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Maconha e maternidade: fumar pode deixar a jornada mais leve? 

Coletivos de mães que fazem uso da cannabis acendem o debate sobre como a erva pode ajudar a reduzir a carga trazida pelo maternar

por Camila Rosa Atualizado em 8 mar 2022, 18h35 - Publicado em 7 mar 2022 23h44
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Arte/Redação

romantização da maternidade não é nenhuma novidade. Ser uma supermãe e exercer todas as atividades que envolvem o cuidado integral de uma criança ainda são funções tratadas como uma tarefa fácil. Entretanto, a realidade pode ser bem mais exaustiva e caótica no dia a dia – afinal de contas, é humanamente impossível passar por esse ciclo sem se sentir esgotada às vezes.

Quando uma mulher se torna mãe, suas vontades e anseios continuam dentro dela. Mas, com a rotina cansativa fica cada vez mais difícil se conectar com quem elas eram antes de gerar um ser. É por isso que, para Heloísa*, assistente administrativa, de 22 anos, escolher continuar fumando maconha foi uma decisão simples. “Acredito que fumar um beck mudou a minha forma de maternar. Muitas vezes, é cansativo, difícil e dolorido. Todos os dias eu descubro algo que preciso renunciar, das coisas simples às grandiosas”. 

“Acredito que fumar um beck mudou a minha forma de maternar. Muitas vezes, é cansativo, difícil e dolorido. Todos os dias eu descubro algo que preciso renunciar, das coisas simples às grandiosas”

Heloísa*

A jovem já fumava maconha e cigarro desde a adolescência. Além disso, ela nunca planejou e nem desejou ser mãe e, aos 19 anos, quando descobriu que estava grávida, foi um choque. “Como eu não queria, acabei não me preparando para abandonar algo que eu gostava de fazer. Apenas diminuí o uso que já fazia e fui atrás de artigos que falassem sobre os possíveis malefícios, mas nunca encontrei pesquisas muito concretas. Acho que os estudos nessa área são bem escassos.”

O achismo de Heloísa tem fundamento, de acordo com Caroline Rozendo, ginecologista e obstetra do Conjunto Hospitalar de Sorocaba. A médica afirma que um dos maiores empecilhos na hora de realizar o estudo é justamente o estado gestacional e, que a paciente se encontra. “Não encontramos público disposto a testar a funcionalidade da substância durante este período. Estamos falando de duas vidas, e uma delas não tem a liberdade de escolha em fazer ou não parte do teste”, explica.

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Além de existirem poucas pesquisas sobre o tema, algumas também são inconclusivas e não cravam se a cannabis faz bem ou mal para a gestante e o bebê. A médica generalista Daniela Arruda de Barros é uma das gestoras do grupo de apoio às mães que fumam maconha, o Mama Sativa, e afirma que até existem estudos que comprovam que o uso da cannabis diminui quadros de pré-eclâmpsia e de diabetes gestacional, porém este mesmo estudo aponta riscos de nascimento prematuro e descolamento de placenta. O uso é desencorajado, mesmo sem a conclusão enfática de prejuízos reais. “Sabemos que, como toda substância ingerida por uma gestante, a cannabis sativa irá interagir com o bebê, afinal eles também possuem sistema endocanabinóide. A maconha é a droga mais utilizada por gestantes e precisamos de mais informações e estudos para que possamos vencer o preconceito”.

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Arte/Colagem/Redação
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Decisões que têm cor

Para a doula Gabriela Alana Dantas, outro fator que dificulta o incentivo ao estudo é a criminalização e a marginalização dos consumidores da cannabis, uma vez que é comum a prisão de pessoas portadoras da substância no Brasil . “Falando da realidade preta, pobre e periférica do nosso país, contamos com outro fato pouco falado: muitas mulheres pretas e pobres perdem diariamente a guarda de seus filhos apenas por fazerem o uso da maconha”.

“Falando da realidade preta, pobre e periférica do nosso país, contamos com outro fato pouco falado: muitas mulheres pretas e pobres perdem diariamente a guarda de seus filhos apenas por fazerem o uso da maconha”

Gabriela Alana Dantas

O fator racial influenciou também no silêncio de Gabrielle Neves Candido,  jornalista cultural e co-fundadora da Brasa Mag, durante as consultas ao obstetra. “Tive receio de abordar esse tópico porque sou uma mulher negra em um relacionamento com um homem negro, e a reação poderia ter sido drástica. Já estava uma pilha de nervos porque a situação da pandemia ainda era muito incerta, não tive rede de apoio e quis evitar outro problema”, conta.

Sem coragem de abordar o especialista, Gabrielle seguiu o mesmo caminho de Heloísa: foi em busca de pesquisas. Além disso, contou com a ajuda de sua doula, que a orientou sobre como a cannabis afetaria seu organismo. A dica foi simples: evite fumar, mas se mesmo assim quiser continuar, tente fazer a redução de danos.  

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@diariodeumamaeconheira instagram/Reprodução

O termo é muito utilizado e conhecido por quem faz uso de drogas e visa reduzir as consequências adversas para a saúde. A doula Gabriela complementa que, nesse processo, uma das dificuldades é encontrar uma planta boa. “Num país proibicionista e punitivista, conseguir uma flor de qualidade, além de muito arriscado, acaba saindo caro. Todo o processo para a autorização do plantio para consumo medicinal também é um caminho difícil. O que resta para muitas pessoas é consumir ilegalmente o prensado, que não temos o menor controle de qualidade: se é ou não sativa, se tem x ou y porcentagem de CBD e THC. Eu indico lavar a prensado e tentar extrair o RSO para um consumo menos nocivo”, reforça.

Além disso, outra dica da profissional é usar piteira de papel ou de vidro alongada, filtros e sedas que não tenham passado por cloro ou tinturas e, caso prefira fumar no bong, que esteja limpo e possibilite o uso de água gelada para resfriar a fumaça. “Acredito que a maior redução de danos que podemos ter é a legalização e a descriminalização do plantio, consumo e compra da cannabis. Dessa forma reduzimos os danos físicos, morais e principalmente sociais que temos em relação à proibição da planta, e, quem sabe, até sonhar com fim da guerra às drogas e o encarceramento em massa”.

“Acredito que a maior redução de danos que podemos ter é a legalização e a descriminalização do plantio, consumo e compra da cannabis. Dessa forma reduzimos os danos físicos, morais e principalmente sociais que temos em relação a proibição da planta”

Gabriela Alana Dantas
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@thoughtcatalog/Intervenção/Pexels

A realidade das mães que fumam

Apesar da falta de comprovação científica, os relatos de mães que fazem o uso são positivos e mostram que os benefícios vão além dos efeitos físicos, como o relaxamento do corpo e a tranquilidade. No caso de Heloísa, foi uma maneira dela se reencontrar. “Com a chegada do meu filho, eu sentia que eu não era mais eu. Não tinha momentos para ser a Heloísa de antes, me olhava no espelho e só me via como mãe. Por isso, quando voltei a fumar as coisas mudaram, era um momento que eu tinha pra mim”.

“Eu acordo 6h para levar ele para escola e ir para o trabalho. Quando chego em casa a noite ainda preciso limpar e fazer comida, é muito exaustivo. Por isso eu criei essa regra para mim, o momento de fumar meu baseado é sagrado. Hoje em dia, meu filho não mama mais no peito e já dorme sozinho no quarto dele, então, quando ele pega no sono, chega a minha hora. Dali pra frente, por mais que eu esteja cansada do meu dia, eu sei que as coisas ficarão mais leves”.

Para Gabrielle, o momento de fumar também é somente após a filha dormir. Atualmente, a relação da jornalista com a maconha não é a mesma de quando era adolescente. Hoje, ela acredita que tenha mais entendimento sobre o próprio corpo, saúde mental e a redução de danos. “Fumar me ajuda a ter finais de dias mais tranquilos e me recentralizar, é um momento que vale como um suspiro fundo”.

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Arte/Colagem/Redação

A erva que traz o autoconhecimento

Enquanto algumas mães optam por continuar a fazer o uso mesmo durante a gestação, puerpério e amamentação, outras decidem voltar depois que os filhos já estão maiores. É o caso da fisioterapeuta Nicole*, de 36 anos, mãe de dois filhos de 8 e 6 anos. Ela fumou maconha dos 17 aos 23, mas parou porque, na época, causava um certo desconforto dentro do relacionamento com seu parceiro. Nicole só foi voltar a usar, esporadicamente, depois que sua primeira filha nasceu, quando saía com as amigas e bebia e, assim, se sentia segura para fumar. 

Entretanto, em 2018, com dois filhos e uma rotina que exigia mais dela, algumas coisas mudaram. “As crianças estavam numa fase difícil, falavam e me desafiavam mais, e eu não conseguia ter a leveza da maternidade. Foi quando eu comecei a fazer terapia – psicanálise e holística – e comentei com minha terapeuta que, quando fumava, com as minhas amigas me sentia muito bem, mas que havia parado de consumir há anos. No mesmo dia, eu consagrei a ayahuasca e foi maravilhoso. Quando ainda estava ali na ‘força’, passei a comparar a sensação da experiência com o que eu sentia quando fazia o uso da maconha por lazer e vi o quanto aquilo poderia me beneficiar”.

Foi só no meio da pandemia que a fisioterapeuta passou a fumar frequentemente. “Falei com uma amiga e peguei dois baseados só para ver como seria a minha semana. Fumava quando o meu corpo começava a dar sinal de que eu iria surtar: quando as crianças estavam brigando, a casa estava bagunçada e eu estava muito estressada. Eu fugia para o quintal, dava quatro tragadas e voltava mais tranquila. Tem sido a minha válvula de escape para não surtar com eles”.

“Peguei dois baseados para ver como seria a minha semana. Fumava quando o meu corpo começava a dar sinal de que eu iria surtar. Eu fugia para o quintal, dava quatro tragadas e voltava mais tranquila. Tem sido a minha válvula de escape”

Nicole*

A partir daí, ela criou um ritual para que pudesse se sentir bem. “Consumir uma vez na semana é sagrado. É quando tomo um banho de ervas, fumo, acendo velas, faço meditação, uso óleo essencial e escrevo no meu diário. Costumo fazer isso quando as crianças estão na escola, ou quando estão dormindo, e meu marido não está em casa. Hoje, fumo flor e haxixe – o segundo uso principalmente para o dia do meu ritual”.

O marido de Nicole ainda não sabe que ela voltou a fumar, mas ela pretende contar a ele, uma vez que a mudança tem sido tão positiva para ela. “Com exceção de uma prima, ninguém da minha família sabe. Não apoiam porque ainda existe muito preconceito. Se existisse um grupo de apoio às mães que fumam, eu me sentiria muito acolhida, principalmente se tivessem esse olhar terapêutico que eu comecei a ter”.

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Arte/Colagem/Redação

A rede de apoio que elas precisam

Foi justamente a falta desse lugar de acolhimento e paz que motivou a criação do Mama Sativa (@mamasativa_indica). O projeto, que funciona de forma voluntária, surgiu de uma iniciativa da escritora Maíra Castanheiro, que já abordava o tema em seu Instagram (@diariodeumamaeconheira). A partir daí, ela fez uma convocação para estudar o uso de drogas pelas mães e como a sociedade via isso. Muitas pessoas se inscreveram e, hoje, sete mulheres são responsáveis por gerenciar o grupo, que se tornou uma rede de apoio integral e online às mães que fumam cannabis.

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@mamasativa_indica instagram/Reprodução

 “Temos um laboratório de estudos que investiga como a maconha pode beneficiar as mães, um laboratório de escrita, onde elas se reúnem para exercer o que chamamos de escrita curativa, voltada para o autoconhecimento. Também contamos com atendimento terapêutico, médico e jurídico, com valores de consulta integral, social e até gratuitos em alguns casos”, conta Thaís Castilho Pinto, jornalista canábica que faz parte do Mama Sativa.

A psicóloga Marcelle Louzada, também gestora da rede, explica que o grupo terapêutico é, na verdade, um grupo de escuta. “É um exercício para estarmos juntas, via Google Meets, nos vendo e nos escutando, oferecendo apoio pelo simples fato de estarmos presentes ali. Eu sou a mediadora do encontro atuando como psicóloga e esquizoanalista. Pela esquizoanálise, o ponto central do trabalho é a produção de desejo. O grupo é atravessado por esse questionamento ‘de onde pulsa o desejo e a nossa vitalidade?’, justamente para que a gente não fique presa no lugar da mãe guerreira, batalhadora e sobrevivente, para que assim possamos desenvolver nossa criatividade plena”. 

“É um exercício para estarmos juntas,nos vendo e nos escutando, oferecendo apoio pelo simples fato de estarmos presentes ali. O grupo é atravessado por esse questionamento ‘de onde pulsa o desejo e a nossa vitalidade?’, justamente para que a gente não fique presa no lugar da mãe guerreira, batalhadora e sobrevivente”

Marcelle Louzada
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As mães que fazem parte da gestão da rede são de Minas Gerais, São Paulo, Santa Catarina e Bahia. Por acontecer remotamente, é possível atingir mais pessoas. Mas, ainda é preciso ter incentivo por parte da sociedade. “Nós temos planos de aumentar essa rede de apoio para atender cada vez mais mães. Apesar de existir há apenas seis meses, a demanda é alta. Entendemos que esse é um nicho que precisa de financiamento”, afirma Thaís. 

Lá, as mães encontram um lugar onde podem ser quem são, longe da culpa. “Muitas delas nos procuram e ficam nesse limbo porque não temos pesquisas que comprovem os benefícios, em contrapartida, a melhora é visível no nosso corpo. A culpa que sentimos não é só pessoal, mas também social. Existe um julgamento em torno de quem usa maconha, mas hoje a ciência já provou os benefícios dela em muitas áreas. O nosso maior desafio agora é a comunicação, informar as pessoas e mostrar a importância da pesquisa sobre o uso na maternidade”.

“Recentemente ajudamos uma mãe que poderia perder a guarda do filho, justamente por fumar maconha, mesmo que os seus cuidados com a criança fossem excelentes. Movimentamos nossa rede e conseguimos tirá-los de casa para um lugar seguro, longe das ameaças do pai da criança. Foi mais um tipo de apoio que conseguimos realizar”, conta a jornalista.

“Existe um julgamento em torno de quem usa maconha, mas hoje a ciência já provou os benefícios dela em muitas áreas. O nosso maior desafio agora é a comunicação, informar as pessoas e mostrar a importância da pesquisa sobre o uso na maternidade”

Thais Castilho Pinto

Ainda há muito para ser desmistificado sobre a temática, entretanto, as mães que usam podem garantir que os benefícios potencializam o seu maternar. “Quando fumo, sinto realmente uma liberação de endorfina, o prazer é muito grande, ainda mais associado ao meu momento e ao meu ritual. Eu fumo com a certeza de que serei a melhor mãe que eu posso ser para os meus filhos”, completa Nicole.

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*A pedido das entrevistadas, alguns nomes foram trocados para manter a privacidade

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