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Gozar sem chorar

Cresce o uso de antidepressivos e, com isso, a libido acaba diminuindo. Afinal, ainda dá pra ser feliz e manter o tesão?

por Uno Vulpo - @sentomesmo 13 ago 2021 01h06
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Clube Lambada/Ilustração

ealmente não está fácil ser brasileiro. Se antes da pandemia você ainda não tinha cogitado acompanhamento psicológico ou pensado em tomar alguma medicação, depois de mais de um ano o assunto já se tornou, no mínimo, recorrente. Venlafaxina, sertralina, frontal e outros nomes que estão cada vez mais comuns no nosso dia a dia são os salvadores da nossa saúde mental, junto com a terapia – que se mostrou o melhor investimento dos últimos anos para quem já fazia. Todavia, desde que você começou a tomar tais medicações, talvez você tenha percebido quea ejaculação está demorando mais, o orgasmo por vezes não vem e, de forma geral, o jeito que você transa ou se masturba está mudando – para pior. Se isso tudo anda te incomodando a ponto de querer parar de tomar os remédios, por favor, leia este texto antes.

Um levantamento feito pelo Conselho Federal de Farmácias mostrou que a venda de medicações antidepressivas cresceu 17% no ano de 2020 em comparação a 2019. Além disso, um estudo do ano passado da UERJ avaliou mais de 1.400 pessoas em 23 estados e mostrou um aumento de 90% dos casos de depressão e de 70% das crises de ansiedade em comparação a 2019. Nos consultórios, já é assunto clássico e recorrente a insegurança quanto aos efeitos colaterais de ansiolíticos, antidepressivos e estabilizadores de humor. A pauta é um grande tabu e, por isso, pouco discutida na relação médico-paciente, já que os efeitos – muito incômodos e recorrentes – envolvem os nossos momentos mais íntimos. De acordo com uma pesquisa feita em 2003, 50% dos pacientes que iniciam tratamento com medicações psiquiátricas não relatam sobre os efeitos colaterais a suas médicas ou a seus médicos. Além disso, cerca de 41,7% dos homens e 15,4% das mulheres admitiram que interromperam o uso dos remédios depois que começaram a perceber mudanças na vida sexual.

De acordo com uma pesquisa feita em 2003, cerca de 41,7% dos homens e 15,4% das mulheres admitiram que interromperam o uso dos remédios depois que começaram a perceber mudanças na vida sexual

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João Barreto/Ilustração

A Joice*, de 23 anos, faz tratamento para depressão e ansiedade há três anos. Ela iniciou com terapia cognitivo-comportamental e, depois de um tempo, também se consultou com uma psiquiatra, que lhe receitou algumas medicações. No início, tomava fluoxetina e a sua libido “se tornou extinta”, como ela mesma diz. A partir daí, trocou de medicação por várias vezes e, hoje, faz uso de duloxetina, que no campo sexual está fazendo o efeito inverso: aumento do apetite sexual. 

Os efeitos mais relatados pelas pessoas que tomam medicações antidepressivas, ansiolíticas ou estabilizadoras de humor são a queda de libido ou o aumento da libido, ejaculação precoce ou retardada, falta de orgasmo ou disfunção erétil (dificuldade na ereção). Então, é comum, como no relato da Joice, que, depois de mudanças na medicação, os efeitos colaterais também mudem. 

Eu mesmo já passei por várias medicações ou doses diferentes e, a cada mudança, era um grande medo. Antes de um encontro com alguém, surgia uma ansiedade grande de não conseguir gozar com aquela pessoa, não conseguir manter a ereção e, no fim, acabar numa transa ruim. Entretanto, percebi que minhas inseguranças estavam mais relacionadas em como aquela medicação vai afetar o outro do que a mim mesmo. A partir disso, comecei a refletir que cada um transa de forma diferente e, principalmente, goza de maneira diferente. Assim, é muito importante que aconteça um diálogo na “hora H” – esse termo deve ter uns 50 anos – para alinhar as expectativas. Considerando que cada vez mais pessoas estão tomando diferentes remédios, as chances de você encontrar alguém que está passando ou passou pelo mesmo é grande, então o diálogo vai acontecer de forma muito mais orgânica. Agora, se a pessoa que está com você criar problema por conta de medicação, a reflexão já é sobre continuar ou não se relacionando com ela.

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João Barreto/Ilustração

Os efeitos mais relatados pelas pessoas que tomam medicações antidepressivas, ansiolíticas ou estabilizadoras de humor são a queda de libido ou o aumento da libido, ejaculação precoce ou retardada, falta de orgasmo ou disfunção erétil (dificuldade na ereção)

Voltando no meu papo com a Joice, perguntei a ela o que, durante todo esse tempo de tratamento, considerou mais importante. Ela me respondeu que realmente os efeitos eram bastante incômodos, mas mais incômodo ainda era a depressão e a ansiedade que ela estava passando. Ou seja, com a medicação, você tem dificuldades para gozar ou atingir orgasmos, mas, sem ela, a depressão e a ansiedade não permitem nem que você tenha libido para pensar em se relacionar. Então, o que fazer?

Dependendo da medicação que você está tomando, os efeitos e as formas de lidar com eles podem ser diferentes. Mas vou te contar a seguir algumas estratégias que você pode tentar praticar para finalmente conseguir gozar sem chorar.

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João Barreto/Ilustração
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Não pare de tomar remédio por conta própria!

Como falamos no início do texto, a maioria das pessoas simplesmente interrompe o uso dos remédios depois de sentir alguns efeitos colaterais. Entretanto, pode acontecer de eles serem transitórios e você parar de tomar antes desses efeitos colaterais desaparecerem, ou até de ser uma questão psicológica e você nem saber. Por isso, uma das dicas mais importantes é se abrir para o profissional de saúde que te acompanha para que vocês consigam, juntos, traçar uma estratégia para lidar com os efeitos. Todo mundo transa, todo mundo tem tesão, então, não é vergonha você se incomodar e relatar sobre o que você está sentindo. Existem várias possibilidades de ajuste de doses, acréscimo de outras medicações, troca de substâncias e até mesmo programações de como usar o remédio que o profissional pode te indicar e resolver o seu problema. Você não vai ser o primeiro a contar para um psiquiatra que está com dificuldade para gozar. Caso você não se sinta confortável com sua médica ou médico, a dica é procurar alguém com quem você se identifique mais e consiga se abrir.

Converse com quem está com você

Todo mundo está passando por momentos tensos, principalmente no contexto pandêmico. Assim, não é vergonha alguma contar ao outro que você toma ansiolíticos, antidepressivos ou outras medicações e que, por isso, você tem um tempo diferente para ejacular, chegar no orgasmo ou atingir ereções. Abordar essa conversa com o outro (ou outros) é importante para você alinhar o que você espera daquela relação sexual com o que o outro espera e, o mais importante, evitar ficar “neurado” depois, pensando que o problema do date foi porque você não gozou ou porque brochou.

Calma!

Toda medicação demanda um tempo para conseguir fazer seu efeito. Então, antes de parar, pergunte para quem te receitou em quanto tempo os efeitos podem surgir, o que é e o que não é esperado e, assim, quando algo sair do conversado ou te incomodar, você e sua médica ou médico tomam uma iniciativa. Além disso, é muito comum que as pessoas parem de usar a medicação em períodos em que sabem que vão transar, por exemplo. Isso é uma péssima estratégia, pois atrapalha a eficácia do seu tratamento e só piora a sua relação com a medicação. Antes de fazer qualquer coisa, converse com quem te acompanha.

Gozar não é tudo.

Levando em conta que uma das maiores queixas é quanto a gozar, é importante fazer um adendo sobre a forma que transamos. Vivemos imersos em diferentes referências de como o sexo deve acontecer e muitas delas trazem uma visão roteirizada e falocêntrica da relação sexual. Transar é muito mais que conseguir ejacular vários litros, como os filmes pornográficos representam. Transar é sobre trocar afeto e compartilhar prazer. Então, a dica é um convite a começar a refletir sobre as diferentes formas de aproveitar seu corpo sozinho ou com o outro.

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As imagens que você viu nessa reportagem foram feitas por João Barreto. Confira mais de seu trabalho aqui

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