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Fugindo de bebês

Em um país que proíbe o aborto e tem 55% das gravidezes não planejadas, falar sobre contraceptivos é fazer o que a saúde pública não faz

por Uno Vulpo - Sento Mesmo Atualizado em 16 dez 2021, 10h43 - Publicado em 15 dez 2021 08h59
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Cezar Berje/Ilustração

De acordo com o Worldometer, nascem aproximadamente 275 mil pessoas por dia no mundo e, só no Brasil, no ano de 2020 nasceram cerca de 2,6 milhões de bebês. Ou seja: é gente para um c*ralho. Porém, nem todos esses nascimentos vieram acompanhados de planejamento e felicidade, já que cerca de 55% das gestações no Brasil não são planejadas, de acordo com dados da Fundação Oswaldo Cruz. A gravidez não planejada é um grande problema de saúde pública, já que, muitas vezes, está associada a diversos problemas como depressão pós-parto, abortos clandestinos (no Brasil é crime, o que leva cerca de meio milhão de brasileiras a recorrer a formas nada adequadas para interrupção da gravidez – e isso leva a muitas mortes). Por isso, conhecer os métodos anticoncepcionais é importantíssimo para não acabar levando um susto por aí – socorro, né?

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Cezar Berje/Ilustração

O que são contraceptivos?

Anticoncepcionais ou contraceptivos são os métodos que evitam a gravidez. No Brasil, a educação sexual é extremamente precária, faltando um planejamento nacional de ensino desde atividade sexual até o que chamamos de planejamento familiar, que são, de acordo com a própria lei, ações de regulação da fecundidade para dar a todos o direito de ter quantos filhos quiser, no momento que quiser e com todo o apoio necessário – lindo, né? Pena que não funciona bem assim.

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Cezar Berje/Ilustração

Quais são os tipos?

Existem vários tipos de métodos contraceptivos, que podem ser divididos em métodos chamados reversíveis e definitivos. Os primeiros, de acordo com a Febrasgo (Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia), têm vários subtipos: comportamento, barreira, intrauterinos, hormonais e os de emergência. Já os definitivos são as esterilizações cirúrgicas (ligaduras e vasectomias). De acordo com dados da ONU, cerca de 65% das pessoas utilizam algum método contraceptivo. No Brasil, o mais utilizado é a pílula anticoncepcional, com uso por cerca de 29,7% das pessoas, muito provavelmente por ser um método bastante eficaz, de fácil adesão e já amplamente disseminado na cultura brasileira.

Voltando a falar sobre quais os tipos de métodos, temos os seguintes:

ComportamentoMétodos Contraceptivos

São mudanças nas práticas sexuais que tentam prevenir a gestação. Talvez os mais conhecidos sejam a tabelinha e o coito interrompido. Durante um mês, as pessoas que menstruam têm dias de fertilidade e dias de não fertilidade: o método da tabelinha (ou Ogino-Knaus) recorre justamente a esse calendário, que dita quais dias você pode transar, sem medo de filhos e outros dias que você está com possibilidade de engravidar numa transa desprotegida. É um método que teria uma eficácia até boa se fosse executado com absoluta perfeição e apenas em pessoas com o ciclo menstrual muito regular, além da coragem em confiar no calendário, né? Se você não tem um ciclo menstrual MILITAR e/ou pontualmente BRITÂNICO, nem tente. O coito interrompido é também comportamental e é basicamente retirar o pênis antes da ejaculação. O problema é conseguir tirar o pau antes de leitar, né? Na hora do fervo, muitas vezes fica difícil. Então, é considerado um método de baixa eficácia, pois, além do que eu disse, o próprio líquido seminal (aquele lubrificante natural do pênis) já possui espermatozóides viáveis. Ou seja, que conseguem chegar lá.Fora esses, temos métodos menos comuns, como avaliação do muco cervical, lactação (mulheres durante o aleitamento materno passam por um período sem ovular) e de curva de temperatura basal.A abstinência sexual também pode ser considerada um método anticoncepcional comportamental, mas difícil né?Importante lembrar que os métodos comportamentais não protegem contra infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).

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Barreira

métodos contraceptivosSão os métodos que literalmente criam uma barreira entre o pênis e o útero. O mais conhecido é a camisinha, que existe tanto para pessoas com pênis como com vagina – externos e internos, respectivamente. É um método de moderada efetividade (90-95%), tem uma ampla distribuição entre as pessoas, não tem contra indicações e também protege contra ISTs – tudo, né?Entretanto, precisa ser utilizado corretamente. Por mais que seu uso seja simples para muitas pessoas, ainda existem diversos momentos e recortes onde ela tem obstáculos no uso e principalmente em como usar. Sobre isso, leia o meu texto sobre os tabus da camisinha. Ps: Usar camisinha não é tão intuitivo assim, tá? Alguns detalhes, tipo apertar a pontinha antes de colocar (evitar entrada de ar), fazem total diferença na eficácia final do método.Outras barreiras são os cintos de castidade, o diafragma, que é um disco feito de látex que fica na frente da entrada do útero, e os espermicidas, que são cremes que matam os espermatozóides (baixa eficácia).

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Intrauterinos

métodos contraceptivos

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Os intrauterinos mais conhecidos são os dispositivos intrauterinos – ou DIUs. Eles são contraceptivos inseridos no útero e têm uma grande praticidade, já que não necessitam de muita manutenção ou dependência de saber como usar – o famoso botou, acabou. Tem uma taxa de efetividade alta, poucos efeitos colaterais, poucas contraindicações e são de longa duração. Os DIUs têm diversos materiais e mecanismos de ação, sendo importante que quem queira utilizá-los procure uma assistência médica para maior conhecimento dos tipos e qual o mais apropriado para as suas demandas. É um ótimo método principalmente para pessoas jovens e adolescentes, já que não demanda tanto deles.Para colocar, não tem muita neura, não. Pode ser feito em consultório mesmo – dependendo do caso é preciso anestesia e internação – e a dor é bem suportável para muitas mulheres (a dor para inserir ele no útero). Os mecanismos e tipos de DIUs são vários, mas, no geral, eles funcionam criando uma resposta inflamatória no útero que impede que a fecundação ocorra.

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Hormonais
métodos contraceptivos

São os mais utilizados pelos brasileiros. As pílulas são amplamente usadas e existe uma grande gama de combinações de hormônios para diferentes demandas e necessidades. É comum que muitas pessoas procurem os hormônios não só para contracepção, mas também para diminuição de espinhas, menos menstruação e afins.Uma coisa que muitas pessoas não sabem, todavia, é que não são apenas as pílulas que são contraceptivos hormonais. Existem também possibilidades como os anéis vaginais, que fazem liberação do hormônio dentro da vagina, adesivos transdérmicos (colados na pele) e as injeções, que são administradas em períodos regulares (em intervalos mensais por exemplo) e possuem todos uma ótima eficácia.É importante lembrar que são vários os fatores que alteram a eficácia das pílulas. Então, não são tão raros os casos de “puts, eu tava tomando pílula e engravidei!”. Desde hábitos intestinais, até os horários que você toma as medicações interferem na sua eficácia. Então, se liga!

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Emergência
métodos contraceptivos

Bom, milhões de coisas podem acontecer e levar à necessidade de uma anticoncepção depois da transa – violência, rompimento da camisinha e outros. É importante ressaltar que devem ser usados apenas em emergências mesmo. Muitas pessoas ainda insistem em usar a chamada “pílula do dia seguinte” várias vezes, e fazer isso aumenta suas chances de falha. Os efeitos colaterais são desconfortáveis e, nessas medicações, as doses hormonais são altas, levando até distúrbios menstruais – sem falar que você tem de se proteger de ISTs também, né? Então coloca a camisinha, por favor. Dependendo da composição, as pílulas podem te salvar em até 5 dias após o sexo. Todavia, é recomendado que seja usado em até 3 dias, pois, a cada dia que passa, fica menos eficaz e mais próximo do aniversário do seu futuro filho.

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Definitivos

métodos contraceptivos

São as cirurgias e podem ser feitas em pessoas com ou sem útero. No caso de quem tem útero, tem-se a ligadura tubária e, no caso de quem tem pênis, tem-se a vasectomia.Mas, no Brasil, você não pode solicitar quando quiser (aff). Para fazer uma operação do tipo, é necessário ter mais de 25 anos ou pelo menos 2 filhos. Além disso, é preciso que, se a pessoa for casada, haja assinatura de um termo pelo cônjuge permitindo a operação – um absurdo, né? Ainda mais pensando que tem muito homem que faz escondido, por conta da cirurgia ser muito mais simples do que a das mulheres. Sem falar que é proibida a cirurgia de esterilização durante o parto, salvo se a pessoa tiver já duas cesáreas anteriores.

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Cezar Berje/Ilustração

O SUS é maravilhoso e disponibiliza gratuitamente vários dos métodos: a injeção mensal, pílulas, diafragma, DIU (de cobre), camisinha, laqueadura e vasectomia. Qual é o melhor para mim? 

Então, a pergunta na verdade é: o que você quer em um anticoncepcional? Que seja um que você não precisa se lembrar o tempo todo? Um que você pode tomar todo dia? Algum definitivo?Cada organismo e recorte tem suas demandas e necessidades. Logo, chegar num profissional de saúde e conversar sobre como e porque você deseja evitar a gravidez é fundamental para uma escolha adequada de anticoncepção. Os DIUs e o implante por exemplo são ótimos para pessoas que não conseguem se organizar para tomar a medicação todo dia e em horários corretos, religiosamente.

Um assunto importante é a anticoncepção em pessoas trans. Ser trans e utilizar de hormônios não é por si só anticoncepção! Existe uma grande ideia errada de que homens trans não engravidam por conta da testosterona que usam. Na verdade, a testosterona é só um risco para malformações do feto e não impede a fecundação. E que fique claro: homens trans podem engravidar Então, amore, se tiver afim de ter um nenenzinho, procure um ginecologista e obstetra e vai fundo, literalmente.

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Cezar Berje/Ilustração

Não esqueça outro penetra da festinha: IST’s

As gatinhas e gatinhos heterossexuais normalmente só se preocupam com filhos – sim, estou generalizando horrores mesmo. Não à toa, estamos anualmente crescendo as taxas de infecções de HIV, sífilis e outras infecções entre a população sexualmente ativa.Por isso, o ideal é que exista uma estratégia de prevenção rolando junto da anticoncepção. Seja com a camisinha, que vai te proteger tanto de ISTs como de bebês, seja com outros métodos acompanhados de testagens frequentes, profilaxias pré-exposição e afins. No fim, com alguns cuidados e planejamento, você transa gostoso e sem se preocupar com mais ninguém – que vai vir.

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As ilustrações que você viu nessa reportagem foram feitas por Cezar Berje. Confira mais de seu trabalho aqui.

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