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“Bom Dia, Verônica” e o combate à violência doméstica

Conversamos com Tainá Müller sobre a sensibilidade, responsabilidade e força necessárias para interpretar a protagonista

por Beatriz Lourenço 2 ago 2022 22h39
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Clube Lambada/Ilustração

o Brasil, a violência contra a mulher é uma realidade que só cresce. Segundo a pesquisa “Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher”, realizada em 2021 pelo Instituto DataSenado, em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência, 86% percebem esse aumento. Para 71% das entrevistadas, o Brasil é um país muito machista

De acordo com o estudo, 68% das brasileiras conhecem uma ou mais mulheres vítimas de violência doméstica ou familiar, enquanto 27% declaram já ter sofrido algum tipo de agressão por um homem. Por isso, ampliar esse debate é essencial – e papel do estado, da mídia e da arte. 

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Arte/Redação

A série Bom Dia, Verônica, que acaba de estrear sua segunda temporada na Netflix, envolve uma narrativa que busca informar o assunto por meio de um suspense policial. Baseado no romance de Ilana Casoy e Raphael Montes, a série conta a história de Verônica, uma escrivã da delegacia de homicídios de São Paulo que descobre um esquema de corrupção dentro da corporação. A partir daí, ela é tomada pela sede por justiça enquanto luta para desmascarar Matias, um líder religioso que abusa da esposa e da filha. 

“Na primeira temporada fiz uma preparação de campo na delegacia de homicídios do Rio de Janeiro e pesquisei muitas mulheres policiais e casos de violência contra a mulher”, conta Tainá Müller, que interpreta a protagonista. “Estudo a teoria feminista há algum tempo e comecei uma pós-graduação em filosofia contemporânea, onde consegui aprofundar mais o estudo de gênero.”

Bom Dia Verônica. Klara Castanho as Angela in Bom Dia Verônica. Cr. Laura Campanella/Netflix © 2022.
Bom Dia Verônica. Klara Castanho as Angela in Bom Dia Verônica. Cr. Laura Campanella/Netflix © 2022. Netflix/Divulgação

Para ela, a produção conecta todas as mulheres e as ajuda a entender mais sobre o tema. “Recebi mensagens fortíssimas de pessoas que viviam relações abusivas e não tinham percebido o quão grave isso era, outras agradeceram porque a série as encorajaram a sair de casa e algumas falaram que aprenderam o caminho para denunciar”, revela. A atriz também conta que o patriarcado e a cultura do machismo é o que cria esse problema, que deve ser combatido não só por igualdade de direitos, mas uma mudança profunda de pensamento sociocultural. Abaixo, leia o papo completo com Tainá Müller:

“Recebi mensagens fortíssimas de pessoas que viviam relações abusivas e não tinham percebido o quão grave isso era, outras agradeceram porque a série as encorajaram a sair de casa e algumas que falaram que aprenderam o caminho para denunciar”

Tainá Müller
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Netflix/Divulgação

Bom Dia, Verônica trata da violência contra a mulher em forma de suspense policial. De que forma uma produção cinematográfica pode conscientizar a sociedade sobre esse tema e até encorajar as mulheres a denunciarem?
O retorno que tive de mulheres que sofreram violência foi imenso. Recebi mensagens fortíssimas daquelas que viviam relações abusivas e não tinham percebido o quão grave isso era, outras que agradeceram porque a série as encorajaram a saírem de casa e algumas que falaram que aprenderam o caminho para denunciar… E não só mulheres brasileiras! Esse retorno veio de mulheres da Argentina, Portugal e Uruguai. Isso ressalta que a violência contra a mulher é um problema mundial.

A gente vive num país especialmente perigoso. Temos altíssimas taxas de estupro e feminicídio, mas o Brasil infelizmente não é um caso isolado. Nesse sentido, a série conecta todas as mulheres. Nossos corpos são vulneráveis a desrespeitos, assédio, violência. Precisamos de soberania sobre nossos corpos. 

Quais são os desafios de interpretar uma personagem como Verônica, que lida de perto com crimes que atingem nossa sobrevivência fora das telas?
A Verônica me atravessa profundamente de diversas formas. Até porque ela não se encerra, segue ativa há duas temporadas. Entre uma e outra, eu continuo vivendo ela – e isso exige tudo o que tenho. 

Nessa temporada, especialmente, a Verônica estava afastada da família. A missão toma conta da vida dela de tal forma que ela é obrigada a se afastar. Ironicamente, também tive que me afastar da minha família porque meu marido e filho estavam em São Paulo e eu filmei no Rio de Janeiro. Por conta da pandemia, não pude viajar de avião e eles foram pontualmente me visitar algumas vezes. Digo que vivi na pele um pouco do que ela viveu. A missão da Verônica ultrapassa a ficção, sei a responsabilidade que é interpretar essa mulher. 

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Netflix/Divulgação

O grande vilão dessa temporada é Matias, um pastor que é visto como bom moço, mas que abusa de sua própria filha. No Brasil, não faltam casos de violência doméstica envolvendo familiares. Quais são os comportamentos da nossa sociedade que encobrem casos como esse?
A nossa sociedade é extremamente machista. Nasci em um lugar onde o legal era ser “macho” e não expressar sentimentos. A gente vive em um sistema capitalista patriarcal que foi construído pela exploração dos corpos femininos, pessoas indígenas e pessoas que foram escravizadas. Essa coisa de se sentir subjugada o tempo todo não é fruto do caos, mas de uma construção histórica. As mulheres tiveram que servir os homens pela reprodução e pelo trabalho. Temos que entender que o despertar do feminismo é muito mais complexo do que só a igualdade de direitos. É sobre uma mudança de consciência e de sistema. 

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“A gente vive em um sistema capitalista patriarcal que foi construído pela exploração dos corpos femininos, pessoas indígenas e pessoas que foram escravizadas. Essa coisa de se sentir subjugada o tempo todo não é fruto do caos, mas de uma construção histórica. As mulheres tiveram que servir os homens pela reprodução e pelo trabalho”

Tainá Müller

Qual é um possível caminho para combater esse problema?
Precisamos de uma mudança de cosmovisão, algo muito profundo. Somos uma geração que vive essa linha de frente e muitas vezes somos até combativas. Temos que ser assim mesmo pois nossa função é abrir espaço para as meninas que chegam mais diferentes, com outra cabeça. E a gente tem pressa! Ainda assim, precisamos lembrar que nenhum movimento histórico de mudança acontece tão rápido. Botamos nossos tijolinhos para que as próximas gerações também cumpram sua parte e a gente consiga avanços como unidade daqui um tempo. 

Nos últimos meses, as mulheres têm sofrido muitos retrocessos: o governo quer revogar o aborto legal e nos Estados Unidos isso já está acontecendo. Além disso, várias denúncias de abusos têm se intensificado na mídia. Como você percebe esse movimento?
Fico questionando: será mesmo que há um retrocesso ou estamos tendo mais acesso às informações? Quando falamos de perda de direitos, existem mil razões para que isso aconteça. Isso porque esse sistema patriarcal está ruindo, ele virou insustentável em várias instâncias – tanto no nível de sobrevivência da espécie, quanto psíquico e social. Essa falência leva a um backlash. Isso que aconteceu nos Estados Unidos e os movimentos conservadores são uma resposta de quem está vendo o sistema ruir. 

As denúncias, por sua vez, significam que estamos vivendo uma era de superexposição onde essas coisas aparecem mais. Há 20 ou 30 anos atrás não havia nem a possibilidade de gravar vídeos e disso vir a público. E essa quantidade de informações sobre o tema é necessária, mas vem nos trazendo mais dor. Sentimos muito nos nossos próprios corpos e é claro que isso nos traz uma sensação de revolta. 

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Netflix/Divulgação

O aborto e a adoção têm sido temas discutidos e alvos de críticas. Em uma entrevista, você comentou que a maternidade te transformou, mas que também trouxe sombras. Por que é tão importante, então, que a gente traga para o debate a importância da escolha de ter ou não filhos?
A gente tem discutido muito sobre essa maternidade compulsória e várias autoras feministas fazem a gente pensar se somos mães porque desejamos ou é o cumprimento de um papel social. Essa é uma questão bem individual, mas precisamos conversar sobre isso. No meu caso, tenho certeza que sempre quis ser mãe e não foi por um desejo social. Sempre fui muito sedenta de experiências na vida e a maternidade é uma experiência que tem muitas trocas. Sei o mergulho que é e sinto que isso me consome muito. 

Existem muitos tipos de maternidade, a que eu escolho exercer é muito profunda e de conexão – e isso exige tempo, paciência, dedicação, abnegação. Mas é óbvio que existem mulheres que podem ser mais desapegadas e vão criar ótimos filhos assim. É uma escolha de cada uma.

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