expressão

Agulha, linha e transformação

A estilista trans Vicenta Perrotta repensa a moda através da inclusão de corpos distintos e acolhimento de populações vulneráveis

por Laís Duarte 29 jun 2021 23h56
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Clube Lambada/Ilustração

nxergar o que há de melhor no outro, seja ele gente ou coisa. Ver além da aparência é o exercício diário, natural. Vicenta Perrotta faz isso. Costura a própria vida transformando a realidade alheia. Não é à toa que ela se descobriu estilista há tanto tempo. Saiu do ensino médio disposta a se embrenhar no mundo da moda, mas a arte do vestir não era ensinada nas faculdades públicas e ela não tinha condições financeiras de bancar uma particular. A família não aceitava o rumo que ela queria dar ao próprio destino. “A família não deseja a pessoa trans, ela não quer. Acaba se tornando tóxico. A gente começa a ter uma relação tóxica porque as pessoas não querem ver você ‘daquele jeito’. Elas querem te ver dentro das expectativas que construíram sobre você. E essa expectativa é um processo de alienação, é um processo de construção cristã. Enfim, você não pode esperar nada das pessoas. As pessoas têm suas escolhas, são donas de seus corpos“, explica Vicenta.

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Vicent Catalla/Fotografia

Para tecer a própria história, ela foi estudar modelagem nos famosos cursos do Serviço Social do Comércio, o Sesc. Descobriu uma aptidão para alinhavar alegrias e inspirações, bordando o talento nato com o talento alheio. Em seguida, foi uma das 40 pessoas selecionadas para fazer parte de um curso de corte e costura mais amplo, com duração de 5 meses. Passou a entender tudo do babado.

Com a criatividade à flor da pele, fez de sementes amazônicas matéria-prima para colares. “Depois, comecei a construir brincos de papelão e retalho. E era tudo bordado. Eu entregava nas mãos de mulheres bordadeiras, elas bordavam para mim. E assim eu já estava fazendo trabalho em rede. Também fiz um processo de cerâmica no meio desse tempo. Peguei o barro e dei formas, derreti o vidro e dei formas. Fiz um curso de design de joias. Tudo isso pensando em construir formas orgânicas, em pensar nas nossas raízes como sociedade, tudo o que já foi introjetado, sabe?!”

Projeto Semente –
Projeto Semente – Cássia Tabatini/Fotografia

Era hora de pensar em algo maior, em uma coleção de roupas. Fazia sentido buscar tecidos no Brás, o bairro das confecções de São Paulo. Foi garimpar. “Dentro desse garimpo que eu comecei a conhecer as oficinas clandestinas de costura, porque eu tinha que entrar lá para mexer no tecido. Tive contato com os bolivianos, coreanos”.

E era tanto tempo investido em localizar o que era único em meio a tanta repetição que Vicenta saía das lojas no fim do dia. E no lusco-fusco da cidade grande, passou a ver riqueza no lixo. ”O povo jogava fora sacos e sacos de tecido, e aí eu comecei a mexer nesses lixos. Nunca mais eu comprei tecido. Ia para o Brás e trazia para Campinas os lixos das confecções”, relembra. Com o descarte da moda, desenvolveu projetos misturando técnicas ancestrais como o patchwork, a costura de retalhos, bordados. De uma só vez, transformava os tecidos e as mulheres. “Eu convidei mulheres cisgêneras e outras mulheres trans para um trabalho coletivo e só vieram aquelas que não sabiam costurar. Uma delas não enxergava nada, uma mulher cega. Aí decidi que ia fazer aquela pessoa costurar. Eu proporcionei a ela ter acesso à criatividade, porque a gente também não tem acesso a isso. A gente não tem tempo para ser criativa, e essa mulher fez uma roupa maravilhosa, toda colorida. E tudo manual. Quando criei o curso, queriam que a gente costurasse sacolas. Mas falei: ‘não! A gente vai criar, vai pegar o lixo e fazer roupa’”, conta ela.

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Rafa Kennedy/Fotografia

A primeira coleção autoral foi toda feita a partir do moletom. No vai e vem das máquinas de costura, fez peças juntando três camisas, roupas sem gênero, sem formato definido, que vestem corpos de todos os tamanhos. “Eu fui fazendo Mundo Mix [evento multicultural, que reúne artistas de múltiplas linguagens]. Estive três vezes no festival de Bonito, no Mato Grosso do Sul, um festival que foi muito importante para minha carreira de estilista porque meu trabalho começou a ter proporção no Brasil e na fronteira com o Paraguai, reverberando e se tornando referência. Nessa época, fiquei estudando o Modernismo, a Antropofagia. Para homenagear a cultura indígena, já fiz cocar, acontece que isso me atravessou de um jeito que abriu outros pontos – por exemplo, o questionamento desse padrão de beleza europeia. Só que a gente vive num país que tem o povo originário indígena! Hoje, não faria mais roupas estampadas com cocar porque entendi que isso é uma apropriação cultural”, reflete a artista.

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No transformar de Vicente em Vicenta, perdeu contato com a própria ancestralidade. Herdou o nome do avô, cresceu com a mãe e o irmão em Campinas, interior de São Paulo. Tem outros dois irmãos por parte de pai, mas não se relaciona com eles. Vive a própria verdade. “Sou uma travesti. Mas o que é ser uma travesti? É um corpo que se desvencilha, desamarra do que foi dado para ele, do que foi imposto. Penso que eu sou uma travesti não-binária, sem peito e bunda. Eu carrego o corpo que eu nasci. Não tomo hormônio. Não é uma crítica a quem toma o hormônio. Não é isso. Eu não tomo hormônio porque não quero fazer nada que vá mudar muito meu corpo”.


“O que é ser uma travesti? É um corpo que se desvencilha, desamarra do que foi dado para ele, do que foi imposto. Penso que eu sou uma travesti não-binária, sem peito e bunda. Eu carrego o corpo que eu nasci. Não tomo hormônio. Não é uma crítica a quem toma o hormônio. Não é isso. Eu não tomo hormônio porque não quero fazer nada que vá mudar muito meu corpo”

A medida em que as portas familiares pareciam se fechar, as portas do mundo da moda se abriam. Ela foi parar na Casa de Criadores, evento bombado que promove marcas novas e alternativas. Levou para uma grande vitrine, com selo de qualidade, seu trabalho com upcycling, seus processos de criação com inclusão e sustentabilidade. Virou referência por transmutar tudo em que punha a mão, e, por isso, convidada para transformar também outras vidas. “O ‘Arte, Cultura e Costura’ foi um curso que fui convidada pelo Instituto Tomie Ohtake para fazer, para construir todo um processo pedagógico de arte, costura e humanização do corpo trans, do corpo que vive em vulnerabilidade. Era um curso para mulheres que vivem em abrigos. As aulas aconteciam perto da Estação Armênia, na zona central de São Paulo. A gente pode construir um processo pedagógico ao lado dessas mulheres.  A gente dava aula, falava de arte e respeito enquanto fazia acolhimento e todo esse processo de construção da autonomia dessas corpas que estão em processos vulneráveis da vida. Foi muito interessante, porque as alunas se sentiram pertencentes à cidade de São Paulo, houve a possibilidade de elas atuarem enquanto artistas. Eu as levei a museus, para ver exposições de outras artistas trans. Foi um processo muito importante para elas e para a gente também. Elas costuravam e vinham falar que as roupas estavam com defeito. Para mim, não eram defeitos, e sim, efeitos. A questão da perfeição é também uma construção social. A gente terminou com o desfile dentro do espaço Tomie Ohtake, com várias travestis, todas com seu cachê pago. A gente conseguiu o dinheiro para comida. Foi um processo completo de dignidade, de falar para elas: nós somos artistas também”.

Onde Estão As Travestis – Casa de Criadores/
Onde Estão As Travestis – Casa de Criadores/ Danilo Sorrino/Fotografia

A estilista, que costuma ocupar a escadaria da Praça das Artes, em São Paulo, com mais de cem travestis encenando performances capazes de abalar estruturas e discutir a migração de pessoas trans do Norte para o Sul do Brasil e sua consequente marginalização, precisou repensar seu trabalho em tempos de isolamento social. Em vez disso, ao lado da fotógrafa e artista Rafa Kennedy, criou um vídeo que funde moda e natureza, poesia e transgressão. “Dandara” fala sobre a potência da travestilidade no Brasil. “Corpas trans sempre viveram em esquema de isolamento, não foi nenhuma novidade o que se discutiu durante os meses de quarentena. Lockdown já é uma realidade para travestis, para quem precisa esconder a própria existência. A gente não serve para o capitalismo. O corpo trans é um corpo invisibilizado. É um corpo que não está para os processos construídos por essa sociedade do capital, um corpo que subverte esses processos desde na escola. Quem é que respeita a criança trans na escola? E quando ela nem entra na escola? Agora estão começando a assassinar também as crianças trans. Virou uma coisa corriqueira no Brasil. Por quê? É para apagar essas pessoas, é para essas pessoas nem existirem, porque elas não são consumidoras. Elas não vão virar uma família, não vão procriar, comprar fralda e mamadeira”, diz ela.

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Rafa Kennedy/Fotografia

O filme foi batizado em homenagem a Dandara Kettley dos Santos, travesti apedrejada e morta a tiros no Ceará, em 2017. O extermínio de brasileiras e brasileiros levados pelo coronavírus ou pela falta de acesso à saúde já arranca as vidas de travestis, dia após dia. No país que mais mata pessoas trans no mundo, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) produziu o Dossiê dos Assassinatos e da Violência Contra Pessoas Trans Brasileiras 2020, entregue ao Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). Os dados revelam que 175 pessoas trans foram assassinadas no ano passado, em meio à pandemia. Em números absolutos, São Paulo foi o estado que mais matou essa população no período, com 29 assassinatos, um aumento de 38% em relação a 2019. Logo depois vem o Ceará, com 22 casos, aumento de 100%. Bahia teve 19 mortes, crescimento de 137%. Em Minas Gerais foram 17 e 10, no Rio de Janeiro, ambos com alta de 43%.

Travesti Viva – Casa do Povo –
Travesti Viva – Casa do Povo – Cláudia Guimarães/Fotografia

Dandaras, Pietras, Madalenas, Marcinhas foram embora em mortes brutais que a sociedade é incapaz de enxergar. De olhos abertos, Vicenta converteu-se em fio de esperança. Fundou em Campinas o Ateliê TRANSmoras, um espaço de produção cultural que organiza, há sete anos, costureiras, modelos, artistas, ativistas e empreendedoras trans para criação e geração de renda. Lá, debaixo do teto que ela habita, muito além do lixo é transformado. ”Eu comecei a acolher essas manas trans no ateliê. Elas muitas vezes transicionam aqui dentro, é muito louco! Nós somos pessoas expurgadas da sociedade. Toda pessoa trans é expulsa de casa novinha, ou a mãe tenta matar, o pai tenta matar, entendeu?! Então, aqui é um lugar de referência. Aqui descobrem-se travestis e artistas. Eu tenho “filhas” da moda, estilistas também em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Nordeste, no Sul. A partir do meu, trabalho surgiram outras pessoas trans imaginando vida dentro desse processo de fazer roupa do lixo. Ganham autonomia. Hoje, temos aqui a Rede Transmoras, que busca fazer o acolhimento. As nossas maiores aliadas são as mulheres negras, porque elas também passam por esse processo de exclusão, objetificação, pelo racismo”.


“Nós somos pessoas expurgadas da sociedade. Toda pessoa trans é expulsa de casa novinha, ou a mãe tenta matar, o pai tenta matar, entendeu?! Então, aqui é um lugar de referência. Aqui descobrem-se travestis e artistas. Eu tenho ‘filhas’ da moda”

A artista, referência, inspiração, ativista mora em uma ocupação dentro da moradia estudantil da Unicamp. Em sua casa/ateliê tudo o que há, tudo o que a cerca é recolhido do lixo, ou doação. Utensílios, móveis, roupas. Uma vida inteira construída a partir do que foi descartado. Mas para que vidas não sejam descartadas como objetos, Vicenta se ergue a cada manhã. Passou parte da pandemia em uma oficina do Sesc costurando 7 mil máscaras de proteção, em um projeto de renda emergencial. “Ali havia só corpas vulneráveis, mulheres cisgêneras brancas, cisgêneras negras, mulheres indígenas, mulheres trans negras, indígenas e brancas brasileiras, uma boliviana e uma haitiana clandestina”.

Um sonho que nasce do lixo, da sucata, torna-se realidade a cada vez que ela faz arte do descarte. Vicenta percebeu que tanto lixo quanto gente vivem em constante transformação. Só que gente não pode ser jogada fora. O que ela ganha promovendo a transformação? O privilégio de mudar vidas com uma agulha nas mãos. “Como é que a gente transforma o mundo? Eu acho que é existindo e resistindo, sendo um corpo potente, transformando a nossa alienação, destruindo as amarras, desamarrando os laços da branquitude, do consumo, da transfobia”.

Desfile TransClandestina 3020 – Casa de Criadores
Desfile TransClandestina 3020 – Casa de Criadores Victor Reiz/Colagem/Ilustração
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