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Negra Li: “É libertador quebrar tabus”

Ela quer mostrar a mulher que sempre esteve por trás da rapper: “Tenho vontade de falar de como me sinto com o empoderamento que encontrei aos 42 anos”

por Helena Galante, da Boa Forma Atualizado em 14 out 2021, 15h07 - Publicado em 13 out 2021 00h53
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Clube Lambada/Ilustração

Poxa, justo na minha vez a foto não é de biquini?!” Foi assim, em tom de brincadeira e cheia de autoconfiança, que Negra Li encarou sua primeira sessão de fotos para a Boa Forma. Depois de uma separação e da descoberta de um novo jeito de trabalhar, ela está curtindo o corpão, a cabeça no lugar e a maturidade emocional que ganhou com o tempo.

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“Tenho vontade de falar mais de mim, das minhas revoltas, inseguranças, vontades, de como eu me sinto com o empoderamento que consegui encontrar aos 42 anos”, conta. Na entrevista exclusiva, ela mostra quem é a mulher por trás da rapper.

“Tenho vontade de falar mais de mim, das minhas revoltas, inseguranças, vontades, de como eu me sinto com o empoderamento que consegui encontrar aos 42 anos”

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Boa Forma / Patty Lima/Fotografia

No comando da sua vida

O ano de 2021 foi intenso para Negra Li – ou Liliane de Carvalho, como poucos a conhecem. Em maio, ela lançou “Comando”, música forte que fala sobre legado, ancestralidade e esperança na construção de um futuro triunfante: “Presta atenção / Agora é sua vez de me ouvir / Se não aguenta ouvir, pode sair / Aqui é Negra Li / A que comanda, apoiada por mais de cinquenta mil manas / Essa é minha fama, nega drama / Quatro décadas são pétalas / Me fez florir / Minha história, eu mesma que escrevi/ Glórias, vitórias ainda estão por vir / Você vai sentir”, ela canta.

Toda a potência na voz e na imagem são acompanhadas também de muita sensibilidade, que hoje ela não evita expor. “A ansiedade bate, não durmo direito antes da gravação de um clipe. Intensifico os cuidados com o corpo, faço uso de canabidiol para ajudar com os sintomas da ansiedade, me preocupo em tomar todos os cuidados para não ficar doente”, conta.

Com direção de João Monteiro, o clipe tem ainda a participação de sua filha mais velha, Sofia: “Precisei convencê-la a participar. Expliquei que ela iria representar o futuro para as meninas, que ela era o meu legado.”

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Laços familiares reforçados

No fim do ano passado, chegou ao fim o casamento de Negra Li com Júnior Dread. Pais também de Noah, de 4 anos, eles tentaram formas de se reencontrar no relacionamento, mas optaram por seguir caminhos separados. “Não dá para falar que não deu certo. Mas quando não está legal, tira o brilho da gente”, fala. A fase que seguiu a decisão foi uma montanha-russa de sentimentos – mas que trouxe grande crescimento. “Quis explorar o mundo. Precisei me encontrar, me entender, descobrir todos os meus porquês.”

Dentro da família, as descobertas vieram junto com todas as mudanças impostas pela pandemia. Do vazio da casa quando os filhos estão fora até as dinâmicas de cozinhar ou fazer junto a lição de casa da escola, todos os momentos foram experimentados integralmente. “No começo da quarentena, tive a fase de cozinhar todo dia, agora não quero cozinhar nada. Tem sempre uma coisa que a gente deixa a desejar.” A intenção é cumprir os diferentes papéis sem se aproximar do esgotamento. “Quando fico cansada real e não quero fazer nada, me respeito.”

“Quis explorar o mundo. Precisei me encontrar, me entender, descobrir todos os meus porquês”

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Boa Forma / Patty Lima/Fotografia

Ser mãe

Tanto Sofia quanto Noah são criados com autonomia, mas não podem tudo não. Por decisão própria, Sofia decidiu cortar os produtos de origem animal da alimentação, foi estudar gastronomia vegana e ganhou todo apoio da mãe. Quando a vontade foi de explorar as redes sociais, Negra Li impôs restrições. “Ela tem veia tiktoker, mas quando vi alguns conteúdos que não eram adequados para a idade dela, achei que não era certo. Monitoro o Instagram, tudo”, conta.

Com o caçula, também foi preciso testar as melhores formas de comunicação. “Seria mais fácil falar sim para tudo, mas a criança sente que você não se importa. Quando dou uma bronca, ele entende que eu cuido dele, volta de um jeito amoroso. Não dá para ser 100% oba oba.”

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Boa Forma / Patty Lima/Fotografia

Ser mulher

Nas suas redes sociais, Negra Li se permitiu falar abertamente sobre sexo no projeto #SóUmaTacinha. “Falo sem roteiro, o que tenho vontade. Minha mãe falou ‘Liliane, mas você fala até de sexo oral’. Eu falo mesmo. As pessoas querem fingir que não fazem essas coisas. Falo de informações que teriam me ajudado se eu soubesse antes. As mulheres têm que se conhecer, é libertador quebrar tabus.”

Ela conta que já sentiu um policiamento do seu público sobre as postagens que fazia, mas hoje a cobrança está menos intensa. “Eu gosto de fazer fotos, de mostrar meu corpo. Também sou modelo. Quero mostrar a mulher por trás da rapper, vamos humanizar essa visão”, afirma. “Por ter vindo do rap, ainda escuto cobranças como se estivesse me vendendo, gente perguntando ‘Cadê a música?’. Essas coisas da internet não me incomodam mais. Quero estar bem e me sentindo confortável em mostrar o que eu quiser.”

“Minha mãe falou ‘Liliane, mas você fala até de sexo oral’. Eu falo mesmo. As pessoas querem fingir que não fazem essas coisas. Falo de informações que teriam me ajudado se eu soubesse antes. As mulheres têm que se conhecer, é libertador quebrar tabus”

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Boa Forma / Patty Lima/Fotografia

Cuidado com o corpo

A dificuldade para dormir sempre esteve presente na vida de Negra Li. Foi preciso buscar ajuda de um psiquiatra para solucionar a questão. Os exercícios, porém, são sua grande ferramenta para regulação do organismo. “Adoro manter meu corpo, mas fazer atividade física é fundamental para o psicológico também”, afirma. Ela começou a fazer musculação aos 18 anos e nunca mais parou. Depois da gravidez da Sofia, ficou um tempo malhando apenas esporadicamente, até voltar de cabeça para a prática. “É uma coisa que eu gosto. Me traz o benefício de me achar bonita, mas percebi que com a ansiedade é algo que eu não posso ficar sem. Preciso desse hormônio para trazer felicidade.”

Outras atividades que fazem parte do seu dia a dia são o muay thai, a dança (as coreografias sempre estiveram presentes nos seus shows) e o yoga. “Nunca fiz uma aula de yoga presencial, comecei na pandemia. Mas está sendo maravilhoso por conta da meditação, da atenção à respiração.”

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Boa Forma / Patty Lima/Fotografia

Próximos trabalhos

Estar confortável no seu próprio corpo é fundamental para trabalhos como o clipe de Eu Preciso Ir, lançado em agosto em parceria com Ferrugem. À vontade de camisola e lingerie, Negra Li canta: “Por te amar demais / Eu fiz mil loucuras, me deixei pra trás / E vivo com a culpa de te amar demais / Nessa história ninguém fica em paz / Eu preciso ir/ Por me amar demais / Eu preciso ir”.

O amor próprio aparece com força na sua relação com a espiritualidade e também com o trabalho. Criada numa família religiosa, Negra Li frequentava a igreja antes da pandemia, mas ainda não se sente segura para voltar. Exerce sua fé nas suas orações e no seu livre-arbítrio. “Carrego os ensinamentos e boas ações da religião, mas hoje sei que posso ser quem eu sou e ainda ser aceita por Deus. Jesus prega o amor. Foi libertador quando consegui juntar as coisas do mundo e o lado espiritual.”

A união de dois mundos acontece também numa nova forma de trabalhar que a pandemia trouxe. Ela passou a adotar o camping criativo para organizar seu próximo disco. Ao reunir uma equipe pequena por muitos dias consecutivos, sentiu-se segura e encorajada a falar de sua história. “Tenho vontade de falar mais de mim, das minhas revoltas, inseguranças, vontades, de como eu me sinto com o empoderamento que consegui encontrar aos 42 anos.” Negra Li segue em movimento e todas nós aprendemos com ela.

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Foto e captação de vídeo: @oipattylima
Edição de vídeo: @koba
Cabelo e make: @moisesccosta e @caiqques
Styling: @miricciardi
Direção de arte: @oipedroemilio
Negra Li veste: @aluf__, @hectoralbertazzi, @brennheisen, @victorhugomattoss, @presspassrocks e @ocksaofficial
Agradecimento: @melinatavarescomunicacao

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