar coisas no momento. Tanto que no “Diretoria” tem pessoas só de São Paulo que já trabalham com a gente. É o contraponto do “Rouff”, porque o “Rouff” é o rolê na quebrada de dia e o “Diretoria” é um rolê de noite. O nosso próximo EP é sobre muitas coisas, química, sentimento. Nós vamos falar de tudo, mas vai vir algumas coisas que as pessoas pedem e não damos, vamos dar só dessa vez e nunca mais vamos falar desses assuntos de amor. Vai ser a única vez.

E sobre a construção biográfica em “Diretoria”, como foi esse processo?
Tasha:
Não queríamos pesar muito no que estávamos escrevendo. Lógico que temos nosso padrão, do que queremos apresentar e passar para as pessoas. Mas não queríamos ter um peso muito grande porque já estávamos passando por várias coisas.

Tracie: Queríamos nos divertir, então não colocamos o peso de ser o melhor álbum do ano, ou o nosso melhor álbum. Mas demos o nosso melhor dentro do possível e preservamos o que está por vir. Todos os nossos sons são um pouco biográficos porque usamos muito a memória afetiva.

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Steff Lima/Fotografia

O nome e a capa nos remete automaticamente ao samba. Como surgiu o nome do álbum?
Tasha: A gente gosta muito de samba, essa referência é muito mais estética. Porque a gente costumava ir mais para o carnaval de rua.

Tracie: Tem esse bagulho afetivo e também é uma referência à música do MC Primo. São duas coisas que têm a ver com a nossa adolescência. Também tem a ver como queremos nos colocar, porque quem é de quebrada sabe o peso dessa palavra.

Em um trecho de “Lui Lui” vocês cantam “Enquanto você era fã do Justin, eu era fã do K9 (MC)”. Além das outras referências da música e cultura funk no álbum. Como vocês acham que o funk que vocês ouviram na adolescência influenciou o estilo das letras? E como está essa mescla do funk com o rap no cenário atual?
Tasha:
Hoje, é uma hipocrisia porque é obrigação. Isso começou com o trap, porque quando ele veio também tinha um certo preconceito. Só que o bagulho ficou tão popular que é muito provável você ir em uma festa de sertanejo e ter um momento que vai tocar trap. O trap fala mais de assuntos artificiais, luxúria, sexo, que tem a ver com o funk. Isso abriu a mente das pessoas. E também as associações que os artistas começaram a fazer entre si porque é tudo favela, deveria ser assim desde o início. Foi o público que definiu isso, porque ele começou a querer ir em uma balada que toca trap e funk. Hoje, é muito fácil você ir numa festa de rap e tocar trap e funk. Nós começamos tocando funk em lugares que mandava parar de tocar. Mas o funk dominou demais para ser ignorado.

No geral, nas letras de rap as mulheres são sempre retratadas como secundárias, o que é esperado por serem cantadas majoritariamente por homens. Mas vocês trazem uma visão feminina com a mulher no controle da situação. Como é esse processo para vocês e como é ver repercutindo?
Tracie:
Ah, a gente adora porque os caras ficam muito intimidados, e eles ficam bravos.

Tasha: Sim, várias minas do rap lá de fora cantavam isso e a gente queria trazer pra cá, porque aqui o rap tem esse compromisso social. Foi necessário por muitos anos ser um bagulho mais social, não que não seja hoje, mas todo mundo fala como foi os anos 80 e anos 90, o que que era uma favela antes então era preciso ser cabeçudo, bater nessa tecla para caramba. Eu já ouvi o Brown falar muito disso também. Hoje, com a liberdade e facilidade de fazer a música, tem uma diversidade. Isso trouxe para nós mulheres possibilidade de conseguir falar do que queremos. No começo tinha esse peso social – e, também por ser só homem, virou um bagulho machista. Poder falar desse lugar, e poder abrir, ser mais uma das minas que estão abrindo a categoria. Nós também falamos putaria, também bancamos o nosso camarote. Eu trabalho, eu faço o meu corre e sou melhor do que muito cara ai.

“O trap fala mais de assuntos artificiais, luxúria, sexo, que tem a ver com o funk. Eu acho que isso abriu a mente das pessoas. E também as associações que os artistas começaram a fazer entre si porque é tudo favela, deveria ser assim desde o início. Foi o público que definiu isso, porque ele começou a querer ir em uma balada que toca trap e funk”

Tasha

Tracie: E a gente ainda fala com muito mais técnica, porque os caras só falam e falam. Mas é isso, é da hora que as minas se sentem mais gostosas e confiantes, isso é uma coisa que a gente quer também. Nós temos irmã mais nova, então queremos que essa geração de mulheres tenha mais o controle. Crescemos esperando que o cara tem que gostar de você, que todo mundo tem que gostar de você, a mulher cresce querendo ser amada. Não prioriza entender o que quer fazer da vida nem se questiona se quer ser amada agora, acaba criando essa dependência. Cantamos também para que as minas se priorizem, principalmente as mais novinhas. Além de correr atrás da própria grana. Esse negócio de ser agressivo é para tomar o bagulho para gente. Porque os caras nos colocam em uma situação de sexualização que a gente fala tá bom, somos cadela, então vamos sexualizar mesmo, a ponto de ser tão agressivo que eles ficam com medo.

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Steff Lima/Fotografia

Nas letras vocês falam bastante sobre ascensão social, das meninas que antes não conseguiam comprar uma Lui Lui, mas agora tem diversos calçados à disposição. Como foi esse caminho para vocês?
Tracie:
É complexo e louco, direto entramos em uma bad. Eu tenho uma casa que eu comprei todos os móveis, mas sempre moramos em uma casa que nada combinava porque era dado. Ao mesmo tempo que isso dá alegria também gera uns traumas, porque na hora de gastar o dinheiro ou a gente não gasta com prudência ou gasta com muita prudência. Mas é muito bom ter coisas que não tínhamos, é muito mais sobre qualidade de vida. Hoje quando a minha mãe faz aniversário conseguimos levar ela para comer onde ela quiser, conseguimos ajudar o meu pai a morar onde ele quer. Então é um processo muito louco para gente e que às vezes é um trauma, porque preto e dinheiro é uma relação que é de crise.

Em Rouff vocês cantam “Eu quero arrombar/ Invadir essa porra/ Render esses cara/ Sou boa demais para ser ignorada/ Só pode fazer essa letra fraca porque a sua existência não é questionada/ Vocês podem até gostar/ Mas tem que respeitar”. E também em “Diretoria” tem o trecho “Subestimaram e eu virei ameaça”. Quais situações vocês sentiram que tiveram dificuldades de serem escutadas ou foram subestimadas?
Tasha:
Trabalho e também por ser nova. Todas as áreas que a gente se meteu fomos subestimadas.

Tracie: No começo é muito assim, de perceber que seus próprios amigos sentem até uma vergonha alheia, ou de fingir que eu não está vendo para esperar se vai dar certo ou não. Mas nunca discutimos, sempre focamos no nosso.

“Nós temos irmã mais nova, então queremos que essa geração de mulheres tenha mais o controle. Crescemos esperando que o cara tem que gostar de você, que todo mundo tem que gostar de você, a mulher cresce querendo ser amada. Não prioriza entender o que quer fazer da vida nem se questiona se quer ser amada agora, acaba criando essa dependência. Cantamos também para que as minas se priorizem, principalmente as mais novinhas.”

Tracie

Afinal, o que precisa para andar na Mercedes SUV com vocês?
Tasha:
Precisa ser pelo certo, ser uma pessoa zuada é o único jeito de não ir.

Tracie: Se você for uma pessoa que não se esforça em fazer mal para os outros, já está ótimo. Porque os vencedores não perdem tempo se vingando, a vingança vem do nosso foco, de focar no seu e focar em você.

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